PERIPÉCIAS EM CÓRDOBA – DIA 2

E lá fomos para um boliche (boate) em Córdoba, a cidade universitária mais famosa da América Latina. Um sergipano doido, um equatoriano que viaja de bicicleta e dois turistas manés do Paraná.

Segundo o sergipano, que já andara por ali noutros tempos, o negócio era cHegar um pouco cedo, porque antes da meia noite os bares não cobravam e só depois viravam boates. Levou-nos a uma lugar que se chama Maria Maria Rock. Havia mesas pelo lado de fora, lotadas. Entramos. Pedimos uma Quilmes ao módico preço de 25 pesos (R$ 13,00). Noite é noite, meu filho. Minutos depois a banda subiu ao palco e começou a tocar um som funkeado com uma strato Fender coreana bem timbrada fazendo bonito com a também bem timbrada contraparte Epiphone, o palco era pequeno e o baterista usava uma bateria eletrônica decente. Tocaram duas músicas e se foram, era só a passagem de som. Quando voltaram, o som bacana de antes se transformou numa massa sonora tão solta e boa quanto miojo frio sem sal.

Como sói acontecer em outras cidades, as chicas todas vistas durante o dia se dirigiram a algum limbo desconhecido e havia poucas delas naquele boteco. O problema da noite em Córdoba são três: um, é caro; dois, o quente mesmo está numa cidade nos arredores e;três, a noite é o que é em todo lugar: música chata e gente mais interessada em desfilar do que em se divertir.

Como a banda tocasse rock de modo catastrófico, o sergipano queria dar no pé o quanto antes, mas isto dificilmente seria diferente se o som estivesse decente. Rock a baladas não combinam em qualquer lugar do mundo, os jovens querem música para chacoalhar a bunda. Por motivo diverso, concordamos. A esta altura o equatoriano já estava muy borracho e resolveu passar a mao na bunda da garçonete. O segurança veio e o sergipano interveio e tudo ficou bem, mesmo porque o maluco não se tocou de nada e já estava no meio da rua atrapalhando o trânsito.

Descemos em meio a uma profusão de bares e boliches. Durante o trajeto moçoilas vinham oferecer bônus e flyers de bares e boliches. A depender delas, o paraíso na Terra estava a uma quadra e duas doses pagas de Campari ou Fernet de distância. Em meio àquela muvuca de pessoas bem nascidas e bonitas, sempre haverá quem acredite e pague para ver. Chegamos ao que seria a melhor boate da cidade, localizada em cima do Paseo Central, ao lado duma bela Igreja, num belo prédio horizontal de vidro vermelho suspenso a uns 5 metros de altura. Na escada de entrada, a tradicional e universal fila e chororô com seguranças e promoters para entrada. Depois de uns minutos, ficou óbvio, mas o segurança deixou tudo bem simples: so las chicas. Ok.

O sergipano nos guiou então até um lugar chamado Muy, uma boate menos glamorosa, bastante lotada. Ambiente escuro, em corredores compridos, três pavimentos. Interessante, mas nada do outro mundo. Por ali ficamos. Lá pelas tantas o hit do verão argentino começou a tocar. Michel Teló. Definitivamente Deus tem um estranho senso de humor.

O equatoriano dançava como uma garça manca na brasa quente, mas não dava trabalho. Lá pelas tantas fui ao banheiro no último andar e quanto desci não encontrei ninguém. Procurei e procurei e procurei e nada. Decidi esperar em frente à saída única, pelo lado de fora. Depois de uns minutos me veio à mente que talvez o equatoriano tivesse passado mal ou se metido em confusão e sido levado embora pelos outros dois. Subi para o hostel a passos de formiga, para o caso eles virem atrás. Chegando ao albergue, deitei e acordei umas oito horas. Levantei e vi que lá estavam o sergipano e o outro turista Mané. Quando acordaram, a confusão foi bem esclarecida: desci do banheiro até o primeiro andar e eles estavam no segundo, naquilo de um procura o outro e o outro procura o um, ninguém se encontrou e todos continuaram perdidos. O básico de uma boa noite numa boate.

