Prá dia ruim, noite de passados – parte 1 de 8

22 dezembro, 2008
(anteriormente: a estranha face da bizarrice, as cobras andam a roubas asas)
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Fora um dia tenso. Talvez melhor dizer denso. Sempre se complicava com essas palavras meio parecidas. Sem dúvida, complicado e cansativo, a começar pelo choque, literalmente falando, que o seu mais novo amigo de baladas tomara. Depois a reação da sua amiga, mais grosseira que o usual, o que lhe deixara um pouco preocupada.

 

Quase toda a manhã foi perdida esperando o socorro médico chegar, mas no fim ele ficou bem, já estava de pé quando os médicos chegaram. Seguiu-se um dia para refazer o trabalho perdido no incidente. Demoraram mais de três horas para achar o arquivo salvo em outro computador, um que ela até pensava já ter ido pro lixo, verdadeira carroça que era. Apesar do tempo perdido e da correria seguinte, com certeza foi menos ruim usar uma máquina velha do que enfrentar a fera impiedosa novamente, seria uma luta sangrenta, um massacre, na verdade.

 

E ainda teve de correr até um cliente desesperado com um pedreiro novo que não entendia nem a planta e nem nada que ele dissesse, o que não era surpresa, já que o infeliz era um paraguaio que falava muito pouco do português ou do que nós chamamos de português. No fim, ficaram até meio amigos, a ponto de conseguir uma erva de primeira. E apesar da casca de pobreza, do cheiro de mil cigarros de palha da noite passada misturados com algum tipo de batida feita provavelmente com álcool combustível e do sotaque tenebroso, o rapaz até que era apresentável e reparou que ele não tirava os olhos de sua bunda. Mas até aí ficaria surpresa se fosse diferente. Ela e a torcida do Flamengo, porque era mesmo uma buzanfa de respeito e o resto também não era nada mal. Tem também um leve acento indígena, cor morena acentuada de leve, altura impressionante numa fêmea brasileira, cabelo negro escorrido com só um pouquinho de ajuda da chapinha e do condicionador, olhos pequenos e puxados, uma cabeça chata de paraíba e um beição que a impedia de negar a raça. Se alguém conseguisse reparar, talvez percebesse que as orelhas são um tanto pequenas para o tamanho da moleira.

 

Na saída da casa, já dentro do carro, um outro cliente ligou e ela não sabia se gritava com ele, se abaixava o volume do som, se tentava pegar a papelada que caía ou se continuava a desesterçar o volante. Não fez nada disso: simplesmente meteu a traseira no muro. Sorte que nem pintado estava. Desceu, viu que o estrago não era grande, um pequeno amassado acima da placa e nesta. A pequena multidão fazia todo o possível para estar perto dela, praticamente exigindo que ela entrasse e esperasse mais um pouco. Depois de muitos minutos, conseguiu sair, mas ao chegar à segunda esquina um motorista gritou-lhe que a placa estava dependurada. Com base nessa nova informação, decidiu acelerar rumo ao escritório, mas na quinta esquina, trocando de faixas para acelerar mais, acabou por dar uma pequena fechada numa viatura policial, nada realmente grave ou que justificasse, mesmo para policiais, parar ou fazer mais do que olhar feio. Ultrapassou a viatura, que no mesmo segundo acelerou, emparelhou e deu a ordem de parada. Seu azar era que eram quatro policiais femininas. Acabou parada e seu carro foi guinchado porque a placa tinha acabado de cair. Ou melhor, o carro da sócia, que o seu estava lavando quando precisou sair. O horário não lhe permitia fazer nada imediatamente, não havia como pagar a multa, o guincho, nada. Só no outro dia.

 


Prá dia ruim, noite de passados – parte 2 de 8

22 dezembro, 2008

Pegou um táxi até o escritório. Entrou e foi conversar com a estagiária. Contou o acontecido. Esta chamou o outro estagiário. Este chamou o terceiro estagiário, o do choque. E este soltou um gritinho. Não havendo mais como protelar, foi até a sala da amiga.

