A Morte de Craig Wilson – capítulo 2 – parte 4 de 8

A dificuldade era enorme, naquele tempo, naquele tempo. As salas ficavam em corredores, nos pavilhões, as pernas do U. Chegava-se a eles de duas formas. No ponto onde os pavilhões ligavam-se à parte da frente, a base do U, uma escada levava aos andares e ao sub-solo. Grande, larga, própria para muitas pessoas. Desta forma, subia-se a escada até o andar desejado e virava-se imediatamente à esquerda, ou direita conforme o pavilhão, para começar a percorrer o corredor, onde ficavam as salas, de ambos os lados. Salas com janelas para a rua e salas com janela para o pátio e para o outro pavilhão. A outra forma era vir da parte da frente do prédio, onde ficava a administração e direção. Área restrita. Um corredor com janelas para o muro do fundo, pátio abaixo, ligava os dois pavilhões. Sem nada, exceto no segundo andar, onde ficava a porta de entrada da biblioteca. Para ir da sala de aula à direção, chegava-se ao fim do corredor, onde estava a inspetora e, antes de pegar o corredor de ligação, virava-se à esquerda, ou à direita conforme o pavilhão, atravessando uma porta de ferro e vidro. Feito isto, à esquerda, ou direita, havia uma escada ligando os andares. Era usada só por alunos, pois professores e funcionários, e só eles, tinham à disposição dois elevadores. Dois elevadores em um prédio de três andares, apenas para professores e funcionários. À direita, ou esquerda, começava o corredor em que se situavam as salas da administração, os diversos departamentos. No segundo andar, o corredor era interrompido pela biblioteca, o final desta, mas bastava atravessá-la e continuar o caminho, pois as portas estavam sempre abertas. Se o aluno viesse dali para o corredor das salas, daria de frente com a inspetora, sempre a exigir a autorização da direção. Se o aluno viesse da escada vinda da lateral, por onde todos entravam normalmente, daria de frente com a inspetora, sempre a exigir a autorização da direção. Impossível ficar escondido no corredor de ligação, já que com dois passos a inspetora estaria na sua entrada. Um corredor vazio, com uma enorme parede branca de um lado e janelas de outro. Só no segundo andar havia a pequena entrada para a porta da biblioteca. As paredes eram tão grossas que existia um espaço entre o batente da porta e o corredor. Em todas as salas, em todo o prédio. Um pequeno vão, quase bastante para uma pessoa se esconder, se necessário. Inútil, por ser quase o bastante. Quase não resolve.

O aluno tinha liberdade para ficar no pátio. Com as aulas vagas e distância entre os vários setores não fazia sentido fiscalizar a presença de ninguém ali.

Provas, entregas de trabalhos, trabalhos em sala, testes orais, muitos motivos para não se faltar o dia todo. Muita coisa interessante do lado de fora da sala. Muita coisa boa fora dos muros. É por isto que eu digo, se der de frente com um muro, pule, mas para fora, porque para dentro é confiar demais na sorte.

Os gazeteiros pegos recebiam advertências. Três advertências, uma suspensão. Três suspensões, expulsão. Regras simples, vida simples, simples assim. Alguns atalhos levavam direto à suspensão ou à expulsão. As advertências eram pequenos pedaços de papel mimeografados ou xerocados, previamente preenchidos, com espaços para preencher um X em frente ao motivo da advertência. Deviam ser entregues na direção no dia seguinte, assinados pelos pais. Faltar o dia todo podia levar a direção a enviar uma carta aos pais. Falta a uma aula só poderia ser justificada com atrasos na entrada, o que não impedia um sermão na direção do mesmo modo, ou no deslocamento entre os setores, já que depois do professor ninguém entrava; ou ainda com a tese de que se estava terminando um trabalho, o que era verdade muitas vezes, mas também não impedia o sermão. E sermão atrás de sermão fazia soar os alarmes, nada bom. O problema, então, era faltar o dia todo.

Verdade seja dita. Era essencial faltar às aulas, fosse para ficar no pátio, fosse para sair do colégio. Se os alunos desejassem se aprofundar em matérias extra-curriculares só o poderiam fazer matando aula. Matérias como técnicas de fliperama, cinema grátis, arapongagem sexual, ou mesmo se os alunos pretendessem projetar uma usina nuclear só poderiam fazê-lo nas aulas vagas e no recreio. Uma hora e meia de aulas vagas e vinte minutos diários não são tempo suficiente para se projetar uma usina nuclear, menos ainda em um colégio no centro de uma grande cidade, com alunos de todos os bairros. O projeto de uma usina nuclear é algo sério demais para ser feito em poucos anos depois do fim da faculdade: é preciso começar cedo, já no ginásio. Ou até antes. É preciso também muitos cérebros e muito tempo. Não se pode desenvolver um projeto atômico durante a aula de português, até porque qualquer conversa entre alunos era motivo para uma advertência, lá na direção. Não é só ironia, efetivamente aprendi a manipular plutônio naquele colégio, ainda que só em teoria rudimentar, claro que não foi em sala de aula. Soube como usar orelhões sem fichas, construir um rádio-transmissor em várias freqüências, conseguir usar a linha telefônica do vizinho, fabricar binóculos e lunetas, produzir cristais em baldes, projetar curtos-circuitos no bairro, entre outras coisas úteis. Sou a prova viva de que matar aulas é fundamental para o crescimento intelectual.

O segredo de matar aulas estava em conhecer o horário das turmas do corredor. Daí podia-se tentar a chegada de uma delas de algum outro local, educação física, educação artística, aulas vagas, para entrar na sala certa. Entre as aulas aqueles que por qualquer motivo fossem entrar na próxima aula ficavam esperando na escada antes do primeiro andar, barrados pela inspetora. Ao sinal de fim de aula (uma baita cigarra), todos avançavam rumo a seus andares e salas. Não era simples, porque a inspetora vigiava bem quando acabavam as aulas e os professores trocavam de salas. De nada adiantaria misturar-se a uma turma que ficasse no começo do corredor, se a sala certa estivesse no final ou no meio. O que ajudava era a aglomeração de alunos nas portas durante os três ou quatros minutos que o professor levava para chegar. Era assim: o professor dava sua aula. Tocava o sinal. O professor saía da sala. Os alunos saíam atrás para respirar ou ir ao banheiro. Não saíam todos ao mesmo tempo, pois poderia forçar a direção a coibir qualquer saída. É preciso saber usar bem a liberdade que se tem. Uma ironia, claro. Ninguém tem liberdade, porque ninguém ganha ou adquire liberdade, se é livre e depois se abre mão desta liberdade, não se tem liberdade, assim como não se tem vida. Ou você tá vivo ou você tá morto, vida ninguém tem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: