Bonzinho tem que se foder – parte 2 de 10


Vendo que a coisa não ia a lugar algum e precisando, principalmente querendo, falar com a dona em questão, viu que aquele era o ponto em que precisava agir. Ou pelo menos falar.


─ Se você trata seus pacientes como trata sua filha, não me surpreenda que esse lugar seja provavelmente o pior hospital do país, talvez do mundo. ─ Disse, caminhando em direção ao balcão, do outro lado do qual a cidadã estava protegida por um grosso vidro de meia altura.


─ O senhor não se meta, isso não é assunto seu.


─ Não seria se você não ficasse se escondendo nessa discussão besta ao invés de me atender. Eu vi quando essa cidadã aí sentada lhe disse o que eu queria, você olhou para mim, fez cara de nojo e depois deu de ombros e ainda riu. Agora presta atenção: pague o homem, pelo que ele diz sua filha não estava em condições normais, estava sem capacidade de discernimento e isto a torna responsável por ela. Pague.


─ Tá com dó, pague você mesmo.


─ Deixe de ser imbecil, que você seja cretina, tudo bem, que seja burra é coisa séria porque enfermeiras burras matam.


─ Em primeiro lugar, meu senhor, não me chame de você, me chame de senhora.


─ Prá puta que pariu com esses pronomes hipócritas. Você não ocupa cargo algum a merecer pronome de tratamento diferenciado e, apesar da sua cara, não é mais velha do que eu e como você pode ver bem, eu entendo muito de caras feias e judiadas. ─ O que sem duvida alguma era verdade, já que há trinta e tantos anos convivia com um rosto hediondo: alongado e inclinado para o lado direito numa angulação tal que a ponta esquerda de seu queixo fica alinhada exatamente na metade da sua clavícula, ao passo que a ponta direita fica precisamente no meio do peito. Poder-se-ia dizer que passa o tempo todo inclinado, mas seria pouco. É mesmo um rosto muito estranho.


Continuou, observado de longe pelo amigo inerte, mais interessado na possibilidade de conseguir ver a calcinha da mocinha da linha de frente das informações.


─ Vá pro inferno com sua soberba, se você não sabe o que seja um dever moral, diga isso em alto e bom som, os pacientes vão adorar saber que tipo de enfermeira está cuidando deles. Pague o homem, ele é um motorista de táxi que ajudou sua filha, não um traficante.


─ O senhor é muito petulante, sabia?


─ Pague o homem, sua vaca bêbada. Ah, não… era pra ser segredo? Então devia tentar colocar uma maquiagem nesse nariz vermelho e escovar mais os dentes, sem falar nessas olheiras sem fim, esses pés de galinha, quem sabe uma lipoaspiração nessas bochechas inchadas, lavar mais os cabelos, fazer as unhas, trocar as roupas antes de dois anos de uso, enfim, sua cretina, agir como um ser humano normal. Não aprendeu na faculdade que o primeiro sinal de vício é a falta de cuidados próprios? Mas escuta, eu não to nem aí prá como você gasta seu dinheiro, se com pinga ou vibradores gigantes, é seu, mas é meu problema, e muito sério, que você não me atenda e enquanto não pagar este homem, que trabalhou por isto, ajudou sua filha, sua filha, veja bem, enquanto isto eu não vou poder te dizer umas poucas e boas por causa do meu problema. Então, deixe de ser uma mãe solteira relapsa e volte a ser apenas uma profissional relapsa. Pague o homem duma vez, porra.

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