Mantega e as promissórias

29 março, 2012

O texto abaixo é de autoria de Nédier Brusamolin, simpatizante ativa do MST e quejandos.

O oba-oba em torno do crescimento brasileiro é questionado por todos os lados. Talvez ainda haja esperança.

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Uma boa parte de minha infância vivi em um ambiente extritamente masculino. À noite fazia lições da escola no balcão do botequim do meu pai e frequentava a barbearia conjugada ao boteco, onde enleada em um cobertor, no colo de um dos operários do bairro escutava jogos de futebol do Rio de Janeiro em um grande rádio de madeira. Quando eu dormia, sempre enleada no tal cobertor um daqueles operários, fregueses, amigos me colocava na cama.
Minha casa ficava atrás do botequim e da barbearia, entrávamos ou pela porta que ligava o boteco à nossa sala de visitas, ou por um portão que dava para a cancha de boche que passávamos rente para entrar em uma pequena área que dava na cozinha.
Quando não tinha futebol escutávamos, na cozinha, programas radiofônicos da Rádio Nacional…”o sombra sabe o mal que se esconde…”etc e tal.
Eu me enrodilhava na minha coberta e procurava um colo disponível e aconchegante, ora o do meu pai, ora um homem chamado Carlos que me tratava como se fosse sua filha.
Morava conosco.
Alugávamos um quartinho para ele bem perto da cozinha, sala de jantar, de visitas. Um corredor enorme que abrigava um fogão à lenha, uma grande mesa para as refeições, o Rádio com cadeira embaixo para os ouvintes.
Cresci assim, descalça, roubando frutas em um mato de um tal de Frenha, jogando futebol, balas Zequinhas no bafo e um jogo chamado caçador, um tanto violento. Tínhamos de atingir os nossos adversários com boladas violentas para marcar pontos. …..
Fazendo este “flash back” concluo que fui uma criança livre, sem amarras, punições, sem ser repreendida ou castigada. Meus pais trabalhavam e era raro mães trabalharem fora.
Minha mãe se danava em atender o botequim que de dia era um “armazém” de secos e molhados, que supria de alimentos a vizinhança.
Lembro das grandes caixas de cereais à granel onde os fregueses se sentavam.
Todas as compras eram no “caderno” ou seja, fiado, no fim do mês eram feitas as contas das despesas e quase sempre pagas.
Durante o dia meu pai pintava paredes. De dia minha mãe e minha irmã atendiam os fregueses. De tarde minha mãe ia dar aula em uma Escola Isolada, minha irmã tomava seu posto mal chegada da Escola Normal. Meu pai, à noite, fechava as portas e aquilo se transformava em uma festa. Jogo de truco, bebida à vontade e por causa do álcool grandes e pequenas brigas entre amigos. Meu pai jogava-os no meio da rua. Uma vez empurrou um invocado que picava seu fumo e ele mais que depressa enfiou o canivete no braço paterno, o mais amado. Comoção árabe…rs…
Iria longe contando dos torneios de futebol, dos bailes carnavalescos e dos bailes “oficiais”.
Paro aqui e lembro, ou melhor sinto a sombra que pairava sobre meus pais, minha casa, sobre mim e eu não entendia. Eu sentia uma sensação de perigo iminente quando o mês ia terminando e tinha relação com dinheiro, o que entrou, o que saiu e tudo isso se resumia em duas palavras fantasmagóricas ditas em voz baixa: nota promissória. Elas eram referentes às compras que meus pais faziam para o botequim.Muitas vezes faltava dinheiro para pagá-las.
Meu pai não colaborava muito para que houvesse lucro e minha mãe era implacável. Brigavam feito dois cães furiosos. Minha mãe ameaçava sumir de casa. Era o caos nosso de cada mês. Foi indo até que minha mãe resolveu vender o “estabelecimento”
Fiz o normal, o curso de Direito. Minha mãe aumentou minha idade, não perguntem como, e eu, já aos 14 anos trabalhava no Estado, aos 16 lecionava na escola do bairro.
O curso de Direito me proporcionou alguns cursos de economia política e congêneres. Confesso que colei. Tudo era muito complicado e continua sendo. E cada vez mais.
O que são debêntures, Nasdak, oscilações do mercado atingindo o mundo. Vejo lindas jornalistas explicarem todo este embroglio, sorridentes com se fossem Anas Maria Bragas da economia.
Dão respostas.
Continuo sem entender.
Sei que é o dinheiro que move o mundo capitalista( e o socialista). Sou informada diariamente pelos meios de comunicação da corrupção, do desvio do dinheiro público enquanto o trabalhador, o que constrói, planta e colhe vive das migalhas que sobram destes grandes banquetes.
De repente todo mundo ficou otimista e o nosso país foi alçado aos píncaros sabe-se lá do que.
Perdoem-me os doutores, os entendidos no assunto, mas a menininha que fazia seus deveres de casa no balcão de um bar não consegue relaxar. Burra! Não estudou quando pode e agora tem uma certeza instintiva que apesar de tudo parecer bem, no horizonte as nuvens estão cinzentas e que teremos de pagar as notas promissórias de todas estas dívidas, de todos os compromissos assumidos e mal gerenciados. (as festas do meu pai depois do expediente levaram à venda do armazém)
Não tenho mais colo, os operários do meu bairro italiano morreram todos, o barbeiro que tinha uma orquestra chamada Pinguim e que eu acompanhava em serenatas tocando pandeiro, também já morreu. Meus pais, duas irmãs, todos os tios, muitos amigos do peito já não estão mais ao alcance do meu olhar e do meu tato.


E NOS VESTIÁRIOS…

27 março, 2012

Enquanto a torcida se espanca, os jogadores riem abraçados.

 

 

 

 


Rindo com Rui

20 março, 2012

Ainda atirando espinhos para todo lado, um tanto de descontração:

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal.

Foi averiguar e constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:

– Oh, bucéfalo anácrono!!!… Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.

-Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, confuso, diz:

-Dotô, rezumino… eu levo ou dêxo os pato???..


BIS PRO ROCK

20 março, 2012

A vigésima edição do festival Abril Pro Rock terá uma seleção de bandas para abrir o show dos Los Hermanos.

Denominada Bis Pro Rock, permite a inscrição e votação on-line de bandas novatas.

Aqui se recomenda a ótima banda Base 2, vinda das pradarias norte-paranaenses, cujo som pode ser ouvido nos links abaixo ou direto em http://soundcloud.com/base2rock

Para quem perdeu a paciência com Restart´s da vida, é uma boa chance de colocar em evidência coisa melhor. O link para votar é: http://www.bisprorock.com.br/banda.php?acao=detalhe_banda&bd=0496022bbbe43f09511455773903d506

Links das músicas:


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AS PUTAS DO FILHO DA PUTA

16 fevereiro, 2012

Diferente de outros filhos da puta que não se incomodam em ser chamados de filhos da puta, era um filho da puta que odiava ser chamado de filho da puta.

Mirava-se no espelho a ajeitar a gravata importada de Paris, a qual pouco ou nada combinava com o terno importado da Itália, ainda que não fosse exatamente feia, apenas convencional e não tivesse um só atrativo que justificasse sua importação.

Sentada na beira da cama logo atrás, mas não tão perto assim, a quenga arrumava seu sutiã rosa com pedrinhas brilhantes, bastante brega para uma puta de luxo daquele preço naquela cidade. Abaixou–se para pegar o vestido de melhor gosto, com o qual podia até passar despercebida de sua profissão, tanto mais que hoje as moças que se dizem decentes fazem questão de parecerem rameiras. 1,75 nua, tinha o corpo em medidas exageradas por muita malhação, hormônios para cavalos e silicone, que quase ninguém sabe que tem uma fórmula muito parecida com a da acetona. Seu cabelo loiro era bem tratado e não evocava muito a profissão, à exceção, talvez, do comprimento.

– Só uma rapidinha no almoço, hã? – disse a vagabunda.

– Meu prazer é problema meu. Isto é problema seu – tirou rapidamente algumas notas do bolso do paletó escuro demais para aquela cidade naquela época do ano e as atirou na cara da biscate.

– Babaca – falou e começou a recolher as onças pela cama e pelo chão e as guardou numa bolsa cara demais para ter sido comprada com o suor largado nas camas de motel. Era presente de algum ricaço que lhe tinha especial afeição, como sói rotineiramente acontecer em lugares onde o dinheiro rola fácil e a humanidade parece compelida a praticar o pior da civilização.

Acabara de pentear o cabelo preto não muito curto e terminava de se ajeitar, alisando o terno e a camisa branca e conferindo mentalmente se tinha pego tudo que trouxera, quando soltou um peido um pouco ruidoso.

– Além de tudo, peida o filho da puta – disse a quenga.

O filho da puta fechou a cara e a mão e virou-se rapidamente, acertando uma porrada no nariz da prostituta, que caiu já sangrando no chão junto à cama. Era um tipo atarracado, não muito alto, forte, não gordo, sem ser exatamente atlético, muito menos garoto propaganda de academia. Estava bem perto dos 85 quilos, mas em forma.

Levantou-a pelos cabelos, ouviu-se um grito e ele a soltou para que caísse como um pacote do supermercado, fazendo ruído e espalhando-se pelo chão. Abriu a braguilha e mijou na cara dela. Abaixou-se um pouco e começou a socar-lhe algumas notas dentro da boca. Deu mais umas porradas. Ergueu-se e disse:

– Se reclamar disto com alguém, mato você no minuto seguinte.

Não seria problema, o dono da agência teria tanta disposição para enfrentá-lo quanto para atravessar a pororoca do Amazonas carregando um urso nas costas. Disse mais pelo prazer de dizer do que pela necessidade.

Limpou a mão suja de sangue no lençol branco da suíte mais cara do motel mais caro do país. Voltou-se e escarrou na biscate deitada.

Entrou no Jaguar Preto pela porta de trás.

– Para a Engtrox – disse ao motorista, que lhe estendeu um copo de Blue Label com duas pedras de gelo, como de hábito.

Engtrox ele dizia ser Engenharia, Transportes, Rodovias e Obras, apenas mudando o plural para um X. E era isto que constava do contrato social da empresa, mas a verdade estava em seu íntimo: ENGana TROXas, sem u mesmo.

Apesar de construir um ou outro prédio de pequeno porte, o quente mesmo ali era que era uma empresa associada de uma concessionária de rodovia federal. Ele tinha sido o contato da empresa maior junto a diversos governos e o grande responsável por rolar a dívida da mesma junto aos bancos federais. Sua função no negócio era basicamente a de lobista para assuntos financeiros. Muito menos um caloteiro do que um caloteador.

Todas as suas empresas, ONG´s, associações, fundações e consultorias tinham nomes com significados no mesmo sentido. Sentia um prazer real e profundo em roubar dinheiro público, o que não era à toa, uma espécie de sadismo com base numa revolta geral com muita e muita coisa, ou talvez a ciência tenha explicação melhor que essa. Pouco importa, a descrição psicológica do bandido não diminui a dor da vítima, menos ainda o prejuízo.

Sua história de vida era um misto de admiração e nojo, de perseverança e mesquinhez, de esforço e trapaças, de superação e crimes. Nascera pobre no nordeste e, depois de muita sorte, trabalho, crimes e puxasaquismo, tinha conseguido, como se diz bestamente por aí, vencer na vida antes mesmo dos 30. Dez anos depois, já tinha vencido tanto que para muita gente não havia mais para onde ir. Ele sabia que havia. Sabia porque via, porque nunca foi exemplo de fé.

A quenga, quer dizer, as quengas entram na história porque no colégio se cansou de ser ridicularizado, desprezado e humilhado pelas gostosas mais novas, pelas gostosas mais velhas, pelas gostosas da mesma idade e basicamente por todas as mulheres que via. Era um adolescente normal, o que quer dizer que comeu o pão que o diabo amassou, já que na época a libertinagem sexual ainda não estava plenamente em voga e só rapazes bonitos ou ricos tinham sexo fácil e talvez nem tão fácil assim. Seja como for, certo dia depois de levar um fora duma moçoila a quem acabara de fazer um trabalho de escola, fez um de seus 4329 juramentos de Scarlett O´hara e decidiu que quando fosse rico comeria pelo menos 3 gostosas por dia, nem que fossem putas.

