TROCARAM O JACARÉ PELO CROCODILO

31 agosto, 2010

Isso de estranhezas entre homens e mulheres, todos sabemos, tem mais a ver com formas que com substância, com meios que com objetivos. Uma versão mais violenta e letal do velho ditado: em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão, só que num plano emocional e até mesmo espiritual.

Com todos os achismos possíveis, porque não há outro modo de se falar da questão enquanto não houver uma psicologia minimamente confiável nesse mundo, o caso é que homens e mulheres modernos, modernosos e mesmo os nem tanto assim, desenvolveram umas formas escalafobéticas de relacionamentos afetivos e sexuais.

Noves fora as perversões, taras e coisas do gênero, o que se vê é um crescente medo de se sentir, seja paixão, amor ou tesão. Provavelmente é por isso que cada dia mais gente se entrega cada vez mais a mais e mais rolos, expressão curiosa que designa um comportamento que, colocado em termos objetivos, nada mais é do que um namoro: encontros programados em locais de lazer, seguidos de contato sexual de variados níveis. Não faz tanto tempo assim, era exatamente isso que namorados cometiam: combinavam de se encontrar no cinema e depois trocavam uns amassos no carro.

Se é esse o comportamento, por que diabos inventaram de trocar o nome? Modernices, ora essa, ou seja, nada que tenha uma justificativa minimamente racional.

Do pouco que se consegue entender essa sandice, a diferença não é, em tese, objetiva, é subjetiva: não há compromisso. Putz, como se os namorados de antigamente fossem todos absurdamente fiéis uns aos outros, exclusivamente apaixonados entre si e jamais se envolvessem sexualmente, em qualquer nível, com alguém que não os atraísse apenas sexualmente. “Namoradeira”, no tempo nem tão antigo assim, era a designação das galinhas, cachorras, periguetes e o diabo a quatro de hoje.

Mas não há compromisso apenas em tese. Se o tal do rolo for na mesma boate e ficar com outra pessoa, é bico certo do outro lado, quando não briga, se não descambar em boa pancadaria, como qualquer namoro. E ai se algum amigo “meter a colher na marmita”. Povo moderninho esquece que se é para viver como na selva, tem que seguir a lei da selva, não se pode servir a dois senhores, ora bolas. E que diz a lei da selva, afinal? Bem, em algum lugar diz: “o homem quando tem duas mulheres, uma é dele e a outra é nossa”. E ainda: “exclusividade é privilégio de quem assume compromisso”.

É ridículo, covardia sempre é. Dizia saudoso Brizola: se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, então é jacaré, ué. Pode chamar do que quiser, é namoro, fim de papo.

Curioso é que nesses tempos de erotismo maciço e massificado, o sexo casual, fortuito, eventual, vem se tornando não uma regra, como seria de se supor, mas uma exceção. Todos repetem a figurinha no álbum. Ninguém namora, ah isso não, compromisso jamais, mas também está todo mundo se revendo o tempo todo. Babaquice, covardia, auto-engano, burrice. Desafia-se alguém a achar um termo minimamente elogioso para esse modo de agir. Sexo, sexo propriamente dito, de primeira entre completos estranhos que se encontram ao acaso num bar e sem nenhum terceiro como contato prévio e sem jamais se verem novamente? Em termos estatisticamente relevantes, só nas telas. Talvez no mundo homossexual, mas mesmo aí deve ser mais lenda do que fato.

De modo que nem se admite um sentimento qualquer e nem o desejo. Que vantagem se leva numa doideira dessas? Mulher é meio ruim de lógica mesmo e nada solidária com a classe. Se todas tiverem dois PA´s, outra expressão covarde, isto equivale a todas estarem casadas e se traindo mutuamente. Tanto feminismo para isso? Aliás, como pode ser uma coisa dessas se pouca coisa torna um homem mais desinteressante em termos sexuais que uma amizade? Ou se é amigo ou se é amante. Que homem nunca sofreu com isso?

Ficou assim: todo mundo namorando, gostando, apaixonando, até amando, mas ninguém dando de público que é assim, ao revés, todo mundo tentando parecer descolado, livre de ligações emotivas, mas ao mesmo tempo se preservando da imagem e do comportamento promíscuo. Ou seja, a modernidade das relações afetivas conseguiu juntar o pior de dois mundos que têm tudo para serem ótimos.

