HOMOPRIVILÉGIOS

20 novembro, 2010


Quando moleques, alguns sempre abusaram do fato de terem irmãos mais fortes. Qualquer coisa acontecida e mais cedo ou mais tarde vinha a frase inevitável: “você vai ver só, vou chamar meu irmão”. Qualquer trombada ou canelada no joguinho de bola no asfalto e pimba: “você vai ver só, vou chamar meu irmão”. Neguinho começa a rapelar as figurinhas no bafo e poff: “você vai ver só, vou chamar meu irmão”. Tiro e queda, lá vinha a frase a qualquer encrenca. Tempo passa, tempo voa, mas alguns não cresceram e continuam dizendo: “você vai ver só, vou chamar meu irmão”. E quem são esses? Bem, nada de generalizar, mas, basicamente são os ativistas das tais minorias, os quais preferem chamar o irmãos mais forte do que resolver a coisa por si mesmos, nem que seja pegando um pedaço de pau. É lei que privilegia negros, privilegia deficientes físicos e agora vem uma aí que privilegia os homossexuais. E o problema nunca teve nada a ver com os direitos desses cidadãos, que são exatamente os mesmos de quaisquer cidadãos, são os privilégios, os quais eles insistem em dizer que são só direitos, embora os demais não os tenham.

Por exemplo, se você ofender Sílvio Santos, poderá responder, conforme o caso, por um desses 3 crimes: difamação, injúria ou calúnia. Poderá também, conforme o caso, ser condenado a uma reparação civil, ou seja, em dinheiro. Isso vale para ele, para o Celso Portioli, para a Eliana, para o Luciano Huck, para um monte de gente. Mas não para, digamos, Glória Maria. Não, caso alguém a ofenda, poderá responder por mais um tipo de crime além daqueles três: racismo. Então, ficou assim: ofensas à loira Angélica podem gerar uma indenização e há três expressões legais para enquadrar como crime, mas com Glória Maria existem quatro expressões legais, aumentando o leque de proteção. E ainda com aumento de pena. Sacaram o lance? Glória Maria tem uma lei a mais para protegê-la, uma lei que Angélica não tem.

Agora corre no Congresso o malfadado PL 122/06, que prevê o crime de homofobia. Ou seja, em termos vulgares, Angélica terá uma lei para punir criminalmente alguém que a ofenda, mas Glória Maria terá duas e, digamos, o Leão Lobo também. Isso é privilégio, não direito. Um direito que só alguns têm é privilégio. O Código Penal está aí para defender a honra de todos, inclusive dos negros e homossexuais, mas os negros têm uma lei a mais para isso.

Pior. Se, deixemos a Angélica em paz, a Xuxa vai a um restaurante e não a deixam entrar, que crime cometeu o dono do restaurante? Nenhum. Mas se ele fizer isso com a Glória Maria, terá cometido um crime, previsto no artigo 8º da lei 7716/89. A Xuxa poderá ajuizar uma ação para reparação de danos morais porque o Código de Defesa do Consumidor diz que o fornecedor não pode recusar atender a demanda de consumidor que se disponha a pagar o preço. Só. Mas a Glória Maria, bem, ela ainda pode colocar o cara em cana. Se isto não é um privilégio, que seria?

Digamos que a Mara Maravilha vá até o tal restaurante. O dono diz que não atende evangélicos. Ele cometeu um crime, previsto no mesmo artigo 8º da lei 7716/89. Mas isto não é um privilégio, porque o mesmo artigo protege católicos, macumbeiros e até ateus. Estão todos protegidos ali no conceito de liberdade religiosa, todos.

E com o PL 122/06, se o dono do restaurante impedir a entrada de, digamos, Thammy Miranda, a filha da Gretchen, ele também poderá ir para a cadeia. Se ele barra a Xuxa, a Angélica e a Eliana, corre o risco de pagar uma indenização. Mas se barra a Glória Maria ou a Thammy Miranda, corre o risco de pagar a indenização e ir pra cadeia. Isso é privilégio.

Mas não fica nisso. O pior é o dispositivo que prevê punição para quem promover constrangimento moral, filosófico ou psicológico. Nem tentem, é simplesmente impossível obter uma delimitação objetiva para isto. Basicamente, será crime o que o sensivelzinho disser que é, pois basta que ele diga que se sentiu constrangido, ainda que o pastor, padre ou macumbeiro só tenha lido em voz alta alguma passagem de qualquer livro religioso que critique a opção homossexual.

Ora, se a bicharada não quer ouvir esse tipo de coisa, basta que fiquem longe de igrejas, pessoas e programas religiosas, ora. E se mesmo assim ouvirem, respondam na lata: “vai se foder, a bunda é minha e faço o que quiser com ela”. Ou dêem, ops, de ombros e sigam a vida. Ora, se um Padre diz a um freqüentador contumaz de prostíbulos: “a bíblia diz que você vai pro inferno”, não cometeu crime algum. Mas se disser o mesmo a um gay, será crime. As religiões condenam, em termos estritamente filosóficos, uma miríade de condutas e opções humanas. Mas só os gays poderão silenciar padres, pastores, pais de santo e professores. Até mesmo um estóico acabará na cadeia se uma biba desvairada inventar que ficou ofendida e se sentiu constrangida com suas afirmações contra os excessos de atividade sexual libertina.

