No reino da gurulândia, procure os sapos

9 dezembro, 2008

Esqueça esses gurus metidos a besta que pululam por aí, normalmente por conta de parentescos nas redações ou direções. Por exemplo, o Rubem Alves, esqueça. Gente que faz é que deve ser ouvida.

 

O Professor José Carlos Antonio tem diversos sites e blogs em que tenta tornar mais simples o ensino e o aprendizado de física. Comece pelo Física com Sabor e descubra os outros. Para ter uma idéia da facilidade dele em falar sobre ciência,sugiro a entrevista que deu na comunidade do Orktu Caneca na Rede (uma outra prova de que o Orkut não é só para espalhar mensagens melosas e agendar beberagens – outra é a comunidade Pergunta).

 

Amigo dantanho nas virtualidades, é coisa comum nos vermos em rusgas mais ou menos polidas. O causo é que quem não gosta de discordâncias não se faz acompanhar de gente inteligente.

 

Aqui um exemplo do trabalho do professor:

 

Quais conteúdos são fáceis e quais são difíceis de ensinar?

Essa pergunta surgiu no fórum de Física do Portal do Professor (MEC) e eu vou postar aqui a minha resposta (porque gostei da minha resposta e acho que vale a pena refletir um pouco sobre ela, mesmo que seja para discordar). Então, lá vai…

Perguntinha capciosa essa.

Na verdade eu acho que todos os conteúdos são igualmente “fáceis” ou “difíceis” e o que os torna “mais fáceis” ou “mais difíceis” são as circunstâncias em que são ensinados. Vou tentar resumir o que penso em uma espécie de “receitinha de bolo” onde cada ingrediente que faltar significa um pouquinho a mais de dificuldade para “ensinar” qualquer conteúdo. A receita é minha, por isso quem não gostar que faça seu próprio bolo ou me ajude a melhorar o meu, combinado?

Receita para um conteúdo ser fácil:
1 – existência de pré-requisitos: sejam matemáticos, físicos ou mesmo linguísticos (porque aluno que não compreende a própria língua dificilmente lê textos ou compreende todas as expressões usadas pelo professor). Ahá! Isso significa que antes de se meter a ensinar alguma coisa é preciso fazer uma “diagnose” do aluno para saber o que ele já sabe; as vezes uma boa conversa sobre o assunto já resolve e… Sim, isso mesmo, é preciso fornecer ao aluno a base mínima para que ele compreenda aquilo que você vai ensinar agora;
2 – aula bem preparada: sim, planeje a aula! Aula bem preparada não é aquela em que o professor “sabe o conteúdo”, mas sim aquela em que ele “planeja como ensinar o conteúdo”. Ah, não se esqueça, você pode ser bem melhor do que o livro didático que usa, certo? Então capriche e planeje cada detalhe da aula;
3 – estratégias inovadoras (na verdade não precisam ser “inovadoras”, mas tem que ser “boas estratégias”): use o laboratório, a sala de informática, a biblioteca, a sala de vídeo e até mesmo a cozinha da escola se precisar, mas não tente imaginar que apenas lousa e giz, aliadas ao seu imenso talento de professor, tornarão suas aulas interessantes;
4 – didática apropriada: coisas como “contextualização”, “transversalidade”, “inter e intradisciplinaridade” não são palavrinhas para decorar textos de pedagogos malucos, elas realmente significam que é preciso um bom método, uma sequencialidade, um contexto apropriado, ênfases e redundâncias de vez em quando e objetividade quase sempre. Enfim, não se deve matar as aulas de didática na faculdade e nem queimar os livros dos pedagogos;
5 – interatividade: isso não é coisa só de jogos de computador, interatividade significa um aluno que interage, que “se vê quase obrigado a ficar curioso e perguntar, tão desconcertante é a maneira como você lhe apresenta algo que o torna curioso sobre aquele assunto”; perguntar aos alunos é bom, mas estimulá-los a fazerem suas próprias perguntas (e não apenas sugerir a eles que se estimulem) é melhor ainda;
6 – bom dimensionamento temporal: aulas tem começo, meio e fim, e se o tempo não for muito bem administrado, o próximo capítulo da novela vai lhe obrigar a fazer uma retrospectiva tão grande que o assunto vai ficar chato, ou você vai deixar de fazer essa retrospectiva e os alunos vão se sentir perdidos. Alguns assuntos demandam mais tempo para serem trabalhados e é preciso de um bom roteiro para que seu filme sobreviva aos comerciais;
7 – visual clean: sim, sua aula e sua lousa têm que ser “clean”, limpinhas. Aulas cheias de detalhes desnecessários e lousas inlegiveis contribuem uma barbaridade para que qualquer assunto se torne “difícil”. Inclua nesse “clean” o fato de que os alunos não precisam que você prove para eles que sabe tudo sobre o assunto, apenas que você os ajude a saber um pouco também. Enfim, não seja exibido nem relaxado;
8 – luzes, câmera e ação!: você é o showman (ou showgirl) e sua aula é o espetáculo, o assunto é só o coadjuvante nessa trama. Se você fizer bem feito nem vão perceber que era tão difícil assim!

