AS PUTAS DO FILHO DA PUTA

Diferente de outros filhos da puta que não se incomodam em ser chamados de filhos da puta, era um filho da puta que odiava ser chamado de filho da puta.

Mirava-se no espelho a ajeitar a gravata importada de Paris, a qual pouco ou nada combinava com o terno importado da Itália, ainda que não fosse exatamente feia, apenas convencional e não tivesse um só atrativo que justificasse sua importação.

Sentada na beira da cama logo atrás, mas não tão perto assim, a quenga arrumava seu sutiã rosa com pedrinhas brilhantes, bastante brega para uma puta de luxo daquele preço naquela cidade. Abaixou–se para pegar o vestido de melhor gosto, com o qual podia até passar despercebida de sua profissão, tanto mais que hoje as moças que se dizem decentes fazem questão de parecerem rameiras. 1,75 nua, tinha o corpo em medidas exageradas por muita malhação, hormônios para cavalos e silicone, que quase ninguém sabe que tem uma fórmula muito parecida com a da acetona. Seu cabelo loiro era bem tratado e não evocava muito a profissão, à exceção, talvez, do comprimento.

– Só uma rapidinha no almoço, hã? – disse a vagabunda.

– Meu prazer é problema meu. Isto é problema seu – tirou rapidamente algumas notas do bolso do paletó escuro demais para aquela cidade naquela época do ano e as atirou na cara da biscate.

– Babaca – falou e começou a recolher as onças pela cama e pelo chão e as guardou numa bolsa cara demais para ter sido comprada com o suor largado nas camas de motel. Era presente de algum ricaço que lhe tinha especial afeição, como sói rotineiramente acontecer em lugares onde o dinheiro rola fácil e a humanidade parece compelida a praticar o pior da civilização.

Acabara de pentear o cabelo preto não muito curto e terminava de se ajeitar, alisando o terno e a camisa branca e conferindo mentalmente se tinha pego tudo que trouxera, quando soltou um peido um pouco ruidoso.

– Além de tudo, peida o filho da puta – disse a quenga.

O filho da puta fechou a cara e a mão e virou-se rapidamente, acertando uma porrada no nariz da prostituta, que caiu já sangrando no chão junto à cama. Era um tipo atarracado, não muito alto, forte, não gordo, sem ser exatamente atlético, muito menos garoto propaganda de academia. Estava bem perto dos 85 quilos, mas em forma.

Levantou-a pelos cabelos, ouviu-se um grito e ele a soltou para que caísse como um pacote do supermercado, fazendo ruído e espalhando-se pelo chão. Abriu a braguilha e mijou na cara dela. Abaixou-se um pouco e começou a socar-lhe algumas notas dentro da boca. Deu mais umas porradas. Ergueu-se e disse:

– Se reclamar disto com alguém, mato você no minuto seguinte.

Não seria problema, o dono da agência teria tanta disposição para enfrentá-lo quanto para atravessar a pororoca do Amazonas carregando um urso nas costas. Disse mais pelo prazer de dizer do que pela necessidade.

Limpou a mão suja de sangue no lençol branco da suíte mais cara do motel mais caro do país. Voltou-se e escarrou na biscate deitada.

Entrou no Jaguar Preto pela porta de trás.

– Para a Engtrox – disse ao motorista, que lhe estendeu um copo de Blue Label com duas pedras de gelo, como de hábito.

Engtrox ele dizia ser Engenharia, Transportes, Rodovias e Obras, apenas mudando o plural para um X. E era isto que constava do contrato social da empresa, mas a verdade estava em seu íntimo: ENGana TROXas, sem u mesmo.

Apesar de construir um ou outro prédio de pequeno porte, o quente mesmo ali era que era uma empresa associada de uma concessionária de rodovia federal. Ele tinha sido o contato da empresa maior junto a diversos governos e o grande responsável por rolar a dívida da mesma junto aos bancos federais. Sua função no negócio era basicamente a de lobista para assuntos financeiros. Muito menos um caloteiro do que um caloteador.

