PERIPÉCIAS DE POSADAS A CÓRDOBA

12 janeiro, 2012

Depois de passar por Asunción e as ruínas das missoes jesuítas, estávamos dentro dos planos e cm sucesso na empreitada. Após enfrentarmos um obstáculo causado pela dificuldade lingüística e cultural, estávamos na fila da aduana argentina, na ponde que liga Encarnación a Posadas, uma espécie de Ponte da Amizade bem melhorada. O coletivo nos despejou ali sob um sol de 40 graus e uma fila de centenas de pessoas. Água só com os vendedores do outro lado. Tralhas todas nas costas, enfrentamos o sol e o empurra empurra por uns 30 minutos, até que o funcionário da aduna registrasse nossa entrada e entregasse a permissão de entrada, numa operação que durou uns 40 segundos.

A fila agora era para esperar o coletivo, que nao ficava exatamente esperando, mas sumia em algum canto, enquanto outros chegavam e despejam mais gente na aduana. Depois todos os passageiros se misturavam e subiam em qualquer um que aparecesse para seguir viagem. Havia duas opções igualmente tentadoras; ficar debaixo do sol até ele voltar ou ficar sob um teto de zinco. Ficamos debaixo do zinco, numa muvuca doida. Pelo menos havia um refrigerante frio para se tomar. Frio, porque não existe nada gelado nem no Paraguai e nem na Argentina.

Veio o ônibus, subimos e o lotação máxima ultrapassada começou a rodar. Não foram precisos nem duzentos metros para percebermos a diferença entre um país e outro. Posadas é uma cidade grande, de uns 300 mil habitantes, bem arborizada, algo fundamental naquele calor, não chega a ser bonita, mas também não é feia e é bem mais limpa que Encarnación.

Depois de uns 20 minutos, descemos na rodoviária da cidade. Um terminal muito grande e lotado, com uma grande variedade de empresas de ônibus para lugares de muitos países. Quem quiser, pode ir de Curitiba ou São Paulo direto a Posadas, onde também há ruínas de missões jesuítas, pela empresa Crucero del Sur.

Gracas às informações obtidas em Asunción, descobrimos que não precisaríamos mais passar pela cidade de Resistencia e ir direto a Cordoba, o que nos economizou umas duas dezenas de reais em ônibus, mais a hospedagem e um dia inteiro.

Pesquisamos os preços em várias empresas, as quais nos pareciam estúpidas por praticarem os mesmos horários e preços. Acabamos nos decidindo pela M. Honski, que nos levaria a Cordoba às 15:00, o que nos faria esperar apenas uma hora. O diabo é que por medo do cambista paraguaio, estávamos sem pesos argentinos. Corremos atrás de uma casa de câmbio no terminal, mas não havia. Ou voltavamos até a ponte ou íamos ao centro. Virou e mexeu, encontramos uma cambista que trabalhava num restaurante. O paraguaio havia no pago 2,20 pesos por real. A gorda suada ofereceu 2,00. Como era pegar ou largar, pegamos. Compramos a passagem e fomos procurar algo para comer. A passagem custou 385 pesos, uns 160 reais no cambio normal, mas que, por causa da nosso medo do cambista paraguaio, saiu mesmo foi por R$ 192,50. A gorda sacana faturou um monte em cima do nosso preconceito com os paraguaios pobres, mas quero ver quem seria macho de sacar um maço de mil reais em notas de cem no meio da rodoviária de Encarnación.

Entramos num grande restaurante perto da plataforma de onde sairia o ônibus. As opções não são nada interessantes para brasileiros, com lanches feitos com carne prontos em exposição no balcão de vidro. Não chegava a ser nojento, estava longe disto, mas nada parecido com o visual típico das franquias e shopping centers. Encaramos um pão com bife a milanesa, uma maluquice deveras comum na Argentina. Custo: 20 pesos, 10 reais. Mata a fome e satisfaz ao paladar de um almoço cotidiano. O pão argentino é muito diferente do brasileiro, mais pesado e com uma massa muito mais saborosa, mas dificilmente agradaria ao paladar aguado do brasileiro. No vidro onde se viam os sanduíches, um adesivo nos dava o tom dos serviços na Argentina: quem sabe comer, sabe esperar. Demorou uns 15 minutos para o camarada tirar um dos sanduíches de dentro daquele vidro e nos levar à mesa. Para acompanhar, uma Pepsi fria. Não há nada gelado naquele calor desértico. Talvez porque seja impossível aos refrigeradores manter qualquer coisa gelada com aquele abre e fecha constante.

Em meio a tudo isto, o estresse era diminuído pela presença farta das chicas hermosas. Muitas chicas. Muitas hermosas. E muitas chicas muito hermosas. As argentinas conseguem usar um mini short digno de uma funkeira e ainda assim serem elegantes, o que pode ser explicado pela qualidade do corte, do tecido, do caimento ou, provavelmente, por uma simples questão de estirpe e altivez que a cambada rebolativa brasileira nem sabe o que seja. Não tem jeito, minha filha, a beleza não está nem no pano e nem na moda, está na pessoa.

Enquanto esperávamos o ônibus, notamos que uma senhora de uns 80 anos que veio conosco no coletivo de Encarnacion esperava por ali, mas não dava para ter certeza de que pegaria o mesmo ônibus que nós porque na passagem vem escrito: plat – 10 a 20. Espera-se num ponto médio e presta-se atenção no anúncio indicado no bilhete, no nosso caso Córdoba.

O ônibus atrasou uns 15 minutos porque vinha de outra localidade, possivelmente Wanda ou Iguazu. O curioso é que era de outra empresa, o que explica porque tantos guichês diferentes ofereciam o mesmo horário: as empresas vendem passagens umas das outras, uma prática que é deveras saudável para elas e para os passageiros. Era a Crucero Del Norte, uma grande empresa argentina que, conforme vimos na TV interna, tinha hotéis, resorts e praticamente tudo ligado a turismo.
Era um veículo de respeito, dois andares, novo e com mais espaço entre poltronas que jamais se vê em aviões, o que faria uma enorme diferença numa viagem prevista para 15 horas.