 

─ Lisa, escuta, eu fui lá na obra da dona Marísia e, tem umas coisas lá…

 

─ Desembucha.

 

─ Bom, na saída, eu não sei, sei lá, foi assim tão de repente, o telefone tocou, eu tinha que atender, era importante, era o Rodrigo da Carla do meu tio, eles vivem fazendo com a gente, tem que atender, então e…

 

─ Diz o nome do morto logo.

 

─ Não morreu ninguém.

 

─ Ainda, né?

 

─ Lisa! Deixa eu explicar antes…

 

─ Conte tudo em duas palavras ou menos. Agora. Anda, duma vez.

 

─ Bati o carro.

 

─ Puta que pariu. Bateu em quem?

 

─ Ninguém. Foi no muro. Nem amassou muito.

 

─ Deixa que eu decido se foi muito ou pouco. Vamos lá ver.

 

─ Não tem jeito.

 

─ Como não tem jeito?

 

─ É que a placa caiu e daí…

 

─ Cala a boca. Não diz mais nada. Nem quero saber. – Olhou a amiga duramente, ergueu os olhos, abriu a boca, apontou-lhe o dedo, bateu as palmas, pôs a mão na testa, olhou para baixo, voltou para sua mesa, sentou – Quando eu te ligar amanhã, você me leva o meu carro onde eu estiver em no máximo cinco minutos. Consertado. Consertado. Agora me deixa em paz.

 

Esperava uma explosão maior, muito maior. Aquela secura acabou ferindo-a fundo. Saiu correndo para chorar no banheiro, mas não deu tempo e abriu o berreiro antes. Logo vieram a lhe acudir e ninguém fez mais nada por quase todo o resto da tarde.

 

Por sorte, mais cedo, seu amiguinho ficou ainda mais recuperado ao ver tantos homens de branco e logo os dois estavam já falando de, bom, digamos, amenidades. Descobriu que dois deles iram numa boate essa noite e passaram seus telefones, ele de carona na lábia dela. Dito e feito, era fim da tarde quando recebeu a chamada confirmando a festa. Deu a notícia e correu para casa, adiantando o fim do expediente em mais de meia hora. O outro não tem um privilégio desses, embora tivesse ficado no serviço mesmo dispensado pela Bruxa da Casa de Vidro, como a chamavam.

 


Prá dia ruim, noite de passados – parte 3 de 8

22 dezembro, 2008

Chegando em casa, a surpresa: sem luz. Corte por falta de pagamento. Desesperada, ligou para amigos, mas ninguém estava disponível a lhe ajudar. Falou com sua irmã, mas ela, embora se dispusesse a ajudar, mora em outra cidade e assim não tinha como lhe levar em mãos o dinheiro. Deu pelo menos trinta e sete telefonemas. Por fim, ligou para a Lisa, a qual lhe deu um esporro que faria um membro qualquer de uma dessas picaretagens politicamente corretas armar uma passeata imediatamente, um discurso baseado basicamente no fato de que os clientes pareciam ter combinado um calote generalizado e na sua inconseqüência, que a fazia dar os melhores presentes a qualquer aniversariante e gastar absurdos em sapatos, vestidos e lingeries da moda, como se algum homem fosse capaz de diferenciar uma calcinha do Paraguai de uma Victoria`s Secrets, mas não tocou no assunto carro. Apesar da verborragia ferina, emprestou o dinheiro de pronto, mandou por um moto-táxi, escondido no meio de uma revista dentro de um envelope dentro de outro, tudo muito bem colado e grampeado, não iria pessoalmente para continuar o trabalho interrompido pelo telefonema. O problema agora era não ter onde pagar a tempo de a companhia tomar conhecimento. Quando o dinheiro chegou, decidiu ir até a casa de alguém se arrumar. Depois de muitos outros telefonemas, dados enquanto tateava no escuro atrás de uma vela, conseguiu falar com uma amiga que mora mais ou menos próxima, a qual se dispôs a lhe emprestar o chuveiro quente. Mais se queimando do que iluminando, conseguiu escolher uma roupa e correu tomar banho, o que em verdade nem era exatamente o grande problema, porque estava um calor baiano, o ponto mesmo era secador, chapinha, maquiagem, algum ajuste na roupa e outros mil tipos inimagináveis de preparativos, cuja apresentação ficaria muito bem numa comédia com o Ben Stiller.

