SENILIDADE PRECOCE

14 outubro, 2010


Em relação aos idosos, os jovens ganham mal, prestam pouca atenção, têm menos tempo para gastar, portanto, são consumidores piores, mas mesmo assim o mercado ignora solenemente a velharada, especialmente a mídia. Das duas, uma, ou os dirigentes de tv´s, rádios e agências de publicidade são estúpidos ou estão entupidos de alguma ideologia besta que prega que a velhice merece o desprezo.


É só pensar um tiquinho. Déficit da previdência. Por que existe um? Grosso modo, porque o montante de contribuições atuais e futuras não faz frente ao montante de benefícios atuais e futuros. Em outros termos: porque há mais gente ficando velha do que gente entrando no mercado de trabalho contributivo. Se há tantos velhos assim, por que tão pouco se mira neles?


Jovens, em sua maioria, perdem tempo demais com escola, esportes, sexo e vadiagem. Na real, assistem muito menos TV do que os mais velhos. Eles vêem televisão, ouvem rádio e vão ao cinema com seus celulares e ipod´s ligados, fazem várias coisas ao mesmo tempo. Talvez isto explique a diminuição progressiva da profundidade dos roteiros: facilita a vida de quem está disperso. Já os velhos prestam atenção, de modo que são um publico mais qualificado para qualquer programa, inclusive comerciais.


Esqueça a imagem do velhinho na praça, ganhando salário mínimo de aposentadoria. Isso é bobagem. Eles ganham tão bem ou mais que os jovens que entram agora ano mercado de trabalho. A quantidade de solteirões na casa dos 50 e 60 é provavelmente superior à de jovens mal remunerados realmente solteiros e sem compromissos com esposas, namoradas e filhos, dentro ou fora do casamento. Sem falar que não precisam pagar ônibus na maioria das grandes cidades, nem faculdade ou cursinho. Para cada entrave a se ver um velho como grande consumidor há um ou mais em desfavor do jovem de mesma renda.


Pior, o número de velhos só cresce, mas o de jovens não acompanha. O futuro, quer gostemos ou não, é dos velhos. Pode até ser maluquice que o Brasil só tenha um presidente com menos de 50 na sua história, mas loucura mesmo é o mercado não se tocar do absurdo potencial que os velhos representam.


Há programas infantis, adolescentes e adultos, mas não há um só programa realmente voltado para os velhos. As novelas, eventualmente, tangencialmente tentam mostrar que a vida não acaba com a velhice. Arrematada bobagem, todos sabem que a velhice é para sempre. O que sucede é que a velhice vem se tornando a mais longa das fases da vida, cada vez mais. Mas que filme foi produzido mirando especificamente o público velho? Novela? Programa de rádio?


Não é que os velhos não sejam uma parcela razoável do mercado. São, claro que são, os números estão aí para quem deles quiser tomar conhecimento. O caso mesmo é outro. Os profissionais da mídia enfiaram na cabeça que a velhice é feia. Pode ser, em comparação ao físico dos jovens. Mas, francamente, a maioria dos adolescentes nada tem a ver com Megan Fox, são seres esquisitos, desengonçados, atrapalhados, com vozes ridículas e um temperamento insuportável.


Sim, sexo vende. Inclusive para os velhos. Ok, talvez não venda tanto para as velhas, mas os velhinhos ainda se deixam seduzir por uns rabos de saia ou, preferencialmente, uns rabos sem saia. Então, tudo certo usar os jovens na publicidade, o que é difícil entender é não usar publicidade para os velhos.


É certo: a morte sempre é um mal negócio e velhos lembram a morte. Sem dúvida. Mas, do mesmo modo que há programas estritamente infantis, por que não há programas estritamente voltados aos mais velhos em horários próprios? Crianças podem convencer os pais a gastarem nisso ou naquilo, mas os velhos não precisam enfrentar esse obstáculo, gastam diretamente.


Ademais, o jovem de hoje é o velho de amanhã. Se há décadas o número de jovens solteiros vem crescendo e ainda mais o número de casais com um ou nenhum filho, é razoável supor que boa parte das pessoas com mais de 50 já não tenham grandes laços ou responsabilidades familiares e, portanto, tenham mais verba livre para gastar.