O ônibus começou a viagem por uma paisagem um pouco parecida com a do Paraguai, com árvores baixas e secas, esparsas num terreno plano. Logo ela se transforma num pato sem fim, com uma ou outra ilha de árvores de algum porte e por mais que se force a vista não há um morro sequer em lugar algum. A estrada é pista simples, mas bem pavimentada e com acostamento. E é uma reta só e uma monotonia só, coisa de fazer a rodovia Castelo Branco parecer uma montanha russa. Algumas horas depois, começam a surgir pequenos charcos e uma ou outra lagoa. As casas são mais novas que as que se vê na estrada Paraguaia e há mais sinas de intervenção humana, como a construção de açudes e canais para escoamento da água. A monotonia não acaba nunca. Ou quase.

A primeira parada foi na cidade de Corrientes, uma cidade grande que lembra cidades grandes brasileiras em muitos aspectos. Tem uns 300 mil habitantes, mas é mais imponente e bonita que Posadas, com maior presença de comercio e pequenas industrias. A rodoviária é grande, feia e lotada. Esses argentinos devem adorar viajar. Como chegamos ali por volta de 8 da noite, sem parada alguma, bateu uma certa Fome. Desci e não achei nada que fosse rapidamente, então comprei uns afajores, aquele pão de mel metido a besta.

Umas duas horas depois, chegamos a Resistencia. Uma cidade menor, mas com uma rodoviária igualmente feia e lotada. Na saída da cidade, o ônibus parou na garagem para sei lá o que. Havia uma pequena lanchonete na qual só havia bolachas. Fica-se ali uns 20 minutos.
Lá pela meia noite vem uma bela surpresa: há jantar oferecido pela empresa. Primeiro entregam uma bandeja com um pão, queijo, presunto, um bolinho e um pudim. Logo vem uma marmitinha dentro da qual há arroz e um hambúrguer. Nada extraordinário, mas de aspecto e sabor decentes.

A madrugada avança pela enorme reta a nossa frente. Quando o sol dá sinal de vida, começam surgir maiores sinais de civilização ocidental, ou seja, comercio e indústria. O ônibus atravessa algumas cidades médias, parando vez ou outra em rodoviárias feias, sujas e lotadas, nas quais sempre há chicas para refrescar os olhos. A paisagem continua feita de pampas sem fim, mas agora bem salpicados de barracões, pequenas indústrias, pequenos bairros e coisas que indicam que a Argentina talvez não esteja tão mal quanto dizem os noticiários. Não se vê pobreza extrema em nenhum ponto dessa enorme viagem.

Por volta de 06:00 uma placa avisa: Córdoba – 225 Km. 20 minutos depois avistamos um enorme totem de cimento em que se lê: Córdoba. Mas nada da cidade. Por volta de 08: 15 uma placa avisa: Córdoba – 43 km. Por volta de 08:30, outra placa avisa: Córdoba – 45 Km. Córdoba é a província e a capital desta província, como Sao Paulo – Sao Paulo.

Lá pelas 09:00 entramos numa grande cidade, com vias rápidas e movimentas e prsenca forte de comercio, indústrias e serviços. Esse negócio de crise parece mesmo ser uma obsessão de jornalistas que nunca pegaram no cabo da enxada, o povo que trabalha, seja no Brasil, seja no Paraguai, seja na Argentina parece viver num mundo bem diferente dos economistas de jornais. Esquisitices à parte, chegamos em Córdoba por volta de 09:30, numa rodoviária enorme, relativamente nova,mas ainda feia, suja e lotada.

Andamos um pouco e encontramos um posto de informações turísticas, no qual havia uma chica muy hermosa e uma mais feiosa. Turista tem sorte,mas não abusa, foi a feia que nos atendeu. Informou onde havia um cíber no terminal e que não havia cambio ali, apenas no centro. Na lan, confirmamos endereço do hostel e que havia vagas, o que era necessário porque não tínhamos reserva alguma. Bateu uma sede que deu no pé rapidinho quando veio a informação de que uma garrafa de água de 300 ml custava 11 pesos, 5 reais.

Descemos dois andares para voltarmos ao ponto de informações. Dessa vez havia uma terceira chica, mais hermosa ainda. Fomos atendido muito bem por ela, que nos mostrou como chegar ao hostel a pé mesmo e ainda forneceu uma lista com outros 350, com endereço, telefone e site. Também nos deu um pequeno mapa da cidade. Gracias.
Andamos umas 10 quadras pelo centro novo de Córdoba (o velho é o histórico e turísitico), em meio a avenidas largas, movimentadas e muito arborizadas. O calor era de uns 35 graus e o ar seco de fazer o de Brasília parecer uma toalha molhada. Tralhas todas nas costas, seguimos.

O hostel localiza-se na rua Ituzaingó, repleta de bares, restaurantes e pequenos comércios. A entrada é bela e o interior é convidativo, mas como o preço informado pela recepcionista era mais do que o constava do site hostelbookers, decidimos dar uma volta e ir a outro. Não agradou e voltamos lá. Pedimos um desconto e ela nos fez o preço de membro de um clube qualquer de hostels. 62 pesos, 29 reais. Sem café, o que é incomum. Subimos e entramos num quarto com 3 beliches, que se ligava por um vão a outro no qual haviam mais 4 beliches. Conversamos 20 segundos quando fomos interpelados de longe por alguém num beliche desse outro quarto. Falava com o indefectível sotaque que parece o tempo todo dizer: oxente. Era um sergipano doido que estava dando um role pela América do Sul, mais ou menos como nós. Já tinha ido ao Uruguai, passado por Buenos Aires e tinha chegado ali no dia anterior.