 

Após o banho de exatos quarenta e sete minutos, contados apenas no tempo de água caindo, foi esmurrada por uma triste realidade: engordara. A merda é que com isso o vestido que escolhera, um pequeno milagre que combinava o justo, o decotado, o macio e o brilhante de modo agressivo, mas não tão vulgar, acabava exageradamente marcado pela roupa de baixo, ao menos para olhares atentos e/ou invejosos. A amiga, que, apesar de arrependida, pensava que quem está na chuva é para se molhar, ofereceu suas roupas. Ao abrir o guarda-roupa, porém, foi chutada na canela com o melhor do mau gosto de uma dona de casa. Por sorte, a outra está mais acima do peso ainda e, por fim, sem saber o que fazer, jogou uma moeda: cara, com, coroa, sem lingerie. Tirada a sorte, começou a se maquiar e lá pelas tantas seu celular reverberou bem estridente Dancing Queen a partir da sala, onde o havia deixado recarregando, para todo o quarteirão. Correu nas pontas dos pés, como se tivesse medo de machucar o chão, erguendo seu vestido mais acima ainda. O aparelho estava ao pé de uma estante, por conta do medo de que alguma criança o derrubasse sem querer, muito embora não haja pequenos na casa. Catou-o como faz em casa, ou seja, em alongamento e não em agachamento, o que provocou a um só tempo um tremendo torcicolo e um estiramento da pele em volta dos olhos do marido. Tudo pronta e solenemente flagrado pela esposa, cujo ímpeto foi colocar os dois para fora imediatamente, mas aí lembrou que não era maldade dela, pelo menos não era uma maldade de caso pensado. Era seu amiguinho estagiário, querendo saber detalhes sobre a tal boate que não conhecia muito bem.


Prá dia ruim, noite de passados – parte 4 de 8

22 dezembro, 2008

Depois de muitas batidinhas de pé, risinhos, e voltas em torno do comprimento do fio do aparelho, voltou à carga com sua hercúlea tarefa de se fazer mais atraente ainda.

 

Finalizada a missão, pôs-se a verificar com vagar o resultado. Ficou com a impressão de que não era o suficiente, que faltava algo, um toque qualquer de qualquer coisa que provocasse um tanto qualquer a mais de efeito. A amiga, porém, perguntava:

 

─ Meu Deus, vai se encontrar com o Príncipe da Dinamarca? Caralho, se você encontrar com o Brad Pitt, ele vai facinho pro terceiro casamento.

 

Dito isto, acabou se conformando que não daria mais tempo de recomeçar tudo. Despediu-se e saiu. Ao fechar da porta, a amiga saiu pisando duro em direção ao quarto, deixando o marido gélido de medo.

 

Pisou fundo rumo ao prédio do amiguinho, mas o tanque seco fez o motor engasgar e a obrigou a se desviar para um posto de gasolina. A frentista com cara de crente a olhou de soslaio e não lhe dirigiu uma palavra nos dois minutos que ficou em frente à bomba. Novamente Dancing Queen ecoou cidade afora, dificultando a tarefa de achar a nota certa na bolsa. Passou em frente ao edifício e voltou a pisar fundo. Chegando na tal boate, sacou suas últimas notas vivas para pagar o estacionamento, dali por diante só por conta do desconhecido limite do plástico.

 

Quarenta e tantos minutos de fila depois, entrou na boate e foi direto ao balcão pegar uma cerveja. O outro pegou algo destilado. Cochichavam sobre os homens disponíveis e mesmo sobre os em tese indisponíveis. Lugar diferente do habitual de ambos, menos glamouroso, menos descolado, mais sóbrio e sombrio, acharam vantagem o público ser um pouco mais velho.

