A Morte de Craig Wilson – capítulo 4, parte 5 de 9

O sábado foi um dia ridículo. Só fiz ajudar a cortar a grama em volta do bloco. Fui pego numa armadilha. A avó do Rafael havia ameaçado plantar flores por todo lado, pois tudo estava muito feio. Era verdade. E ela decidira fazer isto exatamente naquele sábado. A notícia vazou e a única forma era mostrar que não precisava. Não lembro quem foi que teve a brilhante idéia, mas ela foi bem aceita por todos. E eis que nós, os vândalos, os marginais, os filhos preferidos do Demo, batemos à porta de cada um dos moradores para pedir ferramentas emprestadas para cortar e limpar a grama. Foi muito engraçado ver as desculpas dadas, tipo “queremos provar que somos bonzinhos”. Mas era isto ou o pior, ou seja, perder mais um pouco do nosso espaço. Bem, foi uma decisão democrática, só restava levar o plano adiante. E lá fomos nós, cortar, varrer, ensacar, catar, arrancar, enfim, dar um trato na grama. Acabou funcionando, pois a velha desistiu quando viu a grama cortada. É claro que ela esqueceu de descer e ver o resultado no ponto onde mais corríamos. Se visse, iria decidir plantar suas flores ali mesmo, pois era uma terra só, bem embaixo do pé de pêssego. O chato é que levou mesmo o dia todo. Claro, ninguém levou nada muito a sério, do contrário em duas ou três horas era coisa finda. Bem, não é exatamente verdade que levamos todo este tempo só para cortar a grama, que ingenuidade tem limite, eu sei. O fato é que aproveitamos para dar uma bagunçada na caixa de telefone, de modo que todo mundo ficou sem telefone o final de semana. Havia um motivo para isto. Um dos moradores tinha um sobrinho muito chato que de vez em quando aparecia por lá. Era demais tê-lo por perto, estragava qualquer coisa que pensássemos em fazer e era um dedo duro do cacete, o filho da puta. Simplesmente um terror. Misturava-se a nós sem que o convidássemos e mesmo duas surras seguidas não o fizeram desistir, ao contrário, só renderam sermões e mais escândalo para nosso currículo. Como não sabíamos localizar o telefone certo, o negócio foi zoar tudo, porque sabíamos que ele seria chamado naquele dia. Sem telefone, talvez não fosse chamado, essa era a idéia. Neste ponto, estávamos certos. Isto exigiu um certo tempo, porque não se podia simplesmente ficar meia hora puxando fios ali, não, era preciso fazer aos poucos, um por vez, abrir e fechar a caixa rápido, voltar ao que se estava fazendo. No final, foi um bom modo de se passar o tempo. Poderíamos fazer diferente, mas onde estavam os filantropos que não nos levaram livros até aquela lonjura? Ou esportes, etc? Por favor, não seja tão besta, nem melodramático, se você acha que esse tipo de coisa só acontece em filmes adolescentes idiotas, precisa reforçar sua memória e prestar mais atenção no que seus filhos fazem. Perguntar não ofende: onde estava sua filha sábado à noite? O que seu filhinho fez domingo à tarde? De mais a mais, o que se deveria fazer? Assistir televisão com sua pornografia dissimulada em programas de auditório? Desculpa aí perder a paciência assim, mas sinto que o tempo urge. A morte vem num trem bala eu preciso tacar fogo no circo antes que os palhaços saiam.

Veio o domingo, enfim, e passou numa carroça manca. Não vale a pena relembrar todo o ritual, apenas registrar que a igreja era grande, com muitas salas. É curiosa a forma da coisa toda, primeiro está todo mundo junto na sala principal, depois se dividem em faixas etárias e sexo, cada grupo em uma sala, depois volta todo mundo para a sala grande. Desta maneira nos vimos apenas no começo e no fim. Não foi tão ruim quanto pensei. Conversei muito com o Luis, bom, tanto quanto possível, claro. De fato, nada queria, exceto sair dali. Ela se mostrou muito receptiva, o que parece ser uma constante em certas pessoas, o que é sempre um perigo pois pode nos levar a pensar que elas estão dispostas a mais do que realmente estão, ou seja, provavelmente porra nenhuma. Voltei de ônibus e ela com uma família amiga. A sua própria não estava ali, o que me fez pensar que talvez não freqüentassem. Foi muito menos do que imaginei, para falar a verdade. Nada aconteceu, nem para ajudar, nem para atrapalhar. Pelo menos foi o que eu pensei. O resto do domingo foi chuvoso, nós fedelhos só fizemos ficar o dia todo no corredor de um dos blocos, tentando fazer uma história em quadrinhos, a qual não saiu porque ninguém sabia escrever ou desenhar o suficiente para conseguir pelo menos uma página.