Todas as suas empresas, ONG´s, associações, fundações e consultorias tinham nomes com significados no mesmo sentido. Sentia um prazer real e profundo em roubar dinheiro público, o que não era à toa, uma espécie de sadismo com base numa revolta geral com muita e muita coisa, ou talvez a ciência tenha explicação melhor que essa. Pouco importa, a descrição psicológica do bandido não diminui a dor da vítima, menos ainda o prejuízo.

Sua história de vida era um misto de admiração e nojo, de perseverança e mesquinhez, de esforço e trapaças, de superação e crimes. Nascera pobre no nordeste e, depois de muita sorte, trabalho, crimes e puxasaquismo, tinha conseguido, como se diz bestamente por aí, vencer na vida antes mesmo dos 30. Dez anos depois, já tinha vencido tanto que para muita gente não havia mais para onde ir. Ele sabia que havia. Sabia porque via, porque nunca foi exemplo de fé.

A quenga, quer dizer, as quengas entram na história porque no colégio se cansou de ser ridicularizado, desprezado e humilhado pelas gostosas mais novas, pelas gostosas mais velhas, pelas gostosas da mesma idade e basicamente por todas as mulheres que via. Era um adolescente normal, o que quer dizer que comeu o pão que o diabo amassou, já que na época a libertinagem sexual ainda não estava plenamente em voga e só rapazes bonitos ou ricos tinham sexo fácil e talvez nem tão fácil assim. Seja como for, certo dia depois de levar um fora duma moçoila a quem acabara de fazer um trabalho de escola, fez um de seus 4329 juramentos de Scarlett O´hara e decidiu que quando fosse rico comeria pelo menos 3 gostosas por dia, nem que fossem putas.

Normalmente eram putas, mas havia perto dele toda a fauna típica que se vê ao redor deste tipo de novo rico sul americano: modelos de borracharia, atrizes sem talento, cantoras sem voz, socialites sem dinheiro, esses bichos inflados de silicone e com muita massa corrida na cara. Assim que conseguiu seu primeiro milhão, iniciou uma rotina religiosa: no mínimo 3 gostosas por dia. Por menos prazer que tivesse ou vontade que sentisse, comia. Marcava com as quengas ou modelo ou o diabo que fosse e ia para o motel pelo menos 3 vezes por dia, onde quer que estivesse, ia, dava um jeito sempre. Podia até não gozar, mas meter, metia. Com o tempo, começou a gostar de espancá-las, mas não o fazia sempre, inclusive para evitar problemas. Tomava muito cuidado para não ser visto e ninguém saber, embora no seu meio casamentos de fachada fossem comuns e ele mesmo já fosse divorciado duma auxiliar de enfermagem que ficou para trás numa casa tal que ela precisaria de duas vidas para conseguir comprar. Entrar de Jaguar com motorista no motel, só mesmo onde fosse tão querido e respeitado pelo Rei que nem mesmo o Rei lhe olharia torto, como de fato nunca olhou. Nenhum deles.

Entrou no elevador da garagem e apertou o 7. A maioria dos seus escritórios ficava no sétimo andar. Ou no número 700. Ou 70. Ou algo assim. Era a nota necessária para passar de ano na escola, o que era fácil para ele, mas seria mais fácil se não tivesse apanhado tanto ou sido tão ridicularizado pela sua pobreza, pernas tortas ou sapatos horrendos que sua vó teimava em comprar. Como odiasse ambas as coisas, faltava muito e comprava um bom tanto de brigas das quais tinha sorte de sair com todos os dentes. Algumas vezes não saiu. A lembrança escolar lhe era tão agradavelmente forte que fazia questão de colocar sua mostra de riqueza e inteligência em algum lugar que a lembrasse. Pensava consigo mesmo que era uma forma de não esquecer que o inimigo não dorme nunca e que era precisa estar atento e trabalhar com cada vez mais afinco. Era o que dizia a si mesmo, mas isto é o tipo de coisa que cheira mesmo é a maluquice.

É claro que trabalhar para ele tinha um significado todo próprio, mas é certo que dormia pouco, festava pouco e fazia negócios o tempo todo, praticamente 18 horas por dia. Bebia muito, fumou erva poucas vezes, cheirou menos ainda, injetou quase nada, tomou umas bolinhas aqui e ali, mas disso tudo era abstêmio já se iam muitos anos. Na sua cabeça, riqueza e poder não combinam com mentes viajandonas.

