PERIPÉCIAS EM ENCARNACIÓN – RUÍNAS DAS MISSÖES JESUÍTAS

Chegamos a Encarnación após 5 horas de viagem confortável num bom ônibus da empresa Nuestra Señora de Asunción, ao custo de 75 mil guaranis, o que dá uns R$ 35,00. Deu de 10 no que a Pulma nos forneceu para irmos até Asunción. O bilhete pode ser comprado com antecedência pela internet no confuso site da empresa: http://www.nsa.com.py.

Eram 05h05min quando desembarcamos na horrenda rodoviária da cidade. Todo o comércio do entorno já estava a pleno vapor, oferecendo chimarrão para todo lado. Interpelamos um camarada de traços indígenas para saber sobre como se chegava à recomendada ruína de Jesus de Tavarangué. Por acaso, era vendedor da empresa que ia para aquelas bandas. Disse que só tinha para a de Trinidad. O ônibus sairia 06h30min e custava 10 mil guaranis, cada. 10 mil guaranis, coisa de 12 reais, cada. Cada. Enquanto esperávamos, fazíamos nada porque as barracas ao redor eram tão atraentes quanto um tratamento de canal. Por volta de 06h00min, encostou um veículo tão parecido com um ônibus quanto a Hebe Camargo se parece com uma mulher. O vendedor nos olhou e disse que podíamos subir. Subimos. Dali uns 10 minutos, o ônibus deu partida e segui. Andou uns 50 metros dentro do pátio da rodoviária e parou em outro lugar, onde em uns 10 minutos subiram mais 5 passageiros, nenhum turista.

Um dos manés estava encafifado, o outro dormia encostado na janela da primeira cadeira, poltrona, pedaço de sofá, o diabo que fosse aquilo. Lá pelas tantas um indiozinho apareceu na porta, chamei-o disposto a gastar umas moedas a troco duma informação que evitasse um vexame ou algo pior. Las ruínas, sabe donde quedam? No. Missiones? No. Reduciones? No. Jesus de Tavarangué? No. Trinidad? No. Turistas, fotos? No. Então me mostrou umas cartelas de bingo e repetiu o mantra da propaganda que se avista nos outdoor s e muros da cidade: mucha plata, mucha alegria. Ganha um picolé de limão lambido pelo cachorro que adivinhar minha resposta.

Por volta de 06h40min a barca partiu para valer. Parou na primeira esquina após a rodoviária e subiram outros 5 passageiros, nenhum turista. O vendedor também fazia às vezes de cobrador. Mais a frente, entrou outro camarada no sue lugar. Enquanto se ia, a cidade passava, feia e suja, mostrando um comercio forte, algo parecida com cidades do interior do Paraná ou São Paulo. Não se viu pobreza extrema em canto algum.

Depois de uma meia hora no melhor estilo pinga-pinga num veículo que no Brasil não seria autorizado nem a carregar bóia fria, o novo cobrador nos disse que era ali que se descia: numa casinha que servia de ponto, donde de um lado se avistava muito mato e do outro mais mato ainda. Uns 20 metros a frente havia uma avenida que terminava na estrada, pavimentada em pedra, que poderia ser chamada de paralelepípedo, se tivesse uma forma geométrica regular. O camarada apontou para ela e nos forneceu uma enxurrada de informações: para lá. Certo, para lá. Mala e cuia porque não dormiríamos ali, seguiríamos para Córdoba, Argentina.

Para lá fomos e seguimos até que a dúvida viesse, ficasse e não se fosse porque não havia uma viva alma a quem perguntar. Cidadezinha bonitinha até essa Santissima Trinidad Del Parana. Uns tantos minutos de andança depois, demos de cara com um posto da Comisaria 35 (ou algo assim). Hola. Hola. Hola. Atravessei uma sala e cheguei a um gramado no qual havia uma camionete da polícia. Dentro um recruta dormia tranquilamente e que assim permaneceu. Seguimos.
Uns minutos à frente, duas sitiantes nos deram o caminho para as ruínas: vira aca, lá e vá. E fomos pelo meio duma estrada de terra que acabou noutra estrada de terra a qual exibiu num dos lados algo que prometia. E cumpriu: era a entrada para o terreno cercado no qual estavam as ruínas.

Havia uma calcada logo a frente, após um portal. Fomos seguindo tentando achar uma entrada. Quando achamos, vinda lá de baixo, dum prédio branco, veio uma loira com cara de Paraguaia e nos perguntou: ticket? No. Descemos até o tal prédio branco, no qual se davam lições a crianças sobre as missões e havia uma recepção do pequeno parque. A recepcionista não era exatamente guapa, mas foi muito simpática e nos vendeu uma entrada que valia para as três missões: Trinidad, Jesus de Tavarangué e San Miguel. 25 mil guaranis, para as três. Voltamos e entramos finalmente.

Tiramos 5 milhões de fotos em umas 4 horas, entre ruínas que tem uma história para lá de controversa. A doutrinação marxista oficial de nossas escolas ensina que os jesuítas vieram para a América escravizar e roubar as riquezas dos índios e ainda abusar das indiazinhas e até dos indiozinhos. Os católicos dizem que eles vieram aqui para impedir que os índios tivessem o mesmo destino que os espanhóis já tinham dado em Maias, Incas e Astecas. Talvez a ICAR só tivesse mesmo interesse em impedir que os mercantilistas arregimentassem um exército materialista e tornasse sua vida cada vez mais difícil nesta guerra ideológica, da qual as alianças políticas conhecidas eram apenas a ponta do iceberg. Seja como for, os jesuítas fizeram um trabalho eficiente de catequização porque a população pobre do Paraguai, majoritariamente formada por descendentes de indígenas, é católica muito praticante.