Isso é uma maluquice sem tamanho. Mas o pior mesmo é que a esquerda se recusa a discutir a coisa em termos claros. De modo algum, se alguém começa a criticar essa doideira, eles já tascam a pecha de homofobia. Desviam insistentemente o debate do desvario da lei para a validade ou não da opção homossexual. Como quase ninguém vai contra esta opção em si, muita gente se vê em dificuldades de argumentar. A esquerda se nega a debater apenas aquilo que interessa: os privilégios que a lei cria, suas inconstitucionalidades e ataques à liberdade de expressão e de credo. É uma lei, que, além disso e como tantas outras dos tempos modernos, infantiliza os homens, que vão paulatinamente cessando de se defender e de procurar meios de convivência, para cada vez mais chamar o Estado, ou seja, o irmão mais forte.

Então, que ninguém caia nesse truque sujo, ser contra o PL 122/06 não leva ninguém a ser contra a liberdade sexual. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Os direitos dos cidadãos são os direitos dos cidadãos, quaisquer que sejam seus credos, opções sexuais e cor de pele ou origem.

Já há leis várias que protegem todos os cidadãos e não existe razão nenhuma para se criar leis só para esse ou aquele grupo, para essa ou aquela categoria de pessoas. Isso é elitismo. Injúria e lesão corporal, por exemplo, são formas penais que protegem a honra e a integridade física de todos. Todos quer dizer todos e, portanto, inclui negros e gays, por óbvio. Não existe nenhuma razão para que estes ou outros grupos recebam um tratamento diferenciado, privilegiado, não em se tratando de seres humanos adultos e de inteligência mediana.

As pessoas precisam aprender a conviver com as diferenças, não impor as suas aos demais. Ao invés de tentarem impedir que lhes sejam dirigidas críticas, gays deveriam conviver com elas, como já convivem os ateus, os próprios religiosos, artistas e, bem, todo mundo convive com críticas rotineiramente. Se um funkeiro passa em frente a um show de rock, pode ser que sofra pilérias e se um roqueiro passar em frente a um baile funk, pode ser que as sofra também. Ora, ignora e vai embora. Se houver excessos, o Código Penal o protegerá, como a qualquer outro. Toda escolha humana é passível de críticas e convém aprender a ouvi-las, inclusive para se certificar de foi mesmo a melhor escolha. Impedir que haja críticas é fechar o acesso a outras possibilidades, é limitar cada vez mais o leque disponível de ações e posicionamento moral e prático.

Gritam os gays que os religiosos estão impondo suas crenças. Ora, só quem pode impor algo a alguém é o Estado. O máximo que um religioso pode fazer é emitir uma opinião. Ouve-se e, querendo, responde-se e segue a estrada. Que imposição é essa que consiste em só uma singela opinião?

É muito fácil ser favorável a restrições impostas aos demais, se elas nos favorecem. O que os gays e negros esquecem é que se aceitarmos que o Estado crie certas proteções especiais a eles, terão de agüentar que amanhã ou depois sejam criadas proteções especiais a favor de outros grupos e, portanto, contra eles, não na condição de gays e negros, mas em outras condições, digamos, a de terem nascido em certa região do país. Imagine-se que o Estado, a pretexto de corrigir distorções históricas, crie cotas nas universidades para nordestinos. Ora, isto poderá tirar muitos deles das universidades. E aí, como fica? Permitir que o Estado feche um livro para proteger um gay é permitir que ele feche qualquer livro. Digamos, Oscar Wilde.

O que ninguém parece se tocar é que às vezes o irmão mais velho te põe pra dentro de casa mais cedo. Melhor aprender a se virar sozinho, não? Claro, convivência é difícil. Mas é difícil para todos. Todos temos que suportar o peso de nossas escolhas e condições. Todos.


SANGUE, MUITO SANGUE

11 novembro, 2010

Se você defende ou simpatiza com algum tipo de revolução, eis aqui as palavras de um dos maiores revolucionários de todos os tempos:

“O revolucionário tem desprezo pela opinião pública e ódio pela moral social atual e suas diretivas. Para ele, o que é moral é o que é favorável ao triunfo da revolução, e o que é imoral e criminoso é o que a contraria.”

“É necessário que o militante, duro para com ele próprio, o seja também para os outros. Todos os sentimentos que nascem da família, da amizade, do amor ou do reconhecimento devem ser sufocados nele pela única e fria paixão da obra revolucionária. E prosseguindo com sangue-frio na realização do plano, deve estar pronto para morrer e também pronto para matar com as próprias mãos todos aqueles que se oponham à sua realização”.

Netchiaev, anarquista russo

E aí, vai matar quem hoje?

*****

LEIA ABAIXO

Vídeo sobre as duas suspeitas de corrupção que pairam sobre Sílvio Santos e os R$ 17,5 bilhões envolvidos na coisa toda:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/10/silvio-santos-2-suspeitas-e-175-bilhoes/

Sobre mais manchetes que mostram quem realmente está melhorando de vida no país do governo dos pobres:
https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/09/manchetes-do-pais-do-governo-dos-pobres-2/

Sobre a celebração de um cientificista e de como a coisa poderia ser ainda pior:
https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/09/dia-de-carl-sagan-e-triste-mas-poderia-ser-pior/

Sobre como a iniciativa privada ajudou a Coréia do Sul a mudar a educação local a ponto de virar referência mundial:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/08/na-coreia-mais-faculdades-privadas-ajudaram-no-crescimento-economico/

Vídeo sobre os estranhos critérios que a OAB usa para escolher os alvos de suas ações e repreensões e ainda sobre a liberdade de expressão:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/07/video-oab-e-racismo/

Sobre um pedido para que a OAB mova ação direta de inconstitucionalidade contra os comitês de controle da imprensa e contra a PEC 32/2006, na parte que tira do eleitor o direito de escolher o presidente da República:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/04/pedido-a-oab-mova-uma-adin-contra-o-controle-da-imprensa-e-contra-a-eleicao-indireta-para-presidente/