Entrou na empresa e foi direto para sua sala, distribuindo uns “boa tarde” secos pelo caminho. Era uma sala média, com uma mesa, uma cadeira executiva atrás dela, duas cadeiras Le Corbisier à frente, dois sofás de couro pretos encostados numa parede, pouco luxuosa, apenas o bastante para não ser estranhada pelos executivos e milionários com quem tratava rotineiramente, embora parasse pouco por ali. Dizia sempre que dentro do escritório não há dinheiro, só nos corredores. Ligou para um número de celular mais difícil de conseguir do que o de muitos presidentes.

– É hoje. Em pouco tempo teremos mais de duas toneladas de material para erguermos nossa casa.

– Fiquei sabendo. Parabéns. Se tiver tempo, o verei pela televisão.

A ligação era absurdamente segura, mas preferiu usar um código, ainda que meio óbvio: duas toneladas, dois bilhões. Foi até o banheiro privativo, ligou para um número qualquer, abriu a torneira e deixou o celular embaixo da água corrente, pegou-o, tirou a bateria, embrulhou o restante num grande maço de papel higiênico, tacou fogo e jogou dentro da lixeira metálica. Fazia isto toda vez que ligava para aquela pessoa, cujo número variava umas cinco vezes por dia.

Estava num ponto da vida, hããã, profissional em que ou se conformava ou se tornava um mestre por trás dos mestres. A primeira opção não era de todo má, afinal estava quase bilionário, influente deveras, poderoso, respeitado e temido, tinha mais deputados no bolso do que pelos no nariz, mas sentia que algo ainda lhe faltava. Por outro lado, a segunda opção demandava um dinheiro que ele ainda não tinha. Resolveu se aproximar de quem tinha, ou seja, dos mestres por trás dos mestres por trás dos que sobem no palco. Não seria fácil, como não foi, como não estava sendo. Os mais graúdos que os graúdos deram uma chance, um teste. Precisavam encenar uma nova peça para um público nem tão ávido assim por novidades, mas que tinha no seu meio uma parcela de gente que estava vendo o que não era para ser visto e muito menos comentado seriamente por aí.

Este teste não lhe dava muita escolha, para conseguir esse dinheiro todo com a rapidez necessária para entrar no clube desejado, teria ou de se expor pessoalmente ou jogar tão pesado que acabaria revelando cartas na manga. Preferiu se expor um pouco e sacrificar peças no futuro. Enfim, acabou se impondo a seus colegas políticos como ministro. E azar de quem não gostasse.

E era hoje sua posse. O ministério escolhido não era dos mais fáceis, especialmente porque o até então titular tinha certa popularidade e respeito mesmo na oposição. Mas era um homem e todo homem tem suas fraquezas. E a deste era a vaidade, adorava mostrar o quanto era diferente dos colegas políticos. Era competente, não palanqueiro, gostava de deixar seus puxa sacos dizerem. Quando decidiu que esse era o ministério certo, colocou mais de duas dezenas de detetives na cola do futuro ex-ministro. Nunca seria o suficiente, era só por precaução. Sabia que o pegaria mesmo era vigiando os assessores, o que foi muito bem feito, não por detetives particulares, mas por um tanto de policiais federais que lhe deviam favores e outro tanto comprados especialmente para a ocasião. É basicamente uma regra da corrupção moderna que o partido imponha alguns assessores e secretários de sua confiança próximos do atores principais, é um modo de vigiar seus passos e garantir que a parte do butim que lhe cabe não se perca. Tudo que precisava era que um deles fosse pego num tiroteio bem barulhento, daqueles de levar multidões ao cinema. Algumas coisas foram surgindo, mas nada forte o suficiente. Dois inquéritos foram abertos, mas renderam apenas notas nos jornais. Não era o suficiente, mas podia ser um começo. Havia coisa maior, ele sabia dos detalhes, mas provar sem envolver outros poderosos amigos e, principalmente, poderosos inimigos era algo difícil.

Foi aí que resolveu que teria de entrar em ação ele mesmo. Não tão diretamente, mas teria de bolar um plano e contá-lo a alguém. E assim foi feito.