Hummm… Fui!


Estranhezas

5 dezembro, 2008

Visto num salão de beleza: vidrinho de um creme dourado cintilante (para combinar com as poltronas laranjas cintilantes), no qual se lia: Coiffer Brilho de Vinho Cabernet – Brilho Nostalgiante – Cheiro Embriagante.

Ouvido no mesmo salão: vamos almoçar? – Ah, acabei de comer um macarrão, esqueci que era hora do almoço…só se for pra enganar, agora…

O preço do corte? Só sabe quem fica. Há atos corajosos e atos meramente estúpidos.

Possível explicação: as proprietárias têm forte acento português.


A Estranha Face da Bizarrice – parte 1 de 4

4 dezembro, 2008

Tem um rosto deformado, alongado e inclinado para o lado direito numa angulação tal que a ponta esquerda de seu queixo fica alinhada exatamente na metade da sua clavícula, ao passo que a ponta direita fica precisamente no meio do peito. Poder-se-ia dizer que passa o tempo todo inclinado, mas seria pouco. É mesmo um rosto muito estranho.

 

Também tem o braço direito sempre junto ao corpo e o antebraço não faz o movimento completo para baixo.

 

Por fim, a perna esquerda é um pouco menor que a direita, mancando sutilmente.

 

No resto, quase normal, um pouco magro, imberbe, coisa de metro e oitenta, cabelo castanho em corte tigela.

 

Sim, lembra um tanto o grotesco Hawkins.

 

Estava de frente a um sujeito moreno, cabelo raspado, com quase dois metros de altura, musculatura absurdamente turbinada, indefectível usuário contumaz de esteróides e consumidor em doses paquidérmicas de todo tipo de suplementos alimentares, razão pela qual peidava a cada quinze segundos ou menos. A discussão já avançava por quase cinco minutos:

 

– Vá tomar no cu. – dizia –obviamente soava assim: cú.

 

– Peraí, assim também não –respondeu o grotesco maior – se vai partir pra baixaria, aí não tem negócio.

 

– Não tem mesmo, não quero negociar, já negociei semana passada. Paguei, agora eu quero o que é meu.

 

– Mas eu já te expliquei…- antes que pudesse terminar, o primeiro avançou:

 

– Se eu gostasse de explicações ridículas eu assistia entrevistas de políticos. Pode limpar a bunda com sua explicação. Não comprei explicação, você é professor dalguma merda, hein?

 

– Cara, vai de leve, paciência tem limite.

 

– É sério? Mesmo? De verdade verdadeira?

 

– Não chegou, entendeu? Não chegou, não chegou…não chegou. Era pra ter chego, mas não chegou, não mandaram, veio de tudo, olha aí, vê aí quanto caixa espalhada na loja, tá cheio de peixe aí, caramba, só que o teu não veio. Mesmo que tivesse vindo, tinha que fazer a adaptação…

 

– Já taria feita, se tivesse chegado quando você prometeu. Não é problema meu, eu não perguntei quando vinha, perguntei quando eu poderia passar pra levar, tem alguma razão pra você ter confundido levar com chegar?

 

– Meu, calma, vai chegar, logo chega, vou ligar lá e ver o que aconteceu…


A Estranha Face da Bizarrice – parte 2 de 4

4 dezembro, 2008

– Se eu quisesse saber o que aconteceu eu te perguntava… perguntei? Não, né?

 

– Mas…

 

– Eu não tenha nada a ver com a tua vida braba, cara. Eu paguei, vou levar. Não tinha certeza, não vendesse. Eu fiz minha parte, faça a sua.

 

– Mas como é que…

 

– Como é problema seu, quando é problema seu, de onde é problema seu…pagar era problema meu e eu já resolvi, agora se vira aí. Seja homem e me dá a merda do peixe, caralho.

 

– Ô..ô… quéísso? Não fala que eu não sou homem…

 

– Não tem palavra, quer que eu pense o que? Que você é o John Wayne? Desculpa é coisa de maricas…

 

– Bicho, não é por aí…

 

– Não me interessa por onde é, não tô pedindo informação, não sou turista, dá o peixe e eu caio fora.

 

– Mas não tem peixe.

 

– Eu quero esse peixe. Se vira.

 

– Sósiô virar um peixe…

 

– Serve, qualquer coisa, desde que eu saia daqui com o diabo da cobalto.

 

– Olha, leva uma macracanta, eu dô aí um desconto…é uma bótia também…

 

– Acontece que a minha bótia é o dobro, mas mesmo que me oferecesse quatro, não quero. Eu liguei, você falou que tinha, eu vim, você falou que tinha acabado de vender prum amigo, perguntei se arrumava mais, você falou que chegava no máximo anteontem, reservei, paguei, e disse que vinha hoje pra dar tempo da adaptação. E a merda é que você sabe disso tudo, mesmo porque já é a terceira vez que eu repito. Daqui a pouco vou achar que além de viado é burro.

 

– Meu, aí deu. Paro, belê,paro aí. Eu não me responsabilizo…

 

– Isso eu já sei, você é irresponsável.