 

─ Molecada dá um trabalho, né não? Perguntou ele.

 

Já fazia algum tempo que não freqüentava boates, só ia a bares nos últimos tempos, acompanhada de muitos amigos. Era um modo de se precaver, de se defender, de levar a sério o pai nosso quanto às tentações. Gostava muito, mas como sabia que não sabia se controlar, preferia evitar. Deu certo por muito tempo, mas naquela noite queria esquecer todo aquele dia maldito, toda aquela semana maldita, toda a vida maldita que o dia a dia impõe, no fundo era só outra criança, mas com conta a pagar, muitas contas. Na quinta cerveja, começou a ficar difícil se servir e decidiram dançar, permitindo que ele finalmente se jogasse. Um pouco mais comedida, enquanto dançava absorvia umas e outras aproximações, mais sutis que o de seu costume, mas algumas estranhamente interessantes. Quando percebeu, o outro já estava entretido com alguém. Olhou em volta e procurou pelos rapazes da manhã, mas não os via. Foi atrás de mais cerveja. Acabou se decidindo por algo mais forte, porque não tinha paciência para aquele trabalho todo.

 


Prá dia ruim, noite de passados – parte 5 de 8

22 dezembro, 2008

Na volta, uísque com energético numa mão, para ele, caipirinha de vodca para ela, porque o aditivo a fazia arrotar sem parar. Contorceu-se pela multidão, chegou até ele e quando se deu conta, estava numa roda de quatro seres humanos nascidos do sexo masculino, os quais dançavam bastante próximos uns dos outros, em trejeitos deveras malemolentes e serpenteantes. Ficou um pouco em dúvida se se afastava ou não quando começaram a chegar mais perto e fazer encenações lascivas consigo. Preferiu se manter um pouco mais distante, porque sabia que aquele viadagem vulgar impediria a aproximação de qualquer homem.

 

Enquanto dançava ao lado do grupo, percebeu seu amigo escancaradamente excitado com os demais. Ela e toda a boate, porque sua calça vermelha era mais justa que a cintura da Barbie. E porque a cinta era de couro roto prateado. E porque apresentava a zona do zíper num cintilante dourado. E em prateado. E em azul. E em roxo. E sua camiseta preta apresentava um desenho abstrato em tons verde-limão e cenoura de um anjo africano ereto beijando uma demônio de seios californianos. Talvez alguém tenha reparado nas lentes de contato azuis. Ou no brinco ametista em forma de cruz de cabeça para baixo.

 

Ficou ali dançando por uns minutos, até que um camarada de barba por fazer, meio grisalho e com um olhar cevado, quer dizer, aquele jeito de peixe morto resultado de muita birita, tentava lhe explicar alguma coisa sobre a bebida que carregava na mão, um líquido azul esfumaçante, que ela recusava seguidamente. Nisso avistou um amigo que não via fazia tempo e foi até lá. E o camarada foi atrás. No meio do caminho, alguém segurou seu braço, ela olhou, não reconheceu, deu uma risadinha, tentando se soltar com a outra mão, mas o cidadão lhe puxou com mais força e então ela se deu conta de que era um dos médicos daquela manhã. Ela o cumprimentou com um beijo. Não gostou do perfume ácido dele. Nem da camisa azul clara, que o fazia parecer um bebê gigante com a fuça suja de carvão. Seu amigo não estava por perto e ela o pegou pela mão para mostrar-lhe o socorrido.

 

Atravessaram a boate, ela, o Tilápia e o Macaco Gordo, indo sem ser convidado mesmo. Quando chegou até o estagiário, fez as apresentações, só então se tocando de que seu velho amigo estava ali. Um velho colega, na verdade, fizeram uma disciplina juntos na faculdade. Ficaram umas vezes em algumas festas, provavelmente grandes e boas festas, já que delas não lembrava muito bem. Trocaram umas palavras sobre conhecidos e ele rapidamente perguntou se ela estava sozinha por ali. Antes que respondesse, chegou o outro médico. E logo estavam todos enturmados, os médicos,que chegara o outro no meio tempo, o velho estepe, o Lambari grisalho e toda a galera cintilante.

