MANCHETES DO DIA SOBRE O GOVERNO DOS POBRES

28 outubro, 2010


Algumas manchetes vistas por aí hoje:

Lucro líquido da Cielo avança 23,1% no 3º trimestre – Cielo é a nova gigante do ramo de cartões de débito, empresa financeira, portanto. No popular: banqueiro.

Lucro da Suzano sobe 33,5% no terceiro trimestre – Suzano é a maior empresa de papel e celulose da América Latina.

OHL obtém financiamento de R$ 1 bilhão com BNDES – OHL é empresa que ficou com BR 116 no trecho Curitiba-São Paulo. Ela cobra pedágio, mas para fazer as reformas devidas, empresta dinheiro a juros camaradas.

Lucro do Santander Brasil avança 31% no 3º trimestre – Mais um banco batendo recorde de lucro.

Lucro líquido da Usiminas alcança R$ 495 milhões no 3º tri – Outra mineradora privatizada lucrando cada vez mais.

BC eleva previsão de inflação para 2010 e 2011 / BC reconhece que mercado está dividido em relação à volta da inflação – A gastança do setor público começa a prejudicar o fígado da economia

Em baixa de 0,34%, dólar vale R$ 1,716 nos primeiros negócios – Mesmo com dois aumentos sucessivos do IOF sobre operações de estrangeiros, o governo não consegue ajeitar o câmbio, prejudicando exportadores, ou seja, a agricultura e a indústria.

Bem, aí está o governo dos pobres e aí está o governo mestre na arte de conduzir a economia. Inflação e câmbio são coisa que afetam diretamente os pobres, pois encarecem o custo de vida e refletem-se no nível de empregos. Já os lucros dos banqueiros, mineradoras e empreiteiras é tão bem distribuído quanto o dinheiro dos impostos.

***
LEIA ABAIXO:

Sobre o presidente da CNT/Sensus fazer campanha descarada para o PT:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/presidente-da-cntsensus-faz-campanha-para-dilma/

Sobre o perigo de se eleger Dilma crendo que ela será Lula lá outra vez e sobre lições de história que nada valem para militontos e petistas de ocasião:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/lula-periga-ser-o-novo-kirchner-e-dilma-o-novo-pitta/

Sobre o lucro formidável dos bancos, do gasto de R$ 191 milhões na campanha do PT e este se dizer o governo dos pobres:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/e-possivel-servir-a-dois-senhores/

Sobre o PT ter usado indevidamente o nome de outro artista no tal manifesto dos intelectuais:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/outra-manifestacao-contra-o-manifesto/

Sobre o regime pelo qual Dilma Roussef e Franklin Martins orgulhosamente pegaram em armas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/pelo-que-dilma-roussef-e-franklin-martins-pegaram-em-armas/

Sobre o cancelamento da entrevista com Serra pelo SBT e um negócio de R$ 7 bilhões de Sílvio Santos com o governo federal:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/26/sbt-cancela-entrevista-com-serra-silvio-tem-7-bilhoes-de-motivos-para-fazer-isto/


DAS BERINJELAS

15 outubro, 2010


Os petistas têm uns aliados estranhos. Nem é o caso de se falar em Sarney, Collor, Jader, Calheiros, Maluf e outros. O que pega mesmo são os de dentro do governo. Por exemplo, Henrique Meirelles, nascido no ninho tucano e até hoje com bico grande e amarelo, apesar de agora filiado ao PMDB. Com ele no governo e mais a continuidade de um sem número de antigos programas da era FHC, fica difícil entender porque o PT não apóia José Serra logo de uma vez.

Meirelles nada tem a ver com o perfil tradicional dos ocupantes de cargos no governo petista. Nunca passou perto de um sindicato, ONG ou “movimento social”, essa estranha denominação que agasalha as mais disparatadas variáveis de agrupamentos de pessoas. O cara é engenheiro formado pela USP, mestre em administração pela UFRJ, fez um cursão bacanudo em Harvard e até arrumou, na raça, um título de doutor no Bryant College, uma das melhores escolas de negócios dos EUA.

Trabalhou por muito tempo na filial brasileira do Bank of Boston. Fez carreira brilhante e chegou a presidente da instituição no Brasil. Tempos depois, virou chefão mundial do boteco. Pendurou as chuteiras em 2002 e foi se meter na política.

No mesmo ano em que Lula batia José Serra, ele se elegeu deputado federal pelo PSDB. Vai daí que, com medo de meter os pés pelas mãos e até o inverso, Lula achou que ele era um bom nome para tocar o BACEN, apostando que seu histórico no mercado financeiro acalmaria os ânimos da galera da Paulista e, claro, Wall Street. Dito e feito.

À frente do Banco Central, chegou a tascar uma SELIC de 26,5% no lombo da galera. Com apoio explícito do então todo poderoso Palocci. Levando a ferro e fogo a tucana política de metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal, foi abaixando paulatinamente as taxas de juros básicas, mas ainda em condições de brigar pelo podium mundial. Lula e outros petistas queriam partir pra farra logo de uma vez, gastando a valer, mas ele mostrou os perigos da sandice e conseguiu frear um pouco os ânimos dessa turma.