Sobre como a iraniana Sakineh pode ser enforcada antes do previsto e como Lula não tem influência alguma sobre o governo iraniana ao contrário do que é dito por aí:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/01/sakineh-podera-ser-enforcada-em-poucos-dias/

Sobre a fantástica idéia de Evo Morales de colocar Fidel Castro como Secretário Geral da ONU:
https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/01/morales-quer-fidel-na-onu/

Sobre como um mesmo fato pode ser noticiado de diferentes formas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/01/a-travessia-da-galinha/

Sobre o absurdo de se censurar Monteiro Lobato e quem está propondo tal sandice:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/29/querem-censurar-monteiro-lobato/

Sobre o lobista que diz que Dilma o ajudou no caso dos correios:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/29/lobista-diz-que-dilma-o-ajudou-no-caso-dos-correios/

Sobre declaração dada por Dilma Roussef em 28/10/2010 se colocando contra a prisão de quem pratica o aborto:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/em-28102010-dilma-declarou-publicamente-ser-contra-a-prisao-de-quem-pratica-o-aborto/

Sobre o regime pelo qual Dilma Roussef e Franklin Martins orgulhosamente pegaram em armas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/pelo-que-dilma-roussef-e-franklin-martins-pegaram-em-armas/

Sobre o cancelamento da entrevista com Serra pelo SBT e um negócio de R$ 7 bilhões de Sílvio Santos com o governo federal:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/26/sbt-cancela-entrevista-com-serra-silvio-tem-7-bilhoes-de-motivos-para-fazer-isto/


MORALES QUER FIDEL NA ONU

1 novembro, 2010

Já se falou em Lula. Evo Morales, por seu turno, quer ir mais longe, mais direto ao assunto. Quer Fidel Castro como Secretário geral da ONU. Seria ótimo, claro, quanto mais claras as coisas ficam, melhor. Já passou da hora de a ONU assumir sua pretensão de ser o governo mundial esquerdista.

A sugestão de Morales foi dada na festa de lançamento do livro de Fidel, “De la Sierra Maestra a Santiago de Cuba. La contraofensiva estratégica”. Alguém poderia enviar um ofício ao Ministério do Racismo para saber se as crianças das escolas podem ler este ou se ele também será censurado como Monteiro Lobato foi.

Por outro lado, Fidel tem o perfil certo para o projeto. Por exemplo, hoje foi solto um preso político cubano. Ficou preso 25 anos. Segundo o governo, ele teria assaltado um arsenal do exército com o objetivo de roubar rifles para municiar um grupo de resistência à ditadura Castro. Como se vê, é um homem de pulso, diferente dos molengas brasileiros que não prendem e não punem quem assalta e seqüestra e deixa mortos por onde passa com seu movimento. Bem diferente. Fosse pouco, ninguém sabe dizer ao certo quantos presos políticos existem em Cuba, nem aquele antro de conservadores malvados, a Anistia Internacional.

Sim, essa idéia de Morales é excelente. Aliás, seria um bom começo mudar a sede para Cuba logo de uma vez. Ficaria uma bela flor num belo vaso, bem combinadinho.


QUEREM CENSURAR MONTEIRO LOBATO

29 outubro, 2010


Querem censurar o Sítio do Pica Pau Amarelo. Querem censurar Monteiro Lobato, o primeiro autor brasileiro a se preocupar em escrever livros para crianças. É coisa do CNE (Conselho Nacional de Educação). Um parecer do órgão sugere que o livro “Caçadas de Pedrinho” não seja distribuído a escolas públicas e que seja proibida sua leitura em escolas privadas, ou que isso seja feito com um alerta, sob a alegação de que é racista. Essa sandice tem uma história curiosa e o pedido partiu de um especialista em candomblé.


Um aluno do mestrado de Educação da UNB fez uma denúncia contra Monteiro Lobato à Secretaria da Promoção da Igualdade Racial, vulgarmente conhecida como Ministério do Racismo. É o Sr. Antonio Gomes da Costa Neto, o qual terminou sua faculdade de letras na mesma UNB no ano de 2006 com o seguinte trabalho de conclusão de curso: “A Linguagem no Candomblé: uma visão sobre a cultura africana nos terreiros de Candomblé do Distrito Federal”. Antes disso ele escreveu um artigo chamado “Candomblés de Brasília: contribuição ao estudos dos rituais afro-brasileiros em Brasília”. Terminado seu trabalho de fim de curso, ele achou que vali a pena continuar e fez um outro, intitulado “A Linguagem no Candomblé: um estudo lingüístico sobre as comunidades religiosas afro-brasileiras”. As publicações foram feitas apenas num site governamental de nome Palmares. Jamais foram impressas por editora alguma.


O Sr Antonio é funcionário público, Técnico em Gestão Educacional da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Está afastado do cargo para fazer um mestrado em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais. Faz uns 4 anos que ele não pega no batente. Guardem bem todos esses títulos e cargos, serão importantes mais à frente.


Feita a denúncia, o Ministério do Racismo achou por bem aceita-la e resolveu que era necessário proibir o livro ou meter-lhe um carimbo na capa advertindo que só pode ser lido mediante um complemente “sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”. Vejamos alumgas das considerações feitas por quem tomou essa decisão doidivanas:


“a sua denúncia baseia-se em análise da obra tão somente em relação à temática das relações étnico-raciais na escola, que se constitui na sua área de pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Educação da UnB” Ou seja, só tem política e ideologia envolvida na denúncia, nada mais.


