A Morte de Craig Wilson – capítulo 3, parte 3 de 5

Não sei que merda o Moisés foi fazer lá. Era muito, muito preto. Olhos claros, de uma cor indefinível, intermediária entre o cinza e o verde. Uma enorme cabeleira desgrenhada, castanha, escura, sei lá eu se da cor, do queimado do sol na moleira ou de sujeira mesmo. Um narigão bem africano. Orelhas miúdas. Mistérios da genética. Feio, feio, mas lazarento de feio, como a gente dizia: mais feio que bater na mãe por causa de mistura. Mais marcante que sua feiúra só mesmo sua fé, que não deixa de ser outro tipo de feiúra. Protestante, lia a bíblia o tempo todo, orava antes de qualquer coisa, comer, entrar, sair, provas, trabalhos, subir no ônibus, descer do ônibus, mijar, cagar, vomitar. Antes de vomitar eu não sei, mas depois tenho certeza porque eu vi. Sua casa não tinha televisão ou rádio. E não era tempo de computadores e celulares, se é que você consegue imaginar o que seja isso. Para evitar a contaminação com as coisas mundanas, dizia. Mesmo assim, seu comportamento era mais ou menos normal, jogava bola conosco e tudo o mais. Doente, vivia vomitando, com sangue algumas vezes. Na sala de aula, no corredor, na biblioteca e até na direção. Na piscina, nunca. O sagrado faz mesmo milagres. Desconfio que acreditava mesmo que espíritos seriam invocados, malignos no entender dele, e que desejava enfrentá-los e vence-los. Conversamos muito sobre a bíblia. Foi ele o primeiro a me dizer que nunca nenhum apóstolo escrevera uma linha sequer, exceto Paulo, ainda assim em péssimo grego. Primeiro e último protestante que tocou neste assunto. Não é importante quem escreveu, eles contaram a história de Cristo, porque o conheceram, e a sabedoria da palavra, seu efeito no coração dos homens, é a prova da divindade; disse-me. A palavra é divina, continuou ele, a interpretação é humana, como é humana a interpretação das palavras frutos da interpretação da palavra, por isso as falhas da doutrina são só provas de que falhos são os homens, mesmo assim, mesmo com as falhas a palavra divina salva as almas, por isso sei que quando puder entender de modo direto a palavra que vem da boca dele, quando vier a revelação, então não correrei mais nenhum risco diante do inimigo, afinal, se a doutrina falha já salva, a doutrina pura me tornará invencível, quanto mais perto dele, Glória, mais forte se fica, quanto mais forte se fica nesta vida, maior é a prova de que ele está por perto, cada obstáculo removido me prova que está perto, por isso creio e creio, nossa própria força é a prova que mantém a nossa fé, ele existe, por isso creio, mas ele não existe porque creio. Puta que pariu, um porra dum fedelho horrível na merda da escola disse isso. E nêgo formado leva a coisa ao pé da letra, desde o papo da costela até a abertura do mar vermelho e o dia em que a Terra parou e tudo o mais. Burrice tinha que ser crime mesmo. De certa forma, ele adiou, sem o saber, minha virada, o que me foi muito bom no final das contas, mas eu não cria que se pudesse chamar espíritos naquele jogo. Até ali.

Começamos a jogar corriqueiramente, porque era relativamente interessante. Todos os dias, meia hora, uma hora, conforme a disponibilidade. Nem sempre havia um gêmeo junto. Passado uns dias, acontecia de, por vezes, o copo dizer que alguém ali deveria voltar no dia seguinte, o que era chover no molhado, mas impressionava. É igual guitarrista supersônico, o cara não ta fazendo porra nenhuma, só subindo e descendo escala, mas mesmo assim impressiona e serve pra encher lingüiça. Não me lembro se isto se dava só com algum gêmeo presente. Em alguns dias estávamos viciados, nem sei exatamente porquê. Um dia o Sapo apareceu de braço quebrado. Esse aí tinha mesmo cara de sapo, por isso o apelido era justificável, até porque ninguém conseguia lembrar do seu nome, Ilmonér, com acento mesmo, o que, obviamente, era uma tremenda duma vantagem. Dois dias antes ele fora chamado pelo copo a estar ali no dia seguinte. Não foi, sabe-se lá por qual razão. Quebrou o braço em casa, porque a geladeira caiu-lhe em cima ao mudá-la de lugar com a mãe, numa dessas constantes mudanças de casa de pobre, que deve ser um modo de tentar disfarçar o cheiro da merda, mas no fim é como a mulherada: troca e troca o corte e cor de cabelo e no fim todo mundo só olha mesmo é pra bunda, ou seja, vira e mexe e continua casa de pobre. Foi aí que iniciamos um caminho sem volta. No mesmo dia em que ele apareceu de gesso, o Monstrinho recebeu o convite do copo. O camaradinha já vinha impressionado dia após dia, tava vidrado, cada vez mais assustado e cada vez mais louco pelo bagulho, verdadeira mulher de malandro. Aí pirou de vez.

