Um dia desses

2 dezembro, 2008

Estavam andando os dois velhinhos, assim meio sem ter o que fazer, meio por

obrigação médica. Encontraram-se assim meio por acaso, meio por destino :

 

— Asdrúbal Fernandez!

— Gumerciniano Pimenta!

Com algum esforço sentaram-se num banco de praça ( onde era não pergunte,

que isso só interessa aos dois velhinhos e olhe lá ) e começaram aquela

história do “você se lembra?…”.

Já na escola, o filho de alguém não gostou de ser chamado de filho daquela e

iniciou um grande quebra.

Num pasto qualquer, dois amigos espichados embaixo de uma árvore dialogavam:

— zzzzzzzzzzzz…

— RRRRRROOOOONNNNNCCCCC…

Mais ao norte, um protótipo de etíope sorria ao ver um lagarto na armadilha.

” … e quando o bode pulou prá direita, eu corri prá esquerda e o zé pra direita…”

O ferro voou do quarto ao banheiro, passando a dois centímetros e meio da cabeça do marido.

— Padre, eu pequei.

— E qual é a novidade?

A cadeira voou da sala ao outro quarto, passando a cinco centímetros da

cabeça da mulher.

Já na diretoria mandou o diretor para o inferno e quebrou a vidraça.

Cuspiu de lado, ajeitou o cabelo, arrumou as correntes no pescoço, abriu

mais um botão da camisa e foi até ela.

” … aí o Querêncio chutou a vaca e o Tião do matou o galo do seu Honório

que…”

— E o que tem nesta sacola?

— ora, seu guarda, nada que não possamos compartilhar…

— Deixa eu ver então.

— Pode abrir.

Ergueu a saia, chacoalhou as pulseiras, bochechou a cerveja, abaixou a blusa decotada, cruzou as pernas e ficou esperando ele chegar.

Debaixo daquela árvore o diálogo prosseguia:

— RRROOONNCCC…

  ZZZ…ZZZ…ZZ…ZZZ…ZZ…

Jogou todos os livros da biblioteca pela janela e beijou a professora.

Encheu as duas taças com vinho, tinto em uma, branco na outra. A linda jovem já estava craque, levou a bebida até o horrendo velho. Não teria de esperar muito agora.

” … e num dos pulos o Armelindo quase caiu, só não beijou o chão por modo

de ter se agarrado no rabo do bode. E foi aí que a cobra fumou. Depois…”.

— Eu sou um potro. Pocotó, pocotó, pocotó. Não, agora sou um jacaré, não, um pato, não, um avestruz.

— Não, você é um bêbado.

Enquanto o sofá ardia em chamas, a mesa de centro servia de campo de pouso para a jarra de cristal.

— Pois é, eu fico com isso aqui.

— Tudo bem, precisou de mais é só chamar, seu guarda, até mais.


Um dia desses – parte 2

2 dezembro, 2008

A professora jogou-o em cima da mesa e arrancou-lhe as calças.

O velho gemeu, caiu de lado babando, contorceu-se e morreu. A linda jovem

foi tomar banho. Preciso recomendar essa nova marca às minhas amigas, pensou.

Veio a mais de cem, o sinal fechado. Passou pelo cruzamento, mas não pela jamanta trinta e cinco metros a frente.

” era mais de meia noite quando o marreco do Padre Chico bicou a perna da

Dona Florisbela que tinha ido ali almoçar…”.

A panela de pressão beijou o vaso sanitário, o chuveiro despencou, o troféu foi parar embaixo da cama, os cabelos da mulher dançavam, junto com os papéis, pela casa.

Mais ao sul, um prédio em chamas consumiu ratos, baratas, mendigos, um pouco de história e muitas provas de algum escândalo.

Esperava tudo por seu comportamento, menos que a professora ficasse nua, de salto alto com um chicote na mão.

Chegou até ela, cuspiu de lado, deu uma tragada, ergueu as calças, arrotou e colocou a mão na sua coxa esquerda.

— Renato, você vai me amar para sempre?

— Que tal até Terça-feira?

A fumaça enchia a casa, a bíblia repousava descabelada sobre o fogão, o armário e o guarda-roupa trocavam confidências, marido e mulher tentavam ganhar a rua, mas a chave da porta estava na privada. ” e foi então que o major silva pulou nas costas da dita cuja…”.

Lia o jornal na praça, não sabia de quando era. Estava mais pobre do que há cinco minutos. O molequinho de nariz ranhento, por sua vez, estava mais rico.

E o sol se pôs.