Morro abaixo – parte 1 de 3

16 fevereiro, 2009

A propósito, diria Mestre Miaggi: andar lado esquerdo, poder; andar lado direito, poder; andar meio, morrer esbagaçado caminhão estrume.

Houve um tempo em que ela tinha apenas uma vaga idéia do que fazer. E uma coisa que pensava era que era impossível viver sem uma razão, qualquer que fosse.

Mas parece que as coisas melhoraram por agora: já não tem mais idéia alguma do que fazer. Razão pela qual, vai deixando do jeito que está para ver como é que fica.

Nem sempre foi assim. E nesse outro tempo, antes mesmo de ter apenas vaga idéia, era diferente, pensava diferente, agia diferente, tudo porque sentia diferente: sentia-se bem, ainda. Porque tinha muitas razões para viver. Sempre achava no mundo uma nova razão para viver, todos os dias uma diferente.

No começo do fim dessa época é que inventou de voltar à Finlândia, para o casamento da sua amiga de intercâmbio, moça que só não é princesa por culpa da injusta distribuição de renda daquela capitalismo malvado da Europa, porque ela é mais bela do que dizem os livros a respeito das princesas, então, só pode ser porque algum empresário quer que a filha dele seja princesa e não quem tem o direito. Esses capitalistas, malditos sejam, mil vezes.

O diabo é que moça veio ao seu, já faz tempo e tempo. E agora queria retribuir. Certo que andava de saco cheio com tudo e com todos, às vezes por alguma razão, às vezes por algumas razões, mas, cada vez mais e mais, por razão nenhuma mesmo.

Recebido o convite, achou que era bom negócio ir até lá, o que, para qualquer um com atenção mínima, quer dizer que era uma bela chance de ficar longe da própria vida por uns dias.

Financeiramente, não era um problema dos maiores, coisa que se resolvia, mesmo com alguma dor no futuro, mas questão solúvel, sem sombra de dúvida. Mas foi aí, nesse ponto, como quase sempre, que o marido, imbuído dum maldito espírito machista reacionário, não a deixava ir. Como se já não bastasse tê-la impedido de tantas outras coisas por causa do casamento, o chauvinista. Primeiro, pretendia ser uma grande engenheira, mas quando casaram, o marido e colega de profissão, além de sócio, como todo homem, inventou de buscar a perfeição e fazia trabalhos cada vez melhores e ela se viu obrigada deixar ele cuidar da maior parte dos trabalhos, enquanto ela ficava mais com o social, quer dizer, relações públicas, mas era claro que sempre seria ele a receber os louros, o que era praticamente o fim de sua carreira. Arrumou umas aulas, mas com o tempo os alunos foram ficando cada vez piores, mais chatos, ranzinzas, a administração a cobrar cada vez mais reuniões e burocracias e ficou sem paciência para a coisa, só continuando para ganhar mais um dinheirinho, porque nunca lhe sobrava o suficiente para comprar todos os sapatos que gostava. Lá pelas tantas queria ser modelo, mas o porco vivia lhe lembrando que estava acima do peso e também que se fosse se dedicar a isto, teria ainda menos tempo para o escritório e que se desse errado, ela ficaria sem nem uma coisa e nem outra. Concluiu que sem um apoio mais contundente, seria impossível uma carreira dessas.

Chegado o convite, no fim dum dia infernal, de pronto obstinou-se em ir.

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Morro abaixo – parte 2 de 3

16 fevereiro, 2009

Mas o chalaço só colocava empecilhos, sempre lembrando que o dinheiro que tinham na poupança tinha sido gasto num carro para ela e num terreno para os dois. Sempre a merda do dinheiro, como se isso fosse tudo na vida.

Num sábado, estavam no mercado, atrás dum sorvete que ela tinha ficado com vontade de comer, e encontraram os pais dela. Combinaram de almoçar na casa deles. Tudo certo, foram levar as compras embora. No meio do caminho, a mãe liga dizendo que tinha problema e que a comida só ficaria pronta lá pelas quatro. Ele, esganiçado que é, falou que não agüentaria tanto porque não tinha nem tomado café, o preguiçoso. Então combinaram de largar as coisas em casa e comer algo num shopping e ir almoçar com os seus genitores no domingo. Chegaram, arriaram tudo. Ela ligou para a mãe, dizendo que iriam logo em seguida. E o maldito ainda teve a cara de pau de se opor.

