PERIPÉCIAS EM MENDOZA – DIA 1

O ônibus que nos levou de Córdoba a Mendoza era da empresa Andesmar e também era um belo veículo, dois andares, ar condicionado, jantar, água e café. A sorte ajudou e pegamos as janelas frontais. A passagem semicama sai por 280 pesos (R$ 112,00).

Na saída de Córdoba um trecho com algumas curvas e uns poucos buracos sugere que paisagem será diferente, mas logo tudo volta ao padrão argentino de estrada: retas e pastos infinitos. A chegada em Mendoza, porém, permite ver ao longe os Andes e sua cabeceira branca, bem ao fundo e coberto por uma nuvem que pode fazer alguém pensar em chuva, mas nem pensar.

Chegamos a Mendoza domingo de manhã sem um puto peso no bolso. Ao menos tínhamos duas referências de hostels. Perguntamos ao pessoal do quiosque de informação ao mané, ops, turista, pela dada pelo sergipano doido e também sobre casas de câmbio naquele terminal. Nada feito, só no centro, segunda, mas ele informou que havia um cambista informal no guichê da El Rapido. Fomos lá. Na real, era uma mini agência, coisa comum com as grandes empresas nas grandes cidades. Perguntamos por câmbio e veio um gordão com a boa notícia: 1,50. O oficial acima de 2,40 e um paraguaio nos pagou 2,40 e esse camarada queria nos esfolar com 1,50. Era pegar ou largar. Pegamos pouco e fomos a pé, seguindo as instruções turísticas. Doze ou treze quadras.
Domingo de manhã, oito, oito e meia, se tanto. Pois com menos de cinco quadras já tínhamos matado uma garrafa de dois litros de água mineral. Marca Villavicencio, com um gostinho residual muy bueno, algum mineral em excesso por lá, espero.

Chegando próximo ao nosso destino, o Mendoza In Hostel (o hostel da juventude), decidimos nos precaver e já perguntar o preço de outros albergues no caminho. Vimos um com uma entrada muito convidativa, o Break Point e entramos. A chica muy hermosa nos atendeu com muita simpatia e nos deu os preços, 80 pesos (R$ 32,00), com café. Pareceu um pouco salgado e decidimos continuar a caminhada. Saímos e uns quatro passos depois ouvimos uma barulheira. O outro mané achou melhor não olhar para trás porque era confusão. Achei melhor olhar e eis que era o sergipano doido na sacada do hostel. Voltamos.

Entramos e o maluco nos contou sua aventura. Enquanto tirávamos 65548 fotos no centro histórico de Córdoba, ele tinha pegado um ônibus a tarde mesmo. Chegou a Mendoza duas da madrugada e se foi para o Mendoza In Hostel. Como bom brasileiro, não tinha feito reserva e claro que não tinha vagas. Para descer poucas quadras com sua mala pesada, sem pensar, não na avenida Villannueva, a rua da badalação. As calçadas largas são tomadas por mesas dos mil bares e o povo ainda invade a rua. Para ajudar, a maior parte dos hostels também são bares. Ferveção total. Pois para atravessar aquele mar de gente com uma mala nada mochileira, o doido pegou um táxi e parou no Dona Juana Hostel, quase em frente do Break Point. Não havia vagas, mas o carinha o deixava ficar ali num sofá por 120 pesos. Sem café. Achou melhor tentar a sorte um pouco mais abaixo e lá foram ele e sua mala metros abaixo até o Break Point, onde ainda havia vagas.

E por ali ficamos. Descemos as tralhas no quarto e fomos lagartear um tanto na sacada do mesmo, de onde se tinha uma bela vista para a piscina do hostel e do ao lado, onde uma chica muy caliente limpava a superfície com uma rede. Logo apareceram uns moleques e molecas argentinas. Playboys e patricinhas, viajando de carro. Foram receptivos e trocamos algumas palavras sobre Mendoza e o que fazer por ali. Elas sugeriram conhecer Villavicencio, uma cidadezinha nos arredores, mas me pareceu muito Campos do Jordão para quem viaja milhares de quilômetros de ônibus.

