A Morte de Craig Wilson – capítulo 2 – parte 7 de 8

Destas maneiras inusitadas, com todo este esforço é que acabei por conhecer muita gente e, principalmente, mostrar como fugir da santidade a quem precisasse. Naquele shopping conheci um cidadão muito curioso, um velhão que usava um diabo dum perfume forte e doce, inconfundível. Não sei se era de idade muito avançada ou se estava acabado mesmo, meio careca, cabelos brancos, fumava muito, vi-o acabar com dois maços em menos de duas horas, pequena barriga, camisas listradas sempre, calça social, elegante. Todo dia na hora do almoço ele começava a jogar fliperama e só parava pelas duas ou três, quase sempre o mesmo jogo. Um dia um amigo meu chegou a pedir que um pessoal saísse de frente da máquina porque já estava na hora de o seu dono aparecer. Eles não gostaram, então eu lancei um desafio, se aparecesse dali uns minutos alguém para jogar e conseguisse ficar mais de uma hora com uma única ficha, eles pagariam cincos fichas para nós, se não, nós pagaríamos. Por qualquer razão eles aceitaram. Claro que ele apareceu e ficou mais de duas horas jogando, com uma única ficha porque era um craque, ganhava créditos atrás de créditos e quase sempre largava a máquina com dois ou três para quem quisesse jogar. Nunca falava nada, só fumava e jogava. Um outro freqüentador era um sujeito com toda pinta de filho único de família podre de rica. Era mesmo, gastava dois ou três salários mínimos por dia, comprava tudo, comia tudo, ia ao cinema, onde fosse possível gastar dinheiro, lá estava ele. Tinha o pessoal do autorama, uma imitação de pista de corrida, com carrinhos motorizados correndo em trilhos, com um controle remoto, esse pessoal ficava ali o dia todo mexendo nos seus carrinhos e colocando-os na pista, não vi muitas corridas mesmo por lá, parece que o interessante era só fazer o carrinho correr mais rápido, não é tão louco se se pensa nos donos de carro que ficam o dia todo limpando-o, mesmo que o céu esteja mais preto que dente de pobre. Claro, havia as meninas que ficavam lá fazendo nada, absolutamente nada e nada não era um atrativo, a gente era esperto o suficiente para sacar que elas não eram pro nosso bico, no sentido homem-mulher da coisa, então, era como se nem existissem principalmente porque elas não faziam porra nenhuma, então como diabos a gente ia se interessar por elas? Fora gastar dinheiro, eu fazia de tudo um pouco.