Tomamos banho e tudo mais e fomos usar a internet do hostel. Havia dois computadores, mas só um ligava. Ligava mas funciona mal e a conexão era péssima talvez nem pelo provedor, mas pela própria máquina ruim mesmo.

No geral, essa viagem de Posadas a Córdoba mostrou uma Argentina bela e com vontade de ser grande.

E se há algo que se deve dizer de Córdoba é: chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas, chicas….

No hostel acabamos conhecendo também um equatoriano que já tinha morado em Aracaju, mas não conhecia o nosso compatriota, e que agora estava dando uma volta por Chile, Argentina, Brasil e Bolívia. De Bike. Combinamos os quatro de tomarmos uma na noite de Córdoba. E fomos, o que seria uma viagem à parte.

Anúncios

PERIPÉCIAS EM ENCARNACIÓN – RUÍNAS DAS MISSÖES JESUÍTAS

11 janeiro, 2012

Chegamos a Encarnación após 5 horas de viagem confortável num bom ônibus da empresa Nuestra Señora de Asunción, ao custo de 75 mil guaranis, o que dá uns R$ 35,00. Deu de 10 no que a Pulma nos forneceu para irmos até Asunción. O bilhete pode ser comprado com antecedência pela internet no confuso site da empresa: http://www.nsa.com.py.

Eram 05h05min quando desembarcamos na horrenda rodoviária da cidade. Todo o comércio do entorno já estava a pleno vapor, oferecendo chimarrão para todo lado. Interpelamos um camarada de traços indígenas para saber sobre como se chegava à recomendada ruína de Jesus de Tavarangué. Por acaso, era vendedor da empresa que ia para aquelas bandas. Disse que só tinha para a de Trinidad. O ônibus sairia 06h30min e custava 10 mil guaranis, cada. 10 mil guaranis, coisa de 12 reais, cada. Cada. Enquanto esperávamos, fazíamos nada porque as barracas ao redor eram tão atraentes quanto um tratamento de canal. Por volta de 06h00min, encostou um veículo tão parecido com um ônibus quanto a Hebe Camargo se parece com uma mulher. O vendedor nos olhou e disse que podíamos subir. Subimos. Dali uns 10 minutos, o ônibus deu partida e segui. Andou uns 50 metros dentro do pátio da rodoviária e parou em outro lugar, onde em uns 10 minutos subiram mais 5 passageiros, nenhum turista.

Um dos manés estava encafifado, o outro dormia encostado na janela da primeira cadeira, poltrona, pedaço de sofá, o diabo que fosse aquilo. Lá pelas tantas um indiozinho apareceu na porta, chamei-o disposto a gastar umas moedas a troco duma informação que evitasse um vexame ou algo pior. Las ruínas, sabe donde quedam? No. Missiones? No. Reduciones? No. Jesus de Tavarangué? No. Trinidad? No. Turistas, fotos? No. Então me mostrou umas cartelas de bingo e repetiu o mantra da propaganda que se avista nos outdoor s e muros da cidade: mucha plata, mucha alegria. Ganha um picolé de limão lambido pelo cachorro que adivinhar minha resposta.

Por volta de 06h40min a barca partiu para valer. Parou na primeira esquina após a rodoviária e subiram outros 5 passageiros, nenhum turista. O vendedor também fazia às vezes de cobrador. Mais a frente, entrou outro camarada no sue lugar. Enquanto se ia, a cidade passava, feia e suja, mostrando um comercio forte, algo parecida com cidades do interior do Paraná ou São Paulo. Não se viu pobreza extrema em canto algum.

Depois de uma meia hora no melhor estilo pinga-pinga num veículo que no Brasil não seria autorizado nem a carregar bóia fria, o novo cobrador nos disse que era ali que se descia: numa casinha que servia de ponto, donde de um lado se avistava muito mato e do outro mais mato ainda. Uns 20 metros a frente havia uma avenida que terminava na estrada, pavimentada em pedra, que poderia ser chamada de paralelepípedo, se tivesse uma forma geométrica regular. O camarada apontou para ela e nos forneceu uma enxurrada de informações: para lá. Certo, para lá. Mala e cuia porque não dormiríamos ali, seguiríamos para Córdoba, Argentina.

Para lá fomos e seguimos até que a dúvida viesse, ficasse e não se fosse porque não havia uma viva alma a quem perguntar. Cidadezinha bonitinha até essa Santissima Trinidad Del Parana. Uns tantos minutos de andança depois, demos de cara com um posto da Comisaria 35 (ou algo assim). Hola. Hola. Hola. Atravessei uma sala e cheguei a um gramado no qual havia uma camionete da polícia. Dentro um recruta dormia tranquilamente e que assim permaneceu. Seguimos.
Uns minutos à frente, duas sitiantes nos deram o caminho para as ruínas: vira aca, lá e vá. E fomos pelo meio duma estrada de terra que acabou noutra estrada de terra a qual exibiu num dos lados algo que prometia. E cumpriu: era a entrada para o terreno cercado no qual estavam as ruínas.

Havia uma calcada logo a frente, após um portal. Fomos seguindo tentando achar uma entrada. Quando achamos, vinda lá de baixo, dum prédio branco, veio uma loira com cara de Paraguaia e nos perguntou: ticket? No. Descemos até o tal prédio branco, no qual se davam lições a crianças sobre as missões e havia uma recepção do pequeno parque. A recepcionista não era exatamente guapa, mas foi muito simpática e nos vendeu uma entrada que valia para as três missões: Trinidad, Jesus de Tavarangué e San Miguel. 25 mil guaranis, para as três. Voltamos e entramos finalmente.

