Conto de Boa Noite – parte 1

2 dezembro, 2008

Oi, você não me conhece, ainda.

Meu nome é Rafael, mas poderia ser qualquer outro. Nome, claro, falso, mas isto realmente não importa. Soube que gosta dele daí a escolha.

Esta não é uma carta de amor a você.

É uma carta de amor à vida. Minha vida, evidente, porque a sua só foi importante até hoje e por sua causa, sua culpa, sua máxima culpa.

É noite, falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também minha alma é uma fonte borbulhante.

É noite. Somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é canto de alguém que ama.

Há qualquer coisa insaciada, insaciável, em mim; e quer erguer a voz. Um

anseio de amor, há em mim, que fala a própria linguagem do amor.

É isso ignara, vou falar ao mundo todo através de ti. Um recado, belo, contundente, agressivo, angustiante, como o resultado de uma eleição fraudada sem crime.

Mas antes que largue isto, ganharei tua confiança, dando o que você tanto quer, quase nunca tem e presenteia ao acaso, ou seja, ao sabor de sua vontade inconsciente, a única verdadeira, ressalte-se.

Serei, pois, sincero.

Sou, civilmente, socialmente, talvez até moralmente (pelo menos por sua moral menor, utilitária e externa a ti mesma), um criminoso.

Mato pessoas.

Roubo pessoas.

Mas, creia, res societate, nunca menti. Oculto-me, como vê, mas não minto.

Confio que meu primeiro assassinato interessar-te-á.

Qual foi?

O óbvio, meus pais.

Como?

Outra vez óbvio. Instintivamente.

Nunca responderam a uma minha pergunta. Asseguro, nenhuma. Maltratos mil.

Rebelei-me quando apanhei monstruosamente de ambos. Sim, os dois ao mesmo tempo. Mas, diziam naquela época, em seu direito de pais. Dum de reio, doutro de ripa fina, a qual se quebrou algumas vezes. Caí certa hora. Fui erguido violentamente, dei com a cabeça no lampião. Jogaram-me na mesa. Fui surrado deitado. Maquinalmente virei-me e empunhando uma faca, girando os braços em desespero. Cortei-lhes em segundos, tão próximos estavam as gargantas. Não chorei, não fugi. Coloquei fogo na casa. Salvou-se só o que peguei. Fui embora.

Aí comecei a amar a vida. Como bom católico, ironia, perceba-a, amava muito mais a minha que a de outro. Mas, religiosos são egoístas, não entendem nada da vida, a verdadeira vida, quero dizer. Aquele fenômeno irreproduzível e incontrolável, por isso mesmo belo. Por causa desse egoísmo só pude reforçar meu intelecto no seminário. Aquela doutrina humanista me era intragável. Liberdade por submissão é comida para desesperados. Nada de humanidade, irmandade, sociedade, valho muito mais que isso. Você também valia. Como o verbo está no passado, irá morrer sem saber porquê. Nem por acaso, nem por vontade própria. Por uma outra vontade. Lamentável.


Conto de Boa Noite – parte 2

2 dezembro, 2008

Fui expulso do seminário por, justificativa, indisciplina. Recusei-me a obedecer dois padres a realizarem suas tarefas noturnas. Mais detalhes seria grosseria. Tarefas noturnas.

Empreguei-me numa fazenda. Já sabia o verdadeiro valor da vida. Só não sabia o valor do respeito a essa sabedoria. Hoje o sei. Matei pela segunda vez. Uma briga comum, algo a ver com uma mulher de que não me lembrei no dia seguinte.

A terceira vez, idem.

A Quarta, com ímpetos violentos, mas não de todo involuntários. Depois da sexta escorraçaram-me da fazenda.

Outro fazendeiro ofereceu-me emprego, leia-se refúgio da polícia. Cobrou seu preço. Passei a matar por dinheiro.

Mas, sempre primei pela eficiência. Matar um homem é mais que uma vingança para quem tem ou quer poder. É uma demonstração de força ao povo medroso. Ora, o povo não entende sutilezas, é preciso espetáculo. Daí comecei a espalhar o terror. Meu empregador ganhou com isso, peguei as migalhas.

O terror, lógico, era a crueldade. A crueldade com que matava. Mais, a meticulosidade. Meus dias consistiam em leitura e treinos vários. Faca, espingarda, facão, revólver.