 

– Meu, deu, né? Deu, né? Já deu…

 

– Eu não, não pense que todos são como você…

 

– Aí, mais uma dessas…


A Estranha Face da Bizarrice – parte 3 de 4

4 dezembro, 2008

– E o quê? Vai me dar porrada até eu ficar com a cara torta?

 

De olhos arregalados, o outro não sabia o que responder, olhou para cima e continuou depois de um tempo:

 

– É cara, tu é mesmo muito homem, se escondendo atrás da sua condição, aí, da tua deficiência, só porque você é especial…vai falando, aí….é…

 

– Deficiente é o cérebro da sua mãe, que te deu a pior educação possível…aprende aí: eu não sou deficiente físico e nem especial porra nenhuma, eu sou deformado. E minha condição atual é só de puto da vida porque você não honra tuas bolas atrofiadas de tanto esteróides e não cumpre o que promete.

 

– Meu, faz o seguinte, fica aí, ou vai procurar seus direitos que eu vou cuidar da vida, ta…

 

– Tá achando que eu sou o tipo do cara que vai no Procon? Bicho, se você não me arrumar a merda do peixe eu começo a quebrar tudo aqui e já vou adiantando que não tenho nem merda pra cagar pra pagar teu prejuízo…mesmo porque parece que toda merda do mundo já ta na tua pança, pronta pra sair a qualquer minuto, você ta podre cara, é uma bufa atrás da outra, dá licença…porra, se tem uma coisa pior que viado é viado peidorreiro, fedido…

 

– Ah..ah, não…ô caralho – aquietou-se por meio segundo e disparou uma tremenda porrada de baixo para cima na prateleira de vidro, formando uma cascata barulhenta de cacos, filtros, bombas, compressores e outras traquitanas. O sangue cobriu-lhe toda a mão e pingava rápido no chão. Todos na loja, se já não sabiam o que era melhor fazer, esperar o gorila socar a cara feia do outro ou aproveitar para despejar suas reclamações também, perderam-se de vez.

 

O bombado olhou para sua mão, ergueu a cabeça um pouco e desabou estrondosamente.

 

– Pronto, a donzela não pode ver sangue…dai-me paciência. Quanta viadagem cabe num cara só? Imagina se ele não tomasse testosterona a rodo…

 

Antes que alguém pudesse chegar perto, o maior abriu os olhos e esboçou um arremedo de recuperação. Pra azar dele, o camarada da boca suja mostrou-se muito rápido e chutou sua cara e pisou em seu pescoço, fazendo um barulho que tirou dum cidadão mais ao fundo da loja um gemido inequivocamente contrário a qualquer esboço de masculinidade.

 

– Você vai fazer o seguinte: vai ligar pro cara pra quem vendeu a outra cobalto, vai comprar de volta, não interessa o preço, vai fazer ele trazer aqui em cinco minutos, vai me entregar e eu vou embora. Se não for assim, eu esmago teu gogó e ainda quebro tudo, faço um pampeiro dum jeito que ninguém vai ter tempo ou condição de chamar uma ambulância e só Deus sabe quanto sangue você já perdeu e vai perder até chegar um socorro. Tamos conversados?


A Estranha Face da Bizarrice -parte 4

4 dezembro, 2008

Com esforço, aquiesceu em um silêncio que bem poderia ser o típico dos derrotados ou dos que entram no que algum autor queridinho da crítica chamaria de pânico surdo. E daquele jeito foi feito, ligou, mesmo com a mão a pingar sangue por todo o balcão, pediu, praticamente em prantos, para comprar o peixe de volta, o amigo chegou mesmo em cinco minutos, o animal embalado num saco com água foi diretamente às mãos do consumidor cioso de seus direitos, que olhou, olhou, olhou e foi saindo pela porta. E saiu.

 

Entrou no carro, ligou, manobrou, saiu da frente da loja e logo parou num semáforo, onde aproveitou para fazer uma ligação do celular.

 

– Como ele tá? … É? Já ta baixando, então? Bom, bom, fica de olho aí e diz que eu já consegui aquela cobalto que eu tinha falado…não, não é corbado, é cobalto, azul cobalto…não, não, escuta, não interessa como é, ele sabe, ele sabe.Vou desligar, já to chegando, vou desligar, até.

 

Desligou e continuou dirigindo, lembrando por um instante de uma cliente da loja, loira, alta, esguia, altiva, um ar confiante mas nada esnobe, andava como modelo, talvez fosse, muito provável que fora um dia. Sorriu de leve com toda estranheza de sua cara singular, ergueu a sobrancelha ao ponderar que ela estava com ares de concordância com sua atitude naquela discussão, pelo menos até onde fora uma discussão. Voltou a pensar no seu sobrinho e calculou mentalmente o caminho menos tumultuado àquela hora. Fechou a cara, ficando ainda mais feio e começou a imaginar a bótia azul cobalto entrando e saindo dos enfeites que inventara com pedras e paus no aquário que montara para a festa surpresa, estragada por uma estranha doença ainda não diagnosticada com certeza.