A Morte de Craig Wilson – capítulo 2 – parte 1 de 8

(Anteriormente: capítulo 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6, parte 7, parte 8 )

Quando estava firme a idéia de que o Astronauta fora morto por seu pai, duas pessoas se mudaram para os conjuntos. Veio a primeira e dali duas semanas a outra. Tinham o mesmo nome e eram muito semelhantes entre si, apenas que uma era mais morena, de pele mais escura um tanto, um pouco mais magra também. Claro que eram duas gostosas, que merda de história seria essa se fossem dois dragões? Qual a chance dum merda dum moleque punheteiro se lembrar duma feiosa setenta anos depois? Só ela desse todo dia. E olhe lá.

Outra coisa que não se esquece é a primeira vez que se vê até onde o amor pode ir: até a morte. Eu vi isso exatamente nessa época, coisa do colégio, lugar muito diferente do que hoje se chama escola, colégio, o diabo que for. De lá para cá, muita coisa passou, fui ver a Copa na África, Olimpíada na China, Londres, nem lembro onde mais. Mas disso eu não esqueci, não.

Close nas gostosas, porra. Na verdade, não eram tão parecidas assim. É que à distância assim parecia. E só eram vistas à distância nos primeiros dias. Em lugares assim é comum que as pessoas pouco se falem, não é uma comunidade propriamente dita, é um amontoado de gente, pessoas que passam o dia bem longe dali, gente que nem se conhece, uma grande cidade qualquer em miniatura, exceto para a molecada que tem o dia livre para interagir e não conta ainda com os novecentos e setenta e oito milhões de tipos de preconceitos, regras e manias habituais de um ser humano normal. Nós ainda éramos agraciados com uma reserva toda especial. De modo explícito: ninguém nos gostava, é um fato. Daí porque não tínhamos o costume de estabelecer contato com quem quer que fosse, o que não era nada anormal em razão do ambiente. Adultos e adolescentes, bem, adolescentes com jeito de adolescentes, enfim, aqueles metidos a besta. Além disto, todos nós morávamos nos blocos servidos pelo primeiro estacionamento. Elas, nos servidos pelo de baixo. Havia ainda o problema do horário escolar. As escolas eram diferentes também. Enfim, não era fácil ver mas era fácil ver que não era para nosso bico e é fácil ver que elas não nos veriam facilmente jamais.

Eu estudava em um colégio público, onde, tal qual nas universidades públicas, lá estudavam alunos cujas famílias tinham toda condição de pagar uma escola particular. Quando já estava longe, em outra cidade, constatei a brutal diferença, mas mesmo antes, conversando com os amigos, eu percebia que ali era melhor que a média. Só não saberia dizer o quanto. Mas lembre que isso já faz muito tempo, hoje ou você gasta uma grana ou teu filho tá fodido.

O diabo da vida é que normalmente as oportunidades aparecem quando não temos a menor condição de perceber a importância das escolhas que se colocam à nossa frente. Ou do valor do que nos é oferecido. Pior, muitas vezes não temos os requisitos necessários. A melhor época para aprender música? A infância. O que nos falta? Disciplina. Coisas assim acontecem o tempo todo. Pode ser trágico ou cômico, invariavelmente é surreal. Quanto vale uma Ferrari? Se você é um assalariado, todos os dias alguém te oferece uma pela metade do preço. De que adianta? Qual a mulher mais bonita do mundo? Se você é um adolescente com a cara cheia de espinhas, barba rala ou nenhuma barba e voz falha, todos os dias alguém te apresenta uma. Quantos analfabetos não guardam em suas tralhas livros raros?

Por isso mesmo é que ao invés de conseguir bolsas para o exterior, o que era relativamente possível, tornei-me um mestre da gazeta. Não era fácil matar aulas naquele colégio, não mesmo, porque o regime era praticamente de internato e não esqueça que isso já faz tempo, mas era possível, mas, sem nenhum exagero, menos que conseguir uma bolsa para o exterior. As bolsas poderiam vir de instituições de intercâmbio ou de sorteios, cuja origem de recursos não me recordo e também não me interessa nem a ninguém, exceto se for de algum viado que queira me chupar, aí faz diferença, mas fora isso, que se foda. Sabe o que realmente garante um negócio? Não são as garantias, assinaturas, fianças, hipotecas, penhores, títulos, contratos, nada disto, o que de fato garante um negócio, qualquer negócio, é o interesse em se fazer mais negócios. Naqueles dias dizia-se ginásio e as aulas eram de várias disciplinas, português, matemática, tal e tal, cinco por dia, duração de cinqüenta minutos, salvo a primeira, de quarenta e cinco, mais o recreio ou intervalo, como queira ou como permita o senso de humor. O engraçado eram as aulas vagas, três ou quatro por semana. Hoje todas as aulas são vagas, sabe como é, a pedagogia moderna aceita ausências eventuais, mesmo que sejam constantes. Construtivismo o escambau, vão construir de novo as pregas de seus rabos, viadarada dos infernos.

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