Era praxe pular do ônibus, descer a rua até a parte de trás do shopping, caminho natural ao colégio, esticado em uma quadra simplesmente, e ficar por lá até a hora da aula, da primeira ou da segunda, conforme o que se encontrasse lá dentro. Foi assim que pela primeira vez vi o amor matar. Eu estava chegando na escada que levava direto ao segundo andar, ela veio correndo lá de dentro, ele veio atrás, ela atravessou a rua, ele tentou ir atrás, gritando seu nome, um enorme caminhão o jogou dezenas de metros longe. Aquela rua ligava o centro da cidade a uma rodovia, por isso havia um tráfego intenso de caminhões. Era um casal bem popular, freqüentador habitual de um dos motéis do colégio. Aconteceu que eles brigaram dentro do shopping, a ponto de os seguranças correrem para colocá-los para fora, mas antes disto ela saiu correndo, o que não lhe era normal, calma que sempre foi. Ele sim era impulsivo e por isso mesmo nem cogitou de olhar antes de atravessar. Só a vi anos à frente, tão linda quanto naquela época, o que não era pouco, provavelmente poderia ser modelo de sucesso, não fosse a tragédia. Foi aí que soube que o problema era que engravidara, a briga fora por causa disto, uma dentre infinitas, não que alguém cogitasse seriamente o aborto, mas vez ou outra um deles sugeria a idéia, como um desabafo, como se não agüentasse o rojão, merda demais para engolir. A saúde não ajudava naquele dia, por isso se descontrolou e saiu correndo. Ela abortou naturalmente na mesma noite. Ficou internada uns tempos. Sua recuperação foi lenta, mas, sem dúvida total, como pude constatar. Nos reencontramos em uma universidade no Ceará, onde ela foi palestrar e eu visitar uma indústria cliente. Nunca teve o perfil intelectual, mas tornou-se uma, respeitada na sua área. Não casou, nem nada parecido. Até aí é normal, certas coisas é melhor deixar enterradas. Não os conhecia muito bem, na verdade conversei algumas vezes com ele e menos ainda com ela, os via muito no grêmio. Eu mostrei o primeiro motel a eles e eu nem freqüentava aquela merda, caralho porque a gente tava só no ginásio, puta merda. Foi num dia em que nos encontramos na direção, eles estavam lá porque a inspetora os flagrara num beijo, eu porque perdera minhas calças no vestiário e não havia como assistir aula de camiseta e sunga, uma sunga horrível que se vendia no sub-solo, mas era a única permitida. Depois achei a calça no banheiro, afinal, era onde sempre esteve. Como eu estava um tanto atrasado não vi em que sala a turma entrara, por isso não podia arriscar deixar minhas coisas em qualquer uma, porque se fosse a errada, eu corria o risco de nunca mais vê-las. Daí usei o banheiro para me trocar, coloquei tudo dentro de meu saco, não a sunga, mas um saco preto que se usava a tiracolo naquela época, e levei-o comigo para a piscina, deixando-o na pequena arquibancada que havia ali. Apenas esqueci a calça, que ficara em cima do vazo sanitário. Durante a aula, perguntei aos colegas que sala eles usaram e levei minha mochila até lá. Na volta, também atrasado, agora por querer ficar mais tempo na piscina, dei falta da calça. Depois de muito corre, acabei obrigado a ir até a direção tentar resolver o problema. Por sorte me lembrei do ocorrido antes de chegar minha vez. Na ante-sala eles me perguntaram o que eu fazia ali vestido daquele jeito. Respondi que era uma tentativa de ser internado em algum hospício para conseguir um tanto de Gardenal. Não estava muito à vontade, mas para ser simpático perguntei o que eles faziam ali. Há uma lei contra o amor, responderam. Eu gargalhei. Há lugares não alcançados pela lei, disse. Aí é que lembrei da calça em cima do vaso. Para voltar à direção só tive de dizer à inspetora que iria retornar para mostrar que não precisava mais fazer uma revista nas mochilas dos demais alunos, o que era comum sempre que alguém reclamava de coisas sumidas. Mas isso faz tempo, muito tempo. Esperei-os ao lado da porta. Já consegui o meu Gardenal, disse quando saíram. Eles riam, porque afinal não era comum alguém do meu tamanho dizer aquelas coisas, na real não é comum qualquer que seja o tamanho da pessoa, gente normal é tudo uma bosta, se se está pensando em diversão. Na volta ao pátio, mostrei como chegar ao motelzinho a partir da direção, na saída entramos no pátio por um lugar não usual. Só que eles não tinham lá muita experiência em caminhos alternativos, coisa que dificultava o acesso simultâneo, até porque eles estudavam em andares diferentes. Então vieram me perguntar se havia alguma forma. Como isto exigia um aprendizado de semanas, resolvi mostrar as três filiais do BlueMoon. Com mais alternativas seus problemas diminuíram consideravelmente. Aquela mulher explicitamente bem sucedida não me lembrava em nada a moça um tanto boba, meio esnobe que conheci, com cheiro de perfume da moda, o que é sempre um indício de falta de personalidade, cheiro cada um tem o seu, puta merda. Só o que ligava uma à outra era a beleza de sempre. Ela lembrava de mim, mesmo porque era uma pessoa bem informada. Conversamos por horas e acabamos nos encontrando na universidade outras vezes no tempo em que ficamos ali, em nenhum momento o passado foi assunto. Não há dúvida de que este tipo de reencontro pode ser muito divertido, sempre há bons resultados vindos destas coincidências, especialmente para os difusores do hedonismo. Não foi o caso, nem remotamente. Talvez ela tenha ficado decepcionada, pode ter pensado que eu me tornara esnobe, mas foi só para preservar a integridade daqueles dias, um pudor que não tive em outras ocasiões. Pois é, a beleza tem esse estranho poder de nos manter ou nos trazer de volta para a linha. Há pessoas que nos são mais importantes que pensamos. Bem, perder oportunidades tem sido uma constante para mim, só que desta vez eu abri mão dela deliberadamente, o que dá na mesma na prática.

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