Depois de muita enrolacao, fomos encarar o sol do sabadao e conhecer o centro histórico da cidade. Há uma grande quantidade e variedade de igrejas. A explicação para isto é bem simples: os espanhóis que ganhavam terras naquela região eram obrigados a erguer uma igreja em suas haciendas e todos preferiam fazê-lo próximo à saída da mesma e quando se começaram a construir ruas na cidade, estas, como sempre, privilegiavam os fazendeiros para escoar sua produção. Quando a cidade se tornou maior e as fazendas ficaram na memória apenas, o centro da cidade acabou lotado das mais variadas igrejas.

A maior e mais interessante delas é a igreja do padres capuchinhos. Nela se vê colunas e pórticos muito bem talhados, com detalhes incríveis. Um americano que estava por lá me chamou a atenção para o fato de que nos pés das colunas haviam figuras de animais, como sapos, caranguejos e outros. “Nunca vi em Iglesias cristians”, disse num spanglish. Devolvi na mesma língua: “Si, unsual”. Depois percebi que sobre as colunas haviam pássaros com cabeças de animais: leões, ursos, uma mulher e um homem. Intrigante, mas a resposta estava num painel sobre a entrada central da igreja, uma pintura sobre o julgamento de São Francisco de Assis, aquele que conversava com os animais. Não encontrei o americano para lhe mostrar a explicação. Tiramos umas cinqüenta fotos e seguimos adiante.

No centro histórico se encontra o maior shopping da cidade, erguido num grande, grande prédio em estilo muito tradicional. A arquitetura era convidativa, mas decisivos mesmo foram a fome e o ar condicionado. Em Córdoba se pode beber 3 litros de água por dia tranquilamente. O calor beira os 40 graus e o ar é úmido como areia. Já na entrada uma bela surpresa te lembra que está numa outra cultura: um grande bar, em dois pavimentos, com o fantástico nome de Lo Hombre que Fue Hueves, o livro de Chersteton, cuja figura se via em alguns painéis luminosos. No mais, porém, é um shopping como tantos outros, com algumas lojas de roupas caras. Havia uma camisa pólo Lacoste a venda por algo como R$ 75,00. Na praça de alimentação dispensamos os fast shit e nos decidimos por um lanche comum na Argentina, chamado milanesa ou apenas mila, que é sanduíche de um bife à milanesa. O combo fornecia também uma porção de papas fritas (batata frita). Com um copo de quase um litro de Pepsi, nos custou 28 pesos (R$ 11,66, no ótimo câmbio de Córdoba: 2,47). Demorou um pouco, mas valeu à pena, saboroso e suficiente. O pão argentino é sempre algo à parte. Enquanto comíamos, uma niña se enturmou conosco, constrangendo um pouco seus pais, mas logo os deixamos ä vontade. Tiramos uma foto da pequena e brincamos com ela e seu gato de brinquedo do Mc Donald`s. Pegamos outro copo gigante de Pepsi, secamo-lo e seguimos adiante. Tchiao niña.

Descemos pela avenida Velez Sarsfield e até outra igreja e dali nos enfiamos no centro históricos e sues vários calçadões. Havia outros turistas por lá. Andamos algo como uns 4 kilômetros pelas ruas e passeios e tiramos mais ou menos 500 fotos.

Esta parte da cidade justifica qualquer ida a Córdoba. Por ali se vê uma curiosa e gritante diferença de tratamento entre o governo argentino e o brasileiro quanto à criminalidade. Há uma entrada de um prédio na qual se lê que ali funciona a divisão de apoio às vítimas do crime. Direitos Humanos para humanos direitos. E isto num governo populista e de esquerda.

Andar pelo centro histórico de Córdoba é ver que é facilmente possível que comércio, história e arquitetura convivam tranquilamente. Essa oposição maniqueísta é coisa de intelequituáu besta. Peguem num cabo de enxada e cresçam, babacas.