Normalmente eram putas, mas havia perto dele toda a fauna típica que se vê ao redor deste tipo de novo rico sul americano: modelos de borracharia, atrizes sem talento, cantoras sem voz, socialites sem dinheiro, esses bichos inflados de silicone e com muita massa corrida na cara. Assim que conseguiu seu primeiro milhão, iniciou uma rotina religiosa: no mínimo 3 gostosas por dia. Por menos prazer que tivesse ou vontade que sentisse, comia. Marcava com as quengas ou modelo ou o diabo que fosse e ia para o motel pelo menos 3 vezes por dia, onde quer que estivesse, ia, dava um jeito sempre. Podia até não gozar, mas meter, metia. Com o tempo, começou a gostar de espancá-las, mas não o fazia sempre, inclusive para evitar problemas. Tomava muito cuidado para não ser visto e ninguém saber, embora no seu meio casamentos de fachada fossem comuns e ele mesmo já fosse divorciado duma auxiliar de enfermagem que ficou para trás numa casa tal que ela precisaria de duas vidas para conseguir comprar. Entrar de Jaguar com motorista no motel, só mesmo onde fosse tão querido e respeitado pelo Rei que nem mesmo o Rei lhe olharia torto, como de fato nunca olhou. Nenhum deles.

Entrou no elevador da garagem e apertou o 7. A maioria dos seus escritórios ficava no sétimo andar. Ou no número 700. Ou 70. Ou algo assim. Era a nota necessária para passar de ano na escola, o que era fácil para ele, mas seria mais fácil se não tivesse apanhado tanto ou sido tão ridicularizado pela sua pobreza, pernas tortas ou sapatos horrendos que sua vó teimava em comprar. Como odiasse ambas as coisas, faltava muito e comprava um bom tanto de brigas das quais tinha sorte de sair com todos os dentes. Algumas vezes não saiu. A lembrança escolar lhe era tão agradavelmente forte que fazia questão de colocar sua mostra de riqueza e inteligência em algum lugar que a lembrasse. Pensava consigo mesmo que era uma forma de não esquecer que o inimigo não dorme nunca e que era precisa estar atento e trabalhar com cada vez mais afinco. Era o que dizia a si mesmo, mas isto é o tipo de coisa que cheira mesmo é a maluquice.

É claro que trabalhar para ele tinha um significado todo próprio, mas é certo que dormia pouco, festava pouco e fazia negócios o tempo todo, praticamente 18 horas por dia. Bebia muito, fumou erva poucas vezes, cheirou menos ainda, injetou quase nada, tomou umas bolinhas aqui e ali, mas disso tudo era abstêmio já se iam muitos anos. Na sua cabeça, riqueza e poder não combinam com mentes viajandonas.

Entrou na empresa e foi direto para sua sala, distribuindo uns “boa tarde” secos pelo caminho. Era uma sala média, com uma mesa, uma cadeira executiva atrás dela, duas cadeiras Le Corbisier à frente, dois sofás de couro pretos encostados numa parede, pouco luxuosa, apenas o bastante para não ser estranhada pelos executivos e milionários com quem tratava rotineiramente, embora parasse pouco por ali. Dizia sempre que dentro do escritório não há dinheiro, só nos corredores. Ligou para um número de celular mais difícil de conseguir do que o de muitos presidentes.

– É hoje. Em pouco tempo teremos mais de duas toneladas de material para erguermos nossa casa.

– Fiquei sabendo. Parabéns. Se tiver tempo, o verei pela televisão.

A ligação era absurdamente segura, mas preferiu usar um código, ainda que meio óbvio: duas toneladas, dois bilhões. Foi até o banheiro privativo, ligou para um número qualquer, abriu a torneira e deixou o celular embaixo da água corrente, pegou-o, tirou a bateria, embrulhou o restante num grande maço de papel higiênico, tacou fogo e jogou dentro da lixeira metálica. Fazia isto toda vez que ligava para aquela pessoa, cujo número variava umas cinco vezes por dia.

Estava num ponto da vida, hããã, profissional em que ou se conformava ou se tornava um mestre por trás dos mestres. A primeira opção não era de todo má, afinal estava quase bilionário, influente deveras, poderoso, respeitado e temido, tinha mais deputados no bolso do que pelos no nariz, mas sentia que algo ainda lhe faltava. Por outro lado, a segunda opção demandava um dinheiro que ele ainda não tinha. Resolveu se aproximar de quem tinha, ou seja, dos mestres por trás dos mestres por trás dos que sobem no palco. Não seria fácil, como não foi, como não estava sendo. Os mais graúdos que os graúdos deram uma chance, um teste. Precisavam encenar uma nova peça para um público nem tão ávido assim por novidades, mas que tinha no seu meio uma parcela de gente que estava vendo o que não era para ser visto e muito menos comentado seriamente por aí.

Este teste não lhe dava muita escolha, para conseguir esse dinheiro todo com a rapidez necessária para entrar no clube desejado, teria ou de se expor pessoalmente ou jogar tão pesado que acabaria revelando cartas na manga. Preferiu se expor um pouco e sacrificar peças no futuro. Enfim, acabou se impondo a seus colegas políticos como ministro. E azar de quem não gostasse.

E era hoje sua posse. O ministério escolhido não era dos mais fáceis, especialmente porque o até então titular tinha certa popularidade e respeito mesmo na oposição. Mas era um homem e todo homem tem suas fraquezas. E a deste era a vaidade, adorava mostrar o quanto era diferente dos colegas políticos. Era competente, não palanqueiro, gostava de deixar seus puxa sacos dizerem. Quando decidiu que esse era o ministério certo, colocou mais de duas dezenas de detetives na cola do futuro ex-ministro. Nunca seria o suficiente, era só por precaução. Sabia que o pegaria mesmo era vigiando os assessores, o que foi muito bem feito, não por detetives particulares, mas por um tanto de policiais federais que lhe deviam favores e outro tanto comprados especialmente para a ocasião. É basicamente uma regra da corrupção moderna que o partido imponha alguns assessores e secretários de sua confiança próximos do atores principais, é um modo de vigiar seus passos e garantir que a parte do butim que lhe cabe não se perca. Tudo que precisava era que um deles fosse pego num tiroteio bem barulhento, daqueles de levar multidões ao cinema. Algumas coisas foram surgindo, mas nada forte o suficiente. Dois inquéritos foram abertos, mas renderam apenas notas nos jornais. Não era o suficiente, mas podia ser um começo. Havia coisa maior, ele sabia dos detalhes, mas provar sem envolver outros poderosos amigos e, principalmente, poderosos inimigos era algo difícil.

Foi aí que resolveu que teria de entrar em ação ele mesmo. Não tão diretamente, mas teria de bolar um plano e contá-lo a alguém. E assim foi feito.

Havia esse assessor de gabinete que era filho dum amigo do tal ministro. Nem era um apadrinhamento, era mais um favor mesmo. Acontece que o moleque trintão andava a se perder na vida, entre um tanto de drogas e outro maior ainda de babaquice, o que forçou o pai a arrumar um emprego, mas também não queria humilhar o camarada com um trabalho sem nenhuma importância social, ou seja, sem nenhum status. O salário nem era lá grande coisa, não para essa gente endinheirada, mas pelo menos o playboy poderia dizer que trabalhava na próxima vez que a polícia o parasse por excesso de velocidade ou qualquer idiotice dessas. O ministro era realmente amigo desse camarada e achou que um cargo de assessor de coisa nenhuma era menos problemático do que um cargo em que fosse necessário trabalhar, pois aí é que burradas aconteceriam e teria de se explicar.

Sucede que esse aspone era amigo do filho do ministro também, apesar dos 10 anos de diferença. O mais novo fora bem educado, terminava um mestrado em engenharia e fazia um estágio promissor numa mineradora.Um verdadeiro Robin. Estava de férias e fora passar uns dias com os pais, bem, com a mãe, visto que o pai mais viajava do que ficava por ali, no natural do cargo.

Sabendo de tudo isto, trouxe duas quengas de bem longe, tratou-as muito bem, matriculou-as numa universidade particular, alugou um belo apartamento numa área nobre, emprestou dois belos carros novinhos em folha e deu-lhes uns dois quilos de garoupas só para roupas e jóias. Ganharam uma vida naquela cidade. Apostou no clássico: loira peituda e morena popozuda.

O playboy estava a terminar o curso o preferido dessa gente como ele que tem talento proporcional à disposição ao trabalho e inversamente proporcional à fortuna da família. Por muito mais que óbvio que as putas foram matriculadas nessa faculdade. Entraram no círculo de amizades, fisgaram o peixe. Babacas como ele desconhecem uma das leis da selva: sempre desconfie de uma mulher bonita, especialmente se olhar para você.

Enquanto as duas quengas de luxo curtiam uma vida bem da boa, duas putinhas morenas de 17 e 16 anos também começavam a experimentar uma vida muito boa, pelo menos em comparação com a miséria nordestina de onde foram tiradas. Um de seus lacaios conseguiu que uma cafetina poderosa arrumasse duas novinhas “para um cliente coronel que vinha passear”. A dona do bordel não lembrava em nada uma velha dona de bordel, era magra, com formas e sua beleza hoje era metade do que nos tempos de juventude, mas isso era mais que suficiente para encantar qualquer um. Nos mesmos dias em que as biscates de vestidos caros estavam a construir uma identidade local, as meninas ficavam basicamente o dia todo enfurnadas numa casa longe, boa, mas nada luxuosa. A biscatona coroa cuidava delas e ganhava bem por isto e especialmente para deixá-las longe de todos e de modo algum coloca-las no mercado. As garotas sabiam que teriam de trabalhar uma hora, afinal já eram do ramo onde moravam, mas iam curtindo enquanto isto, apesar de não poderem sair muito, só academia e olhe lá. Ganharam também uma mini extreme make over e ficaram ainda mais lindas e gostosas. O cirurgião, porém, acentuou-lhes os traços infantis, talvez porque tenha sido pago para isto, mas talvez seja muita crueldade dizer que um médico seja capaz de colocar rostos de bebês em corpos vultuosos de adolescentes só por dinheiro.

O caso é que as quengas foram levando na maciota o playboy trouxa. Um dia, deram. As duas ao mesmo tempo. E combinaram de fazer uma festa maior ainda com mais gostosas ainda, mas não acertaram data. Esperaram até que fosse dado o sinal verde pelo chefe, que pensavam ser uma pessoa, mas não era e não passava de uma voz ao celular.

Pois um dia o dia chegou e foi no dia em que o filho do ministro estava num churrasco na casa da família do filhinho de papai trintão. Percebido o movimento pelos policiais disfarçados, estes reportaram a alguém, que reportou a alguém, que reportou a alguém, que reportou a alguém, que reportou a alguém, até que o filho da puta soubesse. Então a ordem seguiu o caminho inverso e o telefone das putas tocou e em seguida o do bestinha. Era o convite para a tal festa. E ele chamou uns amigos porque estariam lá muitas e muitas gostosas prontas para uma suruba. E ele arrastou o filho do ministro, porque babaca que se preza gosta de levar os amigos para uma sacanagem, e que se foda se o cara é casado ou não é muito disso.

Chegaram numa grande casa muito bem localizada. Estavam lá diversos amigos das duas quengas, algumas amigas e muitas outras quengas, todas vindas de longe especialmente para a ocasião. A festa foi seguindo normal, com o consumo habitual de álcool e drogas. Lá pelas tantas, o celular das biscates tocou de novo e elas e as demais quengas começaram uns amassos mais fortes, umas pularam na piscina, os caras pularam, alguém entrou de calcinha branca, as moças que não eram assim tão atiradas foram indo embora, e logo os amassos na piscina aumentaram, as que não eram quengas e ficaram já estavam mais liberadas que as próprias quengas e dali já saíram casais para a sala e cozinha e por aí afora.

A essa altura as vagabundas já haviam batizado toda garrafa de uísque da casa, levando a cabo o plano passo a passo, talvez até se sentissem mal, mas são poucas as consciências que se opõem ao montante de grana que lhes chegou horas antes em casa. E as mocinhas do nordeste, bem pagas para também fazerem parte do show, foram obrigadas a tomar aquele veneno. Depois foram levadas para um quarto no terceiro andar da casa. Entraram e cinco atores pornôs as agarraram muito rápido e logo e começaram a ser espancadas e estupradas. Bem pagos, os caras metiam porrada a valer enquanto as fodiam de tudo que é jeito.