Tiramos 5 milhões de fotos em umas 4 horas, entre ruínas que tem uma história para lá de controversa. A doutrinação marxista oficial de nossas escolas ensina que os jesuítas vieram para a América escravizar e roubar as riquezas dos índios e ainda abusar das indiazinhas e até dos indiozinhos. Os católicos dizem que eles vieram aqui para impedir que os índios tivessem o mesmo destino que os espanhóis já tinham dado em Maias, Incas e Astecas. Talvez a ICAR só tivesse mesmo interesse em impedir que os mercantilistas arregimentassem um exército materialista e tornasse sua vida cada vez mais difícil nesta guerra ideológica, da qual as alianças políticas conhecidas eram apenas a ponta do iceberg. Seja como for, os jesuítas fizeram um trabalho eficiente de catequização porque a população pobre do Paraguai, majoritariamente formada por descendentes de indígenas, é católica muito praticante.

Uns 5 km de caminhada entre as grandes ruínas nos pareceram o suficiente e fomos embora. A saída\entrada era por outra rua de pedras que dava na estrada principal bem embaixo de uma placa enorme na qual se lia o nome das ruínas. Nem pensamos em porque o cobrador nos fez descer em outro lugar e continuamos andando pela estrada, conforme orientado pela mocinha da recepção e confirmado por um motoqueiro que só nos ouviu depois de desligar a moto. Andamos uns mil metros e avistamos outro letreiro enorme em frente a um posto de gasolina. Não era a entrada. Fomos perguntar sobre um tal ônibus que nos levaria pelos 11,6 Km restantes até Jesus de Tavarangué. Acabamos perguntando ao próprio dono\motorista do veículo Mercedes Benz ano 1968, 100% original, sem jamais ter trocado uma peca sequer. Algo parecido com um ônibus antigo. Saía dali uns 20 minutos. 5 mil guaranis cada, para ir e outro tanto para voltar. Enquanto esperávamos, entrei na lojinha e comprei uma água mineral Dasein, da Coca, a única coisa realmente gelada que encontramos no Paraguai, o resto ficava entre morno e frio.

Percorremos os 11,6 Km em 30 minutos no veículo. Ao longo do caminho outras pessoas subiram rumo à cidade de Jesus de Tavaranguè, que em guarani quer dizer “a cidade que deveria ter existido”. O tiozinho do bus disse sairia em meia hora e que isso era mais que suficiente. Na entrada um cartaz enorme dava orientações, inclusive a de que era necessário pagar um guia para nos acompanhar. 10 mil guaranis, cada. Ok.

A guia também não era lá muito gaupa, mas também foi bem simpática e conseguiu papaguear seu roteiro num bom portunhol. Num certo momento se assustou com uma mariposa e quis saber como se diz maripoza em português. Mariposa, a feia, borboleta, a bonita, esclareci. Ela deve estar até agora tentando dizer borboleta. As informações dela foram interessantes e o dinheiro não foi jogado fora, descobrimos que aquela já era a terceira versão da mesma missão, que ia mudando de lugar de tempos em tempos. Meia dúzia de padres controlavam, com ajuda dos caciques, 3 mil índios. A nova versão levou dez anos para ser construída e não ficou pronta porque os padres se desentenderam com o Rei da Espanha e foram expulsos, daí que a cidade que o vilarejo que veio em seu lugar recebeu o nome Tavarangué.

O controle sobre os índios se fazia pela velha tática latino-americana: corrupção. A troco da mao de obra dos índios, os caciques exigiam que os padres ensinassem seus filhos a ler e escrever. Negócio fechado. Para horror dos moderninhos, os padres tinham noções interessantes de respeito aos índios e ao meio ambiente, aproveitando a água da chuva e até da pia batismal para irrigar a lavoura. Expulsos os padres, os índios foram libertos da escravidão sanguinolenta dos católicos e puderam seguir livres e altivos para seu novo destino: alcoolismo e pobreza extrema. Estão aí até hoje.

De fato, 30 minutos foram suficientes, porque esta missão era menor que a de Trinidad. Ficamos sem ver a de Voltamos no Mercedao e ficamos esperando na estrada principal um ônibus para Encarnación. Meia hora depois veio um, pouca coisa menos ruim que o primeiro. Entramos. O cobrador informou o preço. 10 mil guaranis? Não. 5 mil. O corno da madrugada nos havia tomado 5 pilas na boa. Vida de turista Mané é assim mesmo.

Chegando em Encarnación, fomos ao ponto do coletivo que nos levaria à cidade vizinha de Posadas, na Argentina. Chegou o bicho, bem melhor que o intermunicipal que nos levou até as missões e que iria até Ciudad Del Est, uns 250 quilômetros a frente. Quanto custa? Csssn pesos. Quanto? Csssn pesos. Podia ser em guaranis, mas eram csssn pesos.

Cem pesos eram 50 reais, um absurdo para irmos de uma cidade a outra numa distancia como Londrina a Cambé, Curitiba a São Jose dos Pinhas, São Paulo a Guarulhos, etc.

Cambiamos forcosamente com uma camarada que não inspirava a menor confiança e que daria medo em qualquer turista de avião. Pagou-nos um preço até razoável. Só era difícil engolir aquele preço do ônibus. Perguntamos a um funcionário da companhia: csssn pesos. Perguntamos o preço do taxi: 150 pesos. Já que não tinha remédio, lá fomos. Chegou o bus. Entreguei uma nota de cem pesos para o motorista\cobrador. Ele balançou a cabeça negativamente. “Mnncjo. Nm hain trrrco”. Estiquei uma nota de dez pesos e ele me voltou duas notas de dois pesos. Seis pesos. Seis. Csssn quer dizer seis naquela estranha língua que os descendentes de índios praticam no Paraguai.

E lá fomos, naquele calor dos infernos para a vizinha Posadas, de onde iríamos a Córdoba.

Após uns 20 minutos, assando, cozinhando e fritando dentro do coletivo, o mesmo atravessa uma ponte sem fim sobre o rio Paraguai, para, abre as portas e todos descem. Deve-se passar pela aduana para depois embarcar novamente. Ficamos quase no fim da fila, debaixo dum sol de 40 graus, contados e noticiados. Mala e cuia. Água, só depois da aduana argentina. Agencia de turismo é para os fracos, meu filho.