O filho de um inimigo desonrou uma protegida. Bem protegida. No calor, na rede, no frio, na cama quente. O dito merecia, pois, um tratamento especial. Por isso deram-me a tarefa.

Na verdade, um erro. Não se deve provocar um inimigo dessa maneira. Uma morte simples, até mesmo de tocaia, seria tolerada pelos simpatizantes do adversário. Mas jamais se daria o mesmo com um meu trabalho. Pediram-me capricho. Digo pediram porque a vítima, sim, era, tinha realmente muita proteção.

Não era conhecido na cidade. Por vida das dúvidas, deixei crescer barba e cabelo. Custosamente evitei tomar banho por alguns dias. Atingido o visual de um indigente perambulei por espeluncas.

Conheci seus hábitos, suas preferências. Cobrei um antigo favor de uma boa moça que preenchia muitos de seus requisitos.


Conto de Boa Noite – parte 3

2 dezembro, 2008

Como era de outra cidade, não a reconheceu. Não foi muito competente no seu trabalho, mas um gracejo meu, que resultou num esbarrão, aproximou os dois. Voltei para o hotel, o qual paguei mais caro por causa do meu cheiro. Por acaso era o mesmo hotel em que os dois se enfiaram. Dormi. Eles não, nem deviam por conta do que pedi a ela. Quatro e meia entrei no quarto. Estava tão bêbado e exausto que não ouviria nem uma filarmônica tocando no banheiro. Garrafas pelo chão, muitas, muitas. Ela se foi. Disse que dormira não fazia cinco minutos. Cri. Joguei o travesseiro em seu rosto. Sentei-me em cima. Abri a garrafa que carregava. Joguei a gasolina, poucas entornadas, e pus fogo em seu sexo. Só ali. Só mesmo. Fiquei todo o tempo sentado em seu rosto. Dois minutos depois as chamas acabaram. Fiquei em pé. Tirei o travesseiro. Estava vivo e consciente, mas claro, atordoada. Esmurrei-lhe o nariz, fechei seus dois olhos. Cansei. Abri um refrigerante, perguntei se queria um pouco. Não respondeu. Tomei o refrigerante. Recuperou-se um pouco e veio para cima de mim, com forças tiradas não sei de onde. Bati-lhe o rosto mais um pouco. Largado na cama só gemia. Quis abrir sua boca, mas resistiu. Voltei à carga, agora auxiliado pela garrafa de refrigerante. Com ela forcei sua mandíbula. Boca aberta, derramei a gasolina restante. Sentado sem seu peito, evitei suas tentativas de desembaraço. Sabia que o combustível havia chegado ao estômago. Fiz uma trilha da boca à lateral da cama. Ali ateei fogo, pulando rapidamente. Imagine o fogo percorrendo a traquéia, o esôfago e finalmente o estômago e algumas gotas que porventura atingiram o pulmão. Assisti ao espetáculo agonizante, enquanto apagava o fogo na cama. Não podia gritar, o ar de sua garganta se consumira pelo fogo. Não durou mais que três minutos. Vivia ainda. A idéia era fazê-lo sofrer. Havia, como pensei, muita bebida à disposição. Apliquei-lhe na veia uísque puro, ou o mais puro que pode ser um uísque de bordéu. Uma seringa pequena, dessas de farmácia. O coma alcoólico seria facilmente detectado. Aumentei a dor, deixando a seringa na veia após puxar todo o êmbolo, o que fez com que seu sangue se derramasse continuamente. Fui embora.

O médico legista descreveu o acontecido. A notícia correu cidade e campo. Meu empregador estava contente. Eu sabia que começaria uma pequena matança.

Onde se encontra o maior perigo para todo o futuro dos homens? Não é nos

bons e nos justos ?

Parti, parti os bons e justos! Ó, meus irmãos, compreendeis também esta

palavra?

De fato, foi por causa deles que tantos sofreram. E por quê? Porque a justiça dos homens é pequena demais para servir à grandeza do sujeito. Porque a bondade da humanidade é estreita mui, não alcança o âmago dos indivíduos, não chega ao coração dos homens. Porque o vulgo é imprestável.


