A Estranha Face da Bizarrice – parte 1 de 4

4 dezembro, 2008

Tem um rosto deformado, alongado e inclinado para o lado direito numa angulação tal que a ponta esquerda de seu queixo fica alinhada exatamente na metade da sua clavícula, ao passo que a ponta direita fica precisamente no meio do peito. Poder-se-ia dizer que passa o tempo todo inclinado, mas seria pouco. É mesmo um rosto muito estranho.

 

Também tem o braço direito sempre junto ao corpo e o antebraço não faz o movimento completo para baixo.

 

Por fim, a perna esquerda é um pouco menor que a direita, mancando sutilmente.

 

No resto, quase normal, um pouco magro, imberbe, coisa de metro e oitenta, cabelo castanho em corte tigela.

 

Sim, lembra um tanto o grotesco Hawkins.

 

Estava de frente a um sujeito moreno, cabelo raspado, com quase dois metros de altura, musculatura absurdamente turbinada, indefectível usuário contumaz de esteróides e consumidor em doses paquidérmicas de todo tipo de suplementos alimentares, razão pela qual peidava a cada quinze segundos ou menos. A discussão já avançava por quase cinco minutos:

 

– Vá tomar no cu. – dizia –obviamente soava assim: cú.

 

– Peraí, assim também não –respondeu o grotesco maior – se vai partir pra baixaria, aí não tem negócio.

 

– Não tem mesmo, não quero negociar, já negociei semana passada. Paguei, agora eu quero o que é meu.

 

– Mas eu já te expliquei…- antes que pudesse terminar, o primeiro avançou:

 

– Se eu gostasse de explicações ridículas eu assistia entrevistas de políticos. Pode limpar a bunda com sua explicação. Não comprei explicação, você é professor dalguma merda, hein?

 

– Cara, vai de leve, paciência tem limite.

 

– É sério? Mesmo? De verdade verdadeira?

 

– Não chegou, entendeu? Não chegou, não chegou…não chegou. Era pra ter chego, mas não chegou, não mandaram, veio de tudo, olha aí, vê aí quanto caixa espalhada na loja, tá cheio de peixe aí, caramba, só que o teu não veio. Mesmo que tivesse vindo, tinha que fazer a adaptação…

 

– Já taria feita, se tivesse chegado quando você prometeu. Não é problema meu, eu não perguntei quando vinha, perguntei quando eu poderia passar pra levar, tem alguma razão pra você ter confundido levar com chegar?

 

– Meu, calma, vai chegar, logo chega, vou ligar lá e ver o que aconteceu…

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A Estranha Face da Bizarrice – parte 2 de 4

4 dezembro, 2008

– Se eu quisesse saber o que aconteceu eu te perguntava… perguntei? Não, né?

 

– Mas…

 

– Eu não tenha nada a ver com a tua vida braba, cara. Eu paguei, vou levar. Não tinha certeza, não vendesse. Eu fiz minha parte, faça a sua.

 

– Mas como é que…

 

– Como é problema seu, quando é problema seu, de onde é problema seu…pagar era problema meu e eu já resolvi, agora se vira aí. Seja homem e me dá a merda do peixe, caralho.

 

– Ô..ô… quéísso? Não fala que eu não sou homem…

 

– Não tem palavra, quer que eu pense o que? Que você é o John Wayne? Desculpa é coisa de maricas…

 

– Bicho, não é por aí…

 

– Não me interessa por onde é, não tô pedindo informação, não sou turista, dá o peixe e eu caio fora.

 

– Mas não tem peixe.

 

– Eu quero esse peixe. Se vira.

 

– Sósiô virar um peixe…

 

– Serve, qualquer coisa, desde que eu saia daqui com o diabo da cobalto.

 

– Olha, leva uma macracanta, eu dô aí um desconto…é uma bótia também…

 

– Acontece que a minha bótia é o dobro, mas mesmo que me oferecesse quatro, não quero. Eu liguei, você falou que tinha, eu vim, você falou que tinha acabado de vender prum amigo, perguntei se arrumava mais, você falou que chegava no máximo anteontem, reservei, paguei, e disse que vinha hoje pra dar tempo da adaptação. E a merda é que você sabe disso tudo, mesmo porque já é a terceira vez que eu repito. Daqui a pouco vou achar que além de viado é burro.

 

– Meu, aí deu. Paro, belê,paro aí. Eu não me responsabilizo…

 

– Isso eu já sei, você é irresponsável.

 

– Meu, deu, né? Deu, né? Já deu…

 

– Eu não, não pense que todos são como você…

 

– Aí, mais uma dessas…


A Estranha Face da Bizarrice – parte 3 de 4

4 dezembro, 2008

– E o quê? Vai me dar porrada até eu ficar com a cara torta?

 

De olhos arregalados, o outro não sabia o que responder, olhou para cima e continuou depois de um tempo:

 

– É cara, tu é mesmo muito homem, se escondendo atrás da sua condição, aí, da tua deficiência, só porque você é especial…vai falando, aí….é…

 

– Deficiente é o cérebro da sua mãe, que te deu a pior educação possível…aprende aí: eu não sou deficiente físico e nem especial porra nenhuma, eu sou deformado. E minha condição atual é só de puto da vida porque você não honra tuas bolas atrofiadas de tanto esteróides e não cumpre o que promete.

 

– Meu, faz o seguinte, fica aí, ou vai procurar seus direitos que eu vou cuidar da vida, ta…

 

– Tá achando que eu sou o tipo do cara que vai no Procon? Bicho, se você não me arrumar a merda do peixe eu começo a quebrar tudo aqui e já vou adiantando que não tenho nem merda pra cagar pra pagar teu prejuízo…mesmo porque parece que toda merda do mundo já ta na tua pança, pronta pra sair a qualquer minuto, você ta podre cara, é uma bufa atrás da outra, dá licença…porra, se tem uma coisa pior que viado é viado peidorreiro, fedido…

 

– Ah..ah, não…ô caralho – aquietou-se por meio segundo e disparou uma tremenda porrada de baixo para cima na prateleira de vidro, formando uma cascata barulhenta de cacos, filtros, bombas, compressores e outras traquitanas. O sangue cobriu-lhe toda a mão e pingava rápido no chão. Todos na loja, se já não sabiam o que era melhor fazer, esperar o gorila socar a cara feia do outro ou aproveitar para despejar suas reclamações também, perderam-se de vez.

 

O bombado olhou para sua mão, ergueu a cabeça um pouco e desabou estrondosamente.

 

– Pronto, a donzela não pode ver sangue…dai-me paciência. Quanta viadagem cabe num cara só? Imagina se ele não tomasse testosterona a rodo…

 

Antes que alguém pudesse chegar perto, o maior abriu os olhos e esboçou um arremedo de recuperação. Pra azar dele, o camarada da boca suja mostrou-se muito rápido e chutou sua cara e pisou em seu pescoço, fazendo um barulho que tirou dum cidadão mais ao fundo da loja um gemido inequivocamente contrário a qualquer esboço de masculinidade.

 

– Você vai fazer o seguinte: vai ligar pro cara pra quem vendeu a outra cobalto, vai comprar de volta, não interessa o preço, vai fazer ele trazer aqui em cinco minutos, vai me entregar e eu vou embora. Se não for assim, eu esmago teu gogó e ainda quebro tudo, faço um pampeiro dum jeito que ninguém vai ter tempo ou condição de chamar uma ambulância e só Deus sabe quanto sangue você já perdeu e vai perder até chegar um socorro. Tamos conversados?