“A crítica realizada pelo requerente foca de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas. Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos do livro analisado. A crítica feita pelo denunciante baseia-se na legislação antirracista brasileira, a partir da promulgação da Constituição de 1988”. Quem leu o livro sabe o quanto de estereótipo há na Tia Anastácia e quão longe da realidade social da época a sua figura era. A “crítica” baseia-se na Constituição de 1988. O livro foi escrito na década de 40 e é julgado com base numa interpretação, para ser bondoso, mui ampla da constituição de 1988. Bem, o denunciante sabe muito de candomblé e, como tal, talvez tenha ajuda de entidades poderosas paraprever o futuro, mas esse não era o caso de Monteiro Lobato.


“conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível” Bem, primeiro confundem estado com governo, coisa típica da esquerdalha. Segundo, até nesse trecho não houve demonstração de nenhum ato de racismo no livro. Terceiro, a constituição até diz que o crime de racismo é imprescritível, só não diz que seja retroativo, o que nem poderia ser, em razão do disposto no artigo 5º, que pelo jeito o pessoal aí conhece, já que o citou.


“as ponderações feitas pelo Sr. Antônio Gomes da Costa Neto, conquanto cidadão e pesquisador das relações raciais, devem ser consideradas” Anotem mentalmente este trecho, guardem junto com aqueles títulos e cargos lá de cima.


“cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor”. Ninguém provou logicamente que a obra seja racista, mas eles acham que isso é o de menos. Toda a coisa pode ser lida aqui: http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:BljR-3Hm1yMJ:portal.mec.gov.br/index.php%3Foption%3Dcom_docman%26task%3Ddoc_download%26gid%3D6702%26Itemid%3D+Antonio+Gomes+da+Costa+Neto&hl=pt-BR&gl=br&pid=bl&srcid=ADGEESjAs1SagdqE1LEM08x_IFZXW877I8VhYR5XnsSWjdgn9ecSYCC0mDmT6VxODQbi1hcaXBdS6i3gqOIiwDbo-ThNciPnjRi-VGFfNIGr5qyqBl_yZ6hcPvJ4HOkuJa3cJ6v5W_Vl&sig=AHIEtbTMlHOyNxjNHZZFSg84fNQIKcYaig


Quem aprovou essa sandice foi a relatora do processo lá no Ministério do Racismo, a Sra. Nilma Lino Gomes, uma verdadeira doutora. Em Ciências Sociais, notem bem. Pós-doutora em Sociologia. Ela escreveu algumas obras acadêmicas, tais como “Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte”, com o qual se doutorou. “A trajetória escolar de professoras negras e a sua incidência na construção da identidade racial – um estudo de caso em uma escola municipal de Belo Horizonte”, sua dissertação de mestrado. “Supervisão escolar – esboço de sua trajetória em Minas Gerais – do período imperial aos dias atuais” seu trabalho de conclusão de curso de pedagogia em 1988.


Além de conselheira no Ministério do Racismo, ela também é pesquisadora do CNPQ desde 2007. Participou de alguns projetos como: “Educação,Diversidade Étnico-Racial e Movimento Negro: articulações entre conhecimentos e práticas sociais”. Foi Membro da Comissão de Estudo e Acompanhamento de Medidas de Inclusão Social no Corpo Discente da UFMG (CAIS), Diretora Financeira e Pesquisadora do Centro de Estudos Sociais da América Latina – CESAL, Coordenadora da Coleção Cultura Negra e Identidades – Autêntica Editora – Belo Horizonte, Coordenadora-Geral do Programa de Ensino, Pesquisa e Extensão Ações Afirmativas na UFMG.. Já foi professora de Antropologia e Educação; Escola e Diversidade: interfaces políticas e sociais; Estágio Curricular em Gestão Educacional e Coordenação Pedagógica I e II; Estágio Supervisionado em Supervisão Escolar I e II; Estrutura e Funcionamento do Ensino; Gestão da Escola e Coordenação Pedagógica II; Princípios e Métodos de Supervisão Escolar. Fez pesquisas teóricas sobre “Saberes emancipatórios, movimento negro e diversidade étnico-racial”, “Educação de Jovens e Adultos – Pesquisa e Formação, Práticas Pedagógicas de Trabalho com relações étnico-raciais na escola na perspectiva da Lei 10.639/03”, “Escolas Públicas Abertas à Diversidade Étnico-Racial: do empenho pessoal ao coletivo de educadores(as) – 4a fase, Movimento negro, saberes e educação para a diversidade”, “Educação,Diversidade Étnico-Racial e Movimento Negro: articulações entre conhecimentos e práticas sociais”. Escreveu uma miríade de artigos, todos sobre ações afirmativas e quejandos.


Pois bem. Leiam com cuidado todo o escrito acima. Notaram algo suspeito?


Pois é. Mas antes, vejamos a justificativa do denunciante:
“Os professores, no dia a dia, não têm o preparo teórico para trabalhar com esse tipo de livro. Então, não é que ele deva ser proibido. O que não é recomendado é a sua utilização dentro de escola pública ou privada”
Vejam só o que ele diz: os professores não têm o preparo teórico para trabalhar com este tipo de livro. Este pensamento encerra dois problemas. O primeiro é que…bem, lembram dos trabalhos e pesquisas do denunciante e da relatora do processo? Então. Nenhum deles sabe um nada sobre literatura ou formação de personalidades juvenis, não sabem nada de psicologia ou psiquiatria e não têm a menor idéia de como se faz uma análise literária para dizer se tal ou qual obra tem realmente alguma conotação racista. Um dos trechos com que o denunciante Antonio encasquetou foi o seguinte: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”. Minha nossa, o que há de preconceito nisto? É como dizer que Fulano correu mais que uma galinha fugindo da panela. Outro trecho que ele achou problemático: “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens” Essa é uma comparação com todos os seres humanos e afeta a boa imagem dos macacos, ora bolas. Ou seja, no final quem está dizendo que os negros são diferentes dos outros homens são eles, porque Monteiro Lobato só disse que macacos e homens são parecidos, o que, convenhamos, deveria ensejar uma reclamação formal por parte dos macacos. Isto basta para mostrar que eles não estão preparados para avaliar uma obra literária e seu impacto na mente juvenil, a respeito da qual jamais fizeram um só trabalho. O que diabos tem a ver candomblé com formação de personalidade?