Conto de Boa Noite – parte 4

2 dezembro, 2008

No dia seguinte a população estava apavorada. Quem pôde, ficou em casa. As ruas ganharam um aspecto fúnebre, graças à carranca dos jagunços do inimigo, mas sobre tudo por conta do medo dos populares, que os forçava a andar sempre de cabeça baixa, queixo no peito, olhar na ponta dos pés. O sol a pino sobre a terra molhada da chuva da noite anterior produzia um mormaço indecente. Já limpo, achei por bem ir à cidade. Não podia sumir, apesar de poucos ali me conhecerem, porque se dessem por minha falta poderiam ir em meu encalço e meu passado falaria mais alto que meus álibis. Comprei um chapéu e um pouco de café. Podia voltar tranqüilo, porque agora não haveriam de estranhar uma ausência minha. Era um recluso. Essa era minha ida normal ali.

Senti o ódio do dono do empório, fiel aliado do inimigo. Sua filha era casada com o filho do principal homem daquela fazenda, afora o proprietário. Disse que a “vadia não era motivo práquilo”. Respondi, como bom empregado, que pelo menos na fazenda sempre fora pessoa direita. Olhou-me torto, como se era de esperar.

Na volta um matuto acompanhou-me até certa altura. Cada qual no seu cavalo. Cavalos parecidos, aliás. Achava aquilo um despropósito, mas concordava que o outro bem merecia uma sova ou um tiro. Separamo-nos, segui reto, ele entrou numa estrada à direita, logo à frente era sua chácara, um dos últimos pedaços de terra que não pertencia ao meu empregador.

Minutos depois encontrei o pivô de toda carnificina. Era um senhor de alta idade, mui querido por todos na fazenda. Estava caído, seu cavalo pastava um pouco longe, todo ensangüentado. Parei. Olhei bem. Seu peito havia sido estraçalhado, tantos tiros havia levado. Tiros à queima roupa. A situação era clara. Segui seu rumo, alcançaram-no, provocaram-no, defendeu apaixonadamente seu patrão, ofendeu alguém deles, foi morto.

Pensei em deixar a notícia chegar por outro. Mas não adiantava, quando chegasse estaria deflagrada a guerra. Era um velho muito amado realmente. Parceiro de toda hora do patrão.

O pavor aumentou. A cidade tornou-se bicolor. Vizinhos brigaram. A polícia não saía às ruas. Não podia, estava dividida. Opção de bom senso.

Quis ir embora. Pedi muito. Inútil. Deram-me nova tarefa. Matar um homem que espancara um roceiro da fazenda.

Esse, furei-lhe os olhos com caco de vidro. Deitado no chão, retorcendo-se, esperei que virasse de barriga para cima. Virou-se e pulei em seu peito com os dois pés. Repeti a operação cinco vezes. Seu coração foi perfurado pelas próprias costelas.

Nisso, dois peões morreram baleados. Sabiam quem eram os jagunços. Sabiam onde moravam. Sabiam que tinham família.

Colocaram fogo nas duas casas.


Conto de Boa Noite – parte 5

2 dezembro, 2008

Da boca do padre proliferavam sermões contra a violência e a vingança e clamava por justiça, muito embora suas mãos continuassem a receber donativos dos dois coronéis. Mas a população dividida começou a colocar Deus a seu lado. Ou seja, cada partidário estava convicto de que o outro lado era injusto e provocador. Os homens de coração simples e mente atrofiada, dependentes dos dois inimigos, confundiram tudo e, mais uma vez, o povo aliou-se aos seus algozes. As brigas aumentaram. Bares tornaram-se comícios, quartéis às vezes. Ninguém mais se olhava, nem os

amigos. O medo era geral.

Numa noite de chuva houve um pequeno tiroteio entre três homens, em frente à farmácia. Morreram cinco pessoas. Os três homens e uma grávida que comprava remédios. Era a comadre do meu empregador.

O amor dos populares, daqueles que simpatizavam com meu empregador, impediu este de perceber que se tratava de uma fatalidade. Sua bondade tornou-se, como de praxe, em raiva incontida. Os outros assustaram-se.

Mas, na mesma noite, uma perseguição à outra filha do dono do empório os colocou novamente em pé de guerra.

Uma senhora morreu. Não resistiu à tensão. Ninguém pensou nisto.

Enterraram-na sem velório, porque não eram seguros esses ajuntamentos.

Em uma semana seis mortos.

Nisso quinze dias se passaram, desde a morte do filho do inimigo.

Fui incumbido da represália à morte da comadre. Só faltava uma desculpa qualquer. Esta veio logo. O dono do empório não vendia nada, pago ou fiado, para os trabalhadores da fazenda inimiga. Mais, atirou num dos peões de meu empregador, mas não matou. Não importava. Era a minha deixa.

