Um pouco da história da esquerda

Preste atenção: Marx é Deus. Nosso querido e incomparável Operário Supremo, El General de Las Americas, o Presidente Phebo e outros de menor calibre são profetas/avatares ungidos numa sacra assembléia e têm ligação direta com ele. O Novo Mundo será erguido pelas mãos do povo, com a direção ímpar desses líderes ímpares.

Mas como foi que Marx se tornou um Deus? Um Deus envergonhado, escondido, oculto, mas ainda um Deus. Os fiéis acreditam que tudo tenha a ver com a dialética histórica que culminou com um momento em que os intelectuais finalmente despertaram para a grandeza de sua missão e deram as mãos com os trabalhadores para combater o grande demônio do capitalismo. A realidade, porém, é outra.

Como não poderia deixar de ser, os esquerdistas acreditam que a vida começa após Marx. Quando muito, toleram que Rousseau seja considerado uma espécie de proto-novo homem socialista. Não é bem assim. A coisa vem de longe. Nivaldo Cordeiro, que tem um belo blog, dá um bom resumo:

“Recomendo especialmente a leitura do livro do Guthrier sobre o assunto, OS SOFISTAS, editado pela Loyola, que tem um capítulo inteiro dedicado ao assunto do Contrato Social. O que caracteriza os sofistas? O relativismo moral, a crença no direito positivo e o abandono do Direito Natural, a idéia de que o Estado e o poder não têm qualquer vínculo transcendente, vez que descartam qualquer metafísica. Dessa semente vieram várias escolas, entre elas o epicurismo, o estoicismo e ceticismo. Com Santo Agostinho essas correntes foram deixadas de lado e ficaram latentes por séculos. No Renascimento, todas elas emergiram com força (o tal Humanismo não passa disso, a ressurreição de Protágoras – o homem é a medida de todas as coisas), razão pela qual o tomismo (na verdade, a tradição aristotélica) foi abandonado. Do epicurismo emergiu a metodologia das ciências sociais, que tem na Economia a sua manifestação mais conspícua. É todo o Utilitarismo preside tudo. No Direito, tivemos o estoicismo, que vai fundar um “novo” Direito Natural, na verdade a negação do Direito Natural de Aristóteles, que dará curso a Maquiavel, Hobbes, Hume, Locke Rousseau e Kant. Já o ceticismo se esparrama em tudo, estando em Montaigne, em Descartes (a dúvida metódica), em Hume. Veja que os frutos não foram pequenos, dessa tradição.

“As duas correntes políticas dominantes hoje, a liberal e a comunista (e suas derivações matizadas, como o socialismo e o social-liberalismo), são filhas diretas dessa tradição. A tese de doutoramente de Marx, não por acaso, falava de Demócrito e Epicuro. Locke e Kant são a expressão máxima dos estóicos, cujo centro é a razão. A razão, e não Deus, passa a ser a fonte do Direito e a instância moral última. É esse o mundo moderno.

Nivaldo”

É claro que o messianismo também pode ser apontado como origem da divinização de Marx. A República Petista, no fim, até que tem uma cara de república platônica, não? Meia dúzia de iluminados determinando o rumo do governo e o destino das pessoas. Mas essa é uma crítica que não vem ao caso agora, o que importa é registrar que até mesmo para viver sua própria história a esquerda se vale da contradição: nega-a, aposta numa espécie de surgimento espontâneo, aleatório e adaptativo de um grupo de pensadores, enfim, rejeita a história que vive para explicar a sua própria origem, embora ela mesmo advogue que tudo tem história.

E ainda há algo interessante, continua e trabalhosamente deixado embaixo do tapete dos palácios que agora a esquerda ocupa, a saber, o caráter místico, ocultista, de sua história. Terreno de onde surgem muitas e muitas contradições, a começar pela sua siamesa ligação com o materialismo, que vem a ser uma metafísica, já que a matéria propriamente dita não existe, ou seja, negam aquilo que praticam justamente por meio do que praticam. Durma-se com um barulho desses.

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