PEDRADA NA TIA

6 dezembro, 2010

Se salário baixo explica a má qualidade da educação, então o que explica a má qualidade do judiciário?

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De comédias e tragédias

20 janeiro, 2010

Um infeliz, termo para lá de apropriado como se verá, advogado certo dia, cansado de tentar obter dos funcionários de um cartório o cumprimento do seu dever, resolveu enviar ao juiz da causa uma petição em que pedia para que eles fizessem o que ele já havia mandado fazer seis meses antes. Escreveu em letras garrafais: PELO SANTO AMOR DE DEUS E TUDO O MAIS QUE FOR SAGRADO NESSA VIDA, EXPEÇA OS OFÍCIOS DETERMINADOS NA DECISÃO PROFERIDA EM JULHO. JULHO. JULHO

O último “julho” foi em letras ainda maiores.

Certo dia, recebeu de um grande amigo a tal petição. Havia, misteriosamente, caído na net e rolado meio mundo. Normal.

Em atenção ao amigo, respondeu do modo seguinte:

Consegui ver agora. Não sabia que vinha fazendo tanto sucesso assim, rapaz. Quem quiser um autógrafo só precisa passar lá no escritório. Fila preferencial para advogadas e estagiárias de mini-saia.

A idéia era essa mesma. Bom saber que deu certo. Ainda bem que escanearam a petição toda, mostrando que se trata da terceira vara cível da comarca de Maringá. Podiam ter escaneado também a decisão que determinou a expedição do ofício, com a respectiva data. Ficaria realmente hilário esse panorama da qualidade e prestatividade de alguns funcionários daquela pequena parte do judiciário.

O chato é que este sucesso não é meritório, porque, afinal, toda comédia tem no fundo uma tragédia. Noutros termos: não é a petição que é uma comédia, é o serviço que é trágico. Esperar de julho até janeiro do outro ano pela expedição de um singelo ofício ao SERASA é de fazer chorar qualquer John Wayne e até mesmo o alter ego daquele outro Wayne. Se os funcionários e estagiários do cartório de Maringá fossem tão rápidos em fazer ofícios como o são em fornecer ao público conteúdos dos autos, a petição nem teria razão de ser. Sorte minha que, graças à sua incomparável habilidade em priorizar, tomaram a decisão de primeiro, por algum meio qualquer, levar a petição a conhecimento de terceiros e só depois cumprir seu dever.

Se eu soubesse que eles iriam colocar na net, os teria citado nominalmente para que colhessem seus louros no episódio. O nome de cada um que me atendeu durante esses cinco meses entre a ordem dada e a expedição do ofício.

Eu ri também ao passar por fax. E não foi pouco. Detalhe: enviei o fax várias e várias vezes no fim do ano e só depois disto é que o ofício foi expedido. Já dizia o velho Kierkgaard: um homem que não ri de si mesmo não merece ser levado a sério.

Consultando o site http://www.assejepar.com.br, pode-se ver outra coisa realmente engraçada, hilária. A petição foi protolizada em 09 de dezembro e só foi juntada aos autos em 30 de dezembro. É ou não de rir que uma reles juntada leve mais de vinte dias? E do fax, nem sinal.

Eu acho que o povo tem mais é que rir mesmo, da petição e da estupidez e incompetência ímpares de todos os auxiliares (!?!) da justiça que de algum modo colaboraram para a inacreditável demora de setes meses na singela expedição de um ofício. Por outro lado, meu cliente chorou por todos esses sete meses e todos deveríamos chorar sabendo que qualquer um de nós está sujeito à mesma coisa. Claro, o correto seria proceder a uma representação na corregedoria, um mecanismo de eficiência inigualável, como sabem todos que já o usaram alguma vez na vida.

Cogitei não pedir mais nada e incorporar aquela personagem magistralmente interpretada pelo Michael Douglas em Falling Down. No último segundo, desisti e decidi guardar isso para uma outra ocasião. O dia do pagamento da anuidade da OAB, provavelmente.

Advogar não é exatamente empresar a nossa voz? Ora, aquele era o sentimento do meu cliente, só o registrei em papel e o levei ao conhecimento do juiz da causa. Aposto com qualquer um que há um bom tanto de outros clientes sentindo a mesma coisa nesse momento. Espero que os nobres colegas emprestem suas vozes, como deve ser. Nós, que portamos a famosa carteirinha, sabemos que um bom caso faz feliz o neto do cliente, mas ele mesmo ainda não tem essa experiência e por isso se desespera de vez em quando.

Honestamente, penso que o caso deve ir para os anais. Dos outros, claro. E no caso dos tais auxiliares, junto com os autos.

P.S.: convido todos a verem o desdobramento desse caso no endereço eletrônico http://www.assejepar.com.br/cgi-bin/cons_assejepar1.asp, escolhendo a comarca de Maringá, terceiro ofício cível, autos 233/2009.

P.P.S.: convido a todos a verem mais desdobramentos no blog http://domaugostodamteria.wordpress.com e nos sites jurídicos mundo afora.