Presas lá, qualquer barulho seria apenas mais uma parte da suruba. Enquanto as pobres paraíbas eram severamente seviciadas, as outras duas quengas deram um jeito de serem metidas pelo filho do ministro. Terminado o ato, deram-lhe mais uísque batizado com todo tipo de droga imaginável. Subiram até o quarto, abriram com a chave que só elas tinham e entregaram a camisinha usada aos atores, que a enfiaram em todos os buracos das duas coitadas e depois socaram-na goela abaixo de uma delas, tudo como mandado pela voz ao telefone.

Minutos depois um incêndio teve início na cozinha. Logo se espalhou pela casa toda. Quem não estava chapado deu no pé, mas os carros todos davam de cara com repórteres do lado de fora, colocados ali por conta de toda a eficiência que só o dinheiro sujo pode comprar. Logo vieram os bombeiros. E a polícia. As quengas foram para bem longe, cada qual para uma cidade diferente, ganhando um apartamento e tudo que tivessem conseguido colocar dentro do carro antes da festa de arromba. E logo as nordestinas com cara de anjo saíram chorando em frente às câmeras. E logo algum repórter muito bem informado entrou na casa e viu o filho do ministro e o assessor babaca. O escândalo foi um sucesso: assessor e filho do ministro estupram menores em festa regada a drogas. Fotos das caras arrebebentadas das mocinhas angelicais, laudos divulgados na TV, detalhes ginecológicos das suas xaninhas, a camisinha no estômago, o DNA do filho do ministro, fotos de gigantescas carreiras de cocaína no chão, centenas de comprimidos, quilos de maconha. Foi um inesquecível orgasmo editorial.

O ministro já não era muito querido, apesar dos resultados que apresentava e o escândalo do filho, junto com os outros menores, acabaram deixando-o sem base.

E assim, sem maiores dificuldades, se impôs como ministro. E aquele era seu dia da posse. Não tinha muita vaidade, odiava holofotes, preferia os bastidores, mas precisava sorrir para as câmeras e enquanto andava até o palanque para o discurso de posse, olhava para elas imaginando que alguma colegial babaca que tinha lhe dado o fora no colégio estava agora em casa, casada, gorda e com cinco filhos, vendo-o e se arrependendo das flores não valorizadas, dos poemas não apreciados, dos trabalhos de escola não recompensados. Pensava nos valentões de então que hoje mal ganhavam o suficiente para comer abrindo valetas nas estradas de que ele era dono. Pensava na gente toda do seu passado e sorria. Sorria gostoso.


PERIPÉCIAS EM MENDOZA – DIA 1

24 janeiro, 2012

O ônibus que nos levou de Córdoba a Mendoza era da empresa Andesmar e também era um belo veículo, dois andares, ar condicionado, jantar, água e café. A sorte ajudou e pegamos as janelas frontais. A passagem semicama sai por 280 pesos (R$ 112,00).

Na saída de Córdoba um trecho com algumas curvas e uns poucos buracos sugere que paisagem será diferente, mas logo tudo volta ao padrão argentino de estrada: retas e pastos infinitos. A chegada em Mendoza, porém, permite ver ao longe os Andes e sua cabeceira branca, bem ao fundo e coberto por uma nuvem que pode fazer alguém pensar em chuva, mas nem pensar.

Chegamos a Mendoza domingo de manhã sem um puto peso no bolso. Ao menos tínhamos duas referências de hostels. Perguntamos ao pessoal do quiosque de informação ao mané, ops, turista, pela dada pelo sergipano doido e também sobre casas de câmbio naquele terminal. Nada feito, só no centro, segunda, mas ele informou que havia um cambista informal no guichê da El Rapido. Fomos lá. Na real, era uma mini agência, coisa comum com as grandes empresas nas grandes cidades. Perguntamos por câmbio e veio um gordão com a boa notícia: 1,50. O oficial acima de 2,40 e um paraguaio nos pagou 2,40 e esse camarada queria nos esfolar com 1,50. Era pegar ou largar. Pegamos pouco e fomos a pé, seguindo as instruções turísticas. Doze ou treze quadras.
Domingo de manhã, oito, oito e meia, se tanto. Pois com menos de cinco quadras já tínhamos matado uma garrafa de dois litros de água mineral. Marca Villavicencio, com um gostinho residual muy bueno, algum mineral em excesso por lá, espero.

Chegando próximo ao nosso destino, o Mendoza In Hostel (o hostel da juventude), decidimos nos precaver e já perguntar o preço de outros albergues no caminho. Vimos um com uma entrada muito convidativa, o Break Point e entramos. A chica muy hermosa nos atendeu com muita simpatia e nos deu os preços, 80 pesos (R$ 32,00), com café. Pareceu um pouco salgado e decidimos continuar a caminhada. Saímos e uns quatro passos depois ouvimos uma barulheira. O outro mané achou melhor não olhar para trás porque era confusão. Achei melhor olhar e eis que era o sergipano doido na sacada do hostel. Voltamos.

Entramos e o maluco nos contou sua aventura. Enquanto tirávamos 65548 fotos no centro histórico de Córdoba, ele tinha pegado um ônibus a tarde mesmo. Chegou a Mendoza duas da madrugada e se foi para o Mendoza In Hostel. Como bom brasileiro, não tinha feito reserva e claro que não tinha vagas. Para descer poucas quadras com sua mala pesada, sem pensar, não na avenida Villannueva, a rua da badalação. As calçadas largas são tomadas por mesas dos mil bares e o povo ainda invade a rua. Para ajudar, a maior parte dos hostels também são bares. Ferveção total. Pois para atravessar aquele mar de gente com uma mala nada mochileira, o doido pegou um táxi e parou no Dona Juana Hostel, quase em frente do Break Point. Não havia vagas, mas o carinha o deixava ficar ali num sofá por 120 pesos. Sem café. Achou melhor tentar a sorte um pouco mais abaixo e lá foram ele e sua mala metros abaixo até o Break Point, onde ainda havia vagas.

E por ali ficamos. Descemos as tralhas no quarto e fomos lagartear um tanto na sacada do mesmo, de onde se tinha uma bela vista para a piscina do hostel e do ao lado, onde uma chica muy caliente limpava a superfície com uma rede. Logo apareceram uns moleques e molecas argentinas. Playboys e patricinhas, viajando de carro. Foram receptivos e trocamos algumas palavras sobre Mendoza e o que fazer por ali. Elas sugeriram conhecer Villavicencio, uma cidadezinha nos arredores, mas me pareceu muito Campos do Jordão para quem viaja milhares de quilômetros de ônibus.

Como ainda estávamos sem pesos e com fome e precisávamos verificar os horários das viagens para Santiago, decidi voltar à rodoviária e ser esfolado mais um pouco pelo gordão da El Rapido. Aproveitamos o caminho para almoçar num restaurante fora da caríssima Villanueva. Não tínhamos pesos, mas o nordestino se ofereceu para pagar. Em frente a uma bela praça, devoramos um pollo assado. Sem farofa. O troço é deveras comum por lá, é frango de tudo que é jeito por todo tipo de preço. Pegamos um inteiro com papas fritas e uma Pepsi (argentinos não são muito fãs de Coca Cola) de 1,5 litros, tudo a 68 pesos (R$ 27,20). Sucede que um frango inteiro lá é algo meio diferente do Brasil, porque o bicho vem despedaçado, sem pescoço, pés e outras partes nada populares, mas com mais de duas coxas e duas asas. Comemos o mutante e eu já estava para lá de satisfeito, mas o sergipano queria mais.

Descemos por belas ruas bem arborizadas até a maior praça da cidade, que em verdade são quatro, todas juntas. Tiramos algumas fotos, mas não ficamos muito porque, bem, porque aquilo é um deserto. O calor bate fácil em 40 e a umidade relativa do ar chega a 50 em um ou dois dias do ano, se você tiver sorte. Por que diabos você acha que o vinho de lá é bom? Porque a uva fica concentrada com os elementos da terra, não se faz vinho com uva Itália.

Na rodoviária tentamos a sorte com outro cambista independente e doeu menos: 1,80. Troquei só mais um tanto para a janta e o hostel do dia seguinte, só por via das dúvidas. Na segunda procuraríamos um lugar melhor.

Mendoza é uma bela cidade, mas sem muitas atrações nela mesma. Tudo acontece nos arredores. Porém, um passeio por suas ruas e praças num domingo é coisa prazerosa. Ou tanto quanto o calor deixe ser. Tranquilidade, muitas árvores e algo parecido com uma brisa a cada duas horas.

Voltando ao hostel, eu e o sergipano decidimos conhecer o parque San Martin, no final da Villanueva. O outro mané não conseguia nem sair do lugar. Mais dez ou onze quadras. Só até lá. O parque é muito grande e bastante cheio em alguns pontos, com gente de todo tipo, mas predominantemente pobres. Muita água corre por suas ruas, vinda de fontes próximas. Há um grande lago, um pouco sujo pela farofa dos locais. O local rende boas fotos e é bem agradável também. Tiramos um tanto de fotos e voltamos. A avenida já começava a dar sinais de vida noturna.

Mendoza tem água correndo em pequenos córregos por todo lado, mas normalmente em pouca quantidade. Há muitas minas, por causa dos Andes, mais precisamente das geleiras. Muitas vezes é cristalina. Mas não é o suficiente nem para ser represada, não ali na cidade. Água, na verdade, é um problema sério numa cidade que tem sorte de ver 350 milímetros de chuva por ano. Lá não se reza por chuva, mas por neve. É preciso que as geleiras se encham no inverno, para que no verão a água desça montanha abaixo pelo belo rio que dá nome à cidade. Em 2010 não nevou quase nada e no verão de 2011 a cidade adotou um racionamento brabo. Ainda hoje, lavar carros e regar o jardim só depois das 22:00, sob pena de multa de quase mil pesos.

Voltamos ao albergue e fomos dar um tempo na piscina. Na churrasqueira, outros argentinos se preparavam para um churrasco. Sentamos de frente para a piscina e trocamos duas palavras com os playboys da manhã. Lá pelas tantas, um argentino careca veio nos oferecer uma Fernet numa taça improvisada a partir duma garrafa de Coca dois litros. Beber junto é uma forma de se abrir a alma e logo nos enturmamos com aquele outro povo. Estavam por ali uma belga, o tal argentino careca, uma mexicana, dois ingleses e outro argentino careca. Odiavam Michel Teló. Pronto, somos todos amigos agora. Não foi nada fácil explicar toda a poesia do hit do verão. “Nossa não é nuestra?” “Sin”. “Como em Nuestra Señora?” “Sin, mas é uma forma abreviada, resumida, comum no Brasil. É para dizer que algo é muito bom, uma forte interjeição”. “Ah, como se la chica fosse muy bonita?” “isto”. O resto da letra deu mais trabalho ainda e no fim todos chegaram à conclusão de que a música tinha se tornado ainda pior agora que sabiam o significado da letra. O curioso dessa conversa é que os argentinos entendiam bem o português. Se nós entendemos a letra dessa josta, talvez seja porque estejamos deixando de falar bem a nossa língua.

Seja como for, a parrilada foi avançando. Serve-se asado (costela), choriço (linguiça) e morcilla (choriço). A churrasqueira tinha ao lado um local com uma grade de ferro pesada, onde se colocava fogo na, que então é sob a outra parte, quando vira carvão é colocada debaixo de onde está a carne. Sem dinheiro não pudemos ajudar muito, então buscamos ao menos umas cocas e explicamos o acontecido aos churrasqueiros. Sem problemas. As patricinhas ficavam indo e voltando da piscina, mas elas não conseguiram nenhum bobo para ficar correndo atrás delas, exceto os playboys. Moleque é moleque em todo lugar.

O churrasco foi longe. No meio da confusão de inglês britânico, espanhóis, alemão e portugueses, o álcool traduziu bem e todos se entenderam maravilhosamente. Mesmo a mexicana que falava como uma metralhadora se tornou compreensível. Ninguém queria falar de futebol. Mal dos governos se falou bastante. Na real, aquele povo era muito divertido e inteligente. Mais um bom motivo para a galera classe média do Brasil dar umas andadas fora de hotéis e pousadas caras: aprender a ser legal sem ser superficial. Todos tinham muito interesse sobre a vida de todos em seus respectivos países, incluindo conversas atípicas para um churrasco da moçada.

