A HORA MALDITA – parte 9 de 10


Nesse tempo, já desesperada por um estágio para pelo menos sonhar em sair daquela padaria de merda, acabou dando com um anúncio no corredor da faculdade e foi ver qual era. Era uma tremenda duma bosta, mas já estava quase terminando o curso e não tinha conhecido ninguém em lugar algum. Obviamente, não era um estágio porra nenhuma, era um trabalho muito mal remunerado, isso sim. Mas ela nem ligava, só queria ter algo por onde começar. O diabo é que o trampo era de madrugada, ela faria um estágio em locução. De madrugada. Com muito custo, conseguiu fazer um acerto com o patrão, reduzindo a carga horária e salário, além de um ajuste nos finais de semana. Para facilitar, decidiu que abandonaria algumas disciplinas, levaria depois no outro ano. Tudo contado, trabalharia todo santo dia e dormiria no máximo cinco horas por noite, com exceção de sábado para domingo, mas aí normalmente dormia é menos por conta das eventuais baladas, porque afinal, de algum lugar tinha que sair um mínimo de prazer naquela vida fodida.


E lá foi ela, uma da madruga, caminhando pelas ruas até chegar na tal rádio. Não entendia porque não fechavam ou colocavam programação gravada, mas pouco importava, estava ali e era uma oportunidade, então o negócio era encarar mais essa e deixar as perguntas para depois. Demorou, mas sacou mais ou menos qual era o lance ali. O causo é que a rádio já tivera seus dias de glória e foi a pioneira na região na transmissão ininterrupta ao vivo, quer dizer, com locutores a noite toda. Mas as coisas mudaram, outras rádios foram tomando a dianteira, comendo sua audiência e o dono tinha mais interesse sentimental do que empresarial por ali. Mas fazia questão de manter, fosse como fosse, a locução vinte e quatro horas. Como não valia mais a pena pagar o salário de alguém por toda uma noite, foi fazendo umas gambiarras, até que teve a idéia de contratar um estagiário para dizer as horas, o prefixo e ler alguma manchete de jornal, só para dar a impressão de que havia um ser vivo acordado junto com o seu pequeno público. Conversando com ela, percebeu o interesse e como ela tivesse outro emprego, sacou que não teria problemas com a justiça no futuro.


Casou de no mesmo tempo um programador e DJ ter de compensar umas férias a mais que tirou. Era um cara ranzinza que só vendo. Resmungava mais que velho jogando baralho. Ele é quem seria o responsável pelas músicas noite adentro. E tinha um gosto fedorento de ruim. Na verdade, tinha mesmo muito bom gosto, curtia um jazz de primeira, sacava muito de blues e também de música clássica. Só não entendia nada do que o povo gostava e achava que estava de bom tamanho colocar umas músicas dos Beatles tocadas por sinfônicas ou mesmo, puta que pariu, pelo Richard Clayderman. Pausa para o vômito.


E tudo que precisava fazer era mesmo a cada meia hora dizer o prefixo da rádio, informar as horas e ler alguma nota de jornal. Das duas às quatro, era isso. E desde o primeiro dia foi de terninho, carregado dentro duma mochila. Se trocava na saída da padaria e assistia aula assim. Povo achava estranho, mas estupenda do jeito que era, passava bem. E fazia questão, mesmo sem ninguém a vê-la ali dentro daquele jeito. Pensava que era o mínimo que podia fazer para se mostrar profissional. Revisou tudo quanto tinha estudado sobre rádio, conversava com as pessoas trabalhando alguma técnica vocal que vira de relance numa disciplina qualquer, enfim, ia se virando, como de hábito.


Perguntava com jeitinho ao seu companheiro de madrugadas se ela podia falar mais alguma coisa. Nem pensar. Bufava e ficava lá esperando. E ficava imaginando se o cara não podia pelo menos tentar se antenar, nem que fosse só para repetir a programação do dia, mas ele gritou com ela quando apenas tentou sugerir algo assim, afirmando que eram públicos muito diferentes.