PRESEPADAS EM ASUNCIÓN – DIA 2

7 janeiro, 2012

Ver o Paraguai como uma grande Ciudad del Est é como ver o Brasil como um grande morro carioca. Esta generalização estúpida, aliás, é um dos muitos problemas em comum a ambos.

De igual modo, o paraguaio em geral não é o índio pilantra encontrado com facilidade em Ciudad del Est. As pessoas são basicamente boas, honestas e acolhedoras. Fomos bem recebidos por todos e no comércio em geral as pessoas se esforçaram para entender nosso portunhol sofrível. Para não deixar dúvidas, basta ver a foto da casa que o médico paraguaio nos ofereceu para ficarmos. De graça. Não houve quem nos tratasse mal em momento algum nas andanças pela cidade. Exceto no único ponto que lembra a fronteira com o Brasil.

No Mercado 4 (para os de “Asú”, apenas Mercado) se tem uma pequena réplica da famosa algazarra muambeira. Na área de um quarteirão se amontoam de modo matematicamente improvável uma enorme quantidade e variedade de barracas, lojas, pessoas, animais e insetos. Foi o único lugar em que alguns comerciantes não fizeram mínimo esforço em praticar o portunhol, às vezes sequer levantam os olhos para atender. Quem mais precisa de você é quem menos se esforça para cativá-lo. Por certo que não é um privilégio paraguaio.

O resto de Asunción passa ao largo disto. Para tirar de vez esta imagem da cabeça, basta ir à esquina da rua Peru com Marescal Estirrigabia e ver uma locadora de DVD`s.

Fora da vida noturna também se avistam algumas chicas hermosas nos pontos mais populosos. Está longe de ser o paraíso na Terra, mas não deve nada à maioria das cidades brasileiras.

A cidade tem alguns shopping centers iguais a milhões de shoppings em milhões de cidades mundo afora. Para quem não vive sem, aí está. O maior atrativo deles em Asunción é o ar condicionado. Os preços dos produtos são caros, mas come-se pelo mesmo preço de qualquer fast shit no Brasil.

Na avenida Marescal Lopes se avistam algumas mansões e prédios imponentes, entre eles a moderna embaixada brasileira ocupando um quarteirão inteiro, a residência do embaixador mais à frente, o Tribunal Permanente do Mercosul e a enorme embaixada americana. Frente a esta, quando nos dava uma carona, nosso anfitrião fez troça com os ianques. “É aí que a CIA fica?”, perguntei. “Não, a CIA fica em outro prédio no centro”. “ Abertamente?” “Não, eles fingem que são de outros órgãos”. A interferência americana no Paraguai pode começar a ser avaliada pelo nome de uma rua em região nobre da cidade: General Douglas Mac Arthur. Sim, aquele do macarthismo e tudo o mais.

A noite de Asunción não tem dia. Sempre há o que fazer não em um, mas em vários pontos da cidade. Antes de embarcarmos, fomos ao Britannia Pub, instalado em um velho prédio. À exceção do belo luminoso, a entrada não é nada convidativa, mas lá dentro a decoração e a presença de chicas de alta estirpe afastam qualquer má impressão. Lugar enorme, com várias salas e quartos transformados em ambientes interligados por portas e vãos. Há dois pavimentos e um espaço ao ar livre, tudo dentro do prédio.

Ali comemos uma picada (porção) variada de carne, frango e linguiça ao vinho, que leva o nome do bar ao preço de 65 mil guaranis, o que dá uns R$ 37,50, mais que suficiente para os cinco presentes. Demorou quase uma hora para ser servida, mas isto não foi problema porque nos divertíamos com nosso amigo médico, uma amiga dele e um recém chegado francês com cara de iraniano que, segundo ele, sempre era confundido com brasileiro. A boa Pilsen saía por 11 mil guaranis, uns R$ 5,50 por cerveja de qualidade, não estupidamente gelada porque algo realmente gelado no Paraguai é raridade, mas o gosto da cerveja era bom o suficiente para não ser afetado por isto. Isto me fez imaginar que talvez brasileiros adorem cerveja gelada em razão do seu pouco sabor e qualidade, pois abaixo de certa temperatura o paladar é afetado. Algo similar à nossa adaptação da massa de pizza, que é mais fina que a italiana porque no começo a original ficava crua por não dispormos à época de fornos bons para assá-la corretamente.

Chegada a hora, saímos para a rodoviária, onde nos despedimos de nosso amigo médico com a consciência um pouco pesada por não termos deixado um presente melhor a nosso anfitrião, à exceção de uma garrafa de Fernet, uma bebida amarga que eles misturam com gelo e coca. Como a receita é similar à da Cuba Libre, mas o resultado é muito e muito melhor, apelidei o drink de “Fora Castros”.

Saímos de Asunción com uma boa imagem do Paraguay, a qual seria um pouco arranhada no nosso próximo destino, Encarnación, 5 horas mais tarde. De todo modo, o aprendizado foi vasto e este país ganhou pontos conosco.


PRESEPADAS NO PARAGUAI

4 janeiro, 2012

As peripécias começaram por volta de onze da noite do dia 02 de janeiro deste 2012.

Ou antes, posto que a empresa de ônibus que vai a Assunção, a Pluma (www.pluma.com.br) não faz embarques na rodoviária em Londrina, mas na sua garagem nesta cidade.

Eu e meu amigo rumamos até lá e por lá ficamos até coisa de 1:30 da matina, momento em surgiu um busao grande, bonito e com um aspecto bem convidativo e com destino a Assunção. Não era o nosso. Este chegou uma meia hora depois, um tiozinho dos busões, algo que trouxe desconfiança, plenamente justificada, embora ofereça mais espaço entre poltronas que qualquer avião da ponte área. Estava lotado e logo que entrei um moleque de olhos arregalados ficou me olhando com um letreiro de neon na testa: sou culpado. Sim, sim, maldito, este lugar é meu e terá de terminar a viagem ao lado de alguma gorda roncadora, vaza logo. Custa R$ 155,00 e se chega lá as 16:30h.

Em Foz do Iguaçu o ônibus sai da rodoviária e logo encosta num ponto de apoio da empresa, onde se pode tomar um café numa lanchonete de cara para lá de suspeita. Tomamos e ficamos esperando meia hora até que o busao voltasse da limpeza, como informou o motorista. Neste meio tempo acabamos conhecendo um suíço que também ia a Asunción, o que acabou sendo muito mais útil dos que os manés poderiam imaginar a princípio. 30 minutos depois encostou a barca, tao limpa quanto antes de ir para a limpeza.

Em Ciudad del Est é necessário que os gringos que voltam ou vão ao Paraguai façam sua entrada na alfândega brasileira. Logo após a Ponte da Amizade, cada vez mais quebrada, é a vez dos brasileiros fazerem o mesmo na aduana paraguaia. Basta uma identidade e está tudo certo, com exceção da fila, que nos custou quase uma hora. É preciso que se diga quanto se pretende ficar ali, o que é muito importante porque quando do regresso pode ter de pagar uma multa de R$ 30,00 por dia. Tascamos cinco dias, apesar de pretendermos ficar apenas dois.

A esta altura não haviam mais que 10 pessoas no ônibus, mas pode acontecer de em Foz se juntarem passageiros de dois ônibus num só para terminar a viagem.

Ciudad del Est, a princípio, é a nojeira bem conhecida dos brasileiros, mas à medida que se avança pela avenida principal, a cidade logo se torna parecida com qualquer coisa do interior do Paraná ou de São Paulo, o que não é exatamente um grande elogio.

Na saída da cidade há um quiosque duma franquia de chipas paraguaias, de nome Leticia, que iria surgir outras vezes durante o tajeto. Esta guloseima é um bolinho paraguaio em formato de meia lua de aspecto não muito convidativo. Quando avistam o ônibus, as atendentes, sempre de saias muito curtas, correm para a beira da pista e o motorista encosta para que elas entrem carregando um saco branco cheio destes salgados. O cheiro estava bom, mas a última vez que comi em Salto del Guairá não me animou a repetir a experiência. Em Asunción têm aparência muito melhor.

A estrada segue boa, apesar de simples, pelo meio duma paisagem monótona, parecida com a do litoral sul do Brasil. Se vê muitas casas velhas de madeira, casas velhas de alvenaria, casas inacabadas, galpões velhos ou inacabados e muitos carros brasileiros sem placa descansando embaixo de árvores. Também se vê alguns montes de pedras rosadas, carregadas e quebradas à mão pelos paraguaios para que se obtenha um revestimento similar aos nossos tijolinhos de churrasqueira, mas de textura muito mais estética.

Conforme se avança, não se passa por muitas cidades e as que se vê são feias e pobres, mas até aí não é mito diferente de boa parte do interior do Brasil.

O ônibus só faz uma parada para almoço numa cidade cujo nome não consegui ler na placa. O lugar é bonito por fora e por dentro. Custa R$ 11,50 o buffet livre com carne ou um pouco mais barato se não se quer carne. O almoço dos dois brasileiros e do suíço saiu por R$ 40,00, incluindo duas cocas e uma budweiser para o gringo.

A viagem segue e vão surgindo pastos cada vez maiores e mais planos, o que me fez imaginar que seria um ótimo lugar para um festival de rock. Percebe-se que por ali reina uma estiagem, porque os riachos e açudes estão secos. O sol escaldante, porém, parece não incomodar as vacas magras dali.

Conforme se vai aproximando de Asunción a pobreza vai diminuindo e, muito óbvio, a feiura também. No meio do caminho há uma cidade que se supõe que se chama Coronel Oviedo porque é o único caso no Paraguai que se vê, tal qual no Brasil, um restaurante Cel. Oviedo, radio Taxi Cel. Oviedo, gomeria Cel. Oviedo. Talvez haja até uma limpeza de fossas Cel. Oviedo.

As cidades também ficam maiores à medida que se vai chegando a Asunción Nelas e na capital se vê muitas placas de “estudio juridico”, ou seja, cursos preparatórios para concursos públicos.

Se chega à capital paraguaia através duma cidade da região metropolitana, cujo nome também não vi em placa alguma. Aliás, é muito difícil ao turista saber onde está porque a sinalização neste sentido é precária e as placas dos carros não trazem o nome da cidade.

A entrada na cidade demora muito a ponto de criar uma angústia nos poucos passageiros restantes, no caso apenas o trio de turistas apalermados. O gringo se mostrou muito gente boa e deu algumas dicas para futuras viagens. Está desempregado por vontade própria apenas para fazer esta viagem. Quando voltar, já tem emprego garantido em sua própria profissão de soldador industrial, cujo salário lá é de R$ 8.000,00. Uma curiosidade: na Suíça se é obrigado a ter um plano de saúde privado, que custa coisa de R$ 300,00 por mês. “Funciona”, foi a resposta à pergunta óbvia. Para os cinco pobres da Suíça, o estado paga este plano de saúde, mas não há hospitais públicos.

Depois de andar uns 40 minutos numa parte feia e até um pouco sinistra da capital, o ônibus encosta na rodoviária, feia e sinistra como 99% das rodoviárias brasileiras.

Ali trocamos uns reais por guaranis a câmbio de 2.250,00, o que te permite ter 900 mil guaranis ao custo de R$ 400,00. Obviamente, trinta segundos depois descobrimos uma casa que pagava 2300.

