A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 3 de 8

5 janeiro, 2009

 

Não sei porque um bando de moleques (nem tanto, na verdade) maltrapilhos (menos vítimas dos czares da economia que desleixados) se reúne embaixo de uma garagem de eternit para divagar sobre a origem do universo, teoria da relatividade, teoria da evolução e coisas assim; mas acontecia. E se os gregos conheceram os peripatéticos, aquele conjunto conheceu a versão século XX deles: muitas vezes discutíamos enquanto corríamos pela cerca do conjunto, uma maluquice que invariavelmente terminava com algum morador nos mandando sair da grama e coisas do tipo. Vá lá que nossas idéias fossem mais infantis que nossa mania de chamar táxis para apartamentos vazios, mas ao menos me fez alimentar o senso crítico. E só.

A merda do conjunto era um amontoado de pequenos blocos com oito apartamentos cada. Cada bloco era composto de outros dois pequenos blocos, ligados por um corredor, de modo que cada um dos sub-blocos tinha dois apartamentos no solo e dois em cima. A melhor imagem para isto é a de um cérebro. Havia o conjunto I e o II, entrecortados por uma rua normal, uma subida íngreme que nos matava cada vez que voltávamos da cancha de areia. Cada conjunto era cercado e contava com dois estacionamentos e um parquinho (playground). Abaixo dos conjuntos ficavam “as casas”, outro conjunto habitacional. Os blocos eram separados por espaços gramados, ás vezes com árvores. Os estacionamentos eram tomados por pequenas garagens de madeira e telhas eternit, aquelas cinza, cercando o espaço de antipó, aquelas pedrinhas que antigamente substituam a terra nua à espera do asfalto liso. Estas garagens serviam de traves para os jogos de segunda a sábado. Aos domingos, como havia mais gente, jogávamos na tal cancha, dois mil metros abaixo do conjunto.

Ao lado da cancha havia um pequeno espaço da companhia de água. Era na verdade uma grande fossa, que recebia o esgoto de toda aquela região. Só que havia ali uma torneira que raramente secava. E isso era muito importante, muito importante. Aquele lugar ficava uns cinco quilômetros para lá de onde foi achado o cadáver do Judas e naquela época eram comuns racionamentos de água em toda a cidade. A prefeitura mandava uns caminhões pipas levar água para a turba miserável, mas lá na esquina do fim do mundo, imagine quando e quanto é que chegava. Como a torneira estava à disposição – ou nem tanto, porque a área era cercada -, as pessoas iam até lá encher baldes e latas. O problema era a distância para “os apartamentos”. Problema maior era a subida. Problema que me rendeu muitas guloseimas. Não lembro ao certo, mas creio que para buscar um balde de água recebia o suficiente para comprar quatro ou cinco pacotinhos de snacks, não dos mais nobres, claro, das marcas cretinas mesmo. Não sei porque, mas eu tinha uma certa mania de comer estes snacks, como muita gente aliás. Mas podia ser um cinema, ou qualquer outra coisa. Normalmente qualquer outra coisa.

Também rendia alguma coisa buscar leite de manhã. Só que menos e mais problemático. Num arroubo socialista, o governo da época decidiu distribuir uns tais “tickets do leite”. A idéia era garantir um mínimo de alimentação à população, mas o diabo foi a escassez do produto, tsc, tsc, e olha que a perestroika tava em andamento. O mercadinho abria normalmente às sete horas. O leite, nesse tempo, durava até sete e quarenta e cinco, quando muito. O negócio era estar cedo na fila, pegar a cota de dois pacotes e voltar para pegar mais para os vizinhos que não podiam estar ali. Com o tempo a oferta caiu ainda mais e meu negócio faliu porque não dava tempo de voltar à fila muitas vezes e mesmo que desse não havia leite suficiente a todos. Ainda assim continuei acordando cedo, para abastecer a geladeira de casa, se chegasse na fila depois das seis e meia não haveria leite suficiente. Por um mês ou dois cheguei cinco e meia na fila, pela diminuta oferta. O mercadinho estava a duzentos ou trezentos metros do meu apartamento. Não duraram muito estes dias cubanos, uns cinco ou seis meses, pelo que lembro.