Esse desprezo teria a ver com o singelo fato de que velhos possuem um senso crítico maior? Jovens, via de regra, decidem de impulso, velhos não o fazem costumeiramente. Pode ser, mas por outro lado, velhos gastam de modo mais qualificado, compram coisas mais caras do que os jovens.


Lentamente, muito lentamente, o público consumidor vem forçando a mídia a dar atenção aos velhos, mas ainda é pouco em termos proporcionais. Seus profissionais ainda não estão preparados para abrir mão da sua ideologia de que a juventude é o futuro. Não é, acordem, o futuro é velho, não jovem. Essa bobagem vem de longa data e, num passado remoto, ganhou força e ares de dogma nos anos 1960. Essa porcaria intelectualmente pueril ainda ressoa nas redações e centros de criação, mas ela, cada vez mais, não tem grande amparo nos fatos. Enfim, em termos puramente mercadológicos, numéricos, o desprezo da mídia para com os mais velhos é insustentável. Só sobra a ideologia velha de guerra. Bem mais velha que seus atuais perpetradores, que talvez nem disso saibam. Objetivamente, o apoio à hegemonia juvenil é uma burrice ímpar.

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À mídia se adere, não se obedece

29 junho, 2009

Repassando um post do blog http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/. Como diz um outro blogeuiro aí, volto em seguida.

Rei do pop ou peão?
sexta-feira, 26 de junho de 2009 | 20:14

“Quando eu era editor da revista Superinteressante, em 2004, publicamos uma reportagem sobre a decadência de Michael Jackson e o quanto isso revelava sobre a máquina de fazer e destruir ídolos que domina a indústria cultural mundial. A pergunta era: será que Michael era mesmo o rei do pop ou não passava de um peão de um jogo de cartas marcadas, que só podia mesmo dar nisso? Foi uma belíssima matéria, assinada por dois dos mais talentosos jornalistas com quem tive o prazer de trabalhar: Ivan Finotti, hoje na Ilustrada da Folha de S.Paulo, e Bárbara Soalheiro, hoje na Colors, da Itália. Reli hoje a matéria, e ela continua bem atual. Se você estiver cansado de tantas “retrospectivas”, “homenagens” e “tributos”, e quiser algo com um pouquinho mais de consistência, clique aqui. E depois me diga se essa história não é reveladora da insustentabilidade dos valores da nossa sociedade”.

Não vi nada demais na reportagem. Ela não entrega o que seu editor vende no post. Não mostra uma só engrenagem da tal máquina. Só traz, para variar, opiniões de “especialistas”.

Conhecer bem as pessoas e manipular seus sentimentos sempre foi uma característica de boa parte dos homens poderosos e a outra parte provavelmente pagava alguém para fazê-lo. A mídia só faz isso de forma mais espalhafatosa e escancarada.

Mas nenhum poder de persuasão é mágico, sempre há um caráter de adesão na coisa. Se você me disser vinte bordões atuais em seguida, eu provavelmente vou achar que você está dialogando com um amigo imaginário. Não assisto tv, não ouço rádio e nem assino mais jornais. Bibliotecas e internet fornecem informações, o resto fornece, com sorte, um bom entretenimento.

No fim das contas, uma grande conspiração como a que vemos em filmes e seriados como Arquivo X, nem é tão difícil assim, somos todos bem básicos ainda.

A verdade é que vender idéias, mitos, pessoas e sabonetes é a mesma coisa. A prova está na eleição americana e o pretendido presidente do mundo, Mister Phebo.

E, não, os valores da nossa sociedade não são insustentáveis e nem mesmo tão mutáveis assim. Comparar idolatria de momento com os alicerces morais das pessoas e éticos de uma civilização é barbeiragem das grossas. Nem em Cuba matar é certo. Isso revela algo.


Einstein e as Loiras

2 dezembro, 2008

A loira consome doses paquidérmicas de oxigênio (na forma de O2 e H2O2) para requebrar em frente às câmeras de televisão. Seus trajes foram confeccionados a partir das sobras de uma gravata e, junto com uma coreografia tribal, exibem um combinado de maravilhas da natureza, da ginástica e da medicina estética e ortomolecular. Audiência em alta, estoques em baixa, shows lotados, teatros vazios.