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Einstein e as Loiras

2 dezembro, 2008

A loira consome doses paquidérmicas de oxigênio (na forma de O2 e H2O2) para requebrar em frente às câmeras de televisão. Seus trajes foram confeccionados a partir das sobras de uma gravata e, junto com uma coreografia tribal, exibem um combinado de maravilhas da natureza, da ginástica e da medicina estética e ortomolecular. Audiência em alta, estoques em baixa, shows lotados, teatros vazios.

Teatros vazios. A crítica é inevitável. Mas por que? O discurso é o seguinte: “A mídia privilegia o rebolado à inteligência e ao talento” certo. É verdade. Não se discute.

Mas, e daí? E daí que a mídia prefere mostrar o rebolado da loira – dantes morena ou castanha -, da morena – dantes negra ou índia -, e o torso atlético do rapaz à interpretação autêntica, ao canto único e ao discurso crítico articulado? E daí?

A televisão mostra o que dá audiência e o faz por um motivo muito simples: redes de televisão são empresas e o compromisso das empresas é com o lucro. Não é segredo.

Não é segredo. Não é segredo, mas mesmo assim perturba. Por quê? Qual a diferença entre vender publicidade e vender sapatos? Se a lei é respeitada, por que a televisão não pode agregar valor ao seu produto? O que perturba? Simples moralismo? Nem tanto, pois muitos dos que criticam a nossa loira reboladeira e a mídia que a expõe não são exatamente vitorianos. Não é por isso, claro. E nem é esse o tema deste escrito.

Perturba ver a beleza e o apelo sexual ser mais valorizado que a inteligência. Isso é que perturba, choca, afronta, ressente e decepciona.

Vejamos o que seja inteligência. Os estudiosos do cérebro não temem afirmar que inteligência é um atributo biológico. Uma definição bastante razoável, neste contexto, é a seguinte: “Inteligência é a capacidade de adequar os meios aos fins” (Steven Pinker). Por aí somos todos inteligentes. De fato, somos todos, inclusive nossa loira reboladeira da televisão.

Ninguém desferiria críticas se estivesse em mente este conceito biológico e computacional de inteligência. Não é isso. Em verdade, o que está se procurando defender com tais críticas é, ironicamente, um conceito mais vulgar de inteligência. É a inteligência que vemos em Einstein, Joyce e outros da mesma estirpe.

Quando o pensamento crítico volta-se a si mesmo a realidade fica mais próxima, por assim dizer. Todas as críticas são importantes pelo seu caráter de denúncia, mas isto não é o suficiente para dar-lhes validade. Não é o caso de discutir quais críticas à mídia, ao privilégio da beleza, são válidas. É o caso de se saber porque a inteligência deva ser mais valorizada que a beleza. ou que a força física. Ou que a capacidade de se equilibrar em um cabo de aço a 5.000 metros com um balde na cabeça.

A idéia básica das críticas e que alimenta o ressentimento e decepção que nos assola é a de que a beleza é algo comum e a inteligência é extra. Não é bem assim.

Na verdade todos podemos ser Einsteins. Poucos têm a oportunidade. Menos ainda as transformam neste resultado. Por isso há poucos Einsteins.

De certa forma a beleza da loira reboladeira é fruto de esforço tanto quanto o surgimento de Einstein. Einstein teve professores, a loira, academia. Einstein teve bibliotecas a seu dispor e as usou, a loira, mesa de cirurgia. A genética de Einstein lhe favoreceu o raciocínio lógico-matemático, a da loira, suas curvas. Ambos potencializaram o que a natureza lhes deu. Quais motivos nos autorizam a dizer que Einstein é melhor que a loira? Ambos não se esforçaram? Além disto tanto a razão como a beleza são atributos biológicos.

O músico pop Jon Bon Jovi, uma dessas estrelas do showbusiness que têm beleza e tino comercial de sobra e talento de menos,mas não tão menos assim, disse certa vez sobre outro artista pop, mais talentoso: “Críticos preferem Elvis Costello porque são feios como ele”. Será isso? Às vezes parece que sim, mas não é razoável supor que todos os críticos musicais sejam feios ou que isso afete a todos. Além disto, eles não são os únicos a denunciar o esquema mídia-beleza-sexo-comércio como um ataque à inteligência.