Argentinos em geral adoram rock e conhecem muito de música brasileira. Paralamas são adorados. Expliquei a eles que por algum estranho motivo quase não há música deles no Brasil. Na infância também viram Tchu-Tcha. Com paquitas e paquitos. Ô vergonha de ser brasileiro. Uma das paquitas da época se casou com o cantor de uma das bandas mais interessantes e populares de lá. Um tipo que num dia toca para 40 mil pessoas e no outro vai uma aldeia indígena declamar poesia para trinta neguinhos.

Claro que apareceram outros brasileiros. Um capixaba e sua namorada carioca. Vinham de um passeio que já estava nos planos, ir até um Cristo Redentor nos Andes. Contaram como foi e deu mais água na boca. Era gente boa também, mas ficaram pouco conosco.

Um dos argentinos carecas, mais baixinho, é sonoplasta. Largou mão de trabalhar para a Disney em Buenos Aires e se meteu a abrir um negócio próprio. Deu certo. O outro argentino careca, mais alto, é chefe de RH num laboratório em Buenos Aires. São amigos e viajavam juntos. Um dos ingleses é neurocirurgião. A belga é enfermeira. Os playboys são playboys, as patricinhas são patricinhas e a mexicana é argentina.
Com aquele calor não havia cerveja e “Fuera Castros” (Fernet com Coca) que desse conta da sede. Seja dia, seja noite, bebe-se até areia. E quando se pensava que não havia mais nada, aparecia um dos argentinos com mais Fernet. Branca. Não é a cor, é o nome da marca. A Absolut das Fernet´s.

O povo começou a se recolher e logo fui também. Um dos playboys, que era algo como um namorado de uma das paty´s, já dormia há algum tempo. Ou não. Quando ela chegou, os dois começaram a falar na linguagem universal do amor, ou seja, o pau quebrou e fosse espanhol, fosse russo, dava para entender que ele a chamava de galinha, para dizer o mínimo. A outra patricinha estava sozinha, mas, pelo que se viu, com os outros playboys pagando a conta na esperança de faturar algo. Até ali, nada de negócio com ninguém. No dia seguinte se foram todos os playboys e todas as patricinhas. Tchiao, niños, mama llama para que tomem leche.

Até aqui, foi a parte mais divertida da viagem. Não tão interessante quanto Córdoba, Mendoza é uma belíssima cidade, com uma vida noturna invejável. O povo na Villanueva faz mesmo a festa, mas como já estávamos um tanto borrachos, ficamos no churrasco mesmo. A cidade não tem dó dos turistas e os trata com preços de turistas e não há câmbio que dê jeito, mas também nada absurdo ou proibitivo. Cervejas a R$ 7,00 a garrafa. Os argentinos ainda não fizeram por merecer a fama de arrogantes, tampouco as argentinas, sempre muito solícitas e prestativas. Nenhuma rivalidade no ar. Definitivamente, o mundo real é um e o da mídia é outro.

Em tempo: Mendoza também não gosta de Cristina.


PERIPÉCIAS EM CÓRDOBA – DIA 2

16 janeiro, 2012

E lá fomos para um boliche (boate) em Córdoba, a cidade universitária mais famosa da América Latina. Um sergipano doido, um equatoriano que viaja de bicicleta e dois turistas manés do Paraná.

Segundo o sergipano, que já andara por ali noutros tempos, o negócio era cHegar um pouco cedo, porque antes da meia noite os bares não cobravam e só depois viravam boates. Levou-nos a uma lugar que se chama Maria Maria Rock. Havia mesas pelo lado de fora, lotadas. Entramos. Pedimos uma Quilmes ao módico preço de 25 pesos (R$ 13,00). Noite é noite, meu filho. Minutos depois a banda subiu ao palco e começou a tocar um som funkeado com uma strato Fender coreana bem timbrada fazendo bonito com a também bem timbrada contraparte Epiphone, o palco era pequeno e o baterista usava uma bateria eletrônica decente. Tocaram duas músicas e se foram, era só a passagem de som. Quando voltaram, o som bacana de antes se transformou numa massa sonora tão solta e boa quanto miojo frio sem sal.

Como sói acontecer em outras cidades, as chicas todas vistas durante o dia se dirigiram a algum limbo desconhecido e havia poucas delas naquele boteco. O problema da noite em Córdoba são três: um, é caro; dois, o quente mesmo está numa cidade nos arredores e;três, a noite é o que é em todo lugar: música chata e gente mais interessada em desfilar do que em se divertir.

Como a banda tocasse rock de modo catastrófico, o sergipano queria dar no pé o quanto antes, mas isto dificilmente seria diferente se o som estivesse decente. Rock a baladas não combinam em qualquer lugar do mundo, os jovens querem música para chacoalhar a bunda. Por motivo diverso, concordamos. A esta altura o equatoriano já estava muy borracho e resolveu passar a mao na bunda da garçonete. O segurança veio e o sergipano interveio e tudo ficou bem, mesmo porque o maluco não se tocou de nada e já estava no meio da rua atrapalhando o trânsito.

Descemos em meio a uma profusão de bares e boliches. Durante o trajeto moçoilas vinham oferecer bônus e flyers de bares e boliches. A depender delas, o paraíso na Terra estava a uma quadra e duas doses pagas de Campari ou Fernet de distância. Em meio àquela muvuca de pessoas bem nascidas e bonitas, sempre haverá quem acredite e pague para ver. Chegamos ao que seria a melhor boate da cidade, localizada em cima do Paseo Central, ao lado duma bela Igreja, num belo prédio horizontal de vidro vermelho suspenso a uns 5 metros de altura. Na escada de entrada, a tradicional e universal fila e chororô com seguranças e promoters para entrada. Depois de uns minutos, ficou óbvio, mas o segurança deixou tudo bem simples: so las chicas. Ok.

O sergipano nos guiou então até um lugar chamado Muy, uma boate menos glamorosa, bastante lotada. Ambiente escuro, em corredores compridos, três pavimentos. Interessante, mas nada do outro mundo. Por ali ficamos. Lá pelas tantas o hit do verão argentino começou a tocar. Michel Teló. Definitivamente Deus tem um estranho senso de humor.

O equatoriano dançava como uma garça manca na brasa quente, mas não dava trabalho. Lá pelas tantas fui ao banheiro no último andar e quanto desci não encontrei ninguém. Procurei e procurei e procurei e nada. Decidi esperar em frente à saída única, pelo lado de fora. Depois de uns minutos me veio à mente que talvez o equatoriano tivesse passado mal ou se metido em confusão e sido levado embora pelos outros dois. Subi para o hostel a passos de formiga, para o caso eles virem atrás. Chegando ao albergue, deitei e acordei umas oito horas. Levantei e vi que lá estavam o sergipano e o outro turista Mané. Quando acordaram, a confusão foi bem esclarecida: desci do banheiro até o primeiro andar e eles estavam no segundo, naquilo de um procura o outro e o outro procura o um, ninguém se encontrou e todos continuaram perdidos. O básico de uma boa noite numa boate.

Depois de muita enrolacao, fomos encarar o sol do sabadao e conhecer o centro histórico da cidade. Há uma grande quantidade e variedade de igrejas. A explicação para isto é bem simples: os espanhóis que ganhavam terras naquela região eram obrigados a erguer uma igreja em suas haciendas e todos preferiam fazê-lo próximo à saída da mesma e quando se começaram a construir ruas na cidade, estas, como sempre, privilegiavam os fazendeiros para escoar sua produção. Quando a cidade se tornou maior e as fazendas ficaram na memória apenas, o centro da cidade acabou lotado das mais variadas igrejas.

A maior e mais interessante delas é a igreja do padres capuchinhos. Nela se vê colunas e pórticos muito bem talhados, com detalhes incríveis. Um americano que estava por lá me chamou a atenção para o fato de que nos pés das colunas haviam figuras de animais, como sapos, caranguejos e outros. “Nunca vi em Iglesias cristians”, disse num spanglish. Devolvi na mesma língua: “Si, unsual”. Depois percebi que sobre as colunas haviam pássaros com cabeças de animais: leões, ursos, uma mulher e um homem. Intrigante, mas a resposta estava num painel sobre a entrada central da igreja, uma pintura sobre o julgamento de São Francisco de Assis, aquele que conversava com os animais. Não encontrei o americano para lhe mostrar a explicação. Tiramos umas cinqüenta fotos e seguimos adiante.

No centro histórico se encontra o maior shopping da cidade, erguido num grande, grande prédio em estilo muito tradicional. A arquitetura era convidativa, mas decisivos mesmo foram a fome e o ar condicionado. Em Córdoba se pode beber 3 litros de água por dia tranquilamente. O calor beira os 40 graus e o ar é úmido como areia. Já na entrada uma bela surpresa te lembra que está numa outra cultura: um grande bar, em dois pavimentos, com o fantástico nome de Lo Hombre que Fue Hueves, o livro de Chersteton, cuja figura se via em alguns painéis luminosos. No mais, porém, é um shopping como tantos outros, com algumas lojas de roupas caras. Havia uma camisa pólo Lacoste a venda por algo como R$ 75,00. Na praça de alimentação dispensamos os fast shit e nos decidimos por um lanche comum na Argentina, chamado milanesa ou apenas mila, que é sanduíche de um bife à milanesa. O combo fornecia também uma porção de papas fritas (batata frita). Com um copo de quase um litro de Pepsi, nos custou 28 pesos (R$ 11,66, no ótimo câmbio de Córdoba: 2,47). Demorou um pouco, mas valeu à pena, saboroso e suficiente. O pão argentino é sempre algo à parte. Enquanto comíamos, uma niña se enturmou conosco, constrangendo um pouco seus pais, mas logo os deixamos ä vontade. Tiramos uma foto da pequena e brincamos com ela e seu gato de brinquedo do Mc Donald`s. Pegamos outro copo gigante de Pepsi, secamo-lo e seguimos adiante. Tchiao niña.

Descemos pela avenida Velez Sarsfield e até outra igreja e dali nos enfiamos no centro históricos e sues vários calçadões. Havia outros turistas por lá. Andamos algo como uns 4 kilômetros pelas ruas e passeios e tiramos mais ou menos 500 fotos.

Esta parte da cidade justifica qualquer ida a Córdoba. Por ali se vê uma curiosa e gritante diferença de tratamento entre o governo argentino e o brasileiro quanto à criminalidade. Há uma entrada de um prédio na qual se lê que ali funciona a divisão de apoio às vítimas do crime. Direitos Humanos para humanos direitos. E isto num governo populista e de esquerda.

Andar pelo centro histórico de Córdoba é ver que é facilmente possível que comércio, história e arquitetura convivam tranquilamente. Essa oposição maniqueísta é coisa de intelequituáu besta. Peguem num cabo de enxada e cresçam, babacas.

Depois de tanto andar e fotografar, decidimos parar num dos belos bares que há por ali. São belos lugares, com mesas embaixo de grandes arvores. Entramos num que parecia bastante fresco e pedimos uma garrafa da fantástica cerveja Patagônia, ao salgado preço de 30 pesos (R$ 12,15), mas bem menos que os incríveis R$ 30,00 no Brasil. Fantástico quer dizer fantástico, valeu cada centavo.

Voltamos lentamente pelo centro novo da cidade e paramos numa sorveteria para provar o sorvete argentino, muito bem recomendado. A moça que nos atendeu não entendi português e o outro turista Mané estava de mau humor pelo cansaço de tanto andar. De algum nos fizemos entender e pedimos. Na hora de pagar os dois sorvetes duplos, 12 pesos (R$ 4,85), o dono do lugar ficou bravo por termos estendido uma nota de cem pesos. Não tínhamos culpa porque o camarada da casa de câmbio não quis atender ao nosso pedido de notas mais chicas. Despachei o outro Mané para fora e fiquei conversando com o camarada que, no fim, se mostrou paciente e deu um jeito de nos arrumar o troco. Expliquei que no Brasil tínhamos o mesmo problema e que isto provavelmente se devia ao suo dos cartões de débito. Ele aquiesceu com a cabeça, nos despedimos e seguimos rumo ao hostel.

No albergue, tomamos banho, enrolamos e saímos umas 21 horas para pegar o ônibus que saía às onze e quinze. A rodoviária era perto e se podia ir a pé tranquilamente. Saímos cedo porque queríamos passar em meio aos bares do centro e tirar algumas fotos do início da noitada, mas entramos numa rua errada e só fomos nos dar conta bem tarde. Chegamos correndo na rodoviária, com o ônibus já encostado. Fui para a fila das malas e me descobri sem dinheiro trocado para pagar a propina do maleiro. Não é suborno, é gorjeta. Olhei para ele com cara de desespero, ergui os ombros pedindo desculpas e fui. Dentro do ônibus, tirei o celular e a carteira do bolso e descobri uma nota de dois pesos. Desci correndo e entreguei ao cidadão.