O segundo problema é que eles dizem que os leitores juvenis não estão preparados para discernir o certo do errado, o que é racismo do que não é racismo, o que é um estereótipo do que é uma descrição fiel à realidade, de modo que poderiam achar que o certo é manter as tias negras como empregadas domésticas pelo resto da vida. Como algum ser humano de inteligência mediana chegaria a uma conclusão absurda dessas é coisa que eles não explicam em lugar algum. O mesmo tipo de argumento foi usado nos anos de chumbo para proibir a publicação de um sem número de obras. É sempre a mesma coisa: o censor acredita que o leitor não tem condições de separar o joio do trigo, então ele taca fogo nos dois para não correr riscos.


A proibição ou o selo na obra ainda não estão colocados em prática. Quem decidirá se isto vai ou não adiante é o Ministério da Educação, mas sabe-se que o atual ministro, Fernando Haddad, bem, ele é da turma dos politicamente corretos, digamos assim. Por exemplo, é favor da liberação da maconha (ainda mais…).


O caso é que não há nada de racista na obra de Monteiro Lobato. O Ministério do Racismo quer é impor aos jovens nas escolas a leitura apenas de obras que façam menção a políticas afirmativas e que sejam politicamente corretas, ou seja, que façam panfletagem em prol da igualdade artificialmente construída e, mais ao fundo, da gastança do dinheiro dos impostos nas tais políticas compensatórias, sem falar nas mirabolâncias como cotas racistas e coisas do tipo. O caso é puramente político, ideológico, não é literário e nem mesmo pedagógico, pois nenhum deles apresentou uma só evidência empírica de que a mente dos jovens é tão maleável quanto eles supõem que seja. Talvez por experiência própria.


Essa história de proibir uma obra por medo do que pode ser que o leitor venha a entender é ou uma tremenda ignorância, já que isto de interpretação é cheio de variáveis e possibilidades, ou é desculpa esfarrapada para impor ou manter uma ideologia.

***

LEIA ABAIXO

Sobre o IBOPE ter cobrado R$ 1 milhão de Senador para alterar resultado das pesquisas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/29/senadores-acusam-ibope-de-fraude/

Sobre outro erro absurdo do Datafolha:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/29/datafolha-850-mil-morrem-por-dia-no-brasil/

Sobre o lobista que diz que Dilma o ajudou no caso dos correios:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/29/lobista-diz-que-dilma-o-ajudou-no-caso-dos-correios/

Sobre declaração dada por Dilma Roussef em 28/10/2010 se colocando contra a prisão de quem pratica o aborto:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/em-28102010-dilma-declarou-publicamente-ser-contra-a-prisao-de-quem-pratica-o-aborto/

Sobre o PNDH-3, entrevista com Ives Gandra:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/o-pndh-3-explicado-por-ives-gandra/

Sobre a orientação espiritual do Papa bento XVI para fiéis não votarem em candidatos que apóiam a eutanásia, aborto e suicídio assistido:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/qual-catolico-deixara-de-votar-em-dilma/

Sobre manchetes que mostram quem realmente ganha com este governo:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/manchetes-do-dia-sobre-o-governo-dos-pobres/

Sobre o presidente da CNT/Sensus fazer campanha descarada para o PT:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/presidente-da-cntsensus-faz-campanha-para-dilma/

Sobre o lucro formidável dos bancos, do gasto de R$ 191 milhões na campanha do PT e este se dizer o governo dos pobres:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/e-possivel-servir-a-dois-senhores/

Sobre o regime pelo qual Dilma Roussef e Franklin Martins orgulhosamente pegaram em armas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/pelo-que-dilma-roussef-e-franklin-martins-pegaram-em-armas/

Sobre o cancelamento da entrevista com Serra pelo SBT e um negócio de R$ 7 bilhões de Sílvio Santos com o governo federal:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/26/sbt-cancela-entrevista-com-serra-silvio-tem-7-bilhoes-de-motivos-para-fazer-isto/


EM 28/10/2010 DILMA DECLAROU PUBLICAMENTE SER CONTRA A PRISÃO DE QUEM PRATICA O ABORTO

28 outubro, 2010


Acabou a lenga lenga. Dilma Vana Roussef acaba de declarar que não é a favor da criminalização do aborto. O que, na prática, a coloca como favorável à descriminalização. Foi ela quem disse, ninguém colocou palavras na boca dela. Foi hoje. Hoje, não no passado. Não foi em entrevista escrita, foi gravada e ela sabia que era gravado e que seria transmitido para todo o Brasil. De modo que não resta dúvida: Dilma é a favor da descriminalização do aborto. Na mesma entrevista ela disse que o Papa tem todo direito de expressar sua opinião, colocando assim seus militontos numa posição estranha, já que o dia todo só faltaram chamar o mesmo de santo. Somando tudo, ficou assim: o Papa emitiu uma orientação moral e espiritual para que católicos brasileiros não votem em candidatos que apóiam o aborto. A Posição de Dilma é bem clara, segundo suas próprias palavras. Segue a orientação do Papa quem achar que deve. Abaixo o vídeo com as palavras dela.

http://storage.mais.uol.com.br/embed.swf?mediaId=7130336

Aí está. Ela diz claramente: prisão não dá. Ela não quer prender quem pratica o aborto. Pronto. Simples assim. Ela é a favor da descriminalização do aborto.