 


A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 4 de 8

5 janeiro, 2009

 

Com a falência do negócio do leite – o da água era muito sazonal -, resolvi abandonar o setor terciário (era assim que se chamava na época) e voltei-me ao secundário. Houve uma promoção, uma jogada de marketing, que consistia na troca de embalagens de certa marca de chocolates por uns joguinhos de papelão, muito curiosos e que por mistérios da natureza humana tornaram-se uma coqueluche entre a molecada, era, sei lá, um troço qualquer que todo mundo quer ter hoje em dia, mas sem a opção dos camelôs e da internet para a pobraiada fedorenta. Simulavam corridas de fórmula um, com pistas, carros e, isto era o mais engraçado, dados, tudo montável, tudo de papelão. A dificuldade estava em conseguir comprar chocolate o suficiente para ter os jogos. Na verdade, o problema mesmo era a durabilidade do brinquedo. Por ser de papelão muito fino, seu manuseio diminuía sua vida útil, tanto mais se jogado em muitas pessoas, o que era freqüente. Sem contar os acidentes e as brigas. Seja como for, deu-se o básico: encontre uma necessidade e satisfaça-a. Comecei a vender os tais jogos. Com cinco ou seis eu ia ao cinema ou, bom, você sabe: qualquer outra coisa. Eu saía do colégio no centro e ficava pelas ruas catando as embalagens. Às vezes ficava a tarde toda de sábado ou domingo fazendo isto. Daí era só trocar e vender. Foi um negócio bem sucedido, por assim dizer.

Eu vivia inventando essas coisas. Aliás, todos inventavam coisas assim. Moleques capitalistas! Uns vendiam papagaios (não a ave), outros jornal, papel, linhas de costura roubadas das mães, cabanas no matagal que rodeava os conjuntos, passarinhos, balões de São João (o ano todo), até gatos vira latas eram vendidos para as meninas. Mas o negócio mais lucrativo era vender frutas ao mercadinho. Isto consistia em dupla tarefa, uma a de colher as frutas e transportá-las até a casa de alguém, para depois vender uma certa quantidade. A outra era descobrir novos pomares nas chácaras ao redor para furtar as frutas. Era comum andar quilômetros pelo meio do mato para achar uma chácara farta o suficiente. É claro que ninguém ganhava nada além do necessário à manutenção dos supérfluos infantis, ainda que não fossemos, em geral, tão novos assim.

O escambo também era forte. Os clássicos gibis, selos, figurinhas, bolas de gude – as mais valorizadas eram as de aço, oriundas de rolamentos, chamadas “canhão” -, e até fitas cassete gravadas com músicas das paradas. Aquele lugar, visto de hoje, era como uma comunidade perdida. E o negócio era matar o tempo. Certas coisas são mesmo universais. Bobagem, nada é universal, foi só figura de linguagem.

 


A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 5 de 8

5 janeiro, 2009

 

