A Morte de Craig Wilson – capítulo 2 – parte 6 de 8

Matar aula dentro do colégio era realmente difícil. Mas possível. O que exigia esforço mesmo era fazê-lo fora dos muros, isso sim era foda. Mas necessário, muito necessário. Havia um shopping center ali perto, recém inaugurado, dado como um dos maiores do país e de fato o era naqueles dias, mesmo hoje é bem grande. E ao lado, exatamente ao lado, do outro lado da rua por onde se entrava, um parque público era extremamente convidativo. Ônibus para todo lado, ruas, avenidas, era possível sair do colégio, ir até em casa pegar uma bola e voltar, se não se morasse muito longe, o que, infelizmente, era o meu caso. Também era possível, matando duas aulas, ou uma e o intervalo, ir até um outro colégio do centro, conversar com alguém e retornar a tempo da aula, o que era freqüente, pois nos ônibus sempre há gente de vários colégios indo e voltando dos bairros. Se conhece muita gente no velho trajeto casa-escola-casa quando se mora em uma grande cidade. Eu conheci um ministro assim, na época ele era filho dum deputado estadual. E pegava busão. Mas isso faz tempo.

A merda era sair. Pior ainda entrar. Sorte que a ciência e a filosofia estimulam a criatividade. Hedonismo é uma filosofia, certo? Uma filosofia fatal… Foi preciso muita criatividade para conseguir o que consegui, mas eu já estava pós-doutor em abrir caminhos alternativos quando o grande feito, segundo os outros, aconteceu. Foi o que fez a diferença e tornou tudo possível. Onde o muro era baixo para se pular, era visível demais, qualquer um podia ver. Aconteceu até de funcionários do colégio saírem atrás de alunos, com êxito. Um boato, possivelmente verdadeiro, de que alguém vigiava do lado de fora também desestimulava pular o muro nestes lugares. Cria-se no boato porque várias vezes alunos foram chamados à direção explicar se haviam ou não pulado o muro. O que se indagava era porque não havia uma punição se se sabia do fato, o que deixava o boato na categoria de boato, mas ninguém se atrevia muito a demonstrar que não era um fato. Era uma meia verdade, descobri depois. Não se punia ninguém porque não havia como provar o ocorrido, o que não passava ainda pela nossa cabeça, pois não tínhamos como saber da ilegalidade da coisa. Era feito por amostragem, ocasionalmente. Era feito e se alguém pulasse mesmo o muro, era só aguardar o retorno, vigiar o aluno no processo de volta e chamá-lo da sua sala de aula para a direção. Não aconteceu muito, só o suficiente para manter a lenda viva. Correr atrás dos gazeteiros, porém, era tolerável e nenhum pai jamais reclamou, porque não fazia sentido algum, não naquele tempo.

Podia-se pular o muro do fundo, não fosse o problema de ser alto demais. A solução foi contar com a ajuda de quem estivesse na horta. Subia-se no muro, ali com pouco mais de meio metro pelo lado interno e quase quatro do lado de fora. Com o auxílio de alguém e de uma enxada podia-se descer bem o muro. Primeiro, pendurava-se no muro pelo lado de fora, depois segurava-se no cabo da enxada e depois o ajudante ia descendo até onde alcançasse. A partir daí era queda de mais ou menos um metro e meio, é bastante, mas se se pula em cima de uma mochila cheia de toalhas e roupas dá para suportar. Havia um ponto em que era possível pular o muro lateral, porque ali ninguém vigiava pelo simples fato de não ter onde ficar do outro lado da rua, já que havia uma casa de estudantes universitários em frente e eles não colaboravam muito com os dedo duros do colégio. Só que da parte de dentro qualquer um poderia ver, mesmo porque para se chegar ali era necessário pular um alambrado antes, o qual separava a parte da frente do colégio do resto, bem próximo ao portão de entrada. Pulando rapidamente, descendo pela grama e pulando o muro de um só pulo era possível, mas ainda que ninguém visse, corria-se o risco de não conseguir parar e rolar a descida íngreme e cair na calçada, o que não era nada agradável. Certo dia eu tinha que ir embora mais cedo, nem lembro porque, mas não poderia ficar na última aula. Por isso, ao invés de voltar para a sala após a educação física, fiquei lendo em cima de uma mureta, havia uma infinidade delas, da qual se podia ver o ponto chave. Aguardei uns momentos e vi que parecia tudo limpo, até porque em se tratando da última aula não fazia muito sentido o espião ficar lá fora, além disto eu não acreditava muito nesta história. Pois bem, desci correndo, corri até o alambrado, atravessei-o, não era preciso pular pois abríramos um pequeno buraco dias antes, tentei descer a grama sem rolar, mas caí e rolei, aproveitando o embalo pus as mãos no muro e virei, pensando que iria cair agachado do outro lado, o que aconteceria se não estivesse tão rápido. Virei tanto no muro que caí de costas, nos pés dela. Doeu. Ela deu um grito e eu olhei para cima, ela deu risada, ri também, levantei e fui correndo embora, disse oi antes. Não era boa idéia ficar ali ao lado do muro conversando, não com aquele uniforme indefectível, famoso em toda a cidade, a calça azul Royal, a camiseta branca com um emblema gigante no peito, um puta dum alvo, se quer saber, e aquela merda lembrava o símbolo da ONU, que acho que ninguém sabe que era antigamente o símbolo da escravidão, dizem que escolhido pelo Russel, que era, do jeito dele, um libertário fodido, mas como o rabo judeu dele tava a prêmio, acabou dizendo que era mais negócio ser vermelho do que ser morto e sem querer acabou ajudando a foder com o rabo dum monte de gente mais prá frente. Era um agasalho, mas não o agasalho que se usava normalmente nas outras escolas, a calça não tinha as três listras brancas, mas só uma fina saindo da costura, além de o tradicional ser azul marinho. Tive de comprar um desses, para repor o de um amigo, tempos depois, quando rasguei a calça invadindo o colégio dela. Ela fora ali esperar um amigo, na verdade um namorado calhorda que ela arrumara lá nas casas, o que ninguém sabia, só eu. Nesse tempo já sabíamos seu nome e que tinha dois irmãos, que sua mãe se casara outra vez e que morava, então, com o padrasto, que era muito chato e ninguém gostava dele.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: