A TERNURA QUE SE FODA, PRECISAMOS DE DEBATES CLAROS E HONESTOS

Se uma senhorita com todos os atributos para se tornar uma celebridade global passa por um homem, digamos, do mesmo tipo e biótipo de Juliana Paes, Paola Oliveira, Cleo Pires, qualquer uma, se ela passa por um homem, o que dirá ele ao colega ao lado? “Que belo perfil?” Quanto se pode apostar nisto? Qualquer coisa bem menor do que o que se aposta que o comentário será: “gostosa!” “tesão”, “ô louco”, etc. E que se diz ao saborear um belo e suculento contra-filé? E que tipo de interjeição usa-se diante de um belo quadro? Depois de ver um bom show musical? Ninguém usa meias palavras. Ora, se não se usam palavras ponderadas para elogiar, por que haveríamos de usá-las para criticar? Se a realidade é dura, de que serve descrevê-la com amenidades?

Foi lido no Twitter outro dia o seguinte: “Thatcher foi a ‘Dama de Ferro.’ Teremos,no Brasil, a ‘Dama do Berro’ Mas, o termo ‘Dama’ está sob discussão”. Não faltará quem se levante contra este comentário. Mas que diz ele de tão ruim ao fundo e ao cabo? Nada. Não há nada de errado nele. Dirão uns que é de mau gosto levantar dúvidas sobre a sexualidade da eleita. Outros dirão que o fato de ela ser sapatão não diz nada sobre seu caráter e, portanto, não deveria ser usado contra ela. Exato. Não diz nada, nem a favor e nem contra, logo, não há mal algum em repetir a suspeita geral de que é chegada na fruta preferida dos homens nascidos homens que se mantém homens ao longo da vida. E o camarada ainda foi gentil, pois disse que o termo está sob discussão, nem sequer é uma afirmação. Nada há de errado nisto, não se consegue dos termos extrair nada de ofensivo. Mesmo assim, não haverá quem se insurja. Há algo errado aí.

Mas este nem é o ponto, a questão é mais ao fundo. E daí que seja, digamos, ofensivo? Ora, se é verdade que ela é lésbica, como a lembrança de um fato pode ser ofensiva? Se o fato é ofensivo, quem tem responsabilidade nisto é quem o pratica, não quem dele fala. A culpa não é do mensageiro, deixemos ele em paz.

Há um certo receio do confronto ideológico, do uso de termos precisos, claros, de se marcar uma posição. A gentarada parte do pressuposto de que um debate é um meio de todos chegarmos a um acordo. Nada mais falso, o objetivo de um debate sério é conhecer novas idéias, perceber seus erros, expô-los e convencer o interlocutor disto. Por óbvio que isto implica o contrário: ver seus próprios erros conceituais expostos, convencer-se disto e aceita-los, para daí ou melhorar a sua exposição ou, se for o caso, abandonar aquela convicção diante dos fatos e argumentos do outro lado. Debate sem confronto, não é debate, é um exercício de retórica. De um debate, o mínimo que se espera é que um dos contendores saia com dúvida, quando não os dois.

O uso das palavras mais precisas para designar fatos e objetos vem sendo substituído pelo uso de termos cada vez mais vagos, fluidos, que podem servir muitas vezes para se referir até ao contrário do que se pretende originalmente. O pensamento “politicamente correto”, na sua sanha contemporizadora e transformadora, impede que as coisas sejam vistas como aquilo que elas são efetivamente, para serem aceitas como aquilo que o consenso atual considera aceitável. Consenso de quem? Eis o problema. O leitor mesmo não foi convidado a este consenso, quem o formou foram outras pessoas que não ele. Ora, o modo correto de nos comunicarmos com estranhos é usando palavras cujo sentido seja comum a todos. Do contrário, temos uma engabelação, um truque de salão para levar o incauto a assinar sua própria sentença de morte, disfarçada num contrato com termos bonitos e pomposos, cujo sentido, ao fim, é de escolha do proponente.

A intenção de marcar uma posição nunca vai além do tema debatido. Mas há algo que impede as pessoas de assim entenderem. Algo as leva a crer que o sujeito que usa de argumentos fortes e termos contundentes as está atacando pessoalmente. Talvez o fato de nós brasileiros sermos deveras passionais nos leve a querer fugir de um comprometimento ideológico público e busquemos sempre o meio termo, a palavra contemporizadora, um modo de discutir que não nos acenda essas paixões. Talvez, curiosamente, o fato de não sermos frios nos meta medo a ponto de preferirmos evitar um debate claro e bem posicionado, preferimos, parece, não correr o risco de nos envolvermos e nos agredirmos, ao preço de abrirmos mão paulatinamente de nossas próprias convicções. Mas, claro, isto é mera suposição.

Seja como for, não há nada de errado em usar as palavras de forma precisa, de procurar os argumentos melhores, preferencialmente os mais sintéticos. Em termos intelectuais, não há escapatória: contemporizar é negociar a rendição.

A clareza de posições só é benéfica. Talvez o camarada soe um tanto quanto arrogante, se é que não soa muito. Mas e daí? Ora, dizer arrogantemente que o céu é azul é melhor para um debate do que dizer simpaticamente que ele pode ser vermelho. Não se entra num debate para fazer amigos, mas para trocar idéias, conceitos, informações. Talvez as mulheres não compreendam isto, mas a rivalidade nem sempre implica em inimizade, aliás, raramente. Um exemplo tolo: amigos torcem para times diferentes e se xingam o tempo todo sem que isso sequer arranhe sua amizade. Com teorias não será diferente.