Havia esse assessor de gabinete que era filho dum amigo do tal ministro. Nem era um apadrinhamento, era mais um favor mesmo. Acontece que o moleque trintão andava a se perder na vida, entre um tanto de drogas e outro maior ainda de babaquice, o que forçou o pai a arrumar um emprego, mas também não queria humilhar o camarada com um trabalho sem nenhuma importância social, ou seja, sem nenhum status. O salário nem era lá grande coisa, não para essa gente endinheirada, mas pelo menos o playboy poderia dizer que trabalhava na próxima vez que a polícia o parasse por excesso de velocidade ou qualquer idiotice dessas. O ministro era realmente amigo desse camarada e achou que um cargo de assessor de coisa nenhuma era menos problemático do que um cargo em que fosse necessário trabalhar, pois aí é que burradas aconteceriam e teria de se explicar.

Sucede que esse aspone era amigo do filho do ministro também, apesar dos 10 anos de diferença. O mais novo fora bem educado, terminava um mestrado em engenharia e fazia um estágio promissor numa mineradora.Um verdadeiro Robin. Estava de férias e fora passar uns dias com os pais, bem, com a mãe, visto que o pai mais viajava do que ficava por ali, no natural do cargo.

Sabendo de tudo isto, trouxe duas quengas de bem longe, tratou-as muito bem, matriculou-as numa universidade particular, alugou um belo apartamento numa área nobre, emprestou dois belos carros novinhos em folha e deu-lhes uns dois quilos de garoupas só para roupas e jóias. Ganharam uma vida naquela cidade. Apostou no clássico: loira peituda e morena popozuda.

O playboy estava a terminar o curso o preferido dessa gente como ele que tem talento proporcional à disposição ao trabalho e inversamente proporcional à fortuna da família. Por muito mais que óbvio que as putas foram matriculadas nessa faculdade. Entraram no círculo de amizades, fisgaram o peixe. Babacas como ele desconhecem uma das leis da selva: sempre desconfie de uma mulher bonita, especialmente se olhar para você.

Enquanto as duas quengas de luxo curtiam uma vida bem da boa, duas putinhas morenas de 17 e 16 anos também começavam a experimentar uma vida muito boa, pelo menos em comparação com a miséria nordestina de onde foram tiradas. Um de seus lacaios conseguiu que uma cafetina poderosa arrumasse duas novinhas “para um cliente coronel que vinha passear”. A dona do bordel não lembrava em nada uma velha dona de bordel, era magra, com formas e sua beleza hoje era metade do que nos tempos de juventude, mas isso era mais que suficiente para encantar qualquer um. Nos mesmos dias em que as biscates de vestidos caros estavam a construir uma identidade local, as meninas ficavam basicamente o dia todo enfurnadas numa casa longe, boa, mas nada luxuosa. A biscatona coroa cuidava delas e ganhava bem por isto e especialmente para deixá-las longe de todos e de modo algum coloca-las no mercado. As garotas sabiam que teriam de trabalhar uma hora, afinal já eram do ramo onde moravam, mas iam curtindo enquanto isto, apesar de não poderem sair muito, só academia e olhe lá. Ganharam também uma mini extreme make over e ficaram ainda mais lindas e gostosas. O cirurgião, porém, acentuou-lhes os traços infantis, talvez porque tenha sido pago para isto, mas talvez seja muita crueldade dizer que um médico seja capaz de colocar rostos de bebês em corpos vultuosos de adolescentes só por dinheiro.

O caso é que as quengas foram levando na maciota o playboy trouxa. Um dia, deram. As duas ao mesmo tempo. E combinaram de fazer uma festa maior ainda com mais gostosas ainda, mas não acertaram data. Esperaram até que fosse dado o sinal verde pelo chefe, que pensavam ser uma pessoa, mas não era e não passava de uma voz ao celular.

Pois um dia o dia chegou e foi no dia em que o filho do ministro estava num churrasco na casa da família do filhinho de papai trintão. Percebido o movimento pelos policiais disfarçados, estes reportaram a alguém, que reportou a alguém, que reportou a alguém, que reportou a alguém, que reportou a alguém, até que o filho da puta soubesse. Então a ordem seguiu o caminho inverso e o telefone das putas tocou e em seguida o do bestinha. Era o convite para a tal festa. E ele chamou uns amigos porque estariam lá muitas e muitas gostosas prontas para uma suruba. E ele arrastou o filho do ministro, porque babaca que se preza gosta de levar os amigos para uma sacanagem, e que se foda se o cara é casado ou não é muito disso.

