Porque os doutores odeiam a muzzarela

A pizza entrou para a história recente do país muito menos pela sua qualidade gastronômica do que pelo seu caráter festivo, este tomado pelos políticos como o modo preferido de resolver os problemas que os assolam de vez em quando. Mas, acredite, a pizza também é a prova viva da superioridade da liberdade de mercado sobre a burocracia e controles estatais.

Quando chegou ao Brasil, a pizza era bem diferente do que é hoje, estava mais para uma torta, massa grossa. Não havia, ainda fornos próprios para ela, que precisa ser assada em temperatura perto dos 500º. Eram usados os fornos de padaria, que chegam a 300º. Resultado: massa crua.

Pois os consumidores gostavam da novidade, das coberturas, do crocante da massa, apesar de encontrar um cruzinho lá dentro. Para contornar o problema, começaram a pedir aos garçons: será que tem jeito de fazer a massa um pouco mais fina?

De pedido em pedido, a massa foi afinando, até chegar ao que conhecemos bem hoje. Numa palavra, a pizza mudou porque o consumidor pediu.

E hoje até há fornos capazes de chegar aos 500º, mas o gosto já está consagrado e não se vislumbra mudanças no horizonte, apesar de uma ou outra massinha mais grossa achada aqui e ali.

Pois então, o mercado mudou a pizza, simples assim. Sem interferência de nenhum burocrata, sem nenhuma teoria acadêmica, sem leis, decretos, fiscalização, nada, apenas e tão somente um consumidor pedindo e um garçom atendendo.

De outro lado, a ANVISA, órgão federal responsável, entre outras coisas, pela liberação e fiscalização de medicamentos proibiu a venda do suplemento alimentar CLA, conhecido como ácido linoleico conjugado. Argumenta que não há provas de que o produto produza os efeitos emagrecedores divulgados e que também não há evidências de que não seja prejudicial à saúde. Em boa parte do mundo, a sua venda é permitida e não há relato algum na medicina de qualquer efeito colateral significativo associado à substância. Esta substância é encontrada naturalmente em qualquer peixe e há empresas que enriquecem o leite com a mesma, licitamente.

Que critérios a ANVISA usou exatamente? Impossível saber. Até aí nada demais, seria só um erro, uma burrice dessas que assolam o poder público. Mas a coisa é pior, pois ao mesmo tempo que proíbe a venda de óleo de peixe encapsulado, permite a venda indiscriminada da da dipirona, um analgésico de eficácia limitada, com efeitos colaterais os mais variados, alguns bastante significativos. No mundo todo está praticamente banida, com exceção de alguns países asiáticos e africanos. É o componente ativo dos famosos Dorflex, Neosaldina e Novalgina, este último um dos mais populares remédios do país, fabricado pelo laboratório Novartis, que doou quantias significativas ao PT nas eleições presidenciais.

É claro que em se tratando de saúde pública, não se deve primeiro liberar a venda para depois esperar o consumidor reclamar. Mas, em não havendo provas de que seja prejudicial (jamais o inverso, por amor à lógica), o ideal é que se libere o produto e deixe o mercado decidir pela sua continuidade. Mas esta coisa singelamente simples é impossível de ser entendida pelos professores de felicidade.

Se dependesse dessa gente, a pizza fininha não seria vendida por falta de provas de que não faz mal à saúde.

Esse tipo de bizarrice deve ser o suficiente para mostrar a diferença entre quem pensa livremente e quem pensa programaticamente. Ou, em outros termos, entre um ser livre e empreendedor e um espírito totalitário.

Uma resposta para Porque os doutores odeiam a muzzarela

  1. Fernando Carreiro Albuquerque disse:

    O blog do JC está muito bom, mas, à título da precisão na informação, a Novalgina, marca fantasia, não pertence à Novartis, e sim à Sanofi-Aventis. Quanto às características farmacológicas, houve por um tempo uma série de restrições à dipirona sódica, mas tratava-se mais de jogo de patentes e entre laboratórios europeus e americanos (Novalgina X Paracetamol), o paracetamol, como sabemos, tem potência analgésica menor que da dipirona – que ao contrário do que se diz nesse tópico, é bom analgésico e antipirético eficientíssimo – e é hepatotóxico em doses mais elevadas. Hoje sabe-se que o risco de anemia aplásica e de síndromes hematológicas é similar entre a Novalgina, AAS, paracetamol e outros analgésicos de potência baixa à moderada. Lógico, estes trabalhos mais reveladores saíram depois que as patentes venceram e/ou foram quebradas por mercados emergentes, não tendo mais apelo comercial.
    Briga de cachorro grande e que ainda tem mais etapas pela frente.
    Um abraço.

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