Bonzinho tem que se foder – parte 1 de 10

6 março, 2009


─ Gordo daquele jeito, você acha que fede mais se for queimado de fora para dentro ou de dentro para fora?


─ De dentro para fora? Vai fazer o cara beber cinco litros de gasolina?


─ Diesel. Posso injetar também. E não estou pensando nas veias.


─ De fora pra dentro, a gordura fica logo abaixo da pele.


─ Por outro lado, os órgãos internos devem ser maiores e também cobertos de gordura. Ou com mais.


─ Mesmo assim…


─ Enfim…passou das duas, já faz mais de meia hora que estamos aqui.


─ Mais de meia hora. Mais de meia hora.


Sentados em horripilantes cadeiras de espera, continuaram a observar o camarada tentar ser atendido. Aquele gordinho narigudo tinha uma sibilante voz aguda irritante e lembrava um comediante qualquer aviadado que vira há tempos num DVD. De frente ao balcão de informações, há quase quarenta minutos ouvia o camarada se dizer motorista de táxi e querer receber a conta duma corrida que a filha da enfermeira-chefe, ou algo assim, não havia pago. Já era o terceiro dia em que o sujeito estava indo ali e nunca conseguia receber da cidadã. Na primeira vez, ela alegou uma cirurgia de urgência, depois simplesmente não apareceu e agora foi flagrada por ele e tentava convence-lo que o problema não era dela. O chofer tentava explicar que ajudara a moça, que ela parecia ter se metido em algum tipo de encrenca, provavelmente fora assaltada porque vestia uma camiseta rasgada horrível e uma calça uns vinte números maior que ela.


─ Olha, a gente ajuda, a moça parecia com problema sério, chorou igual louca, mas ficar no prejuízo não dá. A senhora tem que pagar.


─ Meu querido, cobre dela, ela pegou o táxi, não eu.


─ Eu voltei lá, ela sumiu, ninguém sabe nada dela. Até consegui com os vizinhos o endereço do escritório de engenharia dela…


─ Arquitetura.


─ Tá, fui lá e ninguém sabe dela faz dias. É filha da senhora, eu vi a senhora falar com ela daqui, eu vi a senhora no telefone.


─ Ao telefone, no telefone não cabe ninguém.


─ Puxa dona, a gente é trabalhador e a senhora fica aí de gracinha…


─ Não peguei o táxi, não vou pagar.


─ Dona, eu ia devolver ela pro lugar onde peguei, mas ela chorava mais que criança, nunca vi igual e olha que na noite a gente vê de tudo.


─ Não é criança, ela que pague.


─ Ela nem andava direito, mal falava, sei não dona, a senhora me desculpe falar assim, mas acho que sua filha foi, bom, foi estuprada. O que eu ia fazer?


─ Sei lá, que é que eu tenho a ver com isso?

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Bonzinho tem que se foder – parte 2 de 10

6 março, 2009


Vendo que a coisa não ia a lugar algum e precisando, principalmente querendo, falar com a dona em questão, viu que aquele era o ponto em que precisava agir. Ou pelo menos falar.


─ Se você trata seus pacientes como trata sua filha, não me surpreenda que esse lugar seja provavelmente o pior hospital do país, talvez do mundo. ─ Disse, caminhando em direção ao balcão, do outro lado do qual a cidadã estava protegida por um grosso vidro de meia altura.


─ O senhor não se meta, isso não é assunto seu.


─ Não seria se você não ficasse se escondendo nessa discussão besta ao invés de me atender. Eu vi quando essa cidadã aí sentada lhe disse o que eu queria, você olhou para mim, fez cara de nojo e depois deu de ombros e ainda riu. Agora presta atenção: pague o homem, pelo que ele diz sua filha não estava em condições normais, estava sem capacidade de discernimento e isto a torna responsável por ela. Pague.


─ Tá com dó, pague você mesmo.


─ Deixe de ser imbecil, que você seja cretina, tudo bem, que seja burra é coisa séria porque enfermeiras burras matam.


─ Em primeiro lugar, meu senhor, não me chame de você, me chame de senhora.


─ Prá puta que pariu com esses pronomes hipócritas. Você não ocupa cargo algum a merecer pronome de tratamento diferenciado e, apesar da sua cara, não é mais velha do que eu e como você pode ver bem, eu entendo muito de caras feias e judiadas. ─ O que sem duvida alguma era verdade, já que há trinta e tantos anos convivia com um rosto hediondo: alongado e inclinado para o lado direito numa angulação tal que a ponta esquerda de seu queixo fica alinhada exatamente na metade da sua clavícula, ao passo que a ponta direita fica precisamente no meio do peito. Poder-se-ia dizer que passa o tempo todo inclinado, mas seria pouco. É mesmo um rosto muito estranho.


