A HORA MALDITA – parte 2 de 10

Passou pela porta tipicamente empertigado. Ignorou com prazer as pequenas aproveitadoras que se avolumavam próximo aos garçons e foi direto a uma roda de cabelos loiros. E espinhas, puta que pariu, muitas espinhas. Eles enfiam coca no nariz a noite toda todas as noites, fumam erva bem fedida, bebem os destilados mais caros, usam roupas caras, perfumes da moda e toda sorte de mirabolâncias cosméticas, mas nada, absolutamente nada, supera a presença do pó de arroz na cara das mocinhas, uma verdadeira massa corrida para humanos. Os boyzinhos disfarçavam de vários modos, menos drásticos, mais pontuais, mais ridículos.

Ficou ali dois minutos, depois foi para outra roda. Outra e outra e outra, a noite toda, sem saber ao certo o nome da maioria das pessoas que via. Obviamente, não dava a mínima.

Chegou, até que enfim, na roda onde estava a Fulana. Se ela não fosse tão soberba e não fizesse parte duma nata de ricaços, pode crer que ele estaria de pau duro. Mas ela intimidava qualquer um ali. E sabia disso. Como tantas outras, adorava fazer de otário qualquer um que sonhasse com ela. E, como era a mais poderosa das adolescentes ricaças, o fazia com um sadismo todo particular, único, incomparável. Um amigo o apresentou como o “cara do carrão”, especificando o modelo. Ela sacou tudo numa olhada rápida. Toda a armação, merda fede, entende? Além disso, ela era mulher, porra! Elas sabem tudo, sempre e sempre, mesmo aos dezessete anos. O idiota não se tocou que ela se tocou e ela se tocou disso. Mulher, porra! Sabe tudo. E, como crueldade não tem limites, ela sacou um elefante da cartola. Perguntou se essa nova geração tinha parado de encurtar sistematicamente a transmissão como as anteriores. E ele não sabia, mas disse que sim, o que era mentira e ela fez questão de desmascarar com um comentário para lá de humilhante: “o do filho do Lord Pennyworld é igual e tem transmissão mais curta que a do de seu pai”. E continuou dando detalhes do carro e do seu relacionamento com o filho dum nobre inglês. E o imbecil foi fazendo cada vez mais força para manter sua soberba e parecer menos ridículo, mas não adiantava, coitado, competia com uma mulher no terreno dela. Quando a coisa já estava num ponto tal que até mesmo uma intrusa aproveitadora ria dele, ele achou mais negócio ir atrás de algo para fazer e anunciou que iria dar uma cheirada. Mas ela ainda tinha mais planos para ele, pobre estúpido.

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