Pois dias desses ele arrematou que o caminho é esse mesmo e que torce que seu sucessor siga exatamente este caminho estabelecido pela trupe tucana, incluindo aí Pedro Malan e Armínio Fraga. Aqui: http://blogs.estadao.com.br/radar-economico/2010/10/15/meirelles-defende-que-seu-sucessor-siga-pilares-de-fhc/

É sabido que governos são feitos muito mais pelo segundo e terceiro escalões, o poder se exerce pela burocracia, o que, na prática, dá um baita naco desse poder aos burocratas. Nos EUA, por exemplo, a CIA é um órgão de segundo escalão, abaixo das secretarias, o equivalente deles aos nossos ministérios. Na prática, tem até derrubado presidentes por lá. Por aqui não é diferente. É aí, neste lamaçal de regras e carreiras, que os poderosos ocultos agem de verdade quando os astros da ribalta vão ficando saidinhos e cheios de gracinhas.

Seja como for, está mais que claro que ao PT interessa mesmo é manter-se no poder, ainda que para isso tenha de usar os planos de seu grande desafeto tradicional, seu irmão de sangue, o PSDB. O que prova, mais uma vez, que as coisas vão bem apesar do governo, não por causa dele.


Sobre a tal crise

9 dezembro, 2008

Por que há tantas análises diferentes sobre essa tal crise? Basicamente porque há inúmeros interesses, pescoços e ideologias envolvidos.

Esse texto do Manini dá uma clareada no samba do crioulo doido que é essa profusão de artigos nos jornais.

“No meio dessa crise americana toda, há algo que eu estou muito, muito mesmo, pagando para ver: estou pagando para ver voltarmos aos níveis de regulação que existiam antes das crises do petróleo na década de 70. Porque eu duvido.

Nos próximos meses, haverá de fato um aumento de regulação e de supervisão no sistema bancário americano. Mas, isto, em primeiro lugar, não será uma volta ao nível que existia antes. E, depois, não vai durar assim tanto tempo. Alguns anos e as regulações cairão novamente. O capital não sobrevive sem flexibilidade e o socialismo não é uma opção.

A crise é muito grave e vai ser sentida mundo afora. No Brasil, inclusive, com o encarecimento do crédito externo e dificuldades com exportações para países desenvolvidos. Mas é irreal pensar que a crise causará uma volta ao Estado de Bem-Estar Social e um retrocesso na globalização. A discussão de que isso é o “fim de uma era” não interessa. Não é o fim de uma era, apenas uma pausa nela.

O ideal, agora, é pensar como tornar crises como essas mais difíceis de ocorrerem. Se a tendência é que as regulações caiam novamente, quais os instrumentos que podem ser usados para diminuir o risco de crise sistêmica? Vários erros foram cometidos na política econômica americana nos últimos 15 anos. A gestão Greenspan, tida por muitos como um grande sucesso, tem que passar por uma grande reavaliação.

É o estudo desses riscos e de como evitá-los que fará o mundo mais seguro, não a propagadação da ladainha de que “a crise representa o fim do neoliberalismo”, ainda que essa esteja sendo ouvida hoje até mesmo dentro do New York Times (para você ver o nível de desespero americano neste instante).

Não vou cometer a burrice de afirmar que será a última crise do capitalismo. Primeiro porque não vamos mudar de sistema. Depois, porque o capitalismo é cíclico, e lá para frente provavelmente teremos uma nova crise. Mas acredito que, ao estudar com mais calma os erros cometidos, pode-se postergar o aparecimento da próxima.

Nesse instante, enquanto alguns bancos quebram, outros são comprados e o mercado financeiro passa por um stress vigoroso, o pânico mostra as suas caras. É difícil pensar com calma quando o dinheiro se torna escasso. E as interpretações de economistas heterodoxos sobre as causas da crise, boa parte delas, podem estar corretas. De fato, faltou transparência. De fato, faltou regulação. Pode-se mesmo pensar, e sei que há gente refletindo nessa linha, que Marx esteja correto e explique muito bem o mecanismo dessa e de outras crises, via a tendência decrescente da taxa de mais valia. Talvez faça, portanto, mais de 100 anos que se conhece o mecanismo estrutural do que acontece hoje.

O que explica termos ido nessa linha de desregulamentação durante a história, mesmo conhecendo os riscos inerentes a ela, não é tão difícil de ser apreendido. A ortodoxia não se preocupa tanto em sanar as suas falhas teóricas. A heterodoxia talvez explique até melhor o capitalismo e os mecanismos estruturais do sistema. Ocorre, porém, que quem tornou o capitalismo dinâmico e criador de riquezas foram os ortodoxos. Para ser bem claro, a heterodoxia talvez discuta e resolva melhor as suas falhas. A ortodoxia realiza, mesmo com os buracos que sua teoria possui.

Para explicar bem essas duas últimas frases, seria importante gastar páginas e mais páginas. Para resumir em uma linha, basta ter em mente que o homem vem antes da teoria. Não é a teoria que constrói um novo homem, mas o homem que cria novas e rearranja velhas teorias. Para explicar com uma citação, basta lembrar de Adam Smith, que afirmava que o homem é egoísta e que luta sempre pelo seu próprio bem-estar.

Como sou um otimista, não acredito que essa luta vá levar o homem a destruir o planeta. Entretanto, quando vejo a Coréia do Norte e o Irã no mapa, penso que, nesse ponto, eu talvez esteja errado”.

De minha parte, como comentei a ele:

Acho que o mistério e o perigo mesmo é ver toda a América do Sul no mapa. Não temos armas, mas somos receptores e propagadores das piores idéias jamais imaginadas. Somos uma espécie de seleção alemã, plagiando o Galvão (perdão…): a gente faz algo parecido com governo e com economia, mas que se mantém vivo.  Somos o besouro da geopolítica, só que com dentes e veneno.