Como ainda estávamos sem pesos e com fome e precisávamos verificar os horários das viagens para Santiago, decidi voltar à rodoviária e ser esfolado mais um pouco pelo gordão da El Rapido. Aproveitamos o caminho para almoçar num restaurante fora da caríssima Villanueva. Não tínhamos pesos, mas o nordestino se ofereceu para pagar. Em frente a uma bela praça, devoramos um pollo assado. Sem farofa. O troço é deveras comum por lá, é frango de tudo que é jeito por todo tipo de preço. Pegamos um inteiro com papas fritas e uma Pepsi (argentinos não são muito fãs de Coca Cola) de 1,5 litros, tudo a 68 pesos (R$ 27,20). Sucede que um frango inteiro lá é algo meio diferente do Brasil, porque o bicho vem despedaçado, sem pescoço, pés e outras partes nada populares, mas com mais de duas coxas e duas asas. Comemos o mutante e eu já estava para lá de satisfeito, mas o sergipano queria mais.

Descemos por belas ruas bem arborizadas até a maior praça da cidade, que em verdade são quatro, todas juntas. Tiramos algumas fotos, mas não ficamos muito porque, bem, porque aquilo é um deserto. O calor bate fácil em 40 e a umidade relativa do ar chega a 50 em um ou dois dias do ano, se você tiver sorte. Por que diabos você acha que o vinho de lá é bom? Porque a uva fica concentrada com os elementos da terra, não se faz vinho com uva Itália.

Na rodoviária tentamos a sorte com outro cambista independente e doeu menos: 1,80. Troquei só mais um tanto para a janta e o hostel do dia seguinte, só por via das dúvidas. Na segunda procuraríamos um lugar melhor.

Mendoza é uma bela cidade, mas sem muitas atrações nela mesma. Tudo acontece nos arredores. Porém, um passeio por suas ruas e praças num domingo é coisa prazerosa. Ou tanto quanto o calor deixe ser. Tranquilidade, muitas árvores e algo parecido com uma brisa a cada duas horas.

Voltando ao hostel, eu e o sergipano decidimos conhecer o parque San Martin, no final da Villanueva. O outro mané não conseguia nem sair do lugar. Mais dez ou onze quadras. Só até lá. O parque é muito grande e bastante cheio em alguns pontos, com gente de todo tipo, mas predominantemente pobres. Muita água corre por suas ruas, vinda de fontes próximas. Há um grande lago, um pouco sujo pela farofa dos locais. O local rende boas fotos e é bem agradável também. Tiramos um tanto de fotos e voltamos. A avenida já começava a dar sinais de vida noturna.

Mendoza tem água correndo em pequenos córregos por todo lado, mas normalmente em pouca quantidade. Há muitas minas, por causa dos Andes, mais precisamente das geleiras. Muitas vezes é cristalina. Mas não é o suficiente nem para ser represada, não ali na cidade. Água, na verdade, é um problema sério numa cidade que tem sorte de ver 350 milímetros de chuva por ano. Lá não se reza por chuva, mas por neve. É preciso que as geleiras se encham no inverno, para que no verão a água desça montanha abaixo pelo belo rio que dá nome à cidade. Em 2010 não nevou quase nada e no verão de 2011 a cidade adotou um racionamento brabo. Ainda hoje, lavar carros e regar o jardim só depois das 22:00, sob pena de multa de quase mil pesos.

Voltamos ao albergue e fomos dar um tempo na piscina. Na churrasqueira, outros argentinos se preparavam para um churrasco. Sentamos de frente para a piscina e trocamos duas palavras com os playboys da manhã. Lá pelas tantas, um argentino careca veio nos oferecer uma Fernet numa taça improvisada a partir duma garrafa de Coca dois litros. Beber junto é uma forma de se abrir a alma e logo nos enturmamos com aquele outro povo. Estavam por ali uma belga, o tal argentino careca, uma mexicana, dois ingleses e outro argentino careca. Odiavam Michel Teló. Pronto, somos todos amigos agora. Não foi nada fácil explicar toda a poesia do hit do verão. “Nossa não é nuestra?” “Sin”. “Como em Nuestra Señora?” “Sin, mas é uma forma abreviada, resumida, comum no Brasil. É para dizer que algo é muito bom, uma forte interjeição”. “Ah, como se la chica fosse muy bonita?” “isto”. O resto da letra deu mais trabalho ainda e no fim todos chegaram à conclusão de que a música tinha se tornado ainda pior agora que sabiam o significado da letra. O curioso dessa conversa é que os argentinos entendiam bem o português. Se nós entendemos a letra dessa josta, talvez seja porque estejamos deixando de falar bem a nossa língua.

