A HORA MALDITA – parte 6 de 10

A pobreza era tal que foi comer pudim de leite pela segunda vez na vida, a primeira foi aos quatro anos, no dia que, fosse rica como os filhos da puta que mataram seu pai, deveria ser apresentada à sociedade, um capricho da vó para não deixar a data passar em branco. A mãe deu um escândalo e chamou-a de assassina pela última vez porque dessa vez não chorou, só lembrou que a merda que ela bebia o dia inteiro tinha muito mais culpa no cartório. Levou mais uma surra de muletas e foi dormir cedo. Ganhou a primeira delas dois anos antes.

Os primos eram quatro e cinco anos mais velhos e perceberam rapidinho que tremenda gostosa ela estava virando. O outro tio ajudava como podia, levando-a para salões de beleza de tempos em tempos e comprando algumas tranqueiras femininas na farmácia, tudo meio barato, mas melhor que nada. Não que fizesse só isso, ajudava com dinheiro vivo a vó, mas também não tinha muito a oferecer e já gastava bastante com os remédios. Claro que as pestes tentavam de todo jeito tirar suas lasquinhas e de vez em quando a cercavam no corredor e folgavam covardemente dela. Se a encontrassem sozinha em algum canto da casa, passavam-lhe a mão a valer até que ouvissem alguém se aproximando. No começo ela reclamava, mas a mãe sempre a xingava nessas ocasiões, noves fora a surra de lei. O que os pequenos também tinham acabado de descobrir era a cachaça. Junta tudo e um dia chegaram em casa mais cedo da escola, não havia ninguém ali, razão pela qual foram para seu quarto fuçar suas coisas. Quando ela chegou, vieram para cima dela e sem pensar duas vezes começaram a arrancar suas roupas e foi estuprada por um enquanto o outro segurava. Por algum estranho motivo, sacou que era mais negócio não resistir, mas mesmo assim pranteava escandalosamente. Quando a vó e a mãe chegaram da consulta desta, a velha ouviu o barulho e foi para o quarto já sabendo do que se tratava. A mãe chegou em seguida, xingou-a o quanto pôde, acusou-a de tê-los seduzido, ou melhor, disse que era uma biscate que ficava se insinuando para eles o tempo todo e para qualquer um que tivesse um pinto, até para crianças e outras barbaridades do tipo, novamente a chamou de assassina e que estava mais do que de saco cheio dela. Cansada de falar, foi em linha reta em direção à pobre caída no chão, pisou no seu pescoço com a única perna, segurou-se na parede e desceu-lhe duas muletadas na cabeça. Parou de chorar. Acordou no hospital umas vinte horas depois.

Aos trancos e barrancos, mais por teimosia do que por gosto, foi concluindo seus estudos. Arrumou um emprego aos quinze, numa padaria. Levantava todo dia cinco horas da manhã para dar tempo de chegar às seis. Trabalhava até as seis e ia para a escola noturna. Quase todo o salário era gasto com remédios, para si e para a mãe. Já estava bem melhor da asma, mas ainda era um problema dos grandes.

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