Teatros vazios. A crítica é inevitável. Mas por que? O discurso é o seguinte: “A mídia privilegia o rebolado à inteligência e ao talento” certo. É verdade. Não se discute.

Mas, e daí? E daí que a mídia prefere mostrar o rebolado da loira – dantes morena ou castanha -, da morena – dantes negra ou índia -, e o torso atlético do rapaz à interpretação autêntica, ao canto único e ao discurso crítico articulado? E daí?

A televisão mostra o que dá audiência e o faz por um motivo muito simples: redes de televisão são empresas e o compromisso das empresas é com o lucro. Não é segredo.

Não é segredo. Não é segredo, mas mesmo assim perturba. Por quê? Qual a diferença entre vender publicidade e vender sapatos? Se a lei é respeitada, por que a televisão não pode agregar valor ao seu produto? O que perturba? Simples moralismo? Nem tanto, pois muitos dos que criticam a nossa loira reboladeira e a mídia que a expõe não são exatamente vitorianos. Não é por isso, claro. E nem é esse o tema deste escrito.

Perturba ver a beleza e o apelo sexual ser mais valorizado que a inteligência. Isso é que perturba, choca, afronta, ressente e decepciona.

Vejamos o que seja inteligência. Os estudiosos do cérebro não temem afirmar que inteligência é um atributo biológico. Uma definição bastante razoável, neste contexto, é a seguinte: “Inteligência é a capacidade de adequar os meios aos fins” (Steven Pinker). Por aí somos todos inteligentes. De fato, somos todos, inclusive nossa loira reboladeira da televisão.

Ninguém desferiria críticas se estivesse em mente este conceito biológico e computacional de inteligência. Não é isso. Em verdade, o que está se procurando defender com tais críticas é, ironicamente, um conceito mais vulgar de inteligência. É a inteligência que vemos em Einstein, Joyce e outros da mesma estirpe.

Quando o pensamento crítico volta-se a si mesmo a realidade fica mais próxima, por assim dizer. Todas as críticas são importantes pelo seu caráter de denúncia, mas isto não é o suficiente para dar-lhes validade. Não é o caso de discutir quais críticas à mídia, ao privilégio da beleza, são válidas. É o caso de se saber porque a inteligência deva ser mais valorizada que a beleza. ou que a força física. Ou que a capacidade de se equilibrar em um cabo de aço a 5.000 metros com um balde na cabeça.

A idéia básica das críticas e que alimenta o ressentimento e decepção que nos assola é a de que a beleza é algo comum e a inteligência é extra. Não é bem assim.

Na verdade todos podemos ser Einsteins. Poucos têm a oportunidade. Menos ainda as transformam neste resultado. Por isso há poucos Einsteins.

De certa forma a beleza da loira reboladeira é fruto de esforço tanto quanto o surgimento de Einstein. Einstein teve professores, a loira, academia. Einstein teve bibliotecas a seu dispor e as usou, a loira, mesa de cirurgia. A genética de Einstein lhe favoreceu o raciocínio lógico-matemático, a da loira, suas curvas. Ambos potencializaram o que a natureza lhes deu. Quais motivos nos autorizam a dizer que Einstein é melhor que a loira? Ambos não se esforçaram? Além disto tanto a razão como a beleza são atributos biológicos.

O músico pop Jon Bon Jovi, uma dessas estrelas do showbusiness que têm beleza e tino comercial de sobra e talento de menos,mas não tão menos assim, disse certa vez sobre outro artista pop, mais talentoso: “Críticos preferem Elvis Costello porque são feios como ele”. Será isso? Às vezes parece que sim, mas não é razoável supor que todos os críticos musicais sejam feios ou que isso afete a todos. Além disto, eles não são os únicos a denunciar o esquema mídia-beleza-sexo-comércio como um ataque à inteligência.