E então ela jogou tudo na cara dele, com prazer, força e vontade. E então começou uma briga dos infernos. E então ele saiu de casa. E ela foi até a casa da mãe. E comeu bastante do cupim assado. E, como mãe é mãe, pediu uma grana emprestada. E, depois da sobremesa, foi até o shopping, entrou na agencia e comprou uma passagem para a Finlândia.

Chegou uma noite antes do casamento, umas onze no horário de lá. No dia seguinte, acordou mais ou menos onze horas, porque não conseguiu dormir direito no vôo. A noiva já estava se preparando no centro da cidade. Ficou com as irmãs, das quais nem lembrava direito. Finalmente, à tarde, começou a se arrumar. No começo da noite, saíram todos rumo à Igreja.

A cerimônia foi basicamente como qualquer outra, só que em finlandês. Ao fim, cumprimentados os noivos, foram para festa.

A festa foi num lugar muito bacana, uma grande casa que lembrava um pequeno castelo, um restaurante dum amigo, parece. Tentou levar a amiga para sua mesa, mas a toda hora era interrompida por alguma tia, prima, amiga, colega de escritório, todo mundo o tempo todo, um saco. E parecia que nem se importava que tivesse viajado de tão longe, caramba. Continuou tentando, mas viu que não daria certo e desistiu. Acordou no dia seguinte, cansada da festa, lá pelas dez, mais ou menos no momento em que o avião da amiga partia. O dela saiu às duas da tarde.

De volta, foi trabalhar e já deu de cara com um cliente reclamando dum atraso na obra. Mas que culpa ela tinha se o Mestre de Obras não sabe ler uma planta direito? Fosse pouco, à noite um aluno perguntou se ela iria repor as aulas que faltara, o que nem precisava, era só eles lerem os capítulos certos do livro.

Chegou em casa, o suíno queria ainda fazer sexo, sempre, sempre essa merda, não importa quanto estivesse cansada, ainda mais depois de tantas horas de vôo e do dia infernal. Foi tomar banho e dormiu sem nem dar boa noite para o canalha.

Pela manhã, pensou em pedir o divórcio, mas era tanto trabalho, e custaria tanto com advogados e com certeza ele haveria de encontrar um modo de passá-la para trás.


Morro abaixo – parte 3 de 3

16 fevereiro, 2009

Pegou o carro e foi visitar uma amiga que não via desde a adolescência, numa cidade mais ou menos perto, umas quatro horas de viagem. Ficou lá dois dias. Voltou e começou a visitar todas as amigas, deixando o escritório e clientes de lado, porque já não compensava mais mesmo.

Depois de uns dias, começou a achar que suas amigas não eram tão amigas assim. Não sentia mais gosto algum em revê-las.

Passou então a ver peças de teatro, filmes, visitar museus, exposições.

Tempos depois, o marido, que já não bastasse brigar com ela toda santa noite, sempre chegando tarde o miserável, inventou que ela tinha que procurar um médico. Chorou de novo e foi dormir.

Acordou perto do meio diz, que o asno não parava de se mexer na cama, juntou suas coisas e foi para a casa da mãe, embora não falasse com ela já há meses. Estava cansada e foi dormir, sem muito papo mesmo.

No outro dia, viu que aquela casa já não tinha mais a menor graça, nada tinha a ver com o que lembrava, embora até fosse tudo meio parecido ainda. E decidiu ir embora dali também.

E passou a viver em hotéis, cada vez mais baratos. Mas um dia o limite do cartão estourou. O vagabundo nem para pagar as contas. E então teve de dormir na rua, um dia em cada marquise. E foi comprando comida conforme dava. Passou a pedir, mas como as pessoas estão cada vez mais individualistas, ficou cada vez mais difícil. Foi obrigada, portanto, a cair na prostituição. E em pouco tempo nem sentia nojo e nem nada, era só um trabalho como outro qualquer.

Uma noite, enquanto o cara bêbado tentava fazer alguma coisa, dormiu de tão entendiada. Acordou num hospital. O médico disse que estava com anemia severa, além de uma infecção, que precisava comer, mas a comida do hospital era uma droga e não conseguia nem dar uma segunda colherada. Só queria dormir.

Um dia acordou em outro hospital. E viu que ali ninguém fazia muita coisa. Podia nadar por aí, mas acabou encostando num canto, perto duma árvore. E ali passava os dias, sem decidir se dormia ali mesmo ou no seu quarto. Não fazia a menor diferença, porque não mais achava no mundo afora nenhuma razão para viver, então, achou que o melhor a fazer era esperar a morte chegar. E esperou. E espera até hoje.