Mané que se preza não imprime roteiro da viagem e por isto não tínhamos em mãos o nome do hostel, o endereço e nem a empresa que nos levaria a nosso segundo destino, Encarnación. Há apenas duas lan house na rodoviária e, obviamente, a mais barata estava lotada e acabamos pagando 2000 guaranis por 15 minutos de acesso. Uma baiana doida apareceu pedindo para dividir a conta e concordamos. Enquanto esperávamos, ela nos meteu medo nessa história de albergue. Estava ali para fazer um módulo de mestrado e seus colegas de universidade baiana lhe falaram horrores dos hostels da capital paraguaia. Ela usou a cota dela, não cobramos e ficamos com poucos minutos para conseguir encontrar o que nos forçou a mais dois mil guaranis.

O hostel escolhido mas não reservado estava lotado, mas havia duas outras opções a preço de R$ 20,00 em quarto misto com até 10 camas. Não ficamos em nenhum, porque Deus protege os bêbados, as criancinhas e os turistas manés.

Enquanto esperávamos chegar o camarada do suíço, andamos pela rodoviária, compramos nossa passagem para Encarnación na NSA (www.nsa.com.py), ao custo de 75 mil guaranis, ou seja, R$ 33,33 reais, cada. O gringo pegou a dele para Resistencia (sem acento mesmo), já para as 6 da matina. Vimos algumas chicas hermosas, em quantidade e qualidade muito diferente de Ciudad del Est.

O suíço conseguiu uma casa para hospedagem através do, prazer em conhecer, http://www.couchsurfing.com, site que permite intercâmbio de viajantes e acolhedores no mundo inteiro. Faz-se um cadastro, oferece-se pouso a alguém e depois alguém te oferecerá também quando precisar e anunciar para onde se quer ir. Acabou sendo a salvação da lavoura porque o paraguaio foi muito gente boa e nos ofereceu o chão da casa de seus pais. Isto nos poupou R$ 20,00 do táxi até o outro albergue que escolhemos na lan house, no site http://www.hostelbookers.com, livrando-nos também do receio que a baiana havia nos incutido.

Junto com o paraguaio médico e gente boa, veio uma médica, chica muy linda e muy caliente e muio gente boa também. Fomos até a casa dos pais do médico, que haviam viajado e deixado-a sob os cuidados do mesmo. Uma bela edificação em 3 pavimentos, por dentro e por fora, com piscina em meio a um jardim bonito, casa esta muito bonita na parte bonita da cidade que, no geral, não é tão bonita, como a maioria das cidades brasileiras não é bonita. Onde ficamos, porém, era uma região muito bonita e arborizada. E bonita mesmo era a médica paraguaia.

Chegamos, nos instalamos numa suíte muito grande, mas com apenas uma cama, que, obviamente, deixamos ao suíço. Nem tomamos banho e saímos para um tour com o médico paraguaio e sua amiga muy hermosa. Vimos o centro, o Palácio do Governo, cercado de soldados que impedem uma maior aproximação porque no Paraguai ainda se faz política pelo ultrapassado modo revolucionário. Um dia eles evoluirão e farão política como nós brasileiros fizemos nos últimos 30 anos: por meio da muito civilizada corrupção. Temos muito a ensinar ao mundo, sem dúvida.

Em volta do antigo Palácio Legislativo e exatamente em frente ao novo, muito próximos um do outro, há uma favela. A polícia se limita a fazer a guarda do prédio e não promove nenhuma operação urbanística, comum em casos assim no Brasil. Um dia os paraguaios aprenderão com nós brasileiros e com os americanos que a polícia é uma instituiçao da maior importancia na construçao de cidades bonitas e agradáveis, responsável pela maquiagem urbana digna de um photoshop a ponto de fazer qualquer um acreditar pobreza só existe no dicionário.

Feito o tour, nos levaram ao Pirata Bar, numa cobertura de frente ao Palácio do Governo, de onde se avistava também o Rio Paraguai, logo ali atrás. Estão construindo uma rota de saída da cidade sobre o rio, o que me fez imaginar que é para que os ricos possam entrar e sair da capital sem ter de passar pela parte pobre e feia da cidade. Pelo menos isto eles já aprenderam conosco…

Se entra nesta cobertura por dentro de um prédio velho, parte que mais tarde, se torna uma boate, discoteca como dizem eles. Tomamos os cinco seis cervejas de nome Pilsen. Nome mesmo, não gênero Boa ou ruim, vai do fregues, mas é cerveja e não essa água aromatizada com cevada que vendem no Brasil com o nome de Skol.

Voltamos para a bonita casa do médico que nos deixou a sós enquanto levava sua formosa amiga para a casa dela.

Tomamos banho e fomos beber mais, agora num pub de nome Kilkenny, que o mané aqui julgava ser uma boate. No estilo irlandes, é bem grande, com dois pavimentos, muito bem decorado e frequentado por muitas, muitas chicas hermosas, mas não hermosas como a médica hermosa, mas ainda assim hermosas, com hermosos cuerpos, mas por vezes com rosto não tão hermoso. Acabamos conhecendo outras pessoas bacanas e depois de muita Pilsen, acabamos a noite numa boate localizada no mesmo shopping, no qual há diversas opções para se beber. Também havia muitas chicas nesta Cover, que é pequena, mas agradável. Por algum estranho motivo, também se toca sertanojo universitário no Paraguai, mas nosso anfitrião e sua amiga hermosa não gostam e preferem rock. Há uma FM que toca muito rock e o rock argentino é muito bem recebido no Paraguai, que não fica nada a dever ao rock brasileiro em geral, embora não tenha ouvido nada do quilate de Paralamas ou Titãs dos bons tempos. Não ouvi nada parecido com Restart por lá, mas a famigerada música do Michel Teló é muito tocada. Povão é povão, meu filho, nacionalidade não conta muito.

Apesar do câmbio favorável, noite é noite e uma cerveja custa R$ 5,00 como na maioria dos bares do sul.

A noite foi realmente quente: 32 graus. Noite.

