TROCARAM O JACARÉ PELO CROCODILO

Isso de estranhezas entre homens e mulheres, todos sabemos, tem mais a ver com formas que com substância, com meios que com objetivos. Uma versão mais violenta e letal do velho ditado: em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão, só que num plano emocional e até mesmo espiritual.

Com todos os achismos possíveis, porque não há outro modo de se falar da questão enquanto não houver uma psicologia minimamente confiável nesse mundo, o caso é que homens e mulheres modernos, modernosos e mesmo os nem tanto assim, desenvolveram umas formas escalafobéticas de relacionamentos afetivos e sexuais.

Noves fora as perversões, taras e coisas do gênero, o que se vê é um crescente medo de se sentir, seja paixão, amor ou tesão. Provavelmente é por isso que cada dia mais gente se entrega cada vez mais a mais e mais rolos, expressão curiosa que designa um comportamento que, colocado em termos objetivos, nada mais é do que um namoro: encontros programados em locais de lazer, seguidos de contato sexual de variados níveis. Não faz tanto tempo assim, era exatamente isso que namorados cometiam: combinavam de se encontrar no cinema e depois trocavam uns amassos no carro.

Se é esse o comportamento, por que diabos inventaram de trocar o nome? Modernices, ora essa, ou seja, nada que tenha uma justificativa minimamente racional.

Do pouco que se consegue entender essa sandice, a diferença não é, em tese, objetiva, é subjetiva: não há compromisso. Putz, como se os namorados de antigamente fossem todos absurdamente fiéis uns aos outros, exclusivamente apaixonados entre si e jamais se envolvessem sexualmente, em qualquer nível, com alguém que não os atraísse apenas sexualmente. “Namoradeira”, no tempo nem tão antigo assim, era a designação das galinhas, cachorras, periguetes e o diabo a quatro de hoje.

Mas não há compromisso apenas em tese. Se o tal do rolo for na mesma boate e ficar com outra pessoa, é bico certo do outro lado, quando não briga, se não descambar em boa pancadaria, como qualquer namoro. E ai se algum amigo “meter a colher na marmita”. Povo moderninho esquece que se é para viver como na selva, tem que seguir a lei da selva, não se pode servir a dois senhores, ora bolas. E que diz a lei da selva, afinal? Bem, em algum lugar diz: “o homem quando tem duas mulheres, uma é dele e a outra é nossa”. E ainda: “exclusividade é privilégio de quem assume compromisso”.

É ridículo, covardia sempre é. Dizia saudoso Brizola: se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, então é jacaré, ué. Pode chamar do que quiser, é namoro, fim de papo.

Curioso é que nesses tempos de erotismo maciço e massificado, o sexo casual, fortuito, eventual, vem se tornando não uma regra, como seria de se supor, mas uma exceção. Todos repetem a figurinha no álbum. Ninguém namora, ah isso não, compromisso jamais, mas também está todo mundo se revendo o tempo todo. Babaquice, covardia, auto-engano, burrice. Desafia-se alguém a achar um termo minimamente elogioso para esse modo de agir. Sexo, sexo propriamente dito, de primeira entre completos estranhos que se encontram ao acaso num bar e sem nenhum terceiro como contato prévio e sem jamais se verem novamente? Em termos estatisticamente relevantes, só nas telas. Talvez no mundo homossexual, mas mesmo aí deve ser mais lenda do que fato.

De modo que nem se admite um sentimento qualquer e nem o desejo. Que vantagem se leva numa doideira dessas? Mulher é meio ruim de lógica mesmo e nada solidária com a classe. Se todas tiverem dois PA´s, outra expressão covarde, isto equivale a todas estarem casadas e se traindo mutuamente. Tanto feminismo para isso? Aliás, como pode ser uma coisa dessas se pouca coisa torna um homem mais desinteressante em termos sexuais que uma amizade? Ou se é amigo ou se é amante. Que homem nunca sofreu com isso?

Ficou assim: todo mundo namorando, gostando, apaixonando, até amando, mas ninguém dando de público que é assim, ao revés, todo mundo tentando parecer descolado, livre de ligações emotivas, mas ao mesmo tempo se preservando da imagem e do comportamento promíscuo. Ou seja, a modernidade das relações afetivas conseguiu juntar o pior de dois mundos que têm tudo para serem ótimos.

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