Naquela noite graduei-me em hipocrisia, o que é fundamental porque esse é um dos pilares da civilização, se um homem quer ser um porra dum cidadão respeitável, tem de ser hipócrita, mas pra valer, carregar tanta, mas tanta hipocrisia que faça renderem seus bagos. O bom é que foi com uma mulher, uma das gostosas! E a mais gostosa! Que era um troço de linda e isso não tem nada a ver com a bosta da memória afetiva. Não mais pegava o ônibus no horário de sempre, junto com o pessoal. O ponto do busão ficava a um quilômetro, dez quadras, algo assim. Como era o sistema de ponto final, não podia pegá-lo onde descia, só mais à frente. Em função do meu horário irregular, aconteceu de nos encontrarmos vez ou outra ali no ponto, daí porque comecei a esperar um pouco mais. No começo, esperava pouco, depois comecei a ser mais tolerante. Um, dois, ás vezes cinco ônibus, o que dava mais de uma hora. Não é segredo que coincidências podem ser providenciadas. Às vezes mesmo que se saiba não estar diante de uma, a impressão mantém-se boa, como um truque de mágica. Ela estudava em um colégio em ponto mais central, de igual distância até ali, porém para outro lado. Saía da aula e pegava os irmãos menores na escola, por vezes levando-os a algum médico ou dentista. Começamos dizendo oi, falamos da fila, do cansaço, até que já íamos até o fim conversando, sem parar. Nesse dia, ao passarmos pelo portão de entrada, encontramos duas amigas suas. Já as tinha visto, eram mais velhas, visitavam-na vez ou outra e uma delas também era jeitosinha, com uns melões de primeira, grandes, mas do jeito certo, ou seja, duros. Pela primeira vez acompanhei-a até seu apartamento, bem, na verdade, até a entrada de seu bloco. Este era o último da fileira, uma abaixo da minha, mas cuja escada de ligação não atendia o meu bloco, que era o penúltimo da respectiva fileira. Do quarto podia ver as janelas do seu, a do quarto, a da cozinha, a pequena do banheiro. Caminhávamos lentamente. As três freqüentavam a mesma igreja. Tentaram me convencer a visitar e a freqüentar. As duas amigas deixaram bem claro que poderíamos ir juntos, eu e ela, aproveitando a carona ou tomando o mesmo ônibus. Estavam claramente se aproveitando da situação, estavam cafetinando a amiga para comprar minha alma. Falavam das várias atividades, viagens, acampamentos, festas. Perceberam meu interesse, apesar de eu nunca ter dito ou feito nada que pudesse dar a entender alguma malícia, que na verdade não existia. As duas não falaram sobre Deus ou fé, só deixaram claro que ir à igreja era uma oportunidade de estar com ela. Pensavam estar me enganando, elas eram hipócritas. Ainda não tinha nada contra religiões e igrejas, freqüentávamos antes de morar ali, cria vagamente na mística cristã, mas não me atraía simplesmente. Chegamos ao bloco dela, ia me despedir quando perguntaram se eu conhecia o Luis. Claro, fazia parte da nossa turma, estávamos sempre juntos. Disseram então que há pouco estavam na casa dele, ministrando um curso para a família. Ele iria no próximo domingo. Apelo à insegurança. Não pensei deste modo, mas percebi tratar-se de uma jogada, cristalino para mim, eu sabia o que era, estavam criando um falso adversário, por mais que fosse improvável, era uma possibilidade, o que elas diziam nitidamente era: se você não pegar essa bola, outro vai chutar pro gol. Os irmãos pediram para entrar logo. Disse que iria, desde que minha mãe não dissesse o contrário, uma tolice. Terminei dizendo que precisamos buscar a Deus enquanto é tempo e devemos aprender a palavra para não nos perdermos nas coisas do mundo. Vi a hipocrisia e a aceitei, abracei e me lambuzei porque é preciso fazer o serviço completo, porra. Pelos poderes legalmente a mim investidos, eu o declaro bacharel em hipocrisia. Depois virei PhD, mais, muito mais, na verdade. E isso deve ser o que há de melhor em mim.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: