A Morte de Craig Wilson – capítulo 4, parte 3 de 9

Passados alguns minutos, o Sapo chutou meus livros longe. Aquilo foi espantoso, ele nunca tomara a iniciativa de nada, nada, absolutamente nada. Era uma mão na roda, com ele não tinha tempo ruim, mas nunca fazia nada sozinho. Olhei para o livro, pensei em ir pegá-lo. Não fui. Continuei olhando-o. O Sapo buscou-o Sentou do meu lado. Perguntou sobre os outros. Naquele estado, com aquelas marcas, olhos roxos, dentadas, arranhões, sujos de sangue e vômito, se aparecessem só iriam foder ainda mais as coisas. Porém, se não o fizessem também se complicariam, especialmente Iran, péssimo aluno, faltoso, gazeteiro e tudo o mais. Levantei e abordei James, muito calmamente. Óculos quadrados, cabelo loiro escorrido e cortado em formato de tigela, magérrimo, queixudo, tinha mesmo cara de mordomo, um legítimo CDF que nunca fez questão de desmentir, era gay, o que poucos sabiam, não só gay como transava com o próprio pai, que por sua vez saía com o marido da diretora, que transava com a mãe, fechando o círculo. Sobre ele ser gay eu já sabia quase desde o dia em que o vi, o resto soube depois que saí do colégio, por acaso, como sempre se descobrem estas coisas. Contou-me que o Monstrinho fora encontrado lá onde o deixei, ele e o gêmeo, o qual fora esfaqueado e estava morto. Já o pobre Hermenejildo com jota estava com os pulsos cortados. Mas que porra era aquela? Como é que um menino desmaiado consegue esfaquear um louco muito maior que tá com a faca na mão? Vá tomar no cu! Disse ainda que ambos foram levados ao hospital. No caminho acharam um bilhete no bolso da jaqueta jeans do Satânico, cobrando-o de uma quantia incrível, informando ainda que a droga estava pronta para ser distribuída, o dinheiro deveria ser entregue ao Monstrinho, que diria com quem poderia pegar a droga. Com o outro encontraram dois baseados. E na bolsa do Monstrinho tinha mesmo droga, conferiram, de fato, a própria diretora. Perguntei como estavam, só para não sair correndo para as bolsas, ali ao lado do inocente batráquio. Um morreu, ué, respondeu, foram quinze facadas no corpo, só pode estar morto. Do suicida nada se sabia.

Acenei com a cabeça. Afastei-me ansioso, sentindo ainda as toneladas nos ombros. Sentei-me e pedi ao Sapo que desse um sumiço nas bolsas porque se conseguiram colocar na dele, então também poderia ter colocado nas nossas e eu é que não ia abrir nada ali. Claro que isto era coisa ridícula para se dizer, pois qualquer um poderia dizer que chegamos com as mesmas ali e quando fossem encontradas daria na mesma porque todo mundo diria que nos viu com as tais. Mas o segredo era esse: e nós lá seríamos tão burros assim? O Sapo fez a coisa do modo mais simples: levantou, foi até o fim do corredor, subiu as escadas até o outro andar, entrou na biblioteca e deixou-as no escaninho, pegou a senha de madeira com a moça e voltou para nós. Creio que a partir dali ele se tornou uma pessoa mais desenvolta. Na verdade, tornou-se um grande estelionatário. Só que aprendeu a dar golpes não tanto com a gente, mas com uma namorada sua. Eles namoraram alguns anos, isto bem depois do colégio, e se gostaram bastante. O duro é que ele era dado a escapadelas. Ela o perdoou muitas vezes. Só que um dia brigaram por qualquer outra coisa e ele deu-lhe uma surra. No dia seguinte a isto, ela foi até sua casa, pediu desculpas, coisa e tal. Dormiu ali. Pela manhã, ela pegou seu cartão de crédito, de dentro de sua carteira, foi até uma loja e gastou todo o limite. Usando de seus dons naturais e um telefone, ela fez parecer que estava comprando tudo com autorização do noivo. Estimulou a ganância dos vendedores e aproveitou-se da burrice dos funcionários do caixa. Voltou para casa, devolveu o cartão, saiu e sumiu no mundo. Nunca mais ele soube dela. Dias depois a fatura chegou em sua casa. Quem me contou isto foi um ex-funcionário, que fez uns serviços com o batráquio. Contou-me ainda que ela fez isto porque na verdade apanhara por ter dito a ele que precisava arrumar um emprego de verdade ao invés de viver de muamba e picaretagens e toda essa conversa de trabalho honesto, coisa e tal. Bêbado, perdeu a cabeça, ainda mais que suspeitava que era corno, o que era verdade, soltou o braço com gosto. Depois, por não sei que raio divino, virou um grande empresário, honesto.

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