Morro abaixo – parte 2 de 3

Mas o chalaço só colocava empecilhos, sempre lembrando que o dinheiro que tinham na poupança tinha sido gasto num carro para ela e num terreno para os dois. Sempre a merda do dinheiro, como se isso fosse tudo na vida.

Num sábado, estavam no mercado, atrás dum sorvete que ela tinha ficado com vontade de comer, e encontraram os pais dela. Combinaram de almoçar na casa deles. Tudo certo, foram levar as compras embora. No meio do caminho, a mãe liga dizendo que tinha problema e que a comida só ficaria pronta lá pelas quatro. Ele, esganiçado que é, falou que não agüentaria tanto porque não tinha nem tomado café, o preguiçoso. Então combinaram de largar as coisas em casa e comer algo num shopping e ir almoçar com os seus genitores no domingo. Chegaram, arriaram tudo. Ela ligou para a mãe, dizendo que iriam logo em seguida. E o maldito ainda teve a cara de pau de se opor.

E então ela jogou tudo na cara dele, com prazer, força e vontade. E então começou uma briga dos infernos. E então ele saiu de casa. E ela foi até a casa da mãe. E comeu bastante do cupim assado. E, como mãe é mãe, pediu uma grana emprestada. E, depois da sobremesa, foi até o shopping, entrou na agencia e comprou uma passagem para a Finlândia.

Chegou uma noite antes do casamento, umas onze no horário de lá. No dia seguinte, acordou mais ou menos onze horas, porque não conseguiu dormir direito no vôo. A noiva já estava se preparando no centro da cidade. Ficou com as irmãs, das quais nem lembrava direito. Finalmente, à tarde, começou a se arrumar. No começo da noite, saíram todos rumo à Igreja.

A cerimônia foi basicamente como qualquer outra, só que em finlandês. Ao fim, cumprimentados os noivos, foram para festa.

A festa foi num lugar muito bacana, uma grande casa que lembrava um pequeno castelo, um restaurante dum amigo, parece. Tentou levar a amiga para sua mesa, mas a toda hora era interrompida por alguma tia, prima, amiga, colega de escritório, todo mundo o tempo todo, um saco. E parecia que nem se importava que tivesse viajado de tão longe, caramba. Continuou tentando, mas viu que não daria certo e desistiu. Acordou no dia seguinte, cansada da festa, lá pelas dez, mais ou menos no momento em que o avião da amiga partia. O dela saiu às duas da tarde.

De volta, foi trabalhar e já deu de cara com um cliente reclamando dum atraso na obra. Mas que culpa ela tinha se o Mestre de Obras não sabe ler uma planta direito? Fosse pouco, à noite um aluno perguntou se ela iria repor as aulas que faltara, o que nem precisava, era só eles lerem os capítulos certos do livro.

Chegou em casa, o suíno queria ainda fazer sexo, sempre, sempre essa merda, não importa quanto estivesse cansada, ainda mais depois de tantas horas de vôo e do dia infernal. Foi tomar banho e dormiu sem nem dar boa noite para o canalha.

Pela manhã, pensou em pedir o divórcio, mas era tanto trabalho, e custaria tanto com advogados e com certeza ele haveria de encontrar um modo de passá-la para trás.

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