A Morte de Craig Wilson – capítulo 3, parte 3 de 5

Pouca gente os chamava de satânicos, menos ainda na sua frente. Nunca o fiz. Nunca vi alguém conversar com algum deles sozinho, somente em turma. Eram uma fonte confiável de informações, sabiam tudo e tinham uma memória impressionante. Ganharam uma grana lascada vendendo o direito de vista a certas fotografias, o que só fez aumentar a sua fama de oniscientes. O caso era que uma aluna fora flagrada no vestiário do ginásio, num sábado à tarde. O homem correu com as roupas a tapar-lhe o rosto, o que deve ter sido engraçado. Era um professor. Primeiro eles divulgaram o nome do pobre, depois vieram as fotos. Foi armado. Ela e ele já se encontravam fora do colégio, o que não era e não é nada do outro mundo, se é que um dia foi mesmo. Às vezes ficavam ali mesmo, fora do horário. Não conheciam os BlueMoons. Se tem uma raça que é puta ingênua, é professor. Tudo que os sacanas fizeram foi convencer a lolitinha a permitir as fotos. Não foi difícil, porque estava magoada com ele e era atraente a idéia de ganhar dinheiro com o episódio que quase lhe custou a expulsão, o que só não ocorreu porque primeiro foi vista por um aluno e só na saída do ginásio por um inspetor, já devidamente vestida. Entre o flagra a o momento registrado nas fotos se passaram semanas, mas isto os gêmeos não informaram, de sorte que as fotos ficaram como do flagra mesmo e eu acho que de algum modo esses caras acabaram conhecendo o Michael Moore. É, ela não foi expulsa e ainda continuaram a meter dentro do vestiário, e vai saber se era o gosto do perigo ou a confiança na impunidade, corporativismo é um troço demoníaco mesmo. Ela só teve de dizer quando seria o encontro e em qual vestiário exatamente, o resto eles prepararam. Correu uma história de que ela não fora expulsa por causa da ligação dos irmãos com as forças ocultas. Pagava-se bem para ver as fotos, fosse em dinheiro, fosse em objetos quaisquer, fosse em favores. Cobravam o equivalente a um romance do Stephen King, o que não é exatamente pouco dentro de uma escola. Sei que até professores outros pagaram. A desgraça alheia é sempre um bom negócio. Não fosse assim, morreriam de fome os jornalistas, advogados e médicos.

Soube da armação por um deles mesmo, quando o reencontrei, cinco ou seis anos atrás. Tornou-se um grande traficante. Agora é dum do reis porque a qualidade de seu produto é insuperável. Sei porque eu mostrei como fazer. Tem problemas de distribuição, entre outros, por isso é que não toma conta de tudo por este lado do mundo. Mas eu vou te dizer, se você quer foder de vez com teu cérebro a ponto de nem saber e muito menos sentir a merda que virou tua vida, é dele que você tem que comprar, a doideira é tanta que um time de estivadores pode te comer o rabo duas semanas seguidas que você vai ajoelhar agradecendo a Deus por tua vida ser tão boa, quer dizer, ajoelharia porque em poucos dias o vício é tão forte que nem com o triplo da dose se tem um terço do prazer da primeira e só vai piorando, então em duas semanas tudo que você sente é a falta do bagulho e aí você mesmo se oferece para dar um mês inteiro por mais uma dose. Fodeu-se sem volta.

Um mês antes da tragédia no shopping os gêmeos nos apresentaram ao jogo do copo. Havia no colégio duas torres, na verdade duas grandes salas em uma espécie de quarto andar, ficavam na base do U, aquela parte onde ficava a administração. Para se chegar a elas subia-se dois lances de escada, que partiam do terceiro andar, uma em cada lado do prédio. Ao pé da porta é que foi colocado o tabuleiro. Eu, o Monstrinho, o Iran, o Moisés, um dos gêmeos e outros que não me lembro, todos lá para conhecer a novidade. Não sei como fomos convencidos àquilo, acho que foi só para ter mais alguma para fazer. Ou idiotice mesmo.

Colocá-se um copo de vidro no centro do tabuleiro, com a boca virada para baixo. Há uma variante que usa um pedaço de madeira em forma de seta. Os participantes colocam o indicador sobre o copo. Aguarda-se. O copo começa a se mover, após se fazer alguma pergunta. Claro, qualquer um pode conduzir o copo, não há dúvida. Só que com alguma experiência ou malícia se pode perceber quem é o condutor. Sempre há alguém mais experiente ou malicioso, porém, e pode se dar de não se perceber a fraude, o que dá uma certa graça à coisa. Tolices foram perguntadas até que se entendesse como funcionava a coisa. Rapidamente se descobriu como mover o copo, só que era difícil fazê-lo se outro alguém tivesse a mesma idéia. Daí era um jogo de paciência até o outro desistir, para então responder, letra por letra, à pergunta. Lá pelas tantas o gêmeo perguntou se haveria uma morte ali. Sim, em breve, professor. No dia seguinte soubemos que uma professora falecera.

Ele sabia disto porque era vizinho dela e já estava morta naquele dia mesmo. Só que o comunicado só se fez no dia seguinte. Um fato ignorado por todos até então, hoje só eu e o Moisés sabemos disto. Bom, só eu, então. Foi o bastante para dar crédito à idéia de que realmente havia uma ligação deles com o outro mundo. Coincidências inexplicáveis são sempre um atrativo para o misticismo e um tremendo dum jeito de arrancar até a merda do cu dos trouxas. De minha parte fiquei impressionado, porque era muita coincidência e coincidências sempre me atraíram porque quase nunca são coincidências. Quase nunca. Tinha alguma fé no misticismo cristão, mas não cria em espíritos e coisa e tal. Tentei entender, mas não havia como. Era coincidência, eu sabia, e concluí isto após pensar muito sobre o assunto, mas era uma coincidência impressionante.

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