A Morte de Craig Wilson – capítulo 3, parte 4 de 5

Fui embora pela grama, passando rápido por trás do apartamento dela para que não me vissem, sabia que seus pais não gostavam que ela mantivesse contato com muitas pessoas por ali, não havia dúvida de que nossa fama já chegara até aquele canto. Não sabiam do seu namoro, que durou pouco, que nem era namoro, simplesmente estiveram juntos uns dias, porque ele tinha lá um jeito de galã, mas daqueles mexicanos, que era o que mais revoltava, mas enfim, gosto é gosto e para o momento não nos importamos com muitos detalhes. Não havia formulado um pensamento em termos de hipocrisia, mas fora isto claramente o que acontecera ali, quem quiser dourar a pílula, fique à vontade, dentro tem a mesma merda. Eu pensava que tudo fora uma jogada das duas, que se aproveitaram da situação. Isto era claro. Quando deixei o pensamento fluir me veio a idéia de que ela poderia ser a responsável por aquilo. Claro que esta idéia me animou sobremaneira. Concluí, porém depois de pensar bastante, que não, que quando muito pedira às duas para fazer o convite, mas só para me levar à igreja mesmo, nada mais. Ela não teria como imaginar aquilo tudo, pensei. Na época eu ainda não sabia que mulheres já nascem sabendo este tipo de coisa. Não que ela tivesse participado ativamente da elaboração do plano, porque isto não ocorreu realmente, mas sem dúvida poderia tê-lo feito, porque o talento necessário já o tinha de nascença. Sem esquecer do fato de que toda mulher é bruxa, então pode ser que elas tenham combinado tudo num segundo, meio que telepaticamente ou seja lá como for que as bruxas fazem essas coisas.

Nisto eu já estava há quatro anos morando ali e já se fazia dois da suposta morte do Astronauta, meu terceiro ano naquele colégio. Já de há muito não havia mais filas do leite, nem joguinhos e o último racionamento sério fora um ano antes. Apareceram, então, as mãos vermelhas nos muros. Eu falei que foi mais ou menos por aí que começou a fodeção geral.

Pela manhã fui procurar o Luis. Era verdade. Sua mãe começara a freqüentar aquela igreja e decidira, à revelia, que toda família seria batizada. Fora pego de surpresa e tava fodido de raiva.

Ele não tinha nenhum interesse sério nela, exceto que a achava puta gostosa, como todos. Ela se tornara foco de nossas atenções, mas nada sério, só interessava saber quem era. Todos faziam um comentário ou outro sobre ela, em termos bem juvenis e relativamente chulos, mas com o tempo se instaurou um certo pudor sobre isto, daí em diante só se brincava sobre esdrúxulas declarações de amor: a beleza é mesmo um troço do capeta, faz cada uma. Ninguém tinha interesse mesmo, um ou outro até talvez sonhasse, mas realmente não havia ninguém com interesse. Quase ninguém. Já que é pra sonhar, vamos sonhar alto, caralho.

À tarde, mais uma rodada do jogo do copo. O Monstrinho não foi. Não prestei atenção em aula alguma. Fiquei o dia inteiro pensando se ela sabia ou não que as amigas fariam o convite naqueles termos. Ingenuidade é sempre um perigo. Pegamos o mesmo ônibus no fim da tarde. Conversamos a viagem toda e nos despedimos na entrada de seu bloco. Não fui embora pela grama, dei a volta mesmo, porque eu estava me sentindo um rato na ratoeira e sem ninguém em casa para me matar de vez.

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