Seja como for, a parrilada foi avançando. Serve-se asado (costela), choriço (linguiça) e morcilla (choriço). A churrasqueira tinha ao lado um local com uma grade de ferro pesada, onde se colocava fogo na, que então é sob a outra parte, quando vira carvão é colocada debaixo de onde está a carne. Sem dinheiro não pudemos ajudar muito, então buscamos ao menos umas cocas e explicamos o acontecido aos churrasqueiros. Sem problemas. As patricinhas ficavam indo e voltando da piscina, mas elas não conseguiram nenhum bobo para ficar correndo atrás delas, exceto os playboys. Moleque é moleque em todo lugar.

O churrasco foi longe. No meio da confusão de inglês britânico, espanhóis, alemão e portugueses, o álcool traduziu bem e todos se entenderam maravilhosamente. Mesmo a mexicana que falava como uma metralhadora se tornou compreensível. Ninguém queria falar de futebol. Mal dos governos se falou bastante. Na real, aquele povo era muito divertido e inteligente. Mais um bom motivo para a galera classe média do Brasil dar umas andadas fora de hotéis e pousadas caras: aprender a ser legal sem ser superficial. Todos tinham muito interesse sobre a vida de todos em seus respectivos países, incluindo conversas atípicas para um churrasco da moçada.

Argentinos em geral adoram rock e conhecem muito de música brasileira. Paralamas são adorados. Expliquei a eles que por algum estranho motivo quase não há música deles no Brasil. Na infância também viram Tchu-Tcha. Com paquitas e paquitos. Ô vergonha de ser brasileiro. Uma das paquitas da época se casou com o cantor de uma das bandas mais interessantes e populares de lá. Um tipo que num dia toca para 40 mil pessoas e no outro vai uma aldeia indígena declamar poesia para trinta neguinhos.

Claro que apareceram outros brasileiros. Um capixaba e sua namorada carioca. Vinham de um passeio que já estava nos planos, ir até um Cristo Redentor nos Andes. Contaram como foi e deu mais água na boca. Era gente boa também, mas ficaram pouco conosco.

Um dos argentinos carecas, mais baixinho, é sonoplasta. Largou mão de trabalhar para a Disney em Buenos Aires e se meteu a abrir um negócio próprio. Deu certo. O outro argentino careca, mais alto, é chefe de RH num laboratório em Buenos Aires. São amigos e viajavam juntos. Um dos ingleses é neurocirurgião. A belga é enfermeira. Os playboys são playboys, as patricinhas são patricinhas e a mexicana é argentina.
Com aquele calor não havia cerveja e “Fuera Castros” (Fernet com Coca) que desse conta da sede. Seja dia, seja noite, bebe-se até areia. E quando se pensava que não havia mais nada, aparecia um dos argentinos com mais Fernet. Branca. Não é a cor, é o nome da marca. A Absolut das Fernet´s.

O povo começou a se recolher e logo fui também. Um dos playboys, que era algo como um namorado de uma das paty´s, já dormia há algum tempo. Ou não. Quando ela chegou, os dois começaram a falar na linguagem universal do amor, ou seja, o pau quebrou e fosse espanhol, fosse russo, dava para entender que ele a chamava de galinha, para dizer o mínimo. A outra patricinha estava sozinha, mas, pelo que se viu, com os outros playboys pagando a conta na esperança de faturar algo. Até ali, nada de negócio com ninguém. No dia seguinte se foram todos os playboys e todas as patricinhas. Tchiao, niños, mama llama para que tomem leche.

Até aqui, foi a parte mais divertida da viagem. Não tão interessante quanto Córdoba, Mendoza é uma belíssima cidade, com uma vida noturna invejável. O povo na Villanueva faz mesmo a festa, mas como já estávamos um tanto borrachos, ficamos no churrasco mesmo. A cidade não tem dó dos turistas e os trata com preços de turistas e não há câmbio que dê jeito, mas também nada absurdo ou proibitivo. Cervejas a R$ 7,00 a garrafa. Os argentinos ainda não fizeram por merecer a fama de arrogantes, tampouco as argentinas, sempre muito solícitas e prestativas. Nenhuma rivalidade no ar. Definitivamente, o mundo real é um e o da mídia é outro.

Em tempo: Mendoza também não gosta de Cristina.

Uma resposta para PERIPÉCIAS EM MENDOZA – DIA 1

  1. Jussara Stipanich disse:

    Adorei seu texto, pretendo fazer uma viagem muito parecida. Favoritado!

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