Os petistas estão se roendo pelo fato de questões morais terem surgido na campanha. Acharam que o debate seria só em torno dos temas que eles colocaram na mesa. Mas o eleitorado não quis embarcar nessa e o tucano Serra soube aproveita-la. Prevendo o tamanho da encrenca, o pessoal da campanha arrumou uma militante do PSOL, que declarou votar em Dilma no segundo turno, para declarar que ouviu Mônica Serra dizer que fez um aborto. A jornalista Mônica Bergamo, habituada a lidar a cobrir eventos de celebridades, as quais adoram uma fofoca, achou que aquilo era suficiente, considerou que o fato de uma pessoa dizer que outra disse que fez certa coisa é o suficiente para uma matéria. Publicou. No final, ninguém botou muita fé no negócio.

Mas aí vieram com uma de Serra apoiou o aborto quando era Ministro da Saúde. Pegaram uma diretriz técnica do tempo dele na pasta e tentaram usar contra o mesmo. essa normativa técnica não fala nada sobre quando se deve fazer aborto, só fala qual deve ser o procedimento técnico na hipótese de o médico, por qualquer motivo, tiver de levar adiante um procedimento desse tipo. Por exemplo, uma ordem judicial ou um caso legalmente admitido de a vida da mãe estar em risco inegável. Como pular disto a um apoio claro ao aborto era muita forçação de barra, morreu na praia também.

É bem verdade que há setores e eleitores do PSDB que são favoráveis ao aborto. Mas José Serra mesmo não se pronunciou abertamente em favor disto no passado.

Ainda que tivesse Serra apoiado abertamente o aborto, nem por isto a posição de Dilma seria mais defensável. Se um católico, nos conformes da sua espiritualidade, achar que não deve votar em quem apóia o aborto e se convencer de que ambos os candidatos são pró-aborto, nesse caso ou ele não voto ou vota nulo ou branco. Os militontos agora não têm mais como negar que sua candidata é contra prender quem pratica o aborto. Se isso é ou não motivo para se votar ou deixar de votar em alguém, é problema de cada eleitor.

A irritação da esquerdalha com o episódio do aborto é que traz para o debate eleitoral algo que eles julgam impertinente: questões morais. Ora, as pessoas se regem pela moral, é a base da convivência social, mas para a esquerda, o negócio é que as condutas humanas não podem ser senão permitidas ou compelidas por regras objetivas editadas pelo Estado e, por isto mesmo, garantidas pelas armas. Fazer algo apenas porque é o certo a se fazer, é impensável. A conduta deve ser permitida ou obrigatória se e tão somente se os professores de felicidade e engenheiros sociais chegarem a um consenso e aí os políticos encamparem a idéia e formularem leis, sempre garantidas pelas armas. Certo, errado, justo, injusto, são conceitos que a esquerda quer extirpar da civilização, por isto não admite sequer isso seja discutido numa eleição para ver quem comandará o Estado.

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LEIA ABAIXO

Sobre o PNDH-3, entrevista com Ives Gandra:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/o-pndh-3-explicado-por-ives-gandra/

Sobre a orientação espiritual do Papa bento XVI para fiéis não votarem em candidatos que apóiam a eutanásia, aborto e suicídio assistido:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/qual-catolico-deixara-de-votar-em-dilma/

Sobre o MP carioca enquadrar vários políticos do PT e PMDB por abuso do poder econômico:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/mp-carioca-tenta-enquadrar-petistas-por-abuso-do-poder-economico/

Sobre manchetes que mostram quem realmente ganha com este governo:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/manchetes-do-dia-sobre-o-governo-dos-pobres/

Sobre o presidente da CNT/Sensus fazer campanha descarada para o PT:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/presidente-da-cntsensus-faz-campanha-para-dilma/

Sobre o perigo de se eleger Dilma crendo que ela será Lula lá outra vez e sobre lições de história que nada valem para militontos e petistas de ocasião:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/lula-periga-ser-o-novo-kirchner-e-dilma-o-novo-pitta/

Sobre o lucro formidável dos bancos, do gasto de R$ 191 milhões na campanha do PT e este se dizer o governo dos pobres:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/e-possivel-servir-a-dois-senhores/

Sobre o PT ter usado indevidamente o nome de outro artista no tal manifesto dos intelectuais:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/outra-manifestacao-contra-o-manifesto/

Sobre o regime pelo qual Dilma Roussef e Franklin Martins orgulhosamente pegaram em armas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/pelo-que-dilma-roussef-e-franklin-martins-pegaram-em-armas/

Sobre o cancelamento da entrevista com Serra pelo SBT e um negócio de R$ 7 bilhões de Sílvio Santos com o governo federal:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/26/sbt-cancela-entrevista-com-serra-silvio-tem-7-bilhoes-de-motivos-para-fazer-isto/


PELO QUE DILMA ROUSSEF E FRANKLIN MARTINS PEGARAM EM ARMAS

27 outubro, 2010


Quem assistiu ao filme Diamante de Sangue, com Leonardo Di Caprio, pode achar que aquilo que as guerrilhas africanas fazem com as crianças seja um horror: tira-las de seus lares à força, vicia-las em álcool e drogas e, depois, exigir que matem para receber mais álcool e drogas. Por vezes, devem atirar até em seus familiares. Pois a turma da guerrilheira Dilma Vana Roussef e do guerrilheiro Franklin Martins, que brigava contra a ditadura militar para instalar em seu lugar uma ditadura comunista, tinha por objetivo um regime capaz de coisas ainda piores. Coisas que de fato foram feitas onde foi instalado. Digamos, o Camboja, uma paíseco que a maioria mal sabe que existe, que dirá onde fica: do ladinho do Vietnã. Ali, como em outros lugares, a remodelagem do mundo foi feita do jeito que Dilma não esconde de ninguém que queria nos anos 60: rápido, na marra e azar dos burgueses que se opusessem ao novo amanhecer. Perto da história do Khmer Vermelho, o que se viu no filme é café pequeno.