Um ponto precisa ser esclarecido: A beleza faz sucesso porque é fácil de ser reconhecida e sexo vende porque é bom. É sensorial. Beleza se reconhece à distância. O reconhecimento de uma certa forma de inteligência exige essa mesma forma de inteligência. Um analfabeto pode se excitar facilmente com a nossa loira reboladeira e assim assistir avidamente aos programas em que aparece e ir aos seus shows, mas é improvável que entenda com a mesma facilidade um filme como “Shortcuts” ou “Magnólia”. Talvez seja bom considerarmos que a musa está lá para isso mesmo: ser vista e ser sentida, aparecer e excitar. O que nos leva a considerar que o problema não é a musa ou a óbvia predileção dos empresários por ela, é o analfabeto da audiência, é a falta de oportunidades que este tem para alimentar seu Einstein. Não consta que a sociedade tenha delegado aos empresários a obrigação de cultivar este alimento. Mas este já é um outro problema.

É simples, então. A mídia usa a beleza e o sexo para valorizar o seu produto, espaço publicitário. A publicidade usa os mesmos instrumentos para vender bugigangas. Por que fazem isto? A resposta é igualmente simples: porque apelos sensoriais são respondidos com mais rapidez que apelos intelectuais. É só nossa loira reboladeira surgir na tela que o sujeito arregala os olhos e suspende no ar a mão cheia de amendoim. Dá para imaginar algo semelhante com o Carl Sagan?

Carl Sagan. Não é um mistério que ele tenha obtido tanta audiência? Como também não é um mistério um estádio lotado para ver um show de árias e óperas do trio de tenores? Não, não é. É apenas um problema. Em comum eles têm o fato de se fazerem ouvir. E se fazem ouvir porque dizem o que têm a dizer de uma maneira inteligível. Carl Sagan conseguiu aquela audiência toda porque soube tratar de assunto tão complexo de maneira didática, sua intenção não era demonstrar conhecimento ou impressionar uma banca de doutores, era simplesmente explicar certos pontos. E o fez bem, por isso alcançou índices expressivos de audiência. É bem verdade que o tema era atrativo mesmo, mas nem tanto assim, afinal a composição química dos cometas não é exatamente assunto de interesse geral. O ponto é que Sagan provou, como outro, que o povo não quer saber só de bobagens, também se interessa por questões mais sérias, desde que elas sejam tratadas como assunto geral e não de um pequeno grupo de privilegiados. Por que não há programas de filosofia na televisão? Talvez porque não tenha surgido ninguém com a capacidade de falar de filosofia ao público que assiste televisão. Por que há nos EUA programas como o mundo de Bieckman? Por que é um programa que fala de ciência de um modo que o homem médio pode entender. É claro que não se pode nem se deve vulgarizar a filosofia e a ciência, mas depois de prontas as teorias não custa nada alguém explicar do que se trata ao público em geral.

Um outro ponto é o papel da inteligência ou do trabalho intelectual. Se Einstein tem a preferência por ser inteligente é porque sabemos que o trabalho intelectual nos propicia a oportunidade de construirmos um mundo melhor, mais previsível, seguro e confortável. Também sonhamos que o intelecto nos propicie um mundo mais justo. Nada demais com esse pensamento. A razão tem produzido frutos incríveis e tem nos propiciado avanços inegáveis. Mas não é este justamente o papel da razão?

Tenho a impressão de que há muito preconceito contra a beleza. veja os jornais, as revistas, os livros, parece que todo mundo está de acordo que a nossa loira reboladeira está matando a inteligência. É bem verdade que a guerra por audiência e a sanha por fixar marcas no imaginário popular tem levado a exageros e deu início a um processo de imbecilização das programações, mas antes disto havia mais inteligência no mundo? As programações não foram sempre um misto de raras coisas razoáveis, poucas aceitáveis e muitas descartáveis? Onde consta que o inventor da televisão tenha pretendido transformar todos os homens em gênios? Ou o do rádio? E por acaso não há alguma coisa boa na programação?