Ir ao cinema era a grande aventura. O problema, como sempre, era o dinheiro. Outro problema era a autorização dos pais dos mais novos e outros nem tão novos assim, uma coisa bem provinciana, normal à época. Ainda havia alguma censura aos filmes, na verdade uma proibição etária, infelizmente bem fiscalizada, mas já não metiam o dedo no conteúdo (acho eu). Tomávamos conta do fundo do ônibus. Sempre havia um rádio junto. Outro dia vi uma turma tomando conta de um ônibus. Puta que pariu, troço infernal. Acredito que éramos piores, embora herméticos. A bagunça começava já no passar da roleta. O preço da tarifa exigia muitas notas. Normalmente guardamos cédulas umas dentro das outras, em formato de um “u” ou “v”. Mas é possível juntá-las umas dentro das outras, entrelaçadas, com a boca de um “u” entrando dentro do outro, um beijo monetário, e depois colocando uma outra pela lateral do volume, e assim por diante, formando um suruba cedular. Era assim que entregávamos o dinheiro do ônibus ao cobrador. Ou então, nas menores moedas possíveis, normalmente a menos do que o necessário, ou ainda de ambas as formas. E não há Cristo ou Maomé que vá conseguir me fazer entender porque eu achava isso divertido. E sarrear com nossa pobreza era lei, a qualquer minuto alguém soltava: quem trouxe a marmita? Onde a gente vai tomar gasosa? Um dia perguntaram sobre um sanduíche de mortadela. Alguém respondeu que havia escondido na meia. Pois bem, fiz exatamente isto no cinema seguinte: escondi um sanduíche de mortadela na meia e o saquei. Faltou coragem para comê-lo, ninguém ousou, o que me frustrou um pouco: façam o serviço completo, porra. Noutra vez ninguém levou rádio, no lugar levaram uma vitrola de mão, engenhosamente adaptada para funcionar com pilhas. Não recordo bem, mas desconfio que tocaram um disco do Modern Talking. Ou do Boney M. Ou outra porra ruim dos infernos. Também não lembro como é que o aparelho entrou no cinema. Acho que ficou no banheiro de algum shopping. Tudo ridículo, não há dúvida. Era induvidoso o ridículo, simplesmente não resistíamos. Claro que é bem mais ridículo contar suas memórias à espera da morte iminente. Isso poderia render um bom filme.

Trocar porrada a esmo era outro passatempo particularmente comum. Não gostava muito, ainda que não fosse dos piores. Volta e meia o tema da conversa era saber o que poderia acontecer numa briga entre fulano e sicrano. E, claro, sempre que possível provocávamos os tais. O ranking variava quase todos os dias, mas só nas posições intermediárias, nas superiores e inferiores raramente havia mudanças. Essa loucura me lembra os estereótipos dos povos bárbaros, os quadrinhos do Hagar, essas coisas. Será a natureza humana? Pode ser, mas talvez seja só falta do que fazer e efervescência hormonal. Ou idiotice mesmo. Aposto um picolé de limão chupado pelo cão sarnento nessa última.

Mas tudo isto não é importante. São menos que lembranças. O caso mesmo é outro.

 


A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 6 de 8

5 janeiro, 2009

 

A história começa mais no menos na época do sumiço do Astronauta.

Astronauta era um moleque que andava com a gente. Era mais novo e uns duzentos e cinqüenta por cento idiota, mas por qualquer motivo gostávamos dele. Tinha este apelido por dois motivos, um porque era de fato avoado, alienado, tonto mesmo. Outro era seu nome: Benerson Astrogildo Ferreira da Silva. De Astrogildo para Astronauta é um pulo. Seu pai era um dos muitos chatos que nos mandava parar de correr na grama. Era um bêbado, descia o sarrafo a valer na esposa e nos filhos, mesmo no de colo, o que era muito sussurrado e pouco falado. A polícia o prendeu uma vez, por causa de uma briga com a mulher. Briga no caso quer dizer uma saraivada de porradas com a tampa da panela de pressão. O Astronauta não era assim tão novo, mas a mãe o levava e buscava da escola, que ficava perto da cancha de areia. Havia a suspeita de que ela fizesse isto para evitar que o pai o matasse atropelado ao chegar do serviço. Pode ser que fosse só fofoca, mas não considero impossível, não pelo que sabia acontecer. Houve uma semana em que o beberrão exagerou e bateu em todo mundo todo dia. Como se não bastasse, ainda colocou fogo no apartamento. Dois dias depois disto, fomos chamar o Astronauta para buscar umas frutas. Batemos na porta e perguntamos por ele à sua mãe. Esta nada disse, só balançou a cabeça e fechou a porta. Como ela não ia muito com a nossa cara, como quase todo o condomínio, deixamos para lá. Dias depois é que soubemos a verdade. Ele havia sumido, sem mais nem menos. Como o pai também andava sumido por aqueles dias, o comentário era óbvio. Dois dias depois o pé de cana apareceu, todo engessado e enfaixado. Mas o Astronauta, não. E todos pensaram que o pai havia matado o filho. Ninguém sabia ao certo a razão daquele ódio paterno, mas corria uma história fantástica. Dizia-se que aquela era a segunda mulher do cidadão, irmã da primeira, a qual morrera no parto do Astronauta. Mais ainda, ele seria na verdade filho de um outro sujeito, amante da mãe. Pode ser só maldade de gente da periferia, mas de fato o moleque não se parecia nem com a mãe e nem com o pai, ele era gordo até não poder mais e os dois eram magros como etiopianos. Nunca soube se isto era ou não verdade, mas se pode chover sapos, então pode ser que coisas ruins também aconteçam, por mais fantásticas que sejam. Nunca mais o Astronauta apareceu.