Os meros mortais não precisam temer fincar o pé numa posição, colocar suas idéias em termos claros. Ao contrário, se isto vai se tornando hábito, logo se faz o mesmo com o síndico, em seguida com aquele amigo que tem um amigo que é assessor do vereador. Eventualmente, se está discutindo com clareza e firmeza com o próprio vereador e, o melhor de tudo, exigindo que ele faça o mesmo, mesmo porque ele não terá outra opção, exceto fugir. É preciso resgatar o amor pela luz, pela claridão do sentido e direção que se toma, e exigir de todo interlocutor o mesmo, especialmente daqueles que, em qualquer nível ou hierarquia, exercem algum tipo de poder.

O palavreado mole, ameno, só serve para encobrir as verdadeiras intenções. Não se conhece nenhum motivo para se esconder boas intenções, exceto, claro, o medo de perceber que elas poderão ser recusadas pela maioria ou ainda de que alguém mostre que elas podem resultar em algo bem diverso do pretendido. Os antigos diziam: os monstros crescem na escuridão. E não existe meio melhor de fomentar a escuridão do que espalhar o medo da luz.

A franqueza, o uso público de termos consagrados pela história, ou seja, o léxico vigente, a clareza de posições e intenções, tudo isto pode tornar um debatedor antipático, mas simpatia não é requisito para validar um argumento. O essencial numa conversa é ouvir e ser ouvido, ser agradável, não. Nada impede se conseguir as duas coisas ao mesmo tempo, mas o foco, para quem busca debater, interpelar, interrogar, enfim, descobrir as idéias alheias ou mostrar as vantagens da suas, deve ser a exposição logicamente convincente, ou seja, a argumentação, não a retórica. Ganhar aplausos é menos importante do que descobrir falhas nos próprios e alheios argumentos.

Quanto mais amenas são as conversas, mais difícil fica distinguir o sentido real dos termos usados. Quando isto acontece, fica cada vez mais difícil ver diferenças entre um e outro debatedor, digamos, entre um e outro candidato. Tornam-se cada vez mais parecidos. Mas há uma armadilha aí. O consenso não é de todo racional, ao contrário, ele vem mais do medo da inimizade do que da busca aguerrida pela verdade. Sendo assim, quem souber melhor manter as coisas em termos amigáveis, sempre se sairá melhor nos debates fáceis, ou seja, a argumentação vai cedendo espaço cada vez mais à sedução.

E há outra perversa armadilha usualmente escondida. Do debate ameno se surge o consenso de que alguns termos não podem ser mais usados. Ora, debater com os termos postos por um dos debatedores não é debater, é ajudá-lo a expor melhor suas próprias idéias. Em miúdos: é ser manipulado. Não se ganha um debate nos limites e termos traçados pelo adverso, jamais.

Segue daí que o uso de palavras com o sentido normal delas, aquele que é comum a todos, é o único meio de se impedir esta vantagem injusta para um dos debatedores. Se se fala com o grande público, usa-se termos consagrados no léxico vigente, se se fala a um público setorizado, usa-se termos consagrados pela experiência neste nicho específico, mas que, obviamente, não privilegiem esta ou aquela teoria, mas se refiram a fatos comuns a elas. Ou seja, ou se discute com clareza e honestidade, ou se é politicamente correto.

Abandonar a busca pelo consenso fácil, dissociar o debate intelectual firme das afeições e primar pela busca da verdade ou da validade lógica em detrimento do apoio da platéia, isto só ajuda a compreensão de todos e facilita deveras a tomada de decisões. Digamos, o voto.

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LEIA ABAIXO

Sobre como a iraniana Sakineh pode ser enforcada antes do previsto e como Lula não tem influência alguma sobre o governo iraniana ao contrário do que é dito por aí:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/01/sakineh-podera-ser-enforcada-em-poucos-dias/

Sobre a fantástica idéia de Evo Morales de colocar Fidel Castro como Secretário Geral da ONU:
https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/01/morales-quer-fidel-na-onu/

Sobre como um mesmo fato pode ser noticiado de diferentes formas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/11/01/a-travessia-da-galinha

Sobre o absurdo de se censurar Monteiro Lobato e quem está propondo tal sandice:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/29/querem-censurar-monteiro-lobato/

Sobre o lobista que diz que Dilma o ajudou no caso dos correios:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/29/lobista-diz-que-dilma-o-ajudou-no-caso-dos-correios/

Sobre declaração dada por Dilma Roussef em 28/10/2010 se colocando contra a prisão de quem pratica o aborto:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/28/em-28102010-dilma-declarou-publicamente-ser-contra-a-prisao-de-quem-pratica-o-aborto/

Sobre o regime pelo qual Dilma Roussef e Franklin Martins orgulhosamente pegaram em armas:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/27/pelo-que-dilma-roussef-e-franklin-martins-pegaram-em-armas/

Sobre o cancelamento da entrevista com Serra pelo SBT e um negócio de R$ 7 bilhões de Sílvio Santos com o governo federal:

https://domaugostodamateria.wordpress.com/2010/10/26/sbt-cancela-entrevista-com-serra-silvio-tem-7-bilhoes-de-motivos-para-fazer-isto/

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