A Morte de Craig Wilson – capítulo 4, parte 4 de 9

Um a um, todos foram entrando na sala da diretora e saindo com cara de velório. O ar ficava cada vez pior e as toneladas aumentavam. Era choro e raiva para todo lado e nós os alvos prontos para receber a saraivada de balas, porque, na cabeça deles, sabíamos de tudo, estávamos envolvidos em tudo, éramos responsáveis por tudo, especialmente pelo risco que corriam. Era simples, a diretora chamava um a um, dava um aperto, um sermão, ligava para os pais na frente do coitado, desligava, dava mais um sermão, perguntava sobre os dois, pressionava daqui, pressionava dali e terminava ameaçando de expulsão por conta de um fato hipotético, genérico o bastante para ser verdade, ainda que minimamente, ameaças do tipo “eu sei o que você fez ontem a noite”, fácil assim. Como todos tinham algo de errado para esconder, um boletim com assinatura falsa, uma cola, um trabalho comprado e por aí afora, então todos se assustavam e ficavam com raiva. Não há segredo. O bode expiatório não existe só para livrar a punição, muitas vezes é usado para livrar a própria culpa. Era o nosso caso ali.

Sapo e eu combinamos contar a mesma história, ninguém sabia nada de drogas, ninguém fazia nada errado. Se necessário, confessar algumas aulas matadas, só isso, nada mais. Claro, o essencial era demonstrar medo, muito medo. Na pior das hipóteses, dizer que ouviu falar que os gêmeos fumavam maconha no parque do lado do colégio e depois voltavam para dentro. Só isso e nada mais. Um belo plano.

O diabo dos bons planos é que raramente existem as ferramentas adequadas para sua execução. E dada a situação, Sapo perdeu o controle, teve um ataque nervoso e lá dentro começou a falar coisas sem sentido, a gritar, a chorar, a pedir para a mãe buscá-lo, que nunca mais iria pisar naquele colégio, que os gêmeos eram o demônio, que eles haviam matado o Monstrinho e mais uma série de coisas sem qualquer nexo. Levaram mais de meia hora para acalmar o coitado. Quando saiu da sala, teve um acesso de choro, olhou para mim, virou as costas e correu. Correu e pulou para a janela, ainda que esta estivesse fechada. Por sorte, a mesma era forte, feita de madeira. Foi patético, bateu e voltou, estatelando-se no chão. O coitado só fez quebrar vidros e se cortar todo. Foi o suficiente, porém, para a diretora encerrar tudo por ali. Faltavam apenas dois alunos, eu entre eles e ela pensou que já havia colocado medo o suficiente em todo mundo. Estava certa neste último aspecto. Só que o principal ainda não havia se dado, ninguém explicara como é que o Monstrinho inconsciente poderia esfaquear o Satânico.

Após levarem o Sapo embora, peguei as malas na biblioteca e fui até o Iran e o Moisés. Abri as mochilas ali mesmo, rapidinho, necas dentro, pelo menos isso. Contei o acontecido. Iran caiu sentado. Moisés ergueu a cabeça, olhando para o céu e assim ficou por uns cinco minutos. Depois decidimos ir saber o que realmente acontecera. Pensamos e concluímos que eles só poderiam estar no Hospital das Clínicas ali perto. Claro que não foi fácil saber de alguma coisa, mas soubemos o principal, não havia nenhum morto na história. Aquele gay CDF havia sido impressionado, ouvido boatos, talvez tivesse visto os dois em uma maca ou coisa que o valha, o sangue, sabe lá Deus o que, mas o fato era que não havia ninguém morto. Saímos logo, antes que nos segurassem por ali, o que não era difícil, dado o estado dos dois.

Combinamos não aparecer no colégio no dia seguinte. Era mais fácil explicar uma gazeta que toda a história e quanto mais o tempo passasse, menos iriam querer mexer nela. Algo muito lógico, mesmo para fedelhos como nós.

Nos despedimos e fomos para casa. Claro, fiz todo o ritual no ponto de ônibus, tirando forças sei lá eu de onde. Não foi em vão. Fomos conversando normalmente, tonteiras sem sentido, coisas básicas sobre nossa vida comum, ou seja, quase porra nenhuma. Ao descermos, ela reiterou o convite. Claro que reafirmei que iria. Vontade não havia nenhuma, ainda mais com tudo que acontecera naquele dia. Mas outra alternativa eu não tinha, a simples idéia de estar com ela em algum lugar era motivo mais que suficiente para aceitar qualquer espécie de convite. Eu não tinha muita consciência, mas queria alguém para me livrar de tanta doideira. Por mais interessante que seja, viver perigosamente, ainda que aos olhos dos outros nenhum perigo exista, não é muito fácil. Vá lá que fosse tudo coisa de moleque, mas ainda assim, nada era normal, isso é que é. Bem, talvez no fundo, nada disto fosse certo ou tivesse influído seriamente. O que me veio à mente naquele momento foi que eu estaria lá, o que era o bastante para mim. Vá entender. Já era quinta, era só passar o sábado e ir. Bom, isto implicava em acordar cedo, mas até aí não era exatamente uma novidade, mesmo para um domingo. O pior mesmo era perder o jogo de domingo de manhã, justo naquele domingo, em que estava valendo um jogo de camisas contra o time das casas e ia ser um saco agüentar a cambada depois. Mais confusão, puta merda.

Sexta fui deixar o tempo passar dentro de ônibus nunca dantes tomados. Um passatempo particularmente interessante é tomar um ônibus e voltar ao ponto de partida. É possível fazê-lo em certas cidades, em que as linhas não têm um ponto final, mas circulam direto. Também é possível nas cidades em que há diversos terminais nos bairros, porque daí se vai saltando de um ônibus a outra. Fiquei a tarde toda conhecendo a periferia. Um jeito bem covarde de não encontrar ninguém que lembre ou signifique problemas, mas funciona.

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