Córdoba é uma cidade de mais ou menos um milhão e meio de habitantes, muito bonita e arborizada. Um tanto suja, mas menos do que outras cidades de igual porte no Brasil, à exceção, talvez, de Curitiba. A quantidade de mulher bonita andando à luz do dia é de deixar qualquer brasileiro de queixo caído. No geral, fica muito difícil acreditar em crise estando por ali. Percebe-se que há muitos novos ricos e talvez por isto o bairro onde se localize o Córdoba Hostel se chame Nova Córdoba. O comércio é suficiente e há uma grande quantidade de estabelecimentos de internet e telefonia internacional. Na rua do Hostel, uns 500 metros abaixo, há grande quantidade de bares e boates, todos absurdamente empolgantes e convidativos em razão do colorido feminino de alta estirpe. E isto que não havia a população universitária típica da cidade.

Em Córdoba capital, o governo Cristina não é muito bem visto, o que talvez seja explicado pelo fato de haver muitas pessoas se dando bem por conta própria. Seja como for, no primeiro dia, o aumento do preço do metrô para 2,50 pesos (menos de um real) levou o sindicato de trabalhadores do metrô e liberar as catracas em protesto. Durou o dia todo e ninguém os chamou de baderneiros ou coisa assim. Não resolveu nada, claro.

O turismo é forte, mas a cidade não depende só disto, mas respeita os turistas, o que é algo muito e muito diferente de dizer que fique de quatro para eles. Há uma grande oferta de hotéis e hosteis, para todos os gostos. O turismo de aventura é muito praticado, mas deve se ir nos arredores da cidade, em belas montanhas. É relativamente caro, com uma cavalgada custando 280 pesos e um passeio em quadriciclos saindo a 400 pesos (R$ 161,95).

Se depender de Córdoba, aposto alto que a Argentina terá um grande futuro.


PERIPÉCIAS DE POSADAS A CÓRDOBA

12 janeiro, 2012

Depois de passar por Asunción e as ruínas das missoes jesuítas, estávamos dentro dos planos e cm sucesso na empreitada. Após enfrentarmos um obstáculo causado pela dificuldade lingüística e cultural, estávamos na fila da aduana argentina, na ponde que liga Encarnación a Posadas, uma espécie de Ponte da Amizade bem melhorada. O coletivo nos despejou ali sob um sol de 40 graus e uma fila de centenas de pessoas. Água só com os vendedores do outro lado. Tralhas todas nas costas, enfrentamos o sol e o empurra empurra por uns 30 minutos, até que o funcionário da aduna registrasse nossa entrada e entregasse a permissão de entrada, numa operação que durou uns 40 segundos.

A fila agora era para esperar o coletivo, que nao ficava exatamente esperando, mas sumia em algum canto, enquanto outros chegavam e despejam mais gente na aduana. Depois todos os passageiros se misturavam e subiam em qualquer um que aparecesse para seguir viagem. Havia duas opções igualmente tentadoras; ficar debaixo do sol até ele voltar ou ficar sob um teto de zinco. Ficamos debaixo do zinco, numa muvuca doida. Pelo menos havia um refrigerante frio para se tomar. Frio, porque não existe nada gelado nem no Paraguai e nem na Argentina.

Veio o ônibus, subimos e o lotação máxima ultrapassada começou a rodar. Não foram precisos nem duzentos metros para percebermos a diferença entre um país e outro. Posadas é uma cidade grande, de uns 300 mil habitantes, bem arborizada, algo fundamental naquele calor, não chega a ser bonita, mas também não é feia e é bem mais limpa que Encarnación.

Depois de uns 20 minutos, descemos na rodoviária da cidade. Um terminal muito grande e lotado, com uma grande variedade de empresas de ônibus para lugares de muitos países. Quem quiser, pode ir de Curitiba ou São Paulo direto a Posadas, onde também há ruínas de missões jesuítas, pela empresa Crucero del Sur.

Gracas às informações obtidas em Asunción, descobrimos que não precisaríamos mais passar pela cidade de Resistencia e ir direto a Cordoba, o que nos economizou umas duas dezenas de reais em ônibus, mais a hospedagem e um dia inteiro.

Pesquisamos os preços em várias empresas, as quais nos pareciam estúpidas por praticarem os mesmos horários e preços. Acabamos nos decidindo pela M. Honski, que nos levaria a Cordoba às 15:00, o que nos faria esperar apenas uma hora. O diabo é que por medo do cambista paraguaio, estávamos sem pesos argentinos. Corremos atrás de uma casa de câmbio no terminal, mas não havia. Ou voltavamos até a ponte ou íamos ao centro. Virou e mexeu, encontramos uma cambista que trabalhava num restaurante. O paraguaio havia no pago 2,20 pesos por real. A gorda suada ofereceu 2,00. Como era pegar ou largar, pegamos. Compramos a passagem e fomos procurar algo para comer. A passagem custou 385 pesos, uns 160 reais no cambio normal, mas que, por causa da nosso medo do cambista paraguaio, saiu mesmo foi por R$ 192,50. A gorda sacana faturou um monte em cima do nosso preconceito com os paraguaios pobres, mas quero ver quem seria macho de sacar um maço de mil reais em notas de cem no meio da rodoviária de Encarnación.

Entramos num grande restaurante perto da plataforma de onde sairia o ônibus. As opções não são nada interessantes para brasileiros, com lanches feitos com carne prontos em exposição no balcão de vidro. Não chegava a ser nojento, estava longe disto, mas nada parecido com o visual típico das franquias e shopping centers. Encaramos um pão com bife a milanesa, uma maluquice deveras comum na Argentina. Custo: 20 pesos, 10 reais. Mata a fome e satisfaz ao paladar de um almoço cotidiano. O pão argentino é muito diferente do brasileiro, mais pesado e com uma massa muito mais saborosa, mas dificilmente agradaria ao paladar aguado do brasileiro. No vidro onde se viam os sanduíches, um adesivo nos dava o tom dos serviços na Argentina: quem sabe comer, sabe esperar. Demorou uns 15 minutos para o camarada tirar um dos sanduíches de dentro daquele vidro e nos levar à mesa. Para acompanhar, uma Pepsi fria. Não há nada gelado naquele calor desértico. Talvez porque seja impossível aos refrigeradores manter qualquer coisa gelada com aquele abre e fecha constante.

Em meio a tudo isto, o estresse era diminuído pela presença farta das chicas hermosas. Muitas chicas. Muitas hermosas. E muitas chicas muito hermosas. As argentinas conseguem usar um mini short digno de uma funkeira e ainda assim serem elegantes, o que pode ser explicado pela qualidade do corte, do tecido, do caimento ou, provavelmente, por uma simples questão de estirpe e altivez que a cambada rebolativa brasileira nem sabe o que seja. Não tem jeito, minha filha, a beleza não está nem no pano e nem na moda, está na pessoa.

Enquanto esperávamos o ônibus, notamos que uma senhora de uns 80 anos que veio conosco no coletivo de Encarnacion esperava por ali, mas não dava para ter certeza de que pegaria o mesmo ônibus que nós porque na passagem vem escrito: plat – 10 a 20. Espera-se num ponto médio e presta-se atenção no anúncio indicado no bilhete, no nosso caso Córdoba.

O ônibus atrasou uns 15 minutos porque vinha de outra localidade, possivelmente Wanda ou Iguazu. O curioso é que era de outra empresa, o que explica porque tantos guichês diferentes ofereciam o mesmo horário: as empresas vendem passagens umas das outras, uma prática que é deveras saudável para elas e para os passageiros. Era a Crucero Del Norte, uma grande empresa argentina que, conforme vimos na TV interna, tinha hotéis, resorts e praticamente tudo ligado a turismo.
Era um veículo de respeito, dois andares, novo e com mais espaço entre poltronas que jamais se vê em aviões, o que faria uma enorme diferença numa viagem prevista para 15 horas.

O ônibus começou a viagem por uma paisagem um pouco parecida com a do Paraguai, com árvores baixas e secas, esparsas num terreno plano. Logo ela se transforma num pato sem fim, com uma ou outra ilha de árvores de algum porte e por mais que se force a vista não há um morro sequer em lugar algum. A estrada é pista simples, mas bem pavimentada e com acostamento. E é uma reta só e uma monotonia só, coisa de fazer a rodovia Castelo Branco parecer uma montanha russa. Algumas horas depois, começam a surgir pequenos charcos e uma ou outra lagoa. As casas são mais novas que as que se vê na estrada Paraguaia e há mais sinas de intervenção humana, como a construção de açudes e canais para escoamento da água. A monotonia não acaba nunca. Ou quase.

A primeira parada foi na cidade de Corrientes, uma cidade grande que lembra cidades grandes brasileiras em muitos aspectos. Tem uns 300 mil habitantes, mas é mais imponente e bonita que Posadas, com maior presença de comercio e pequenas industrias. A rodoviária é grande, feia e lotada. Esses argentinos devem adorar viajar. Como chegamos ali por volta de 8 da noite, sem parada alguma, bateu uma certa Fome. Desci e não achei nada que fosse rapidamente, então comprei uns afajores, aquele pão de mel metido a besta.

Umas duas horas depois, chegamos a Resistencia. Uma cidade menor, mas com uma rodoviária igualmente feia e lotada. Na saída da cidade, o ônibus parou na garagem para sei lá o que. Havia uma pequena lanchonete na qual só havia bolachas. Fica-se ali uns 20 minutos.
Lá pela meia noite vem uma bela surpresa: há jantar oferecido pela empresa. Primeiro entregam uma bandeja com um pão, queijo, presunto, um bolinho e um pudim. Logo vem uma marmitinha dentro da qual há arroz e um hambúrguer. Nada extraordinário, mas de aspecto e sabor decentes.

A madrugada avança pela enorme reta a nossa frente. Quando o sol dá sinal de vida, começam surgir maiores sinais de civilização ocidental, ou seja, comercio e indústria. O ônibus atravessa algumas cidades médias, parando vez ou outra em rodoviárias feias, sujas e lotadas, nas quais sempre há chicas para refrescar os olhos. A paisagem continua feita de pampas sem fim, mas agora bem salpicados de barracões, pequenas indústrias, pequenos bairros e coisas que indicam que a Argentina talvez não esteja tão mal quanto dizem os noticiários. Não se vê pobreza extrema em nenhum ponto dessa enorme viagem.

Por volta de 06:00 uma placa avisa: Córdoba – 225 Km. 20 minutos depois avistamos um enorme totem de cimento em que se lê: Córdoba. Mas nada da cidade. Por volta de 08: 15 uma placa avisa: Córdoba – 43 km. Por volta de 08:30, outra placa avisa: Córdoba – 45 Km. Córdoba é a província e a capital desta província, como Sao Paulo – Sao Paulo.

Lá pelas 09:00 entramos numa grande cidade, com vias rápidas e movimentas e prsenca forte de comercio, indústrias e serviços. Esse negócio de crise parece mesmo ser uma obsessão de jornalistas que nunca pegaram no cabo da enxada, o povo que trabalha, seja no Brasil, seja no Paraguai, seja na Argentina parece viver num mundo bem diferente dos economistas de jornais. Esquisitices à parte, chegamos em Córdoba por volta de 09:30, numa rodoviária enorme, relativamente nova,mas ainda feia, suja e lotada.

Andamos um pouco e encontramos um posto de informações turísticas, no qual havia uma chica muy hermosa e uma mais feiosa. Turista tem sorte,mas não abusa, foi a feia que nos atendeu. Informou onde havia um cíber no terminal e que não havia cambio ali, apenas no centro. Na lan, confirmamos endereço do hostel e que havia vagas, o que era necessário porque não tínhamos reserva alguma. Bateu uma sede que deu no pé rapidinho quando veio a informação de que uma garrafa de água de 300 ml custava 11 pesos, 5 reais.

Descemos dois andares para voltarmos ao ponto de informações. Dessa vez havia uma terceira chica, mais hermosa ainda. Fomos atendido muito bem por ela, que nos mostrou como chegar ao hostel a pé mesmo e ainda forneceu uma lista com outros 350, com endereço, telefone e site. Também nos deu um pequeno mapa da cidade. Gracias.
Andamos umas 10 quadras pelo centro novo de Córdoba (o velho é o histórico e turísitico), em meio a avenidas largas, movimentadas e muito arborizadas. O calor era de uns 35 graus e o ar seco de fazer o de Brasília parecer uma toalha molhada. Tralhas todas nas costas, seguimos.