 

Dança com um, dança com outro, conversa vai e conversa, vem acabou entendendo que não eram médicos, mas enfermeiros, que o Atum era um corretor de seguros e que o Delivery Cock agora estava se divorciando pela terceira vez e trabalhava com venda de carros usados. E soube disso tudo e mais ainda porque a competição entre eles era obviamente feroz.

 

Mas o causo é que aquela atenção toda a fez perder a noção da hora e do quanto já bebera, mesmo porque não voltou ao balcão uma vez sequer, mas as bebidas não paravam de chegar, vindas pelas mais variadas mãos. E as bichas não cansavam de elogiá-la e tocá-la, causando gritante inveja nos homens. Em algum momento o grupo já estava em menor número que os copos circulantes, o que os obrigou a beber mais rápido.

 


Prá dia rui, noite de passados – parte 6 de 8

22 dezembro, 2008

Começou a ouvir uma saraivada de cantadas e elogios comuns, vindas de todos os homens. Tentava apenas dançar, mas obviamente estava se sentindo muito bem com tudo aquilo acontecendo em sua volta.

 

A certa altura, os viados começaram a reclamar das músicas e sugeriram ir para outro lugar. Deu-se uma profusão de nomes de bares e empecilhos a cada um deles. Finalmente o estagiário sugeriu irem para sua casa. A idéia foi bem recebida, ou pelo menos não causou tanto alvoroço.

 

Foram para a fila de saída, pagar. Chegando lá, não entendeu o valor que a mocinha de vestido amarelo e presilha vermelha lhe informara. Astronômico, incluindo um sem número de itens desconhecidos, mas até aí já estava naquele ponto em que qualquer coisa lhe seria marginal à memória. Mesmo assim, sentia que não poderia ser verdade. A funcionária disse que era aquilo mesmo e ficou olhando-a com a expressividade de um Keanu Reeves, com quem se parecia, aliás. Já alterada, não entendia nada e chamou seu amiguinho, o qual também não acreditou. Vieram então os viados e, num devir essencial dum imperativo categórico estrutural, começou um pequeno tumulto, atraindo a presença de seguranças. Veio o gerente, ou coisa que o valha, e estabeleceu que a única coisa a fazer era pagar. Findo o burburinho, ela suspirou e sacou o cartão, mas a operação não fora autorizada. Não havia limite suficiente. Apresentou outro. E um terceiro. Nada. Pensou em dar um cheque, mas estava sem já fazia tempo, mesmo assim começou a procurar na bolsa por alguma abençoada folha perdida, que, obviamente, não foi achada. Mas no vira e revira acabou dando com o dinheiro que a amiga, coloquemos os pingos nos is, lhe dera para pagar sua conta de luz. Não era o suficiente também, mas depois de algumas tentativas, as cédulas se somaram ao limite de dois dos cartões e a conta foi paga. Fechou a bolsa e virou o resto do copo que viera lhe parar às mãos, saído sabe-se lá de onde e muito menos do quê.

 

Entrou no carro e junto o Salmão e seu amiguinho multicolorido. Seguiu o restante da turma, empaçocados em algo remotamente parecido com um veículo automotor. Quando deu por si, estava já dentro dum pequeno apartamento, bem decorado até, basicamente uma sala média com sofás, balcão, uma pequena mesa, pia, dois armários em aço escovado, um cinza próximo ao sofá vermelho e repleto de almofadas coloridas, ilhado por um tapete mostarda com bordas vinho, além de um sem número de elementos coloridos e cromados, cem por cento inúteis e de formas jamais vistas na natureza, uma porta de um pequeno quarto e de banheiro minúsculo, enfim, um lugarzinho descolado. Não era a casa do seu estagiário.

