SÍMBOLO FÁLICO

Mulheres inteligentes que, num lapso vindo num átimo, queiram entender o universo masculino têm à disposição um filme propício para isso: A Todo Volume. Dirigido por Davis Guggenheim, sim aquele que fez o hipócrita Gore ganhar um Oscar, é descrito resenhas afora como um filme que tenta captar a mítica da guitarra elétrica. Pode ter mirado nisto, mas acertou em coisa bem diversa. A culpa é dos protagonistas.

Juntando três guitarristas de épocas e estilos diferentes, o filme, que foi vendido como documentário, mostra homens que sentem prazer em fazer coisas que homens fazem.

Os convocados foram Jack White, integrante de várias bandas mas famoso mesmo pelo White Stripes, The Edge, do U2 e Jimmy Page, do lendário Led Zeppellin. O último também foi produtor executivo.

A primeira cena não poderia ser mais masculina: Jack White usa um martelo, pregos, um arame e uma garrafa de coca cola para construir algo. Sem revelar do que se trata, a câmera foca essencialmente as mãos e cara indiferente de White. Ao final, a surpresa, ele montou uma guitarra elétrica. Diz: “quem disse que você precisa comprar uma guitarra”? Qual esposa, namorada ou irmã nunca viu isso acontecer em casa?

Os três vão a um encontro num galpão qualquer. Jimmy Page vai numa limusine zero, Edge numa Mercedes e White vai de táxi, num pedantismo bobo, que, aliás, não sai de cena nunca.

Lá conversam e contam histórias sobre si e sobre suas guitarras. Guitarristas que assistiram ficaram desapontados porque os três revelam poucos truques. Fãs das bandas também se decepcionaram, elas não chegam nem a coadjuvantes. Mas o desenrolar das conversas e as imagens que as ilustram vão mostrando que cada um têm uma história com aquele instrumento que vai além da música. Não chega ao exagero que se vê, digamos, nos devotados pela xumbrega “Caminhando e Cantando”, ao contrário, o algo a mais ali é calcado na vida deles.

De tópico em tópico o filme mostra como eles chegaram na guitarra, o que queriam fazer com ela e o que fazem. Edge conta como nasceu “Sunday Blood Sunday”, a bela música cujo título vai se tornando cada vez menos auto-explicativo para as multidões que seguem o U2 mundo afora. Não é à toa, não é música de protesto de intelequitualzinho blasè, é algo real, tem a ver com sangue mesmo. White explica porque sua banda tem apenas dois integrantes e também isso é real. Page nada diz sobre o Led Zeppelin, foca mais no começo da sua carreira e como ele logo se viu numa encruzilhada, para ter de tomar uma decisão difícil tempos depois.

Além da primeira, duas cenas se destacam, a em que Edge mostra uma velha fita cassete com os ensaios em estúdio de “Where Streets Have no Name”, com ele tocando e Bono cantando “Oooone, twwwwo, treeee, fooouuur”. Rindo, Edge explica: “O Bono está cantando o tempo, a música tem dois andamentos, então ele cantava o tempo em andamentos diferentes”. A outra cena é quando Page queima as frases iniciais de “Whole Lotta Love”, a cara abobada dos outros dois só pode ser definida no clichê: impagável.

Juntando vários pedaços de histórias pessoais, o filme vai mostrando meninos e seus brinquedos. E eles fazem exatamente o que meninos fazem com brinquedos: quebram, fuçam, mudam, concertam, dão outras finalidades. Brinquedos, ferramentas, trabalho manual, braçal mesmo. A importância de brinquedos, das traquitanas tecnológicas que nos rodeiam, é demonstrada por Edge quando ele toca um riff com seus doze mil efeitos. Para e diz: “na verdade o que estou tocando é isto”, e tira os efeitos do som. “Quando alguém inventa um riff, não pega um violão, pega uma guitarra e põe distorção”, mostrando que o que se quer não é apenas a seqüência harmônica de notas, mas o timbre, o produto final. Homens não gostam de paquerar, isso na real é um tormento, homens gostam de meter. Não seria diferente com uma guitarra.

O filme termina de modo piegas, com todos cantando uma velha canção de um grupo que se chamava The Band. Ok, sem problemas, perdoa-se por tudo que veio antes.

O caso é que nesse lamaçal de mensagens, protestos, denúncias e besteiras politicamente corretas, um filme desses é para lá de bem vindo. Num mundo em que ser gay vai se tornando obrigatório, é bom saber que ainda há espaço para homens serem homens com prazer, sem culpa e sem medo. Por enquanto.

Uma resposta para SÍMBOLO FÁLICO

  1. Olá! estou muito interessada em explorar o universo masculino… e fiquei bastante curiosa em relação ao filme, nesse sentido e em outro também, porque gosto de rock😉 Meu interesse principal não é fazer um blog de auto-ajuda e sim de humor. Mas se com isso puder ajudar mulheres, que como eu, são impulsivas e um tanto bobinhas qdo se apaixonam, ficaria feliz!🙂 Gostei do seu blog e do seu comentário, principalmente da sua indicação. Seja sempre bem-vindo, precisaremos de vcs, homens para continuarmos o blog…hehe
    bjo

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