 


A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 7 de 8

5 janeiro, 2009

 

Uns três anos atrás eu soube da verdade, a qual é mais fantástica que qualquer das histórias já inventadas sobre aquela família fodida. Encontrei-o totalmente por acaso numa farmácia. Patati, patatá, nheco-nheco, bah, blá, tititi, enfim: no dia do incêndio, ele havia tirado os freios do carro do pai, o que aprendeu de tanto ir torrar o saco alheio numa uma oficina lá “nas casas”, o que era uma idéia totalmente sua de muito tempo, e naquela mesma noite roubara uma garrafa de pinga do mercadinho, puta merda, justo ele que era o medo em pessoa, e espalhou um litro de aguardente pelo interior do carro para o pai ser preso numa blitz, no que fora inspirado em uma história do Demolidor (eu emprestei o gibi a ele, que nem gostava de histórias de super-herói, porque não conseguia entender o que acontecia e lia muito mal), mas no fim nem precisou de nada disso. Em casa, escondeu todas as garrafas do velho. Quando o pé de cana quis dar uma azeitada nas juntas, não achou merda nenhuma e começou a pancadaria, que culminou com o tal incêndio, cuja causa ele não explicou, apenas disse que nada tinha com aquilo, mas que viera a calhar. O pai saiu de casa para comprar cachaça, mas sabê-se lá porque o levou junto. Como era tarde da noite, rodaram um bocado e não acharam nenhum boteco. De repente, caiu de dentro da jaqueta do Astronauta um pequeno frasco de uísque, que aliás era um dos xodós do pinguço. O velho ficou tremendamente puto da cara desceu e sentou porrada com gosto. E ele então confessou que todas as garrafas estavam no porta-malas. O traste parou o carro na hora e foi conferir. Nisto estavam em uma rodovia que passa lá por perto do conjunto, só que já alguns quilômetros longe, em direção ao interior porque o cidadão estava bêbado demais para perceber que dirigia para o lado errado: não ia encontrar um boteco antes de rodar uns cinqüenta quilômetros! De fato, as garrafas estavam todas lá, até as que ficavam escondidas no motor da geladeira.

Mais emputecido ainda, o pai deu a volta, abriu a porta do carro, arrancou o Astronauta de dentro e continuou a soca-lo com vontade. Bateu tanto que ele perdeu a consciência. Acordou em um hospital. Lá contaram que fora encontrado em um rio. O carro caiu de uma ponte, a porta se abriu e ele foi levado para longe pelas águas, não muito nervosas ali. Nunca mais voltou para casa. Foi morar na rua, viveu por aí, como um menor abandonado. Estava caindo na criminalidade pesada quando foi parar em uma casa de meninos, isso dois e mil quinhentos quilômetros ao norte. Ali descobriu que era um grande cantor. Entrou para um coro de Igreja, depois para uma banda de formaturas local, depois uma banda de formaturas da capital. E assim vive até hoje, tocando em bailes de formatura. Está bem de vida, casou, comprou casa, carro e já até conhece Miami. Tava mais gordo que nunca.