Um ponto precisa ser esclarecido: A beleza faz sucesso porque é fácil de ser reconhecida e sexo vende porque é bom. É sensorial. Beleza se reconhece à distância. O reconhecimento de uma certa forma de inteligência exige essa mesma forma de inteligência. Um analfabeto pode se excitar facilmente com a nossa loira reboladeira e assim assistir avidamente aos programas em que aparece e ir aos seus shows, mas é improvável que entenda com a mesma facilidade um filme como “Shortcuts” ou “Magnólia”. Talvez seja bom considerarmos que a musa está lá para isso mesmo: ser vista e ser sentida, aparecer e excitar. O que nos leva a considerar que o problema não é a musa ou a óbvia predileção dos empresários por ela, é o analfabeto da audiência, é a falta de oportunidades que este tem para alimentar seu Einstein. Não consta que a sociedade tenha delegado aos empresários a obrigação de cultivar este alimento. Mas este já é um outro problema.

É simples, então. A mídia usa a beleza e o sexo para valorizar o seu produto, espaço publicitário. A publicidade usa os mesmos instrumentos para vender bugigangas. Por que fazem isto? A resposta é igualmente simples: porque apelos sensoriais são respondidos com mais rapidez que apelos intelectuais. É só nossa loira reboladeira surgir na tela que o sujeito arregala os olhos e suspende no ar a mão cheia de amendoim. Dá para imaginar algo semelhante com o Carl Sagan?

Carl Sagan. Não é um mistério que ele tenha obtido tanta audiência? Como também não é um mistério um estádio lotado para ver um show de árias e óperas do trio de tenores? Não, não é. É apenas um problema. Em comum eles têm o fato de se fazerem ouvir. E se fazem ouvir porque dizem o que têm a dizer de uma maneira inteligível. Carl Sagan conseguiu aquela audiência toda porque soube tratar de assunto tão complexo de maneira didática, sua intenção não era demonstrar conhecimento ou impressionar uma banca de doutores, era simplesmente explicar certos pontos. E o fez bem, por isso alcançou índices expressivos de audiência. É bem verdade que o tema era atrativo mesmo, mas nem tanto assim, afinal a composição química dos cometas não é exatamente assunto de interesse geral. O ponto é que Sagan provou, como outro, que o povo não quer saber só de bobagens, também se interessa por questões mais sérias, desde que elas sejam tratadas como assunto geral e não de um pequeno grupo de privilegiados. Por que não há programas de filosofia na televisão? Talvez porque não tenha surgido ninguém com a capacidade de falar de filosofia ao público que assiste televisão. Por que há nos EUA programas como o mundo de Bieckman? Por que é um programa que fala de ciência de um modo que o homem médio pode entender. É claro que não se pode nem se deve vulgarizar a filosofia e a ciência, mas depois de prontas as teorias não custa nada alguém explicar do que se trata ao público em geral.

Um outro ponto é o papel da inteligência ou do trabalho intelectual. Se Einstein tem a preferência por ser inteligente é porque sabemos que o trabalho intelectual nos propicia a oportunidade de construirmos um mundo melhor, mais previsível, seguro e confortável. Também sonhamos que o intelecto nos propicie um mundo mais justo. Nada demais com esse pensamento. A razão tem produzido frutos incríveis e tem nos propiciado avanços inegáveis. Mas não é este justamente o papel da razão?

Tenho a impressão de que há muito preconceito contra a beleza. veja os jornais, as revistas, os livros, parece que todo mundo está de acordo que a nossa loira reboladeira está matando a inteligência. É bem verdade que a guerra por audiência e a sanha por fixar marcas no imaginário popular tem levado a exageros e deu início a um processo de imbecilização das programações, mas antes disto havia mais inteligência no mundo? As programações não foram sempre um misto de raras coisas razoáveis, poucas aceitáveis e muitas descartáveis? Onde consta que o inventor da televisão tenha pretendido transformar todos os homens em gênios? Ou o do rádio? E por acaso não há alguma coisa boa na programação?