Uma outra forma de ver essa problemática me parece mais profunda e mais séria. Estariam os críticos da loira reboladeira e da mídia madrinha afirmando que precisamos construir o império da razão? Não sei se todos, mas é inegável que há algo assim no ar. A própria sociedade é uma construção racional, pelo menos do modo como a conhecemos. Mas ela mesma só existe porque temos um instinto de agregação. A razão simplesmente nos deu instrumentos e nos apontou caminhos para passarmos da agregação à integração. Foi a razão que nos permitiu uma civilização ao invés de uma mera colméia de primatas. Isto não se discute. E nem se deve perder de vista que o nosso modo de organização social precisa ser o mais racional possível. Só que ser racional não é negar o que mais somos. Instintos e sentimentos são também humanos, tanto quanto a razão. Amar, desejar e pensar são atos de uma mesma humanidade. Uma sociedade racional é uma sociedade que se constrói em cima de regras racionais, não uma sociedade que impeça outras manifestações humanas além da racional. Ser racional não é ser insensível. Já não se discute a muito o papel das emoções no conhecimento? Méritos à parte, já não é isto o suficiente para percebermos que a razão não é sinônimo de humano? Razão pode ser a nota distintiva, mas não se confunde. Razão é um atributo, não o ser. Por este prisma fica bem evidente que as críticas à loira são exageradas e desprovidas de sentido.

A idéia de que nossos, digamos, instintos, (as “pulsões” freudianas) devam ser sacrificados para o bem comum é absurda e impraticável. Um equilíbrio é o mais sensato, a virtude está no meio, dizia o estagira. Veja só como a própria razão nos mostra que ela sozinha não pode vingar. Homens não são meros seres pensantes. A parte mais primitiva do homem também é humana, ou alguém saberia apontar um ser humano funcional sem sistema límbico?. Uma civilização que pretenda permitir a todos a sua realização pessoal não pode limitar a atividade humana ao campo do racional.

Não que se deva voltar a um estado pré-civilização, mas realmente não há motivos para supor que um ser absolutamente racional seja mais humano que nós somos hoje. E por isso admirar a loira é válido.

A idolatria da beleza só pode ser criticável por ser idolatria, não por ser da beleza. Admirar o belo e desejar o desejável não é absurdo. E se a mídia insiste em usar a loira, os inteligentes de plantão que se transformem em Carl Sagan. Neste particular vale a pena citar Umberto Eco: “Muitas vezes as críticas à cultura de massas é uma crítica às próprias massas”. Talvez o desejo de tirar a loira da televisão seja um desejo de manter as massas afastadas dos espaços comuns.

Um crítico da loira deveria pensar o seguinte: “Se eu consigo ver que essa loira nada tem a me oferecer além de alguns minutos de distração, por que outros não o poderiam também?” Nada há que justifique supor que uns são melhores que os outros. É só uma questão de oportunidades. Num antigo artigo Gilberto Dimenstein mostrou como as maiores audiências do programa eleitoral se deram quando eram discutidas questões sobre a cidade e não quando se exibiam os ataques pessoais, contrariando o senso comum de que o povo quer ver o circo pegar fogo. Um elitismo racional não deixa de ser elitismo. Exclusão é exclusão, não importa se o motivo é sexo, raça, idade, credo ou cultura.

Não que a mídia seja isenta de responsabilidade por uma série de fatos, mas também não podemos exigir-lhe um papel que não é o seu por natureza.

Não é que a beleza deva ser critério de integração social, mas também não pode a inteligência o ser. Gênios e estúpidos são todos humanos.

Não há porque opor Einsteins às loiras. Ambos merecem nossa admiração, ambos são humanos e cada qual denota mais uma parcela particular de sua humanidade. Os fãs da loira talvez admirassem também Einstein se tivessem a oportunidade de conhecê-lo melhor. Os admiradores de Einstein talvez não se incomodassem tanto com a loira se permitissem que seus sentidos se manifestassem mais vezes.

Por fim, só para constar, quem não conhece pessoas tão inteligentes quanto lindas?

Eu fiz referência ao talento. Para não esquecer, vale dizer que talento é uma forma peculiar de inteligência, que prescinde de muita sensibilidade. A arte é a prova viva de que a razão não é mesmo sinônimo de humanidade. Nem seu contrário como pretendem alguns.

É só o começo.