 


A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 8 de 8

5 janeiro, 2009

 

E aí contei a ele o fim que o filho da puta levou. E fiquei muito feliz em ver que ele ficou feliz em saber do acontecido, disfarçou, mas ficou feliz. Foi um desfecho digno da tralha que era, faz a gente até pensar em justiça divina. Depois que o carro caiu da ponte, Deus resolveu dar mais uma chance, contabilizando uns seis trilhões delas, e ele voltou para casa. A polícia o encontrou caído no local do acidente e, como o carro estava cheio de sangue e fedia a pinga, fora preso. Não se sabe como, escapou e foi para casa. Mas a polícia o encontrou logo. Para seu azar, dois dias depois foi encontrado o corpo de uma menina, estuprada e morta, a cem metros do lugar do acidente. Nas fofocas, o corpo da menina se transformou no corpo do Astronauta. Na cadeia adoeceu de vez. Meses depois se descobriu que nada tinha que ver com o crime. Ao sair, passou no boteco e encheu a cara. Ao chegar no conjunto, passou pelo estacionamento, se escorando até em cachorro, cambaleando e andando de quatro e até se arrastando, uma coisa linda de se ver. Xingou todo mundo e seguiu em direção a seu apartamento. Quando já ia saindo do estacionamento, alguém chutou a bola em sua direção, sei lá eu se de propósito. E acertou bem na cabeça. O azar é que o estacionamento acaba, naquele ponto, em uma pequena escada de cimento. E o velho rolou escada abaixo. Ficou paraplégico. Ficou dois dias no hospital. A ambulância trouxe ele de volta lá pelo meio dia. À noite a mulher foi embora com os filhos. Ele morreu sozinho, não gritou porque em volta de sua cama a mulher deixou dezenas de garrafas de pinga. Bebia e dormia, não comia, o sacripanta não podia mexer as pernas, mas se virava para catar as benditas garrafas. Quando a bebida acabou, já estava tão fraco que não conseguia nem falar. Morreu de fome. Mãe e filho nunca mais se viram. Mas isto se deu depois. No tempo em que pensávamos que o Astronauta fora assassinado pelo pai a tristeza era geral. Era um gordo de merda, mas era da turma, era gente nossa e fazia falta numas aventuras. E tem uns vagabundos, engomadinhos de merda que não querem que seus filhos nem sequer saibam de coisas assim, que dirá ver de perto. Pro inferno! Meus diplomas não me servem nem para limpar o cu, porra.

Não importa quanta imaginação se tenha, nem quanto se leia ou se ouça ou se fale, nada é mais fantástico que a vida. O tempo todo acontecem coisas que estupram toda compreensão e alargam os limites da imaginação. Por que parece o contrário? Porque a porra do cotidiano envenena a razão, o que nos faz tomar os meios como se fossem fins. É um caralho de ferro vermelho vivo de quente, vinte e oito por oito, fodendo em ritmo de britadeira com nossa mente. Não é só. É a merda do paraíso, a perfeição divina, todas estas idéias sobre outros mundos, outras vidas, dimensões, seres evoluídos, energias superiores e tal e tal e tal. Idéias que atravessam os tempos porque os tempos não tiram dos homens seu desejo de segurança, de conforto e de um raio dum objetivo único e comum para tudo, o grande motivo, o grande plano, o grande jogo, isto é o que alimenta as filosofias de que a realidade é corrupta. As crianças perdem o medo do escuro, diz-se que são homens então. Os adolescentes perdem o medo das espinhas, diz-se que são homens então. Bobagem. Homens surgem quando vomitam ao se olhar no espelho e mesmo assim se vestem para o trabalho, mesmo que a simples lembrança disso os faça mijar nas calças, que então eles trocam e trocam até não ter mais uma gota dentro do pinto.Falam o quanto as gargantas agüentam sobre a imperfeição e a corrupção desta realidade e da perfeição e integridade e maravilhas dos outros mundos, mas no fim do dia ninguém abandona esta vida de merda. Sabe como isto é explicado? Provação, desígnio divino, fases de evolução e a puta que pariu a quatro. Religiosos são como advogados, cada vez que uma de suas idéias não bate com os fatos eles criam uma nova tese para explicar a dissonância. É assim também com as contradições de suas próprias teses. É um buraco sem fundo. Teses sobre teses sobre teses sobre teses, infinitamente. Quando tudo falha, resta a possibilidade de se invocar a impossibilidade de o homem saber tudo. Não é à toa que religiões se sustentam na fé.

Mas enfim, o causo do Astronauta era esse. E foi mais ou menos por aí que a fodeção geral começou.