O hostel localiza-se na rua Ituzaingó, repleta de bares, restaurantes e pequenos comércios. A entrada é bela e o interior é convidativo, mas como o preço informado pela recepcionista era mais do que o constava do site hostelbookers, decidimos dar uma volta e ir a outro. Não agradou e voltamos lá. Pedimos um desconto e ela nos fez o preço de membro de um clube qualquer de hostels. 62 pesos, 29 reais. Sem café, o que é incomum. Subimos e entramos num quarto com 3 beliches, que se ligava por um vão a outro no qual haviam mais 4 beliches. Conversamos 20 segundos quando fomos interpelados de longe por alguém num beliche desse outro quarto. Falava com o indefectível sotaque que parece o tempo todo dizer: oxente. Era um sergipano doido que estava dando um role pela América do Sul, mais ou menos como nós. Já tinha ido ao Uruguai, passado por Buenos Aires e tinha chegado ali no dia anterior.

Tomamos banho e tudo mais e fomos usar a internet do hostel. Havia dois computadores, mas só um ligava. Ligava mas funciona mal e a conexão era péssima talvez nem pelo provedor, mas pela própria máquina ruim mesmo.

No geral, essa viagem de Posadas a Córdoba mostrou uma Argentina bela e com vontade de ser grande.

E se há algo que se deve dizer de Córdoba é: chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas….

No hostel acabamos conhecendo também um equatoriano que já tinha morado em Aracaju, mas não conhecia o nosso compatriota, e que agora estava dando uma volta por Chile, Argentina, Brasil e Bolívia. De Bike. Combinamos os quatro de tomarmos uma na noite de Córdoba. E fomos, o que seria uma viagem à parte.


PERIPÉCIAS EM ENCARNACIÓN – RUÍNAS DAS MISSÖES JESUÍTAS

11 janeiro, 2012

Chegamos a Encarnación após 5 horas de viagem confortável num bom ônibus da empresa Nuestra Señora de Asunción, ao custo de 75 mil guaranis, o que dá uns R$ 35,00. Deu de 10 no que a Pulma nos forneceu para irmos até Asunción. O bilhete pode ser comprado com antecedência pela internet no confuso site da empresa: http://www.nsa.com.py.

Eram 05h05min quando desembarcamos na horrenda rodoviária da cidade. Todo o comércio do entorno já estava a pleno vapor, oferecendo chimarrão para todo lado. Interpelamos um camarada de traços indígenas para saber sobre como se chegava à recomendada ruína de Jesus de Tavarangué. Por acaso, era vendedor da empresa que ia para aquelas bandas. Disse que só tinha para a de Trinidad. O ônibus sairia 06h30min e custava 10 mil guaranis, cada. 10 mil guaranis, coisa de 12 reais, cada. Cada. Enquanto esperávamos, fazíamos nada porque as barracas ao redor eram tão atraentes quanto um tratamento de canal. Por volta de 06h00min, encostou um veículo tão parecido com um ônibus quanto a Hebe Camargo se parece com uma mulher. O vendedor nos olhou e disse que podíamos subir. Subimos. Dali uns 10 minutos, o ônibus deu partida e segui. Andou uns 50 metros dentro do pátio da rodoviária e parou em outro lugar, onde em uns 10 minutos subiram mais 5 passageiros, nenhum turista.

Um dos manés estava encafifado, o outro dormia encostado na janela da primeira cadeira, poltrona, pedaço de sofá, o diabo que fosse aquilo. Lá pelas tantas um indiozinho apareceu na porta, chamei-o disposto a gastar umas moedas a troco duma informação que evitasse um vexame ou algo pior. Las ruínas, sabe donde quedam? No. Missiones? No. Reduciones? No. Jesus de Tavarangué? No. Trinidad? No. Turistas, fotos? No. Então me mostrou umas cartelas de bingo e repetiu o mantra da propaganda que se avista nos outdoor s e muros da cidade: mucha plata, mucha alegria. Ganha um picolé de limão lambido pelo cachorro que adivinhar minha resposta.

Por volta de 06h40min a barca partiu para valer. Parou na primeira esquina após a rodoviária e subiram outros 5 passageiros, nenhum turista. O vendedor também fazia às vezes de cobrador. Mais a frente, entrou outro camarada no sue lugar. Enquanto se ia, a cidade passava, feia e suja, mostrando um comercio forte, algo parecida com cidades do interior do Paraná ou São Paulo. Não se viu pobreza extrema em canto algum.

Depois de uma meia hora no melhor estilo pinga-pinga num veículo que no Brasil não seria autorizado nem a carregar bóia fria, o novo cobrador nos disse que era ali que se descia: numa casinha que servia de ponto, donde de um lado se avistava muito mato e do outro mais mato ainda. Uns 20 metros a frente havia uma avenida que terminava na estrada, pavimentada em pedra, que poderia ser chamada de paralelepípedo, se tivesse uma forma geométrica regular. O camarada apontou para ela e nos forneceu uma enxurrada de informações: para lá. Certo, para lá. Mala e cuia porque não dormiríamos ali, seguiríamos para Córdoba, Argentina.

Para lá fomos e seguimos até que a dúvida viesse, ficasse e não se fosse porque não havia uma viva alma a quem perguntar. Cidadezinha bonitinha até essa Santissima Trinidad Del Parana. Uns tantos minutos de andança depois, demos de cara com um posto da Comisaria 35 (ou algo assim). Hola. Hola. Hola. Atravessei uma sala e cheguei a um gramado no qual havia uma camionete da polícia. Dentro um recruta dormia tranquilamente e que assim permaneceu. Seguimos.
Uns minutos à frente, duas sitiantes nos deram o caminho para as ruínas: vira aca, lá e vá. E fomos pelo meio duma estrada de terra que acabou noutra estrada de terra a qual exibiu num dos lados algo que prometia. E cumpriu: era a entrada para o terreno cercado no qual estavam as ruínas.

Havia uma calcada logo a frente, após um portal. Fomos seguindo tentando achar uma entrada. Quando achamos, vinda lá de baixo, dum prédio branco, veio uma loira com cara de Paraguaia e nos perguntou: ticket? No. Descemos até o tal prédio branco, no qual se davam lições a crianças sobre as missões e havia uma recepção do pequeno parque. A recepcionista não era exatamente guapa, mas foi muito simpática e nos vendeu uma entrada que valia para as três missões: Trinidad, Jesus de Tavarangué e San Miguel. 25 mil guaranis, para as três. Voltamos e entramos finalmente.

Tiramos 5 milhões de fotos em umas 4 horas, entre ruínas que tem uma história para lá de controversa. A doutrinação marxista oficial de nossas escolas ensina que os jesuítas vieram para a América escravizar e roubar as riquezas dos índios e ainda abusar das indiazinhas e até dos indiozinhos. Os católicos dizem que eles vieram aqui para impedir que os índios tivessem o mesmo destino que os espanhóis já tinham dado em Maias, Incas e Astecas. Talvez a ICAR só tivesse mesmo interesse em impedir que os mercantilistas arregimentassem um exército materialista e tornasse sua vida cada vez mais difícil nesta guerra ideológica, da qual as alianças políticas conhecidas eram apenas a ponta do iceberg. Seja como for, os jesuítas fizeram um trabalho eficiente de catequização porque a população pobre do Paraguai, majoritariamente formada por descendentes de indígenas, é católica muito praticante.

Uns 5 km de caminhada entre as grandes ruínas nos pareceram o suficiente e fomos embora. A saída\entrada era por outra rua de pedras que dava na estrada principal bem embaixo de uma placa enorme na qual se lia o nome das ruínas. Nem pensamos em porque o cobrador nos fez descer em outro lugar e continuamos andando pela estrada, conforme orientado pela mocinha da recepção e confirmado por um motoqueiro que só nos ouviu depois de desligar a moto. Andamos uns mil metros e avistamos outro letreiro enorme em frente a um posto de gasolina. Não era a entrada. Fomos perguntar sobre um tal ônibus que nos levaria pelos 11,6 Km restantes até Jesus de Tavarangué. Acabamos perguntando ao próprio dono\motorista do veículo Mercedes Benz ano 1968, 100% original, sem jamais ter trocado uma peca sequer. Algo parecido com um ônibus antigo. Saía dali uns 20 minutos. 5 mil guaranis cada, para ir e outro tanto para voltar. Enquanto esperávamos, entrei na lojinha e comprei uma água mineral Dasein, da Coca, a única coisa realmente gelada que encontramos no Paraguai, o resto ficava entre morno e frio.

Percorremos os 11,6 Km em 30 minutos no veículo. Ao longo do caminho outras pessoas subiram rumo à cidade de Jesus de Tavaranguè, que em guarani quer dizer “a cidade que deveria ter existido”. O tiozinho do bus disse sairia em meia hora e que isso era mais que suficiente. Na entrada um cartaz enorme dava orientações, inclusive a de que era necessário pagar um guia para nos acompanhar. 10 mil guaranis, cada. Ok.

A guia também não era lá muito gaupa, mas também foi bem simpática e conseguiu papaguear seu roteiro num bom portunhol. Num certo momento se assustou com uma mariposa e quis saber como se diz maripoza em português. Mariposa, a feia, borboleta, a bonita, esclareci. Ela deve estar até agora tentando dizer borboleta. As informações dela foram interessantes e o dinheiro não foi jogado fora, descobrimos que aquela já era a terceira versão da mesma missão, que ia mudando de lugar de tempos em tempos. Meia dúzia de padres controlavam, com ajuda dos caciques, 3 mil índios. A nova versão levou dez anos para ser construída e não ficou pronta porque os padres se desentenderam com o Rei da Espanha e foram expulsos, daí que a cidade que o vilarejo que veio em seu lugar recebeu o nome Tavarangué.

O controle sobre os índios se fazia pela velha tática latino-americana: corrupção. A troco da mao de obra dos índios, os caciques exigiam que os padres ensinassem seus filhos a ler e escrever. Negócio fechado. Para horror dos moderninhos, os padres tinham noções interessantes de respeito aos índios e ao meio ambiente, aproveitando a água da chuva e até da pia batismal para irrigar a lavoura. Expulsos os padres, os índios foram libertos da escravidão sanguinolenta dos católicos e puderam seguir livres e altivos para seu novo destino: alcoolismo e pobreza extrema. Estão aí até hoje.

De fato, 30 minutos foram suficientes, porque esta missão era menor que a de Trinidad. Ficamos sem ver a de Voltamos no Mercedao e ficamos esperando na estrada principal um ônibus para Encarnación. Meia hora depois veio um, pouca coisa menos ruim que o primeiro. Entramos. O cobrador informou o preço. 10 mil guaranis? Não. 5 mil. O corno da madrugada nos havia tomado 5 pilas na boa. Vida de turista Mané é assim mesmo.

Chegando em Encarnación, fomos ao ponto do coletivo que nos levaria à cidade vizinha de Posadas, na Argentina. Chegou o bicho, bem melhor que o intermunicipal que nos levou até as missões e que iria até Ciudad Del Est, uns 250 quilômetros a frente. Quanto custa? Csssn pesos. Quanto? Csssn pesos. Podia ser em guaranis, mas eram csssn pesos.

Cem pesos eram 50 reais, um absurdo para irmos de uma cidade a outra numa distancia como Londrina a Cambé, Curitiba a São Jose dos Pinhas, São Paulo a Guarulhos, etc.

Cambiamos forcosamente com uma camarada que não inspirava a menor confiança e que daria medo em qualquer turista de avião. Pagou-nos um preço até razoável. Só era difícil engolir aquele preço do ônibus. Perguntamos a um funcionário da companhia: csssn pesos. Perguntamos o preço do taxi: 150 pesos. Já que não tinha remédio, lá fomos. Chegou o bus. Entreguei uma nota de cem pesos para o motorista\cobrador. Ele balançou a cabeça negativamente. “Mnncjo. Nm hain trrrco”. Estiquei uma nota de dez pesos e ele me voltou duas notas de dois pesos. Seis pesos. Seis. Csssn quer dizer seis naquela estranha língua que os descendentes de índios praticam no Paraguai.

E lá fomos, naquele calor dos infernos para a vizinha Posadas, de onde iríamos a Córdoba.