 

A luz era amarelada e forte como a Sandra Bullock, que em nada combinava com a música acelerada e estridente que saía de um pequeno aparelho de som.

 

Havia dois incensos acesos em lados opostos do ambiente, um exalando um cheiro parecido com maça temperada com água sanitária e o outro chá de camomila com fuligem, fosse o que fosse, tinham nomes pomposos e vinham em caixinhas decoradas com ideogramas japoneses e chineses misturados.


Prádia ruim, noite de passados – parte 7 de 8

22 dezembro, 2008

Estavam todos com copos na mão, em tamanhos diferentes, com bebidas diferentes, preparadas pelo Robalo, que explicou um dia ter feito um curso de barman e ainda deixado escapar que assistira Cocktail três vezes. Não mencionou Showgirls.

 

E aqueles venenos coloridos somaram-se às roupas coloridas, aos objetos coloridos, aos móveis coloridos, às cortinas coloridas, aos incensos coloridos, aos quadros coloridos e aos crayons gigantes e coloridos em cima da porta da sala, que era colorida por dentro. Mas o diabo é que eram bons, doces, mas sem gosto de açúcar, fortes, mas sem gosto de álcool, gelados e um pouco espessos, ou quentes e leves como água.

 

A campainha tocou e o Minute Man velho de guerra entrou. Em alguns segundos, uma pequena tigela colorida pousou delicadamente sobre a mesa, contendo pequenos comprimidos de variadas cores.

 

E no momento em que a TV exibia um vídeo com voluptuosas trabalhadoras da construção civil com biquínis nada praianos e coloridos em fundos coloridos ela também começou a dançar loucamente, coisa de dois minutos após engolir algumas daquelas coisinhas coloridas que nem sabia o que fossem ao certo. Já havia tomados muitos líquidos coloridos saborosos e agora só sentia vontade de correr, mas dançar estava mais à mão.

 

Reparou que todos estavam usando óculos escuros. Talvez porque alguém tivesse acendido luzes fortes e não entendia porque a música precisava ser tão alta, mas não pensou em reclamar, só queria dançar. E achava tudo tão absurdamente colorido, cores fortes demais, pensou.

 

Alguém teve a brilhante de idéia de começar a dançar só de cueca. No que foi seguido por outros, mas alguns preferiram só tirar as camisas, sapatos e meias. E pareceu-lhe que um outro aumentou ainda mais o som e as luzes.

 

Apesar de tudo, não podia deixar de sentir-se bem, muito bem, aliás. E de reparar que ali quem não era lindo ou sarado era lindo e sarado. O Estepe se encaixava na primeira categoria e quase na segunda, o que percebeu quando ele lhe passou a mão pela cintura. Não sabia se queria ou não a ele, mas queria alguém e pôs em prática a máxima de que enquanto a pessoa certa não aparece, devemos nos divertir com as erradas mesmo. E assim foi. Mas logo ele a largou e foi ao banheiro. Demorou a voltar, aliás, nem percebeu quando ele voltou exatamente, não tinha mais a menor noção de tempo. Mas no meio tempo a viadagem voltou a simular atos sexuais com ela. E dessa vez ela deixou e entrou na brincadeira. Já novamente entretida com seu velho quebra galhos, não soube em que momento seu amiguinho começou a beijar e ser beijados pelos outros viados. Todos. Ou aquele em que o fã de Tom Cruise se aproximou, dançando muito bem, mas sem as reboladices dos donos da casa. Quando se deu conta, era a ele que beijava, não ao outro. Entre um copo e outro, entre um beijo e outro, um dos dois começou a descer suavemente seu vestido. Minutos ou horas ou dias ou segundos depois encarnava uma strip, só de lingerie, usando com maestria os móveis disponíveis pela casa, o que arrancava aplausos literais de todos. Não tirou a roupa de baixo, mas fez muitas ameaças, em tom crescente. E foi aí que os dois enfermeiros tiraram as calças e as cuecas logo de uma vez e foram dançar com ela.