Bonzinho tem que se foder – parte 1 de 10


─ Gordo daquele jeito, você acha que fede mais se for queimado de fora para dentro ou de dentro para fora?


─ De dentro para fora? Vai fazer o cara beber cinco litros de gasolina?


─ Diesel. Posso injetar também. E não estou pensando nas veias.


─ De fora pra dentro, a gordura fica logo abaixo da pele.


─ Por outro lado, os órgãos internos devem ser maiores e também cobertos de gordura. Ou com mais.


─ Mesmo assim…


─ Enfim…passou das duas, já faz mais de meia hora que estamos aqui.


─ Mais de meia hora. Mais de meia hora.


Sentados em horripilantes cadeiras de espera, continuaram a observar o camarada tentar ser atendido. Aquele gordinho narigudo tinha uma sibilante voz aguda irritante e lembrava um comediante qualquer aviadado que vira há tempos num DVD. De frente ao balcão de informações, há quase quarenta minutos ouvia o camarada se dizer motorista de táxi e querer receber a conta duma corrida que a filha da enfermeira-chefe, ou algo assim, não havia pago. Já era o terceiro dia em que o sujeito estava indo ali e nunca conseguia receber da cidadã. Na primeira vez, ela alegou uma cirurgia de urgência, depois simplesmente não apareceu e agora foi flagrada por ele e tentava convence-lo que o problema não era dela. O chofer tentava explicar que ajudara a moça, que ela parecia ter se metido em algum tipo de encrenca, provavelmente fora assaltada porque vestia uma camiseta rasgada horrível e uma calça uns vinte números maior que ela.


─ Olha, a gente ajuda, a moça parecia com problema sério, chorou igual louca, mas ficar no prejuízo não dá. A senhora tem que pagar.


─ Meu querido, cobre dela, ela pegou o táxi, não eu.


─ Eu voltei lá, ela sumiu, ninguém sabe nada dela. Até consegui com os vizinhos o endereço do escritório de engenharia dela…


─ Arquitetura.


─ Tá, fui lá e ninguém sabe dela faz dias. É filha da senhora, eu vi a senhora falar com ela daqui, eu vi a senhora no telefone.


─ Ao telefone, no telefone não cabe ninguém.


─ Puxa dona, a gente é trabalhador e a senhora fica aí de gracinha…


─ Não peguei o táxi, não vou pagar.


─ Dona, eu ia devolver ela pro lugar onde peguei, mas ela chorava mais que criança, nunca vi igual e olha que na noite a gente vê de tudo.


─ Não é criança, ela que pague.


─ Ela nem andava direito, mal falava, sei não dona, a senhora me desculpe falar assim, mas acho que sua filha foi, bom, foi estuprada. O que eu ia fazer?


─ Sei lá, que é que eu tenho a ver com isso?

Uma resposta para Bonzinho tem que se foder – parte 1 de 10

  1. Atena disse:

    Ser bom não é ser pamonha…

    E esse moço feio e bem vestido tem um vocabulário de lascar, hein?!

    E ele se mete em tudo, sempre?

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