Após uns 20 minutos, assando, cozinhando e fritando dentro do coletivo, o mesmo atravessa uma ponte sem fim sobre o rio Paraguai, para, abre as portas e todos descem. Deve-se passar pela aduana para depois embarcar novamente. Ficamos quase no fim da fila, debaixo dum sol de 40 graus, contados e noticiados. Mala e cuia. Água, só depois da aduana argentina. Agencia de turismo é para os fracos, meu filho.


PRESEPADAS EM ASUNCIÓN – DIA 2

7 janeiro, 2012

Ver o Paraguai como uma grande Ciudad del Est é como ver o Brasil como um grande morro carioca. Esta generalização estúpida, aliás, é um dos muitos problemas em comum a ambos.

De igual modo, o paraguaio em geral não é o índio pilantra encontrado com facilidade em Ciudad del Est. As pessoas são basicamente boas, honestas e acolhedoras. Fomos bem recebidos por todos e no comércio em geral as pessoas se esforçaram para entender nosso portunhol sofrível. Para não deixar dúvidas, basta ver a foto da casa que o médico paraguaio nos ofereceu para ficarmos. De graça. Não houve quem nos tratasse mal em momento algum nas andanças pela cidade. Exceto no único ponto que lembra a fronteira com o Brasil.

No Mercado 4 (para os de “Asú”, apenas Mercado) se tem uma pequena réplica da famosa algazarra muambeira. Na área de um quarteirão se amontoam de modo matematicamente improvável uma enorme quantidade e variedade de barracas, lojas, pessoas, animais e insetos. Foi o único lugar em que alguns comerciantes não fizeram mínimo esforço em praticar o portunhol, às vezes sequer levantam os olhos para atender. Quem mais precisa de você é quem menos se esforça para cativá-lo. Por certo que não é um privilégio paraguaio.

O resto de Asunción passa ao largo disto. Para tirar de vez esta imagem da cabeça, basta ir à esquina da rua Peru com Marescal Estirrigabia e ver uma locadora de DVD`s.

Fora da vida noturna também se avistam algumas chicas hermosas nos pontos mais populosos. Está longe de ser o paraíso na Terra, mas não deve nada à maioria das cidades brasileiras.

A cidade tem alguns shopping centers iguais a milhões de shoppings em milhões de cidades mundo afora. Para quem não vive sem, aí está. O maior atrativo deles em Asunción é o ar condicionado. Os preços dos produtos são caros, mas come-se pelo mesmo preço de qualquer fast shit no Brasil.

Na avenida Marescal Lopes se avistam algumas mansões e prédios imponentes, entre eles a moderna embaixada brasileira ocupando um quarteirão inteiro, a residência do embaixador mais à frente, o Tribunal Permanente do Mercosul e a enorme embaixada americana. Frente a esta, quando nos dava uma carona, nosso anfitrião fez troça com os ianques. “É aí que a CIA fica?”, perguntei. “Não, a CIA fica em outro prédio no centro”. “ Abertamente?” “Não, eles fingem que são de outros órgãos”. A interferência americana no Paraguai pode começar a ser avaliada pelo nome de uma rua em região nobre da cidade: General Douglas Mac Arthur. Sim, aquele do macarthismo e tudo o mais.

A noite de Asunción não tem dia. Sempre há o que fazer não em um, mas em vários pontos da cidade. Antes de embarcarmos, fomos ao Britannia Pub, instalado em um velho prédio. À exceção do belo luminoso, a entrada não é nada convidativa, mas lá dentro a decoração e a presença de chicas de alta estirpe afastam qualquer má impressão. Lugar enorme, com várias salas e quartos transformados em ambientes interligados por portas e vãos. Há dois pavimentos e um espaço ao ar livre, tudo dentro do prédio.

Ali comemos uma picada (porção) variada de carne, frango e linguiça ao vinho, que leva o nome do bar ao preço de 65 mil guaranis, o que dá uns R$ 37,50, mais que suficiente para os cinco presentes. Demorou quase uma hora para ser servida, mas isto não foi problema porque nos divertíamos com nosso amigo médico, uma amiga dele e um recém chegado francês com cara de iraniano que, segundo ele, sempre era confundido com brasileiro. A boa Pilsen saía por 11 mil guaranis, uns R$ 5,50 por cerveja de qualidade, não estupidamente gelada porque algo realmente gelado no Paraguai é raridade, mas o gosto da cerveja era bom o suficiente para não ser afetado por isto. Isto me fez imaginar que talvez brasileiros adorem cerveja gelada em razão do seu pouco sabor e qualidade, pois abaixo de certa temperatura o paladar é afetado. Algo similar à nossa adaptação da massa de pizza, que é mais fina que a italiana porque no começo a original ficava crua por não dispormos à época de fornos bons para assá-la corretamente.

Chegada a hora, saímos para a rodoviária, onde nos despedimos de nosso amigo médico com a consciência um pouco pesada por não termos deixado um presente melhor a nosso anfitrião, à exceção de uma garrafa de Fernet, uma bebida amarga que eles misturam com gelo e coca. Como a receita é similar à da Cuba Libre, mas o resultado é muito e muito melhor, apelidei o drink de “Fora Castros”.

Saímos de Asunción com uma boa imagem do Paraguay, a qual seria um pouco arranhada no nosso próximo destino, Encarnación, 5 horas mais tarde. De todo modo, o aprendizado foi vasto e este país ganhou pontos conosco.


PRESEPADAS NO PARAGUAI

4 janeiro, 2012

As peripécias começaram por volta de onze da noite do dia 02 de janeiro deste 2012.

Ou antes, posto que a empresa de ônibus que vai a Assunção, a Pluma (www.pluma.com.br) não faz embarques na rodoviária em Londrina, mas na sua garagem nesta cidade.

Eu e meu amigo rumamos até lá e por lá ficamos até coisa de 1:30 da matina, momento em surgiu um busao grande, bonito e com um aspecto bem convidativo e com destino a Assunção. Não era o nosso. Este chegou uma meia hora depois, um tiozinho dos busões, algo que trouxe desconfiança, plenamente justificada, embora ofereça mais espaço entre poltronas que qualquer avião da ponte área. Estava lotado e logo que entrei um moleque de olhos arregalados ficou me olhando com um letreiro de neon na testa: sou culpado. Sim, sim, maldito, este lugar é meu e terá de terminar a viagem ao lado de alguma gorda roncadora, vaza logo. Custa R$ 155,00 e se chega lá as 16:30h.

Em Foz do Iguaçu o ônibus sai da rodoviária e logo encosta num ponto de apoio da empresa, onde se pode tomar um café numa lanchonete de cara para lá de suspeita. Tomamos e ficamos esperando meia hora até que o busao voltasse da limpeza, como informou o motorista. Neste meio tempo acabamos conhecendo um suíço que também ia a Asunción, o que acabou sendo muito mais útil dos que os manés poderiam imaginar a princípio. 30 minutos depois encostou a barca, tao limpa quanto antes de ir para a limpeza.

Em Ciudad del Est é necessário que os gringos que voltam ou vão ao Paraguai façam sua entrada na alfândega brasileira. Logo após a Ponte da Amizade, cada vez mais quebrada, é a vez dos brasileiros fazerem o mesmo na aduana paraguaia. Basta uma identidade e está tudo certo, com exceção da fila, que nos custou quase uma hora. É preciso que se diga quanto se pretende ficar ali, o que é muito importante porque quando do regresso pode ter de pagar uma multa de R$ 30,00 por dia. Tascamos cinco dias, apesar de pretendermos ficar apenas dois.

A esta altura não haviam mais que 10 pessoas no ônibus, mas pode acontecer de em Foz se juntarem passageiros de dois ônibus num só para terminar a viagem.

Ciudad del Est, a princípio, é a nojeira bem conhecida dos brasileiros, mas à medida que se avança pela avenida principal, a cidade logo se torna parecida com qualquer coisa do interior do Paraná ou de São Paulo, o que não é exatamente um grande elogio.

Na saída da cidade há um quiosque duma franquia de chipas paraguaias, de nome Leticia, que iria surgir outras vezes durante o tajeto. Esta guloseima é um bolinho paraguaio em formato de meia lua de aspecto não muito convidativo. Quando avistam o ônibus, as atendentes, sempre de saias muito curtas, correm para a beira da pista e o motorista encosta para que elas entrem carregando um saco branco cheio destes salgados. O cheiro estava bom, mas a última vez que comi em Salto del Guairá não me animou a repetir a experiência. Em Asunción têm aparência muito melhor.

A estrada segue boa, apesar de simples, pelo meio duma paisagem monótona, parecida com a do litoral sul do Brasil. Se vê muitas casas velhas de madeira, casas velhas de alvenaria, casas inacabadas, galpões velhos ou inacabados e muitos carros brasileiros sem placa descansando embaixo de árvores. Também se vê alguns montes de pedras rosadas, carregadas e quebradas à mão pelos paraguaios para que se obtenha um revestimento similar aos nossos tijolinhos de churrasqueira, mas de textura muito mais estética.

Conforme se avança, não se passa por muitas cidades e as que se vê são feias e pobres, mas até aí não é mito diferente de boa parte do interior do Brasil.

O ônibus só faz uma parada para almoço numa cidade cujo nome não consegui ler na placa. O lugar é bonito por fora e por dentro. Custa R$ 11,50 o buffet livre com carne ou um pouco mais barato se não se quer carne. O almoço dos dois brasileiros e do suíço saiu por R$ 40,00, incluindo duas cocas e uma budweiser para o gringo.

A viagem segue e vão surgindo pastos cada vez maiores e mais planos, o que me fez imaginar que seria um ótimo lugar para um festival de rock. Percebe-se que por ali reina uma estiagem, porque os riachos e açudes estão secos. O sol escaldante, porém, parece não incomodar as vacas magras dali.

Conforme se vai aproximando de Asunción a pobreza vai diminuindo e, muito óbvio, a feiura também. No meio do caminho há uma cidade que se supõe que se chama Coronel Oviedo porque é o único caso no Paraguai que se vê, tal qual no Brasil, um restaurante Cel. Oviedo, radio Taxi Cel. Oviedo, gomeria Cel. Oviedo. Talvez haja até uma limpeza de fossas Cel. Oviedo.

As cidades também ficam maiores à medida que se vai chegando a Asunción Nelas e na capital se vê muitas placas de “estudio juridico”, ou seja, cursos preparatórios para concursos públicos.

Se chega à capital paraguaia através duma cidade da região metropolitana, cujo nome também não vi em placa alguma. Aliás, é muito difícil ao turista saber onde está porque a sinalização neste sentido é precária e as placas dos carros não trazem o nome da cidade.

A entrada na cidade demora muito a ponto de criar uma angústia nos poucos passageiros restantes, no caso apenas o trio de turistas apalermados. O gringo se mostrou muito gente boa e deu algumas dicas para futuras viagens. Está desempregado por vontade própria apenas para fazer esta viagem. Quando voltar, já tem emprego garantido em sua própria profissão de soldador industrial, cujo salário lá é de R$ 8.000,00. Uma curiosidade: na Suíça se é obrigado a ter um plano de saúde privado, que custa coisa de R$ 300,00 por mês. “Funciona”, foi a resposta à pergunta óbvia. Para os cinco pobres da Suíça, o estado paga este plano de saúde, mas não há hospitais públicos.

Depois de andar uns 40 minutos numa parte feia e até um pouco sinistra da capital, o ônibus encosta na rodoviária, feia e sinistra como 99% das rodoviárias brasileiras.

Ali trocamos uns reais por guaranis a câmbio de 2.250,00, o que te permite ter 900 mil guaranis ao custo de R$ 400,00. Obviamente, trinta segundos depois descobrimos uma casa que pagava 2300.

Mané que se preza não imprime roteiro da viagem e por isto não tínhamos em mãos o nome do hostel, o endereço e nem a empresa que nos levaria a nosso segundo destino, Encarnación. Há apenas duas lan house na rodoviária e, obviamente, a mais barata estava lotada e acabamos pagando 2000 guaranis por 15 minutos de acesso. Uma baiana doida apareceu pedindo para dividir a conta e concordamos. Enquanto esperávamos, ela nos meteu medo nessa história de albergue. Estava ali para fazer um módulo de mestrado e seus colegas de universidade baiana lhe falaram horrores dos hostels da capital paraguaia. Ela usou a cota dela, não cobramos e ficamos com poucos minutos para conseguir encontrar o que nos forçou a mais dois mil guaranis.