Continuou, observado de longe pelo amigo inerte, mais interessado na possibilidade de conseguir ver a calcinha da mocinha da linha de frente das informações.


─ Vá pro inferno com sua soberba, se você não sabe o que seja um dever moral, diga isso em alto e bom som, os pacientes vão adorar saber que tipo de enfermeira está cuidando deles. Pague o homem, ele é um motorista de táxi que ajudou sua filha, não um traficante.


─ O senhor é muito petulante, sabia?


─ Pague o homem, sua vaca bêbada. Ah, não… era pra ser segredo? Então devia tentar colocar uma maquiagem nesse nariz vermelho e escovar mais os dentes, sem falar nessas olheiras sem fim, esses pés de galinha, quem sabe uma lipoaspiração nessas bochechas inchadas, lavar mais os cabelos, fazer as unhas, trocar as roupas antes de dois anos de uso, enfim, sua cretina, agir como um ser humano normal. Não aprendeu na faculdade que o primeiro sinal de vício é a falta de cuidados próprios? Mas escuta, eu não to nem aí prá como você gasta seu dinheiro, se com pinga ou vibradores gigantes, é seu, mas é meu problema, e muito sério, que você não me atenda e enquanto não pagar este homem, que trabalhou por isto, ajudou sua filha, sua filha, veja bem, enquanto isto eu não vou poder te dizer umas poucas e boas por causa do meu problema. Então, deixe de ser uma mãe solteira relapsa e volte a ser apenas uma profissional relapsa. Pague o homem duma vez, porra.


Bonzinho tem que se foder – parte 3 de 10

6 março, 2009


Espantada, não sabia como responder. Ela percebeu que o homem não era um paciente qualquer, se vestia bem, trajes com bom caimento, do tipo que raramente se vê hoje em dia, nada a ver com os sacos de estopa mal tingidos de azul que as pessoas usam e têm a desfaçatez de chamar de calças jeans, como se o fundo de uma calça fosse um instrumento para lustrar o chão e não para segurar os bagos dum homem ou levantar e firmar a bunda da mulherada. Como se calças fossem algo para se esconder uma televisão junto das pernas. Como se calças fossem uma espécie de armário com dezenas de gavetas. Velcros ao invés de zíper? Como alguém pode pensar numa sandice dessas? Em verdade, usava calça social, mas calça social, não os trapos rotos e polidos tão justos que fazem aparecer as marcas da cueca, muito menos as mirabolâncias de mil listras em voga entre os remediados e novos ricos. Ó Grande Lorde das Trevas, nós o presenteamos com essas almas temperadas com o mais ridículo do mau gosto jamais conhecido. Negativo, o camarada podia ser feio de lascar, e era mesmo, mas sabia se vestir sim senhor, nada daquelas camisas apertadas no colarinho e soltas na barriga ou, mais normal, o inverso. Folgas nos ombros? Braços sobrando? Nada disso. Um relógio discreto, mas imponente. Nenhum apetrecho na cintura, exceto uma cinta simples e bem colocada, nada de buracos extras feitos com tesoura.


Toda aquela figura, falando coisas ofensivas porque verdadeiras, tudo somado, a desconcertou. Pôs a mão no bolso da calça branca e tirou um maço de notas. Contou e entrego ao homem. Tentou manter a pose:


─ Tá bom assim? Não vai querer conferir para ver se paguei direito o homem?


─ Tá certo ─ disse o motorista. – Não fez a menor diferença. A conversa já não o incluía.


─ Ótimo, agora já posso dizer que você é a pior enfermeira jamais imaginada pelo diabo para atormentar pacientes inocentes. Quanta burrice é preciso para trocar uma injeção para enxaqueca com um comprimido antibiótico?


─ Do que você está falando?


─ Minha sobrinha, sua cretina, você sabe muito bem quem é. A mãe dela esteve aqui ontem, tentou falar com o médico, foi atendida por um outro qualquer que mostrou a receita. Tiraram o corpo fora e estão certos, não é problema deles ministrar os remédios, isso é problema dos enfermeiros.


─ E como o senhor sabe que fui eu?

─ Não preciso saber, é problema seu de todo modo, ou você não é a enfermeira chefe desse açougue?