Chegaram numa grande casa muito bem localizada. Estavam lá diversos amigos das duas quengas, algumas amigas e muitas outras quengas, todas vindas de longe especialmente para a ocasião. A festa foi seguindo normal, com o consumo habitual de álcool e drogas. Lá pelas tantas, o celular das biscates tocou de novo e elas e as demais quengas começaram uns amassos mais fortes, umas pularam na piscina, os caras pularam, alguém entrou de calcinha branca, as moças que não eram assim tão atiradas foram indo embora, e logo os amassos na piscina aumentaram, as que não eram quengas e ficaram já estavam mais liberadas que as próprias quengas e dali já saíram casais para a sala e cozinha e por aí afora.

A essa altura as vagabundas já haviam batizado toda garrafa de uísque da casa, levando a cabo o plano passo a passo, talvez até se sentissem mal, mas são poucas as consciências que se opõem ao montante de grana que lhes chegou horas antes em casa. E as mocinhas do nordeste, bem pagas para também fazerem parte do show, foram obrigadas a tomar aquele veneno. Depois foram levadas para um quarto no terceiro andar da casa. Entraram e cinco atores pornôs as agarraram muito rápido e logo e começaram a ser espancadas e estupradas. Bem pagos, os caras metiam porrada a valer enquanto as fodiam de tudo que é jeito.

Presas lá, qualquer barulho seria apenas mais uma parte da suruba. Enquanto as pobres paraíbas eram severamente seviciadas, as outras duas quengas deram um jeito de serem metidas pelo filho do ministro. Terminado o ato, deram-lhe mais uísque batizado com todo tipo de droga imaginável. Subiram até o quarto, abriram com a chave que só elas tinham e entregaram a camisinha usada aos atores, que a enfiaram em todos os buracos das duas coitadas e depois socaram-na goela abaixo de uma delas, tudo como mandado pela voz ao telefone.

Minutos depois um incêndio teve início na cozinha. Logo se espalhou pela casa toda. Quem não estava chapado deu no pé, mas os carros todos davam de cara com repórteres do lado de fora, colocados ali por conta de toda a eficiência que só o dinheiro sujo pode comprar. Logo vieram os bombeiros. E a polícia. As quengas foram para bem longe, cada qual para uma cidade diferente, ganhando um apartamento e tudo que tivessem conseguido colocar dentro do carro antes da festa de arromba. E logo as nordestinas com cara de anjo saíram chorando em frente às câmeras. E logo algum repórter muito bem informado entrou na casa e viu o filho do ministro e o assessor babaca. O escândalo foi um sucesso: assessor e filho do ministro estupram menores em festa regada a drogas. Fotos das caras arrebebentadas das mocinhas angelicais, laudos divulgados na TV, detalhes ginecológicos das suas xaninhas, a camisinha no estômago, o DNA do filho do ministro, fotos de gigantescas carreiras de cocaína no chão, centenas de comprimidos, quilos de maconha. Foi um inesquecível orgasmo editorial.

O ministro já não era muito querido, apesar dos resultados que apresentava e o escândalo do filho, junto com os outros menores, acabaram deixando-o sem base.

E assim, sem maiores dificuldades, se impôs como ministro. E aquele era seu dia da posse. Não tinha muita vaidade, odiava holofotes, preferia os bastidores, mas precisava sorrir para as câmeras e enquanto andava até o palanque para o discurso de posse, olhava para elas imaginando que alguma colegial babaca que tinha lhe dado o fora no colégio estava agora em casa, casada, gorda e com cinco filhos, vendo-o e se arrependendo das flores não valorizadas, dos poemas não apreciados, dos trabalhos de escola não recompensados. Pensava nos valentões de então que hoje mal ganhavam o suficiente para comer abrindo valetas nas estradas de que ele era dono. Pensava na gente toda do seu passado e sorria. Sorria gostoso.

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