O hostel escolhido mas não reservado estava lotado, mas havia duas outras opções a preço de R$ 20,00 em quarto misto com até 10 camas. Não ficamos em nenhum, porque Deus protege os bêbados, as criancinhas e os turistas manés.

Enquanto esperávamos chegar o camarada do suíço, andamos pela rodoviária, compramos nossa passagem para Encarnación na NSA (www.nsa.com.py), ao custo de 75 mil guaranis, ou seja, R$ 33,33 reais, cada. O gringo pegou a dele para Resistencia (sem acento mesmo), já para as 6 da matina. Vimos algumas chicas hermosas, em quantidade e qualidade muito diferente de Ciudad del Est.

O suíço conseguiu uma casa para hospedagem através do, prazer em conhecer, http://www.couchsurfing.com, site que permite intercâmbio de viajantes e acolhedores no mundo inteiro. Faz-se um cadastro, oferece-se pouso a alguém e depois alguém te oferecerá também quando precisar e anunciar para onde se quer ir. Acabou sendo a salvação da lavoura porque o paraguaio foi muito gente boa e nos ofereceu o chão da casa de seus pais. Isto nos poupou R$ 20,00 do táxi até o outro albergue que escolhemos na lan house, no site http://www.hostelbookers.com, livrando-nos também do receio que a baiana havia nos incutido.

Junto com o paraguaio médico e gente boa, veio uma médica, chica muy linda e muy caliente e muio gente boa também. Fomos até a casa dos pais do médico, que haviam viajado e deixado-a sob os cuidados do mesmo. Uma bela edificação em 3 pavimentos, por dentro e por fora, com piscina em meio a um jardim bonito, casa esta muito bonita na parte bonita da cidade que, no geral, não é tão bonita, como a maioria das cidades brasileiras não é bonita. Onde ficamos, porém, era uma região muito bonita e arborizada. E bonita mesmo era a médica paraguaia.

Chegamos, nos instalamos numa suíte muito grande, mas com apenas uma cama, que, obviamente, deixamos ao suíço. Nem tomamos banho e saímos para um tour com o médico paraguaio e sua amiga muy hermosa. Vimos o centro, o Palácio do Governo, cercado de soldados que impedem uma maior aproximação porque no Paraguai ainda se faz política pelo ultrapassado modo revolucionário. Um dia eles evoluirão e farão política como nós brasileiros fizemos nos últimos 30 anos: por meio da muito civilizada corrupção. Temos muito a ensinar ao mundo, sem dúvida.

Em volta do antigo Palácio Legislativo e exatamente em frente ao novo, muito próximos um do outro, há uma favela. A polícia se limita a fazer a guarda do prédio e não promove nenhuma operação urbanística, comum em casos assim no Brasil. Um dia os paraguaios aprenderão com nós brasileiros e com os americanos que a polícia é uma instituiçao da maior importancia na construçao de cidades bonitas e agradáveis, responsável pela maquiagem urbana digna de um photoshop a ponto de fazer qualquer um acreditar pobreza só existe no dicionário.

Feito o tour, nos levaram ao Pirata Bar, numa cobertura de frente ao Palácio do Governo, de onde se avistava também o Rio Paraguai, logo ali atrás. Estão construindo uma rota de saída da cidade sobre o rio, o que me fez imaginar que é para que os ricos possam entrar e sair da capital sem ter de passar pela parte pobre e feia da cidade. Pelo menos isto eles já aprenderam conosco…

Se entra nesta cobertura por dentro de um prédio velho, parte que mais tarde, se torna uma boate, discoteca como dizem eles. Tomamos os cinco seis cervejas de nome Pilsen. Nome mesmo, não gênero Boa ou ruim, vai do fregues, mas é cerveja e não essa água aromatizada com cevada que vendem no Brasil com o nome de Skol.

Voltamos para a bonita casa do médico que nos deixou a sós enquanto levava sua formosa amiga para a casa dela.

Tomamos banho e fomos beber mais, agora num pub de nome Kilkenny, que o mané aqui julgava ser uma boate. No estilo irlandes, é bem grande, com dois pavimentos, muito bem decorado e frequentado por muitas, muitas chicas hermosas, mas não hermosas como a médica hermosa, mas ainda assim hermosas, com hermosos cuerpos, mas por vezes com rosto não tão hermoso. Acabamos conhecendo outras pessoas bacanas e depois de muita Pilsen, acabamos a noite numa boate localizada no mesmo shopping, no qual há diversas opções para se beber. Também havia muitas chicas nesta Cover, que é pequena, mas agradável. Por algum estranho motivo, também se toca sertanojo universitário no Paraguai, mas nosso anfitrião e sua amiga hermosa não gostam e preferem rock. Há uma FM que toca muito rock e o rock argentino é muito bem recebido no Paraguai, que não fica nada a dever ao rock brasileiro em geral, embora não tenha ouvido nada do quilate de Paralamas ou Titãs dos bons tempos. Não ouvi nada parecido com Restart por lá, mas a famigerada música do Michel Teló é muito tocada. Povão é povão, meu filho, nacionalidade não conta muito.

Apesar do câmbio favorável, noite é noite e uma cerveja custa R$ 5,00 como na maioria dos bares do sul.

A noite foi realmente quente: 32 graus. Noite.

No fim da noite, dormi no chão em cima de uns cobertores, o suíço no chão da varanda em um colchonete muito fino e o outro mané foi para a cama em algum ponto da madrugada. O médico dormiu no sofá da sala. Acordei muito bem, como se tivesse hospedado num caro hotel de cinco estrelas ou categoria superior. O suíço já tinha partido para Resistencia, de onde seguiria para Cocuy, Argentina, onde ficaria na casa de uma chica que conhecera não sei de que modo.

Como se vê, os paraguaios não tratam os brasileiros como se todo o país fosse uma grande Ciudad del Est. Primeira grande lição do mochilão: nunca avalie um país por apenas uma cidade. Boa parte deles entendem o português e nosso maldito portunhol, que pode te colocar em algumas confusões ou dar prejuízo, por exemplo, se não souber que não se diz catorce mil guaranis, mas dez com quatro, sem citar moeda e seus zeros. Fomos muito bem recebidos e muito bem tratados por todos, inclusive no comércio.

Até aqui a viagem foi muito proveitosa, graças aos paraguaios e não apesar deles como se costuma pensar no muito civilizado Brasil.

E aqui vai outra dica: cuidado com o álcool se é do tipo que perde as estribeiras, o policiamento é muito melhor que a maioria das cidades brasileiras e os soldados exibem tranquilamente suas metralhadores e fuzis. Pistola deve ser só para limpar os dentes.

Se ainda não entendeu, até aqui se falou bem dos paraguaios. Azar do teu preconceito.


You can’t always get what you want

15 junho, 2011

Quem realmente se importa com o passado? Até um preto velho e meio analfabeto já sabia que pedras que rolam não criam musgo. Não faz diferença alguma no presente e no futuro muito menos quaisquer sentimentos anteriores ao que se precisa agora. Ou se quer. Ou se pode.

Um amontoado de escolhas alopradas não define ninguém. Se existe algo desse tipo, só pode ser a merda que fede agora, a flor que agora perfuma a sala, a música que abre pernas ou leva a noite arrastada em meio a mil contas que não fecham e mesmo assim faz tudo parecer ok. O que quer que importe, só importa agora, porque ninguém existe antes ou depois.

E mesmo que no fim do dia seja tudo por ela, ainda assim é pelo que ela dá agora que as contas são feitas e não faz a menor diferença onde ela está ou o que faz da vida tão longe. E nem todas as lembranças do mundo valem um milésimo desse segundo.

Ninguém vive bem sabendo que não pode ter tudo o que quer, mas sempre há um jeito de fazer de conta que as coisas estão certas. Talvez numa festa todos nos esnobem ou talvez esnobemos a todos antes mesmo de sermos esnobados. Talvez o erro do mundo seja supor que lhe daremos algum sentido e nosso erro seja acreditar nisso. E nós não morremos por ninguém ainda porque agora há gente apostando alto que isso não vale mais nada, mas mesmo que possam nos tirar isto, não podem nos tirar este segundo, este minúsculo ponto em que todas as dúvidas se encontram e todos os planos se desfazem e qualquer sentido perde seu lugar naquela última reta.

Ninguém acredita que os bancos se importem quando ligam cobrando. É, é verdade que foi num dia de sol que te emprestaram um guarda-chuva e é num dia de chuva que exigem ele de volta. Se não há santos que amam quando isso é o que mais se precisa, sempre há um problema novo que podemos criar para passar o tempo.

O diabo nunca esteve numa encruzilhada esperando por algum violão perdido num ombro cego. Ele sempre esteve no seu colo, fazendo todo tipo de sujeira pelo caminho. Um cavalo carregado pela carroça, é o que ele vem aprontando desde sempre. Não há esperança que isso mude, mas, sim, no fundo de uma garrafa sempre há uma boa conversa e talvez um bom plano.

Mandamos para o alto e até para o inferno uma chuva tão grossa de lâminas verdes tão afiadas que fazem o diabo parar de assistir a seus escravos estuprarem a velha liberdade, aquela filha duma cadela bixiguenta que nunca cumpre o que a ouvimos prometer sem que ela jamais tenha aberto a boca. Regamos com o pior mijo que o uísque pode fabricar todo tipo de planta que possa dar frutos e torcemos para que nossos filhos consigam fazer as sementes brotarem algo mais forte e grande o suficiente para todos nos agarrarmos antes que a tempestade piore.

Pelo topo do lixo estão os que apostam seus rabos brilhantes que talvez seja verdade que Cristo fosse apenas o velho Satanás desperdiçando outra oportunidade de fazer as pazes conosco. Pelo lado de baixo vão os que não sabem de nada disso e só se deixam hipnotizar pelo brilho do traseiro das ratazanas.

E foi no meio disso tudo que velhos inimigos se uniram para vender a fantasia de um passado fértil, esmagando as bolas de geração após geração, até que a mais bicha das bichas tomasse o lugar de John Wayne. Eles só não esperavam pelo desespero alcoolizado de alguns tantos que ainda querem tudo porque podem quase tudo. Mesmo mentir para si mesmos para enganarem o diabo.

E que Deus nos perdoe por tudo que acontecer antes de termos razão nesse plano de fundo de garrafa.


PRÉ-SOCRÁTICOS

6 dezembro, 2010

“Pré-socráticos todos em 30 segundos: A filosofia começou com todo mundo procurando desembestadamente o princípio único que explica todas as coisas. Uns acharam que era a água, outros o ar, outros o fogo, o devir ou o estático. Daí chega Platão e diz “otários, não adianta procurar no mundo, o princípio único é o que está além do mundo”: pronto, é idolatrado e vira o filósofo mais importante da história. A partir daí, os pré-socráticos passam o resto da eternidade se perguntando por que não tiveram essa idéia antes. Educar é: arranjar alguma coisa esquisita para servir de princípio único de todas as coisas”.

Juarez Jandre, mostrando que sabe das coisas.


INTRIGANTE UNIFORMIDADE

6 dezembro, 2010

É ou não é intrigante que uma raça capaz de inventar um celular seja tão repleta de indivíduos fechados à convivência com idéias diferentes?


A DROGA OFICIAL DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

6 dezembro, 2010

“O Marxismo é o ópio dos intelectuais” – Raymond Aron


ENTRE O FORNO E A FRIGIDEIRA

6 dezembro, 2010

“Quando lei e moralidade se contradizem, o cidadão tem a cruel alternativa de perder seu senso moral ou perder o respeito pela lei” F Bastiat

Duro mesmo é saber que tem gente que não liga nem para um e nem para outro.


IMPORTÂNCIAS IMPERTINENTES

6 dezembro, 2010

Da série “irrelevâncias” notórias: Sua celebridade preferida do twitter já defecou hoje?


EXPLICANDO…

6 dezembro, 2010

Explicando o que é virose… Virose é o Efeito Borboleta das Doenças – Marco C. Amaral


PASSATEMPO

6 dezembro, 2010

Mentir é a coisa mais divertida que uma garota pode fazer sem tirar as roupas… mas é melhor se tirar – Alice, personagem de Natalie Portman em Closer.


PEDRADA NA TIA

6 dezembro, 2010

Se salário baixo explica a má qualidade da educação, então o que explica a má qualidade do judiciário?