Uns 5 km de caminhada entre as grandes ruínas nos pareceram o suficiente e fomos embora. A saída\entrada era por outra rua de pedras que dava na estrada principal bem embaixo de uma placa enorme na qual se lia o nome das ruínas. Nem pensamos em porque o cobrador nos fez descer em outro lugar e continuamos andando pela estrada, conforme orientado pela mocinha da recepção e confirmado por um motoqueiro que só nos ouviu depois de desligar a moto. Andamos uns mil metros e avistamos outro letreiro enorme em frente a um posto de gasolina. Não era a entrada. Fomos perguntar sobre um tal ônibus que nos levaria pelos 11,6 Km restantes até Jesus de Tavarangué. Acabamos perguntando ao próprio dono\motorista do veículo Mercedes Benz ano 1968, 100% original, sem jamais ter trocado uma peca sequer. Algo parecido com um ônibus antigo. Saía dali uns 20 minutos. 5 mil guaranis cada, para ir e outro tanto para voltar. Enquanto esperávamos, entrei na lojinha e comprei uma água mineral Dasein, da Coca, a única coisa realmente gelada que encontramos no Paraguai, o resto ficava entre morno e frio.

Percorremos os 11,6 Km em 30 minutos no veículo. Ao longo do caminho outras pessoas subiram rumo à cidade de Jesus de Tavaranguè, que em guarani quer dizer “a cidade que deveria ter existido”. O tiozinho do bus disse sairia em meia hora e que isso era mais que suficiente. Na entrada um cartaz enorme dava orientações, inclusive a de que era necessário pagar um guia para nos acompanhar. 10 mil guaranis, cada. Ok.

A guia também não era lá muito gaupa, mas também foi bem simpática e conseguiu papaguear seu roteiro num bom portunhol. Num certo momento se assustou com uma mariposa e quis saber como se diz maripoza em português. Mariposa, a feia, borboleta, a bonita, esclareci. Ela deve estar até agora tentando dizer borboleta. As informações dela foram interessantes e o dinheiro não foi jogado fora, descobrimos que aquela já era a terceira versão da mesma missão, que ia mudando de lugar de tempos em tempos. Meia dúzia de padres controlavam, com ajuda dos caciques, 3 mil índios. A nova versão levou dez anos para ser construída e não ficou pronta porque os padres se desentenderam com o Rei da Espanha e foram expulsos, daí que a cidade que o vilarejo que veio em seu lugar recebeu o nome Tavarangué.

O controle sobre os índios se fazia pela velha tática latino-americana: corrupção. A troco da mao de obra dos índios, os caciques exigiam que os padres ensinassem seus filhos a ler e escrever. Negócio fechado. Para horror dos moderninhos, os padres tinham noções interessantes de respeito aos índios e ao meio ambiente, aproveitando a água da chuva e até da pia batismal para irrigar a lavoura. Expulsos os padres, os índios foram libertos da escravidão sanguinolenta dos católicos e puderam seguir livres e altivos para seu novo destino: alcoolismo e pobreza extrema. Estão aí até hoje.

De fato, 30 minutos foram suficientes, porque esta missão era menor que a de Trinidad. Ficamos sem ver a de Voltamos no Mercedao e ficamos esperando na estrada principal um ônibus para Encarnación. Meia hora depois veio um, pouca coisa menos ruim que o primeiro. Entramos. O cobrador informou o preço. 10 mil guaranis? Não. 5 mil. O corno da madrugada nos havia tomado 5 pilas na boa. Vida de turista Mané é assim mesmo.

Chegando em Encarnación, fomos ao ponto do coletivo que nos levaria à cidade vizinha de Posadas, na Argentina. Chegou o bicho, bem melhor que o intermunicipal que nos levou até as missões e que iria até Ciudad Del Est, uns 250 quilômetros a frente. Quanto custa? Csssn pesos. Quanto? Csssn pesos. Podia ser em guaranis, mas eram csssn pesos.

Cem pesos eram 50 reais, um absurdo para irmos de uma cidade a outra numa distancia como Londrina a Cambé, Curitiba a São Jose dos Pinhas, São Paulo a Guarulhos, etc.

Cambiamos forcosamente com uma camarada que não inspirava a menor confiança e que daria medo em qualquer turista de avião. Pagou-nos um preço até razoável. Só era difícil engolir aquele preço do ônibus. Perguntamos a um funcionário da companhia: csssn pesos. Perguntamos o preço do taxi: 150 pesos. Já que não tinha remédio, lá fomos. Chegou o bus. Entreguei uma nota de cem pesos para o motorista\cobrador. Ele balançou a cabeça negativamente. “Mnncjo. Nm hain trrrco”. Estiquei uma nota de dez pesos e ele me voltou duas notas de dois pesos. Seis pesos. Seis. Csssn quer dizer seis naquela estranha língua que os descendentes de índios praticam no Paraguai.

E lá fomos, naquele calor dos infernos para a vizinha Posadas, de onde iríamos a Córdoba.

Após uns 20 minutos, assando, cozinhando e fritando dentro do coletivo, o mesmo atravessa uma ponte sem fim sobre o rio Paraguai, para, abre as portas e todos descem. Deve-se passar pela aduana para depois embarcar novamente. Ficamos quase no fim da fila, debaixo dum sol de 40 graus, contados e noticiados. Mala e cuia. Água, só depois da aduana argentina. Agencia de turismo é para os fracos, meu filho.

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