Ao menos podia escolher que notícias de jornal ler. E até podia levar o seu próprio jornal, de modo que começou a garimpar as notícias mais bizarras possíveis. Logo começou a ler seus colunistas favoritos. O cara não se importava muito, bastava que ela não falasse muito, desse o prefixo e informasse as horas.


Era uma bosta aquilo, mas era o que tinha. Do contrário, o máximo que faria da vida seria ser gerente da padaria. Um futuro branco. De farinha. A coisa foi indo desse jeito fodido por um bom tempo, até que piorasse de vez.


Um dia saiu da faculdade e deu de cara com o casal de velhinhos. Eles sabiam que ela iria chegar em casa só às cinco da matina, então foram até ela dizer que seu tio morrera assassinado num assalto por uns pivetes. Quem lhes contou foi a ex-esposa, que fez questão de dar a notícia a ela o mais rápido possível, mas não tinha como ir até lá, então ligou para a casa deles e implorou que a levassem ao velório.


Caiu dura no chão. Levantou um minuto depois, rodeada de gente. Saiu correndo e não houve quem pudesse impedi-la de ir para onde quer que estivesse indo. Parou numa esquina escura e começou a gritar sem parar. Chorou até secar as lágrimas. Gritou, chorou e assim ficou por muito e muito tempo. Pensou seriamente em se matar. No fim, já entorpecida, andou um pouco mais, chorando e gritando, até chegar em frente a um boteco que estava fechando as portas. Catou umas notas velhas na mochila e pediu uma garrafa de uma batida bem vagabunda de amendoim. E foi para a rádio. Mais bebendo que andando.


Chegou uma hora atrasada e o cara soltava fogo pelas ventas. Foi gritando para cima dela. Ela deu-lhe uma garrafada no nariz que o pos abaixo. Foi direto ao microfone. Chorava ainda como uma criança, mas já não tinha quase voz alguma, parecia uma droga dum pato cansado falando. Bom, verdade seja dita, tava com uma rouquidão que a fazia parecer uma puta do disque-sexo. Conseguiu dizer que iria anunciar um óbito. Usou exatamente essa palavra, acredite se quiser. E foi a última coisa que saiu da sua boca. Começou a chorar, com o microfone aberto mesmo. E ali ficou uns bons minutos, mas já não agüentava mais chorar, era merda demais e já tinha se tocado que chorar nunca resolvia porra nenhuma. Então deu uma porrada na mesa e disse com todas as forças, ou seja, quase nenhuma: eu quero que uma alma decente faça o favor de matar os filhos da puta que fizeram isso comigo. Que acabem com sua raça do jeito mais dolorido possível. Eu tenho vinte anos, meu pai morreu por causa duma brincadeira de boyzinhos chapados num carro que daria para pagar o salário de um pedreiro por toda sua vida, minha mãe ficou louca e me usou como saco de pancadas até morrer. Eu fui estuprada ao catorze anos por meus primos. Eu quase morri mais de mil vezes de tão doente porque não tinha grana em casa. Minha vó foi sugada pelos filhos da puta dos meus primos e seu pai vagabundo. E agora, uns pivetes noiados mataram o único homem decente que eu conheci na minha vida. Mataram para comprar uma porra que os deixaria tão loucos que acabariam matando alguém num racha por aí. Eu não sei que porra de sentido a vida pode ter e estou pouco me fodendo para isso. Eu só sei de uma coisa, a culpa disso tudo não é de Deus ou do Diabo, é de cada um dos filhos da puta que fizeram o que fizeram podendo fazer diferente. Eu quero ver se algum deles vai ser homem de entrar por aquela porta agora, qualquer um deles, qualquer um. Pode vir, eu estou aqui. Venham priminhos, venham me pegar de novo, eu estou aqui. Venham boyzinhos e noiados, eu estou aqui. Venham vagabundos de todo tipo, de todo canto. Eu te dou cinco minutos para vir aqui. Quero ver se tem homem de verdade nessa porra de cidade.

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