Uma outra forma de ver essa problemática me parece mais profunda e mais séria. Estariam os críticos da loira reboladeira e da mídia madrinha afirmando que precisamos construir o império da razão? Não sei se todos, mas é inegável que há algo assim no ar. A própria sociedade é uma construção racional, pelo menos do modo como a conhecemos. Mas ela mesma só existe porque temos um instinto de agregação. A razão simplesmente nos deu instrumentos e nos apontou caminhos para passarmos da agregação à integração. Foi a razão que nos permitiu uma civilização ao invés de uma mera colméia de primatas. Isto não se discute. E nem se deve perder de vista que o nosso modo de organização social precisa ser o mais racional possível. Só que ser racional não é negar o que mais somos. Instintos e sentimentos são também humanos, tanto quanto a razão. Amar, desejar e pensar são atos de uma mesma humanidade. Uma sociedade racional é uma sociedade que se constrói em cima de regras racionais, não uma sociedade que impeça outras manifestações humanas além da racional. Ser racional não é ser insensível. Já não se discute a muito o papel das emoções no conhecimento? Méritos à parte, já não é isto o suficiente para percebermos que a razão não é sinônimo de humano? Razão pode ser a nota distintiva, mas não se confunde. Razão é um atributo, não o ser. Por este prisma fica bem evidente que as críticas à loira são exageradas e desprovidas de sentido.

A idéia de que nossos, digamos, instintos, (as “pulsões” freudianas) devam ser sacrificados para o bem comum é absurda e impraticável. Um equilíbrio é o mais sensato, a virtude está no meio, dizia o estagira. Veja só como a própria razão nos mostra que ela sozinha não pode vingar. Homens não são meros seres pensantes. A parte mais primitiva do homem também é humana, ou alguém saberia apontar um ser humano funcional sem sistema límbico?. Uma civilização que pretenda permitir a todos a sua realização pessoal não pode limitar a atividade humana ao campo do racional.

Não que se deva voltar a um estado pré-civilização, mas realmente não há motivos para supor que um ser absolutamente racional seja mais humano que nós somos hoje. E por isso admirar a loira é válido.

A idolatria da beleza só pode ser criticável por ser idolatria, não por ser da beleza. Admirar o belo e desejar o desejável não é absurdo. E se a mídia insiste em usar a loira, os inteligentes de plantão que se transformem em Carl Sagan. Neste particular vale a pena citar Umberto Eco: “Muitas vezes as críticas à cultura de massas é uma crítica às próprias massas”. Talvez o desejo de tirar a loira da televisão seja um desejo de manter as massas afastadas dos espaços comuns.

Um crítico da loira deveria pensar o seguinte: “Se eu consigo ver que essa loira nada tem a me oferecer além de alguns minutos de distração, por que outros não o poderiam também?” Nada há que justifique supor que uns são melhores que os outros. É só uma questão de oportunidades. Num antigo artigo Gilberto Dimenstein mostrou como as maiores audiências do programa eleitoral se deram quando eram discutidas questões sobre a cidade e não quando se exibiam os ataques pessoais, contrariando o senso comum de que o povo quer ver o circo pegar fogo. Um elitismo racional não deixa de ser elitismo. Exclusão é exclusão, não importa se o motivo é sexo, raça, idade, credo ou cultura.

Não que a mídia seja isenta de responsabilidade por uma série de fatos, mas também não podemos exigir-lhe um papel que não é o seu por natureza.

Não é que a beleza deva ser critério de integração social, mas também não pode a inteligência o ser. Gênios e estúpidos são todos humanos.

Não há porque opor Einsteins às loiras. Ambos merecem nossa admiração, ambos são humanos e cada qual denota mais uma parcela particular de sua humanidade. Os fãs da loira talvez admirassem também Einstein se tivessem a oportunidade de conhecê-lo melhor. Os admiradores de Einstein talvez não se incomodassem tanto com a loira se permitissem que seus sentidos se manifestassem mais vezes.

Por fim, só para constar, quem não conhece pessoas tão inteligentes quanto lindas?

Eu fiz referência ao talento. Para não esquecer, vale dizer que talento é uma forma peculiar de inteligência, que prescinde de muita sensibilidade. A arte é a prova viva de que a razão não é mesmo sinônimo de humanidade. Nem seu contrário como pretendem alguns.

É só o começo.