No fim da noite, dormi no chão em cima de uns cobertores, o suíço no chão da varanda em um colchonete muito fino e o outro mané foi para a cama em algum ponto da madrugada. O médico dormiu no sofá da sala. Acordei muito bem, como se tivesse hospedado num caro hotel de cinco estrelas ou categoria superior. O suíço já tinha partido para Resistencia, de onde seguiria para Cocuy, Argentina, onde ficaria na casa de uma chica que conhecera não sei de que modo.

Como se vê, os paraguaios não tratam os brasileiros como se todo o país fosse uma grande Ciudad del Est. Primeira grande lição do mochilão: nunca avalie um país por apenas uma cidade. Boa parte deles entendem o português e nosso maldito portunhol, que pode te colocar em algumas confusões ou dar prejuízo, por exemplo, se não souber que não se diz catorce mil guaranis, mas dez com quatro, sem citar moeda e seus zeros. Fomos muito bem recebidos e muito bem tratados por todos, inclusive no comércio.

Até aqui a viagem foi muito proveitosa, graças aos paraguaios e não apesar deles como se costuma pensar no muito civilizado Brasil.

E aqui vai outra dica: cuidado com o álcool se é do tipo que perde as estribeiras, o policiamento é muito melhor que a maioria das cidades brasileiras e os soldados exibem tranquilamente suas metralhadores e fuzis. Pistola deve ser só para limpar os dentes.

Se ainda não entendeu, até aqui se falou bem dos paraguaios. Azar do teu preconceito.


You can’t always get what you want

15 junho, 2011

Quem realmente se importa com o passado? Até um preto velho e meio analfabeto já sabia que pedras que rolam não criam musgo. Não faz diferença alguma no presente e no futuro muito menos quaisquer sentimentos anteriores ao que se precisa agora. Ou se quer. Ou se pode.

Um amontoado de escolhas alopradas não define ninguém. Se existe algo desse tipo, só pode ser a merda que fede agora, a flor que agora perfuma a sala, a música que abre pernas ou leva a noite arrastada em meio a mil contas que não fecham e mesmo assim faz tudo parecer ok. O que quer que importe, só importa agora, porque ninguém existe antes ou depois.

E mesmo que no fim do dia seja tudo por ela, ainda assim é pelo que ela dá agora que as contas são feitas e não faz a menor diferença onde ela está ou o que faz da vida tão longe. E nem todas as lembranças do mundo valem um milésimo desse segundo.

Ninguém vive bem sabendo que não pode ter tudo o que quer, mas sempre há um jeito de fazer de conta que as coisas estão certas. Talvez numa festa todos nos esnobem ou talvez esnobemos a todos antes mesmo de sermos esnobados. Talvez o erro do mundo seja supor que lhe daremos algum sentido e nosso erro seja acreditar nisso. E nós não morremos por ninguém ainda porque agora há gente apostando alto que isso não vale mais nada, mas mesmo que possam nos tirar isto, não podem nos tirar este segundo, este minúsculo ponto em que todas as dúvidas se encontram e todos os planos se desfazem e qualquer sentido perde seu lugar naquela última reta.

Ninguém acredita que os bancos se importem quando ligam cobrando. É, é verdade que foi num dia de sol que te emprestaram um guarda-chuva e é num dia de chuva que exigem ele de volta. Se não há santos que amam quando isso é o que mais se precisa, sempre há um problema novo que podemos criar para passar o tempo.

O diabo nunca esteve numa encruzilhada esperando por algum violão perdido num ombro cego. Ele sempre esteve no seu colo, fazendo todo tipo de sujeira pelo caminho. Um cavalo carregado pela carroça, é o que ele vem aprontando desde sempre. Não há esperança que isso mude, mas, sim, no fundo de uma garrafa sempre há uma boa conversa e talvez um bom plano.

Mandamos para o alto e até para o inferno uma chuva tão grossa de lâminas verdes tão afiadas que fazem o diabo parar de assistir a seus escravos estuprarem a velha liberdade, aquela filha duma cadela bixiguenta que nunca cumpre o que a ouvimos prometer sem que ela jamais tenha aberto a boca. Regamos com o pior mijo que o uísque pode fabricar todo tipo de planta que possa dar frutos e torcemos para que nossos filhos consigam fazer as sementes brotarem algo mais forte e grande o suficiente para todos nos agarrarmos antes que a tempestade piore.

Pelo topo do lixo estão os que apostam seus rabos brilhantes que talvez seja verdade que Cristo fosse apenas o velho Satanás desperdiçando outra oportunidade de fazer as pazes conosco. Pelo lado de baixo vão os que não sabem de nada disso e só se deixam hipnotizar pelo brilho do traseiro das ratazanas.

E foi no meio disso tudo que velhos inimigos se uniram para vender a fantasia de um passado fértil, esmagando as bolas de geração após geração, até que a mais bicha das bichas tomasse o lugar de John Wayne. Eles só não esperavam pelo desespero alcoolizado de alguns tantos que ainda querem tudo porque podem quase tudo. Mesmo mentir para si mesmos para enganarem o diabo.

E que Deus nos perdoe por tudo que acontecer antes de termos razão nesse plano de fundo de garrafa.


PRÉ-SOCRÁTICOS

6 dezembro, 2010

“Pré-socráticos todos em 30 segundos: A filosofia começou com todo mundo procurando desembestadamente o princípio único que explica todas as coisas. Uns acharam que era a água, outros o ar, outros o fogo, o devir ou o estático. Daí chega Platão e diz “otários, não adianta procurar no mundo, o princípio único é o que está além do mundo”: pronto, é idolatrado e vira o filósofo mais importante da história. A partir daí, os pré-socráticos passam o resto da eternidade se perguntando por que não tiveram essa idéia antes. Educar é: arranjar alguma coisa esquisita para servir de princípio único de todas as coisas”.

Juarez Jandre, mostrando que sabe das coisas.


INTRIGANTE UNIFORMIDADE

6 dezembro, 2010

É ou não é intrigante que uma raça capaz de inventar um celular seja tão repleta de indivíduos fechados à convivência com idéias diferentes?