A HORA MALDITA – parte 10 de 10

Continuou chorando. Então, mais ou menos os tais cinco minutos depois, tirou de dentro da mochila um revólver, olhou bem para ele e colocou-o na boca. Bam. O tiro foi ouvido por toda a cidade, quer dizer, em todo canto da cidade onde houvesse um guarda noturno com insônia. E nisso os telefones já tocavam sem parar e o ranzinza não tinha feito senão dizer que não dava para conversar com a moça não, que ele estava é tentando abrir a porta sem arrombar porque não ia pagar nada por causa do chilique duma maluca qualquer. Mudou de idéia quando viu a arma, meteu o pé na porta, entrou correndo, na verdade pulando e conseguiu arrancar o cano da boca dela, de modo que a bala só pegou de raspão a sua orelha. Segundos depois, a xingava a valer. E o microfone aberto. E os telefones tocando sem parar. E a polícia não apareceu. Uma tentativa de suicídio ao vivo e a polícia não apareceu.

Mil palavrões depois ele encheu o saco com aquela merda de telefone tocando na outra sala e foi lá e disse em alto e bom som que a doida não iria falar com ninguém. De lá ela gritou em fraco e mau som que atenderia quem bem entendesse e quando bem entendesse e que era para ele passar a ligação. Realmente puto, o cara passou.

E o camarada disse “alô”. Ela só perguntou quem ele era e o que queria dizer. E ele falou seu nome e contou que a mãe dele também morrera num assalto e que, anos depois, ele conseguiu pegar os vagabundos, tinha pago para alguém dar um jeito neles na cadeia. E ela disse que não podia ter feito coisa melhor, agradeceu e desligou.

Um segundo depois outro camarada disse “alô”. E de novo ela perguntou quem ele era e o que queria. E o cara falou que nunca mais ia andar direito na vida por causa dum bêbado que o atropelou e agora só tinha conseguido um emprego de merda como vigia dentro duma loja de lingeries. E mandou todo mundo tomar no cu, porque era praticamente um aleijado que jamais conseguiria uma mulher decente e era obrigado a ficar vendo aquelas calcinhas e aqueles pôsteres e tudo que ele podia fazer era bater uma todo dia no serviço para não perder o gosto pela vida. E ela respondeu que ele pelo menos não estava vivendo de favor ou de algum tipo de pensão do governo, que tinha vergonha na cara e apesar de tudo ainda achou algo de bom na vida, o que o tornava melhor do que ela, que, afinal, tinha acabado de tentar se matar.

Ficou nessa até que chegasse o locutor do outro horário. Olhou para a cara do rabugento toda ensangüentada. Nem os empregados ouviam mais aquela rádio, de modo que ele não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Olhou para ela, para ele. Ela conversando coisas bizarras sobre morte, drogas, sexo e o diabo e ele sem entender nada. Quando deu sua hora, chegou na porta, bateu no relógio de pulso, olhando para ela.

Ela terminou aquela conversa, suspirou, disse o prefixo da rádio, informou que eram seis horas e nove minutos. Ia se levantando encarando o camarada mal encarado na porta e disse bem baixinho que aquela era a hora maldita e o dia de todos estava apenas começando.

Pelo resto do dia os telefones não pararam de tocar. Enquanto ela terminava de chorar no velório, o dono da rádio se resolvia com a polícia. Tinha medo de perder a licença, mas no fim tudo que os tiras queriam era ter certeza de que a moça entregaria a arma. Conseguiu encontra-la em casa, jogada no chão, ao pé do sofá, olhando para o teto. Fez mil rodeios até dar o recado. E disse que ela não precisava se preocupar, que ainda podia ir no estágio. Ela teve vontade de mandar ele tomar no cu ao ouvir a palavra estágio, mas teve presença de espírito de dizer que só voltaria se pudesse escolher suas músicas. O cara não teve peito de se impor e aceitou. Aí ela teve muito peito e se impôs mais ainda; queria falar mais. E o cara aceitou bovinamente.

E ela voltou lá na mesma noite. E isso já faz um bom tempo, já é história. E eu vou te contar meu chapa, eu queria ter escrito essa porra dessa puta história.

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