A ORQUESTRA EMBAIXO DO TRAVESSEIRO


Isso de critérios e pressupostos é um porre: ninguém os expõe claramente e ficam todos esperando que o interlocutor os adivinhe. Isso raramente resulta em comunicação, normalmente dá em confusão e aí haja conversa de botequim pra tentar colocar os pingos nos is. Exatamente por isto tem tanta gente a favor da democracia e contra a eleição do palhaço Tiririca. Não percebem que atacar o humorista é atacar seus eleitores e, por extensão, a universalidade da representação. Em miúdos, essa gente acha que votar é um negócio bacana, desde que os eleitos sejam os seus preferidos.


Prestem atenção nesta frase do Calvin: “Quando crescer, não vou ler jornal nem me inteirar de assuntos complexos e não vou votar. Assim poderei dizer que o governo não me representa”. Desconsiderem a parte do “não vou votar”. Tiririca é o representante de Calvin, só isso. Se o Calvin vota, por que votaria em quem pensa diferente dele? Tiririca é o Calvin no Congresso, só isso.


O raciocínio é deveras simples: se o voto do Calvin vale alguma coisa, então a eleição do Tiririca é legítima. Não há dificuldade alguma em entender isto.


Tiririca falou o tempo todo que não tem a menor idéia do que faz um Deputado Federal. Ora, a maior parte do eleitorado também não. Por esta banda, seus 1,3 milhões de votos são até um misere.


O que pega é o pressuposto: deputados devem ser sábios, sérios, inteligentes, etc. Vão pro inferno. Deputado deve ser representante de seus eleitores, só isso. Por sorte a lei não atende aos pedidos dessa gente elitista e não exige maiores qualificações dos candidatos. Essa cambada quer nego inteligente, mas ela mesma não saca nada de história: exigências deste tipo só serviram, como ainda servem mundo afora, para aumentar e manter o poder da elite, nunca o inverso. Em certa medida, até mesmo essa mal nominada lei da “Ficha Limpa” atende ao mesmo propósito limitador e, portanto, benéfico a quem já manda. É simples: quanto menos puderem se candidatar, menor a chance de a elite ser contrariada.


Ok, é plausível supor que deputados mais inteligentes resultem em melhores leis e fiscalização do executivo. Mas, caramba, daí a se limitar as possibilidades das candidaturas é um salto absurdo e, pior, sem nenhuma relação causal. Ao revés, os congressistas saídos das universidades estão cometendo barbaridades as mais variadas, quer pessoalmente, quer politicamente. O médico Antonio Palocci, eleito deputado, na qualidade de ministro de Estado, mandou quebrar o sigilo bancário de um cidadão. O Sr. Cartaxo, chefão da Receita Federal, diplomado, ocupando um cargo vital do governo, foi, para dizer o menos, conivente com a quebra de sigilo da filha do candidato da oposição. O mega doutor FHC corrompeu congressistas, muitos deles bem diplomados, pagando-lhes US$ 200 mil para obter o privilégio da reeleição. E os exemplos não param por aí. É preciso ser muito néscio para supor que um diploma garanta qualquer mínimo de bom comportamento político ou pessoal no Congresso.


O caso todo é de elitismo: essa idéia boba de que os eleitos devam ser mais e melhores que os eleitores. Caramba, isso é coisa de índio, não de civilizados. Todo eleito nada mais é do que um funcionário público, alguém que cumpre uma função. O Presidente e os congressistas não são seres ungidos pelo criador para decidirem quem vive e quem morre ou velar pela lei divina na Terra, são reles empregados com uma função bem definida na lei.


É difícil para comunistas e conservadores mais radicais engolirem a Constituição Federal: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”, mas este é o sistema vigente, é o jogo jogado. Se não gostam, que abram isso de público. Há quem tenha peito e o faz, mas a maioria não tem essa coragem. O que é curioso é que gente que não se diz nem uma coisa e nem outra fique pasma, irritada, indignada com a eleição dos Tiriricas da vida. Ora, se o poder emana do povo e em seu nome será exercido, é óbvio que os legisladores precisam representar a vontade do povo e se parte do povo acha certo cagar na rua, então é natural que haja congressistas apoiando tal coisa. O horror mesmo seria o inverso. Se parte do povo não sabe nada sobre modelo tributário e está pouco se lixando para ele, por que todos os deputados deveriam se importar com isto? Parte deles tem mesmo que levantar e dizer: o modelo tributário que se foda, queremos saber é como arrumar o último modelo da Nike. Representatividade, simples assim.


Deixem o Tiririca em paz. Para começo de conversa, o papo nem é com ele, é com quem votou nele. Os responsáveis por tal coisa simplesmente usaram critérios de escolha diferentes. A liberdade de escolha demanda justamente a liberdade de se criar os próprios critérios, do contrário tem muito pouco de liberdade.

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One Response to A ORQUESTRA EMBAIXO DO TRAVESSEIRO

  1. LG disse:

    Até por não concordar que o poder emane do povo, tenho uma discordância aqui e ali. Mas, de longe, é o melhor artigo sobre a eleição do Tiririca com que eu tive contato. Parabéns, está excelente, estou divulgando.

    Abraço, and keep up the good work!

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