O artigo que se segue foi escrito por Dorrit Harazim e publicado pelo jornal O Globo nos idos de 2005. É para lá de importante manter essa memória sempre viva. Eis aí como seria o mundo pelo qual Dilma Vana Roussef tanto e tão orgulhosamente pegou em armas

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2005 está sendo rico em expiações coletivas. Esta semana a Europa pranteou o 10 aniversário do massacre de Srebrenica, na Bósnia. Dias atrás o Live 8 remasterizou o lamento pela fome na África. Em maio foi o mundo que se engalanou para os 60 anos do fim da Segunda Guerra. E em abril os 30 anos de fim da Guerra do Vietnã puderam ser comemorados por toda uma geração.

Por que então ninguém chora ou canta pelo Camboja, que este ano também teria efeméride redonda para se fazer lembrar? Faz 30 anos que a história milenar do povo khmer foi interrompida por uma utopia de laboratório. Idealizada por um núcleo de visionários totalitários, durou três longos anos, oito meses e 20 dias. Encabeçado por Pol Pot, o tirano que comandava das sombras, o experimento foi executado por hordas de jovens militantes impregnados de uma força invencível: a da insanidade.

Trinta anos atrás, a comunidade internacional assistiu em silêncio à metódica eliminação do modo de vida dessa nação de 7 milhões de habitantes. Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, entre outros expoentes da civilização ocidental, compactuaram com os interesses da China emergente dos anos 70 e permitiram que a máquina de desumanização do Camboja vingasse. A exumação dessa página da História não edifica ninguém. Mas é impossível percorrer o Camboja de hoje sem registrar a melancólica incompreensão de um povo com o seu próprio destino. Ela está encapsulada numa indagação sem resposta: “Por que nós não contamos? Por que ninguém fez nada?”

— Não posso falar sobre o período porque não o entendo. Simplesmente não entendo — diz o septuagenário Son, sobrevivente dos tempos do horror.

A constatação do plantador de arroz cuja vida sempre escoou mansa às margens do Rio Mekong até ser varrida pelo ideário do Khmer Vermelho é mais profunda do que parece. O escritor britânico Philip Short, que acaba de publicar a primeira biografia de fôlego sobre o líder da revolução cambojana, chega a conclusão semelhante, só que em 672 páginas. “Pol Pot, anatomia de um pesadelo” também não consegue explicar o inexplicável.

Evacuação de todas as cidades e vilas

Entre o “Ano Zero”(1975) do que seria a construção de um novo povo até a derrocada do Khmer Vermelho (1979) por tropas invasoras do vizinho Vietnã, Pol Pot tinha abolido dinheiro, religião, propriedade, escolas, individualidade e família da vida cambojana. A partir dos 7 anos de idade, toda criança passou a pertencer à Angkar, a Organização. E todas as cidades e vilas do país deveriam ser imediatamente evacuadas para que o contaminado modo de vida urbano pudesse ser erradicado para sempre.

Foi na manhã da tomada de Phnom Penh pelos guerrilheiros do Khmer Vermelho, enxotando uma ditadura militar corrupta e impopular, que a máquina do experimento humano começou a funcionar. Em pouco tempo, uma população de sete milhões de pessoas teve suas raízes arrancadas e foi posta em marcha. Sem saber para onde, nem por quê, ou até quando. No terceiro dia de existência do novo regime, a população de Phnom Penh já tinha encolhido de dois milhões para 20 mil pessoas. E quando a outrora frondosa capital foi finalmente libertada, restavam apenas 70 almas. Pelas contas do atual premier, Hun Sen, e do secretário de Turismo, Thong Khon — ambos integrantes da Frente de Salvação que herdou as ruínas do Khmer Vermelho — somente 43 médicos qualificados, sete advogados e 1.005 estudantes e intelectuais cambojanos sobreviveram à era Pol Pot.

Pin Yathay tinha 17 anos quando recebeu o Prêmio Nacional de Matemática das mãos da rainha-mãe Kossamak, em 1960. No dia da chegada do Khmer Vermelho à capital, em 1975, estava casado, tinha três filhos pequenos e carreira promissora de engenheiro. Estranhou, mas se dobrou à ordem de reunir a família e abandonar a cidade. Vale uma pausa para imaginar o tumulto emocional de uma decisão dessa magnitude. Como assim, largar tudo? O que fazer para ganhar tempo? O que os vizinhos estão levando de essencial? O que deixar para trás? Como não alarmar as crianças? Tenta-se buscar os pais ou avós e partir juntos? O que esconder até a volta? Os dilemas que brotavam eram todos de utilidade prática e imediata, sem espaço para decifrar a real dimensão desse êxodo por decreto.

Yathay sobreviveu e produziu um dos testemunhos mais aterradores sobre o processo de aniquilamento da vontade humana promovido pelo regime de Pol Pot. Foi um método eficaz, por etapas. As ordens eram repetidas em tom mecânico, não ameaçador, desprovidas de eco emocional. Conseguiram que a massa se pusesse em marcha de forma absurdamente silenciosa, quase ordeira, agarrada a uma informação que não tinha nexo: “Será uma evacuação de apenas três dias. Precisamos purificar a cidade”.

