Morro abaixo – parte 3 de 3

Pegou o carro e foi visitar uma amiga que não via desde a adolescência, numa cidade mais ou menos perto, umas quatro horas de viagem. Ficou lá dois dias. Voltou e começou a visitar todas as amigas, deixando o escritório e clientes de lado, porque já não compensava mais mesmo.

Depois de uns dias, começou a achar que suas amigas não eram tão amigas assim. Não sentia mais gosto algum em revê-las.

Passou então a ver peças de teatro, filmes, visitar museus, exposições.

Tempos depois, o marido, que já não bastasse brigar com ela toda santa noite, sempre chegando tarde o miserável, inventou que ela tinha que procurar um médico. Chorou de novo e foi dormir.

Acordou perto do meio diz, que o asno não parava de se mexer na cama, juntou suas coisas e foi para a casa da mãe, embora não falasse com ela já há meses. Estava cansada e foi dormir, sem muito papo mesmo.

No outro dia, viu que aquela casa já não tinha mais a menor graça, nada tinha a ver com o que lembrava, embora até fosse tudo meio parecido ainda. E decidiu ir embora dali também.

E passou a viver em hotéis, cada vez mais baratos. Mas um dia o limite do cartão estourou. O vagabundo nem para pagar as contas. E então teve de dormir na rua, um dia em cada marquise. E foi comprando comida conforme dava. Passou a pedir, mas como as pessoas estão cada vez mais individualistas, ficou cada vez mais difícil. Foi obrigada, portanto, a cair na prostituição. E em pouco tempo nem sentia nojo e nem nada, era só um trabalho como outro qualquer.

Uma noite, enquanto o cara bêbado tentava fazer alguma coisa, dormiu de tão entendiada. Acordou num hospital. O médico disse que estava com anemia severa, além de uma infecção, que precisava comer, mas a comida do hospital era uma droga e não conseguia nem dar uma segunda colherada. Só queria dormir.

Um dia acordou em outro hospital. E viu que ali ninguém fazia muita coisa. Podia nadar por aí, mas acabou encostando num canto, perto duma árvore. E ali passava os dias, sem decidir se dormia ali mesmo ou no seu quarto. Não fazia a menor diferença, porque não mais achava no mundo afora nenhuma razão para viver, então, achou que o melhor a fazer era esperar a morte chegar. E esperou. E espera até hoje.

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