A Morte de Craig Wilson – capítulo 2 – parte 3 de 8

Há muitas formas de se matar uma aula. Mesmo em um colégio repleto de regras e fiscais. Não é como enforcar um dia de serviço, que isto é muito simples, já que não há muitas regras neste sentido, nem esquemas de segurança. Uns cobres velhos, basicamente dinheiro de pinga e tá na mão um atestado médico que resolve tudo. É mais difícil chegar atrasado que faltar ao serviço, é um fato. Aulas são diferentes. As regras são outras, as sanções também. É um problema de opções. Se se perde o emprego, sempre resta o crime. Se se é obrigado a levar uma advertência para a mãe, não há opção alguma: você tá fodido, pelo menos até que surja o milagre da similaridade das assinaturas. Milagre que não resolve o problema de ser chamado à direção e lá encontrar os pais. Expulsão era algo muito grave à época, pois as escolas rejeitavam matricular alunos expulsos, mesmo as públicas. Parece que hoje nem existe mais expulsão. Melhor assim, mas isso só porque escola é escola e é melhor uma escola ruim que nenhuma escola, desde que seja escola, não um centro de treinamento de revolucionários ou um playground de traficantes. Mas naqueles dias havia e acontecia.

Eu não sei se o lugar ainda é como eu o conheci, mas acho que sim. Só quem esteve lá sabe porque era um trabalho do caralho matar aula. É aí que entra a criatividade.
A porra daquele colégio era gigante, um prédio enorme que ficava num terreno ainda maior. Tinha o formato de um U, um U quadrado, um U de forma, com três andares e um sub-solo. A entrada dos alunos era pela lateral direita. O terreno ocupava o espaço de muitas quadras. A frente possuía um jardim enorme, com árvores de dezenas de metros e mesmo uma fonte, com carpas vermelhas. Entre os muros laterais e o prédio propriamente dito havia um puta dum espaço. Entre os dois pavilhões também. Entre o prédio, a ponta do U, e o muro do fundo, mais ainda. O suficiente para um campo de futebol, uma pista de atletismo, dezenas de salas por andar de cada pavilhão e muita área livre. O prédio ficava em uma parte mais elevada do terreno, a qual era separa da outra por uma mureta, quer dizer, de um lado era uma mureta, mas do outro era um muro de mais de dois metros, com um ponto em que as alturas se igualavam, graças a uma escada, cuja função nunca entendi, só servia mesmo para se ficar ali a toa, lendo ou vendo os alunos fazendo educação física, já que a mureta providenciava sombra e encosto. Na lateral esquerda ficava o ginásio, em frente ao qual havia um vagão de trem, em cima de um trilho. Ali foi um espaço de artes por um tempo, depois foi fechado por falta de conservação.

O portão da entrada era fechado com folhas de metal. No meio havia uma porta. Passando por ele se entrava em um pequeno quadrado, cercado de muros altos, porque havia um desnível em relação ao prédio, de modo que se passava por um lance de escadas e aí se avistava uma outra grande escadaria, esta vista da rua pelo lado de fora, enquanto a outra ficava oculta pelo muro. O portão era totalmente aberto nos horários de entrada e saída, mas isso faz muito e muito tempo. Fora deles, só se entrava ou entrava pela porta incrustada, um portãozinho, como que se vê em portões eletrônicos. Claro que sempre estava fechada. Pelo menos para alunos. Esta entrada estava a trezentos ou mais metros da esquina, da frente do colégio.

A entrada pela frente era proibida. A grande porta de vidro da frente quase sempre se encontrava fechada. Havia outras duas, uma de cada lado. Por elas tinha-se acesso ao interior do prédio, ao setor administrativo, situado na base do U, e mesmo ao pátio. Era como um túnel por baixo do prédio, fechado com duas portas de vidro e ferro. Seria fácil entrar por ali, como sair, não fossem as duas inspetoras estrategicamente colocadas ali. Se o aluno viesse da rua, deveria subir, pela escada logo à esquerda, até a direção conseguir uma autorização. Só com ela era possível acessar o pátio e a sala de aula fora de horário. As salas ficavam em corredores cuja entrada era vigiada por outra inspetora. Não era permitido sair ou entrar entre as aulas, exceto para deslocamento a outras aulas, como educação física. A vaca do corredor tinha um horário de todas as turmas, de forma que sabia exatamente quando uma deveria sair dali para outro lugar ou voltar.

Uma resposta para A Morte de Craig Wilson – capítulo 2 – parte 3 de 8

  1. […] capítulo 1 (parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6,parte 7, parte 8), capítulo 2 ( parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6,parte 7, parte […]

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