Depois de tanto andar e fotografar, decidimos parar num dos belos bares que há por ali. São belos lugares, com mesas embaixo de grandes arvores. Entramos num que parecia bastante fresco e pedimos uma garrafa da fantástica cerveja Patagônia, ao salgado preço de 30 pesos (R$ 12,15), mas bem menos que os incríveis R$ 30,00 no Brasil. Fantástico quer dizer fantástico, valeu cada centavo.

Voltamos lentamente pelo centro novo da cidade e paramos numa sorveteria para provar o sorvete argentino, muito bem recomendado. A moça que nos atendeu não entendi português e o outro turista Mané estava de mau humor pelo cansaço de tanto andar. De algum nos fizemos entender e pedimos. Na hora de pagar os dois sorvetes duplos, 12 pesos (R$ 4,85), o dono do lugar ficou bravo por termos estendido uma nota de cem pesos. Não tínhamos culpa porque o camarada da casa de câmbio não quis atender ao nosso pedido de notas mais chicas. Despachei o outro Mané para fora e fiquei conversando com o camarada que, no fim, se mostrou paciente e deu um jeito de nos arrumar o troco. Expliquei que no Brasil tínhamos o mesmo problema e que isto provavelmente se devia ao suo dos cartões de débito. Ele aquiesceu com a cabeça, nos despedimos e seguimos rumo ao hostel.

No albergue, tomamos banho, enrolamos e saímos umas 21 horas para pegar o ônibus que saía às onze e quinze. A rodoviária era perto e se podia ir a pé tranquilamente. Saímos cedo porque queríamos passar em meio aos bares do centro e tirar algumas fotos do início da noitada, mas entramos numa rua errada e só fomos nos dar conta bem tarde. Chegamos correndo na rodoviária, com o ônibus já encostado. Fui para a fila das malas e me descobri sem dinheiro trocado para pagar a propina do maleiro. Não é suborno, é gorjeta. Olhei para ele com cara de desespero, ergui os ombros pedindo desculpas e fui. Dentro do ônibus, tirei o celular e a carteira do bolso e descobri uma nota de dois pesos. Desci correndo e entreguei ao cidadão.

Córdoba é uma cidade de mais ou menos um milhão e meio de habitantes, muito bonita e arborizada. Um tanto suja, mas menos do que outras cidades de igual porte no Brasil, à exceção, talvez, de Curitiba. A quantidade de mulher bonita andando à luz do dia é de deixar qualquer brasileiro de queixo caído. No geral, fica muito difícil acreditar em crise estando por ali. Percebe-se que há muitos novos ricos e talvez por isto o bairro onde se localize o Córdoba Hostel se chame Nova Córdoba. O comércio é suficiente e há uma grande quantidade de estabelecimentos de internet e telefonia internacional. Na rua do Hostel, uns 500 metros abaixo, há grande quantidade de bares e boates, todos absurdamente empolgantes e convidativos em razão do colorido feminino de alta estirpe. E isto que não havia a população universitária típica da cidade.

Em Córdoba capital, o governo Cristina não é muito bem visto, o que talvez seja explicado pelo fato de haver muitas pessoas se dando bem por conta própria. Seja como for, no primeiro dia, o aumento do preço do metrô para 2,50 pesos (menos de um real) levou o sindicato de trabalhadores do metrô e liberar as catracas em protesto. Durou o dia todo e ninguém os chamou de baderneiros ou coisa assim. Não resolveu nada, claro.

O turismo é forte, mas a cidade não depende só disto, mas respeita os turistas, o que é algo muito e muito diferente de dizer que fique de quatro para eles. Há uma grande oferta de hotéis e hosteis, para todos os gostos. O turismo de aventura é muito praticado, mas deve se ir nos arredores da cidade, em belas montanhas. É relativamente caro, com uma cavalgada custando 280 pesos e um passeio em quadriciclos saindo a 400 pesos (R$ 161,95).

Se depender de Córdoba, aposto alto que a Argentina terá um grande futuro.

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