Nos primeiros dias de estrada, o comboio de retirantes ainda se diferenciava pelo que cada um trazia como pertences essenciais — uns tinham vindo em Citröens abarrotados de cortinas, sofás ou geladeiras, enquanto outros carregavam o pai doente nas costas, a pé. Mas em pouco tempo a procissão assumiria contornos de terrível uniformidade, fluindo como sangue de ferida aberta.

Os exaustos, desesperados e doentes iam ficando para trás, deixando passar a maré silenciosa. Vez por outra via-se um suicida pendurado numa árvore. No nono dia do Ano Zero, virtualmente toda a população urbana do país estava transplantada para zonas rurais. Catalogados como “homens novos” em contraposição ao “povo antigo”, o idealizado camponês sem instrução, os deportados iniciariam ali seu brutal processo de purificação ideológica. Começou assim uma revolução de profundidade jamais alcançada, que misturou uma bizarra noção de justiça social com o desejo de reviver a glória nacionalista do antigo império de Angkor.

Regime só queria 1 milhão vivos

O engenheiro Yathay conta que trabalhava a terra ou abria clareiras absurdas na floresta 20 horas por dia para se tornar logo um “cidadão antigo” e voltar com a família para casa.

— Nós nos iludíamos pensando que decorrido o tempo de penitência necessário, seríamos mandados de volta para reconstruir o país. Afinal, após tantos anos de guerra e desestabilização social, o Camboja certamente precisaria de todos os seus engenheiros e professores. Queríamos acreditar. Era o escapismo da esperança.

Ela foi sendo enterrada junto com os primeiros mortos. Metodicamente, para aprofundar a perda de parâmetros, os sobreviventes recebiam ordens de novo deslocamento, enveredando para regiões do país cada vez mais inóspitas. No caso de Yathay, a sentença final lhe foi comunicada ao chegar numa mata virgem que deveria ser derrubada para a construção de cabanas: ficariam ali para sempre. Seria a floresta dos mortos, um dos tantos “Killing fields” retratados no filme seminal de Rolland Jaffé. Começava a derradeira etapa da purificação através da sobrevivência dos mais fortes.

Na prática, o extermínio através da diminuição progressiva de ração diária e aumento do trabalho forçado. “No novo Kampuchea (nome antigo do reino cambojano) só precisamos de um milhão de pessoas para continuar a revolução. Não precisamos do resto”, dizia um dos editais, o que explica o desprezo do Khmer Vermelho por prisões, consideradas uma forma decadente e capitalista de desperdiçar recursos. Execuções atendiam melhor ao plano. Até mesmo o notório S-21 de Phnom Penh, a central de torturas do novo regime, operou essencialmente como máquina de arrancar confissões.

Apenas dois presos pelo genocídio

Yathay lembra quando o último semblante de humanidade foi enterrado e os seres ainda vivos passaram a viver sua própria destruição. Tinha sido chamado por um guarda para enterrar um cadáver. Conhecia as moradoras: uma professora com filha de 4 anos, e a irmã. Mãe e filha estavam sentadas em silêncio, diante de um corpo embrulhado com farrapos, como múmia, exceto pela cabeça exposta. Achou estranho, mas há tempos se habituara a não fazer perguntas. No dia seguinte, a história correra pelo campo: a professora comera a carne da irmã morta e fora flagrada com um pedaço cozinhando no fogo. A irmã-múmia estava descarnada. “Morremos. O desejo de viver morreu antes dos nossos corpos”, escreveu Yathay, que tem dois filhos, a mulher, os pais, cunhados e sobrinhos enterrados nos campos da morte. Ele sobreviveu, a utopia de Pol Pot não.

Como todo poder absoluto, o Khmer Vermelho foi corrompido de forma também absoluta. Tendo a repressão como única política possível e o colapso econômico como conseqüência lógica, foi contaminado por suspeitas intestinas. Vítima de sua própria armadilha, restou-lhe apenas matar e continuar matando. Primeiro os “novos”. Depois os “antigos”. Por fim, as próprias fileiras. Com o colapso da organização, começaram os expurgos internos e Pol Pot foi substituído pelo Camarada Número Dois. Morreu de forma obscura na mesma selva de onde emergira. Mas escapou de responder por seus crimes e só tardiamente a esquerda mundial se flagelou por tê-lo poupado de uma condenação em vida. Passados 30 anos, apenas dois expoentes da fracassada utopia estão presos: Ta Mok, mais conhecido como “açougueiro”, e o camarada Deuch, cérebro da central de tortura, interrogatório e execuções conhecida pela sigla S-21. Aguardam julgamento.

Foi somente no final dos anos 90 que esse genocídio do silêncio conseguiu merecer a atenção da ONU e ser qualificado como crimes contra a Humanidade. Um tribunal misto de juristas internacionais e juízes do Camboja será instalado em Phnom Penh para a condução dos trabalhos. Se é que algum dia haverá julgamento — não são poucos os ex-líderes mundiais e governos que prefeririam protelar para sempre a exumação de sua conivência com os campos da morte cambojanos.


SE ELES LEREM ISSO, POBRE COLÔMBIA

18 outubro, 2010

Visto no blog do Horáciocb: http://horaciocb.blogspot.com/2010/10/brasil-pega-emprestimo-para-pagar-bolsa.html

Se os terroristas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) forem espertos farão exatamente o que os terroristas brasileiros fizeram: se entregam, passam a integrar a democracia colombiana, concorrem e se elegem deputados e senadores, criam uma lei de indenização por perseguição política e, em poucos anos, ganharão altos cargos no governo com aposentadorias e indenizações milionárias.

Acrescento: e um deles ainda poderá ser o advogado que moverá as ações de indenização.