─ Escuta aqui…


─ Não escuto merda nenhuma. Quem escutam são teus vizinhos, escutam toda noite o som dos caralhos entrando e saindo dessa coisa larga aí embaixo, aquele barulho horrível do ar saindo pelas laterais…


─ Seu filho da puta…


─ Ela me disse que quem deu o comprimido foi uma doutora. Anteontem. A mãe dela ficou sabendo que não havia nenhuma médica trabalhando aqui anteontem à noite. Então, eu vim aqui, ontem também. E vi você andando para lá e para cá, falando com os outros como se os tivesse comprado em Roma num lote recém chegado do Cairo. Esperei e deixei recado, mas você fugiu e eu tinha compromisso. Ela te confundiu com uma médica por causa da sua arrogância. E convenhamos, a única coisa em você maior que sua arrogância é a sua bunda.


─ Eu vou dar a volta e te dar uma porrada, seu desgraçado.


─ Não faça isso, pelo amor de Deus…eu vou ser obrigado a reagir e você vai gostar, será a primeira vez em anos que sentirá um homem de verdade te tocando, não um bêbado de fim de noite, não um desempregado que te coma a troco dumas moedas que você finge esquecer no criado mudo ou em cima da mesa, nem um noiadinho que só vai até a tua casa para levar a TV embora depois de te dar uma chupada meia boca, porque o pau dele não levanta mais mesmo…faz isso não…


Bonzinho tem que se foder – parte 4 de 10

6 março, 2009


Ela começou a dar a volta no balcão para se livrar do vidro que os separava, mas ele já havia tomado a iniciativa e foi no sentido inverso. Antes que ela se desse conta, apesar de um tantinho claudicante, ele já estava do lado de dentro, praticamente enfiando o dedo dentro do seu nariz.


─ Você não tem idéia do que seja dor mesmo, sua vaca. Nada que a tenha feito ir direto para a sarjeta se compara com o inferno que essa menina sofre. Sabe o que é ter Lúpus? É teu corpo te comendo o tempo todo, e não no sentido bom da coisa. Sabe quantos tipos diferentes de infecções essa menina já teve? Quantos órgãos estão à beira da falência? Sabe qual o grau de enxaqueca dela? É do tipo que faz uma tomografia parecer uma fotografia duma churrasqueira. Ela desmaiou de dor. E antes gritou, urrou, acordou metade da enfermaria. E acordou numa UTI.


Nisso, chegaram alguns seguranças e o pegaram pelo braço.


─ Senhor, venha por favor. ─


Não mexeu um músculo.


─ Senhor, é melhor vir com a gente.


─ Ou o que? Vão me bater para proteger essa torturadora de crianças? Ela trocou os remédios porque estava bêbada. Olha a cara de cachaceira dela. Sem um gole, isso aí não consegue nem mais respirar sozinha. Ela pode tomar quantas anfetaminas quiser, o remédio que for, não dá para esconder que é uma pé de cana. Se essa menina não for tratada decentemente daqui para frente, entre outras coisas, eu volto aqui todo dia, sua piranha do rabo gigante e flácido, vá catar seus cacos por aí antes de entrar naquele quarto outra vez.


Começaram a arrastá-lo, mas ele se desvencilhou e começou a sair sozinho, de costas. E ainda completou, olhando fixamente nos olhos da enfermeira:


─ Não me importa pra quem você tenha dado um dia nesse hospital, nem que esses dois a currem entre um gole e outro agora que nenhum médico te quer mais, o menos pior da sua vida vai ser perder o emprego, porque eu estou bem disposto a colocar uns e outros na cadeia por essa cagada. E tirem a mão de mim, puta que pariu, se eu já estou saindo vocês não precisam fazer mais nada, merda. Pela cara de vocês ela chupa tão mal quanto trabalha.


Sempre acompanhado pelos seguranças, passou reto pela entrada, o amigo se levantou, deu uma olhada ao redor e viu o povo todo com cara de quem não via a hora de também ir à forra. Teve pena dos funcionários. Mas tinha lá seus próprios problemas no momento.


Bonzinho tem que se foder – parte 5 de 10

6 março, 2009


─ Meia hora antes de se meter na conversa? Antigamente não seriam nem cinco minutos…


─ Antigamente eu tinha que ser rápido por problemas de agenda, você lembra de quantas alunas eu comia por dia?


─ Não me venha com lendas urbanas.


─ Mitos não são mentiras, meu caro.