Entrei em sua casa, espanquei mulher e filha, balei-o e o carreguei para o campo. Surrei-o e enfiei seu rosto num formigueiro, desses enormes. Com o cabo da espingarda impedi que saísse dali. O tiro na perna também dificultava. Antes de ir embora fiz meu cavalo pisotear seu abdômen. Foi encontrado pela manhã, quase cem metros longe dali. Sabia que estava vivo quando parti. Estava irreconhecível por causa dos quarenta minutos de ataque das saúvas. Exatos quarenta minutos, porque em dado momento pareceu-me melhor deixá-lo sob uma pedra. As formigas avançavam-me. Foi isso.

Outra semana passou. Cinco mortos. Todos do meu lado, que não era meu lado, mas era meu lado.

Um só do inimigo matou-os todos. Um a cada dia, respeitando o Domingo. Fizeram um ataque à sua casa. Não havia ninguém. Decepção geral. Fugira que bobo não era. Tiveram notícias dele. Confirmaram. Mataram-no, claro. Mataram mais três trabalhadores, conhecidos meus. Estavam armados, o que a essa altura já era provocação suficiente.

Inimaginável supor medo, precaução. Ninguém pensava mais em nada. Tudo se resumia a reagir. Todos estavam submetidos aos instintos. Qualquer movimento estranho dava margem a um recuo ou, pior, a um contra-ataque.

Pedi mais uma vez para ir embora. Não havia como. Conversei horas com meu empregador. Expliquei-lhe que aquilo não terminaria. Não acabaria nem bem mal, continuaria até quando houvesse gente ligada aos dois lados. Não arrefeceu. A insensatez continuaria.


Conto de Boa Noite – parte 6

2 dezembro, 2008

Procurei o padre. Fez ouvidos moucos. Negou-se a interferir, receava prejudicar um dos lados. Intensificou os sermões de justiça, o que animava os contendes , porque, afinal, cada qual acreditava estar certo.

Nova semana. Oito mortos. Seis contra dois para o outro lado.

Ganhei nova tarefa.

Foi aí que perdi a razão. Tentei parar o processo, mas qual, já não era possível. Ninguém ouvia nada que não fosse insultos ao outro lado, ao inimigo.

Minha incumbência desta vez era retaliar um conhecido funcionário da fazenda. O detalhe era que toda a sua família deveria sofrer.

Entendi que para terminar com aquilo não devia usar de freios, mas ao contrário, devia acelerar tudo, catalisar. Se não fosse desse modo, não haveria outro, o fim de tudo seria o fim de todos, inclusive o meu. Aliás, já era de se estranhar eu ainda estar vivo, apesar de poucos saberem da minha existência. Chegar até aos pobres coitados que seriam minhas novas vítimas não foi de todo fácil, mas com algum auxílio consegui burlar a segurança que lhes haviam dado. Doze peões se enfrentaram. Quando acabou restavam cinco, três a dois para meu time. Entrei na casa sozinho.

Atirei no peito do homem, no lado direito, nas duas crianças, no abdômen, na mulher, no ombro. Amarrei a mulher na cama, o homem numa cadeira em frente à cama, as crianças idem. Cortei as pálpebras dos três e estanquei o sangue com um curativo. Despi a mulher, arranquei os pelos de seu sexo com uma pinça, um a um. Com um canivete tirei suas unhas, as dezenove. Os gritos eram horríveis. As crianças choravam sem parar. O marido berrava.

Usei uma pequena faca para cortar, bem lentamente, os seios fora. Com a mesma abri um quadrado de mais ou menos dez centímetros de lado em sua barriga. Extraí-lhe o fígado e o pâncreas com minhas mãos. Larguei-a.

Dirigi-me ao marido. Abri a sua boca e fiz com que engolisse os órgãos extirpados da mulher. Pedaços caíram de sua boca ao chão. Arranquei-lhe os cabelos com as mãos. Sua cabeça ensangüentou. Quebrei-lhe todos os dentes, um de cada vez com um pedaço de ferro. Furei seus olhos com agulhas de tricô. Cortei sua língua com uma tesoura. Um pau de macarrão foi meu instrumento para quebrar os osso de seus braços e pernas, inclusive juntas e dedos. Por fim, dei meia volta em sua cabeça. O tempo todo estava amarrado.