Bom, enfim era segunda feira. Era dia de resolver ou pelos menos entender toda aquela merda da semana passada. Sim, é claro que não esqueci de nada no fim de semana, mas não se tem essa noção estúpida de urgência antes dos vinte e tantos anos. Encontramo-nos no pé da pista. O Sapo estava todo marcado do incidente de quinta feira. Nada sério, mas muitos arranhões que permaneceriam por dias e dias. De forma bem incomum, Moises estava tomado de um espírito prático e disse que deveríamos não falar nada, mas se não houvesse jeito o lance era dizer que estávamos ali jogando algo que alguém trouxera, alguém que não poderia ser encontrado facilmente, algum gazeteiro, que logo cansamos e fomos embora e ficaram só mais três ou quatro, entre eles o Monstrinho e o gêmeo. Pensamos no nome de alguém e concluímos que o melhor era o Santo Punk, um menino que se dizia punk, vivia carregando uma cruz invertida no pescoço, daí o Santo do seu nome. Também tinha bem mais cara de padre que de punk, mas isto perdoávamos por causa do uniforme e tudo o mais. Realmente, matava muitas aulas e era de outra sala. Um bom nome, assim nos pareceu. Mais ainda, ninguém falaria nada a quem quer que fosse sem os demais próximos para confirmar tudo. O pastorzinho continuou e disse que era importante estabelecermos que, até prova em contrário, o acontecido fora algo incomum, mas nada sobrenatural. E eu juro que ele usou exatamente essa palavra: estabelecermos. Por fim, não deveríamos nem fazer de conta que nada acontecera, nem perguntar demais. Éramos tão inocentes quanto todos os outros, o que era uma verdade inegável, exceto se havia mesmo algo de outro mundo envolvido, e por isso podíamos agir como tal. Ok, amém. O tempo haveria de nos trazer algumas respostas, disse ele. Foi ao dizer isto que percebi que ele fora definitivamente tragado para as trevas, era só uma questão de tempo transformar-se em um pregador inconveniente e estúpido. Seus olhos vidrados e seus lábios murmurando trechos bíblicos o denunciaram, mas ao que parece só eu dei conta da coisa. Na verdade, foi só sorte, eu estava atento e por isso reparei mais que os outros. Mas não dei muita bola na hora, nem liguei os fatos, nem nada realmente, apenas vi que ele estava como alguns outros fanáticos que conheci. Não me pareceu importante, por isso não dei bola. Soube dele no tempo da faculdade. Conheci um irmão bastardo, o qual me disse que o fim dele fora o que sempre se anunciara: tornou-se pastor. Fiquei desapontado, afinal todos que conhecera naquele colégio haviam se metido em caminhos impensados, mas enfim, nem tudo é fantástico nesta vida. Era um bom pastor, bastante sensato. Só exagerava mesmo quanto lhe pediam para tirar o demônio do corpo de alguém, o que ele raramente fazia, porque sempre conseguia convencer as pessoas a procurar o médico ou outro tipo de ajuda antes de partir para o extremo. Quando o fazia, porém, era capaz de ficar horas e horas gritando e correndo, algumas vezes levou dias. O meio irmão contou um caso de exorcismo de um rapaz que havia estuprado a própria irmã, o que só foi feito muitos meses de análise de caso depois, mas quando começou, a coisa fazia o filme parecer brincadeira do maternal. Levou três dias, sem comer, sem dormir, sem para de correr, gritar e pular, trocar socos, morder, puxar o cabelo, chutar, o caralho a quatro. No fim, o estuprador confessou ser possuído, pediu perdão a todos, foi à polícia entregar umas bocas de fumo e coisa e tal e alguns meses depois era pastor também. Na cadeia, onde foi estuprado também. Esta era sua vida. Depois da faculdade soube dele uma ou duas vezes, nada mudara, sempre a mesma vida. Morreu atropelado num domingo à noite voltando da igreja para casa.

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