─ Não, são córregos que a poesia transforma em Nilos e Amazonas.


─ Conversa fiada, precisamos repassar a nossa conversa.


─ Basicamente, saímos da festa, íamos buscar algumas amigas e de repente o cara da frente freiou sem mais e nem menos e você não freiou e socou a minha traseira com tudo.


─ De jeito nenhum eu vou dizer que entrei na traseira dum homem.


─ Ô merda…Você bateu o seu carro na traseira do meu, eu perdi o controle, rodei e fui parar no barranco. Simples.


─ Mais fácil que isso, só roubar um banco. Ou roubar dos clientes.


─ Mas aí, pelo menos se quiser ficar impune, você precisa montar um banco.


─ Verdade.


─ Pé na tábua, acho que fecha às três. Que horário de merda é esse?


─ Calma, foi assim que você acabou brincando de tobogã no barranco.


─ Eu não estava correndo.


─ Não, o carro estava. Você só estava bêbado.


─ Também não. Não muito. Eu acho… O pneu tava careca. E o amortecedor vencido. E desalinhado.


─ E de modo algum você tem qualquer coisa a ver com o acidente…


Bonzinho tem que se foder – parte 6 de 10

6 março, 2009


O causo era que o amigo havia conseguido a proeza de rodar sozinho numa rodovia, após sair dum churrasco de outro amigo. E como estava sem seguro, ligou para o amigo e pediu que esse batesse no seu carro para forjar um acidente e o seguro dele pagar o prejuízo. Depois de uns cento e vinte e nove nosso palavrões, assim foi feito. Em seguida ligaram para a seguradora, que enviou um guincho ao local. E naquele instante iam fazer um boletim de ocorrência tardio e fajuto para poder pedir a cobertura. Por sorte, choveu logo em seguida do fato, o que explicaria porque não tinham chamado a polícia antes. E também rendeu mais duzentos e trinta e oito palavrões seguidos.


A coisa correu fácil, apesar da demora, o amigo relatou o ocorrido, ele só soltou grunhidos confirmatórios. Papelada assinada, foram dar conta do terceiro problema do dia. Na verdade, o problema propriamente dito.


Entraram no carro e começaram a falar da bunda da policial que os atendera.


─ Chega de papo furado. Você é um idiota. E eu tenho provas. Um caminhão delas. Uma frota.


Bonzinho tem que se foder – parte 7 de 10

6 março, 2009


E de fato tinha. O outro caso ali era que a menina estava chantageando-o. E ele nada devia, mas não tinha como provar, fodido fodidinho. Por conta da sua própria bondade acabou por se ver sem ter como não ser apontado como pai. DNA era fora de cogitação porque não havia mais o que comparar por causa do aborto que ele financiara, assistira e ajudara a esconder os rastros, um trabalho feito com a sutileza e eficiência de um gordo bailarino. Vai daí que os primos traficantes ficaram sabendo de tudo e de seu envolvimento até o mais extremo dos pontos: culpado. Julgamento sumário. Execução ao amanhecer, com bala custeada pela família dele. A única saída era ela apontar o verdadeiro pai, mas a meliante viu que era mais negócio ganhar uma grana em cima dele, porque, afinal de contas, tinha-lhe entregue um diploma de otário.


─ É simples, eu sei. Você é uma bicha que não sabe seu papel na ordem natural das coisas. Não se pode ser bacana e atraente ao mesmo tempo meu caro, não se pode conquistar e ser desejado ao mesmo tempo.


─ É o que você diz…


─ Eu sou grotesco, posso ser estúpido sem medida alguma, não preciso medir nada, as conseqüências serão sempre as mesmas para mim. Mas para pessoas normais, é diferente, há um limite que não se ultrapassa, um ponto a partir do qual os efeitos acabam custando mais do que os prováveis benefícios. Mas é um limite, não é uma proibição.


─ Mas que merda de argumento é esse?


─ Mas como é tapado…mulheres adoram uniformes, certo?


─ Dizem.


─ Jesus… Adoram. A firmeza, a dureza, até a rudeza, mas vá um guarda tacar-lhe uma multa para ver se ela vai suspirar por ele…


─ Certo, você tem um ponto.


─ Eu não ligo para pontos. É um fato. Tal qual você ser um idiota.


─ Só tentei ajudar.


─ O idiota aqui é você. Não me trate assim. Você queria abraçá-la, segurar suas mãos no momento difícil e conduzi-la para a cama mais próxima. Só um burro pode acreditar que beleza interior dá tesão.