A POLÊMICA DA POLEMISTA

Até ontem ninguém sabia de nada a valer sobre o rolo de Maria Rita Kehl. Hoje é que saiu a entrevista dela no portal Terra. O entrevistador foi Bob Fernandes. Eis o que saiu no site e o que ela disse, comentários em seguida.
***

A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulodepois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a “desqualificação” dos votos dos pobres. O texto, intitulado “Dois pesos…”, gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias.
Nesta quinta-feira (7), ela falou a Terra Magazine sobre as consequências do seu artigo:

– Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um “delito” de opinião (…) Como é que um jornal que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?

Leia abaixo a entrevista.

Terra Magazine – Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências para você…
Maria Rita Kehl

– E provocou, sim…

Quais?

– Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um “delito” de opinião.

Quando?

– Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).

E por qual motivo?

– O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram.

Você chegou a argumentar algo?

– Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom, saudável…

Que sentimento fica para você?

– É tudo tão absurdo… A imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo…

Você concorda com essa tese?

– Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a debates, frases soltas, falo em ação concreta, concretizada. Não conheço nenhuma, e, por outro lado…

…Por outro lado…?
– Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um “delito” de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (senador José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal O Estado de S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque expôs uma opinião? Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?

Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?

– Acho que sim. Isso se agravou com a eleição, pois, pelo que eles me alegaram agora, já havia descontentamento com minhas análises, minhas opiniões políticas.
(fim)

***

Verdade seja dita: o momento dessa demissão não poderia ser pior. Vão acusar o jornal de tudo que é coisa e o azar é deles por terem agido deste modo nestes dias turbulentos. Mas, pouco importa, o jornal tem dono e o dono não a quer mais como articulista. Que arque com o que tiver que arcar, legalmente falando, mas ninguém pode o obrigar a manter em seus quadros uma pessoa que vai contra a sua linha editorial. Se o jornal perder credibilidade com essa linha, maior azar o dele.

Exceto o fato da demissão, todo o resto escrito no post Estouro da Boiada continua válido e sustentável, como sustentado está.

A entrevista dela também confirma que já de outros carnavais o jornal andava descontente com seu trabalho. E por acaso ela não sabia que fora contratada para o caderno cultural? E que escrevia para um jornal, em tese, mais conservador que suas opiniões? Não adianta chorar, jornal é mercadoria e seus vendedores fazem pesquisas para saber o que vender para seu público. E que diz ela na entrevista: que o jornal já vinha descontente há muito tempo.

Mas, interessante mesmo é que ninguém se tocou que ela não era empregada do jornal. Articulistas raramente são empregados de jornal, ou ganham por artigo ou ganham por temporada, num contrato com prazo certo. Grosso modo, é um contrato parecido com o de um jogador de futebol ou piloto de Fórmula Um, tem começo e fim bem definidos. E se um jogador de futebol não corresponde, o contrato é quebrado sem maiores problemas, mas se é quebrado á toa, a multa é pesada. Kehl exigirá alguma multa em relação ao Estado?

Só o romantismo ingênuo e a utopia desvairada para se chocar com a demissão de uma articulista por escrever algo que desagrada aos leitores do jornal e/ou não se enquadra na sua linha editorial. A maior parte da imprensa faz diferente: simplesmente não contrata. Ou alguém consegue imaginar o Olavo de Carvalho como colunista da Caros Amigos? Kehl ao menos escreveu o que quis e isto foi publicado e se publicado foi, não se pode falar em censura.

O que falta aqui é clareza. O jornal poderia dizer o que aconteceu e tomar uma posição. Eventualmente tudo não passa de singela negativa de renovação do contrato, mas ainda que seja quebra, legítima ou não, os donos precisam se posicionar, não por qualquer obrigação, mas sob pena de perda de credibilidade. Claro, eles têm todo o direito de serem um panfleto tucano, se assim desejarem, mas estão tão confiantes assim de que os serristas são o suficiente para manter o jornal em pé?

***

Em tempo: A brincadeira do post Estouro da Boiada II ficou perdida, claro. As opiniões do post Estouro da Boiada, por outro lado, continuam tão lógicas e válidas quanto antes. Sustentadas estão, que aqui não se pratica efeagacezices de esquecer o que foi escrito e muito menos petisesses e dilmices de se desdizer o tempo todo.

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