Parei um pouco que já estava até suando.

O choro acabara-se há algum tempo. Faltava fôlego às infantes.

Fui lá fora tentar arranjar um cigarro. Não havia ninguém. Os homens não resistiram aos gritos. A idéia era bem essa.

Voltei-me às crianças. Deixei-as nuas, menino e menina, oito e dez anos supus. Abri minha valise. Tirei um pequeno pote. Abri a boca da menina e despejei o conteúdo. Fechei sua boca com um lenço e dei nó bem cerrado. No pote haviam dois escorpiões. Peguei outro pote. Desvirginei-a com os dedos, terminando com o cano de meu revólver. Retirei uma cobra do pote e introduzi na impúbere genitália, a qual tapei com esparadrapo, todo um rolo e também algodão. Joguei-a no chão, ainda amarrada na cadeira. O último era o menino. Usei uma foice para cortá-lo em exatos cento e cinqüenta pedaços.

E esses pedaços espalhei em volta da igreja. A cabeça, intacta, deixei no altar.

Eu próprio descrevi em detalhes o meu trabalho numa placa que afixei na prefeitura. Ao final da mensagem responsabilizei todos pelo acontecido.


Conto de Boa Noite – parte 7

2 dezembro, 2008

Explicitei a ignorância popular e o quanto suas almas toscas contribuíram para toda aquela dor. Mas meu alvo não era o povo, que não entenderia nem admitiria algo dessa natureza. O alvo eram as poucas pessoas inteligentes da cidade. A elas dei, depois, a tarefa de acabar com aquela insanidade.

Sabia que não conseguiriam. Uma delas suicidou-se após uma conversa com meu empregador.

Ciente disto, na noite seguinte ateei fogo na igreja. O padre só escapou por graça minha. Mas antes espanquei-o e confessei-me. Todos os assassinatos, do primeiro ao último, com muitos detalhes. Lá fora, com o pulmão cheio de fumaça, caiu atônito ao chão. Quando levantou já era ateu.

Correu à polícia e lá foi dado como louco. Não que não acreditassem um pouco ao menos, apenas que não poderiam ir contra meu empregador.

Para ele tornei-me um risco. Escrevi-lhe, numa única palavra, a melhor saída para esse problema : fui. Não se atreveria a seguir-me. Assim foi.

Armado com duas espingardas, três revólveres e cinco facas fui até a entrada da outra fazenda. Dois peões vieram até mim. Disse-lhes três palavras : acabou a guerra. A princípio o fazendeiro pensou ser a confirmação de sua vitória. Quando soube do padre, pensou melhor. Quando soube que sua filha fora estuprada por quinze homens desconhecidos, amigos meus por assim dizer, entendeu de vez.

Isso já faz tempo.

Continuo com meu trabalho, mas agora faço uma coisa de cada vez. Não aceito mais qualquer coisa. É preciso que me convençam de que há uma boa razão. Faço o que desejariam fazer os ofendidos, mas não conseguem por motivos vários. Todos ficam satisfeitos. Depois, arrependem-se. Um ficou catatônico um semana depois do serviço que fiz em sua mãe.

Eu sou bem remunerado. Mas o preço não é pela morte, que isso se pode comprar por bananas. O preço é pelo prazer que proporciono. Pela vitória dos velhos desejos recalcados.

É preciso entender isso, o sofrer alheio nos agrada, essa é, afinal, a mecânica das comédias. Mas veja que matar com crueldade traz uma outra satisfação, é a reversão de um domínio, o fim de uma repressão, na verdade, na maioria das vezes, o que fiz foi alforriar pessoas. Mas tudo tem um preço, que ansiosos me pagam em dinheiro, só que há um pagamento a fazer a si mesmo, qual seja, contentar seus mecanismos sociais, seus deuses, tanto quanto sua carência de liberdade. Ninguém consegue. A maldade não é minha, isso se afigura óbvio. Quando a monstruosidade vem à tona, por minhas mãos, há um alívio ao verdadeiro malfeitor, que não só se livra de um obstáculo à sua identidade, como torna-se finalmente humano, aquela metade que lhe faltava eu a dou. A sua ânsia os coloca fora da realidade, simplesmente esquecem que para quem há muito não vê o sol, o melhor é ir à aurora ou ao por do sol, nunca ao meio dia.