O Reveillon da Veranista Geriátrica

 

Eu vou contar isso só prá vocês, certo? Fica entre a gente, tudo bem? Eu quero que vocês entendam que esse negócio de ano novo é uma merda e fiquem longe dessa bosta. Encham a cara quando bem entenderem, não precisa de dia especial para isso porra nenhuma.

Todo ano tem um ritual nessa merda de família, certo? Todo santo ano é a mesma bosta: vai todo mundo prá aquela mesma casa na mesma praia na mesma última semana de cada ano. É como a droga do especial do Roberto Carlos, é tiro e queda.

E lá fomos nós, tudo de novo, outra vez, novamente, novamente mais uma vez e tal. E fui aquilo de sempre: um bando de gente louca, bêbada e louca e bêbada, a primaiada, a sobrinhada, a tiarada, a sograiada, a cunhadaiada. E aí já viu, tinha corno prá todo lado e lado a lado com o corneante ou a corneante e todo mundo se abraçando e se beijando. O corno beijando a mulher que lhe meteu os chifres, que beijava o cara com que ela tacu chifre no marido, que beijava a esposa, que o chifrou com o marido da primeira e por aí afora. Eu vou te dizer, nêgo não tem vergonha na cara mesmo, fosse comigo, era porrada prá todo lado, eu já chegava sentando o porrete logo duma vez. Mas eu sou só uma velha coroca, é o que eles dizem. Mas presta atenção.

E vai todo mundo prá beira do mar fazer porra nenhuma. E eu lá sou mulher de ficar fazendo porra nenhuma? Se eu quisesse fazer porra nenhuma ficava em casa vendo a merda do Faustão. Então eu faço o que dá prá fazer numa situação dos infernos dessas: encho a cara e vou curtir o mar, largando as baleias prá trás. E olha que essa família ta cheia de baleia, quem não ta gorda tá encalhada.

E nos primeiros minutos da porra do novo ano eu entrei no mar. Tava vestida com um a droga dum vestido de cetim branco porque é outra parte do ritual de tortura de fim de ano. E curti o mar a valer, tava quentinho.

E curti e curti e curti até perder a noção de onde eu tava ou de que horas eram. Lá pela tantas vieram me agarrar, aos berros. Era um tio ou pai qualquer de vocês. Olha, se eles gritassem com suas tias e mães do jeito que gritam comigo, não eram tão cornos. E me arrastaram e acabaram com minha curtição. Perdi um brinco e ganhei uma conjuntivite.

Mas, meus filhos, eu vou te contar, a merda tava só começando. Sempre fica pior, sempre, todo ano, todo santo ano, pode apostar seu rabo nisso.

A bosta do vestido ficou um pouco transparente da cintura pra baixo e daí fui obrigada a cortar todas as minhas fotos, um trabalhão da porra. E isso foi motivo para mais gritaria e caras feias da turma toda. Às vezes eu tenho vontade meter uma foto minha em tamanho natural na parede da sala. Pelada e cagando em pé. Puta que pariu, eles usam coisas que deixam ver muito mais. De dia. De dia! E vêm me atazanar por causa duma calcinha velha aparecendo debaixo do vestido.

E foi isso a merda do réveillon. Tem mais, agüenta que tem mais. Dia primeiro não conta, passou meio em branco. Tava com uma ressaca do caralho, tenho certeza que foi o próprio Satanás que mijou na minha cerveja. E o filho da puta do seu tio, ou do seu, eu sempre confundo quem é quem. E sem falar nos olhos inflamados, parecia que eu tinha levado uma porrada e eu só não digo que levei mesmo porque eu não lembro direito se foi sonho ou se foi verdade que a porca da minha nora, tua mãe me desceu a mão. Mas eu descubro e aí ela que durma de olhos abertos.

Mas tem o dia 2. O traste do meu marido, a filharada e todo o resto da cornaiada e até não sei que merda de parente de não sei quem que veio da Espanha, foram para outra praia. Não tinha lugar pra mim e eu fiquei só no apartamento da praia.

Com os olhos irritados, tomei o resto da vodca que ficou em cima da mesa e me deu na telha procurar uma droga de farmácia. E, claro, só tinha uma aberta na outra cidade, uns cinco quilômetros longe. E lá fui eu.

Cheguei na farmácia do velho Berenildo, o único que tem vergonha na cara e trabalha naquela cidade. Faz uns duzentos anos que a gente se conhece, todo ano ele cuida das minhas feridas de ano novo. Cheguei lá, ele me olhou por cima dos óculos de aro de tartaruga, foi lá pro fundo e voltou com um frasquinho de colírio nas mãos. Encostou no balcão, jogou prá mim e disse,:

– É Sete reais. Pinga quatro vezes por dia por três dias. Tira já essa lente e só bota de volta depois dos três dias.

Virou e foi sei lá eu onde. Larguei o dinheiro em cima do balcão e voltei para casa.

Mas é claro que nada é fácil. O caminho de volta foi debaixo duma merda duma chuva de arder o couro. Meti o meu lindo chapéu de palha, novinho em folha, dentro de um saco e vim que vim.

E isso me lembra uma vez que eu tava num raio dum cruzeiro prá…prá, porra, ah, que se foda, pros quintos dos infernos. Tava um vento do caralho, de envergar o mastro. E eu ficava lçá segurando um outro chapéu que eu tinha ganho do Tony Benett e vai tomar no cu quem não acredita nisso. Um marujo qualquer me vem e diz:

– A senhora me desculpe, mas, bom, viu, é que

– Ô meu filho, desse jeito a criança nasce de atravessado, põe prá fora logo.

– É que o vento está erguendo o seu vestido e a senhora está com as partes expostas.

– Se toca vai, isso aí tem mais de 80 anos, mas o chapéu foi presente do Tony Benett.

Bom, acabei chegando em casa dum jeito que dava até pra torcer. Pensei seriamente em me meter embaixo da secadora de roupas, mas eu tava com diarréia lascada que já tava quase escorrendo pelas pernas.

Mas tem mais, sempre tem. Eu cuidei da porra do chapéu, mas não do celular, que morreu afogado.Eu tentei ressuscitar, tipo uma massagem cardíaca de coisa eletrônica, com um secador de cabelos, mas teve jeito não.

Então fui ligar prá aquela cambada, avisar que eu tava sem celular e descobri que a merda do telefone fixo tava desligado por falta de pagamento. E eu lá ia saber um troço desses que jeito? Tava recebendo, como eu ia saber que não tava fazendo? Mas que povo irresponsável, puta merda.

Outro que morreu afogado foi o raio do talão de cheques. E eu precisava de dinheiro porque tinham me largado lá sem nem um osso prá roer, nem pão velho tinha.

Com uma paciência dos diabos, fui lá a enfrentar a fila de oito quilometros do caixa eletrônico. E o que é que eu descubro quando chega minha vez? Que eu não enxergava a porra dos botõezinhos. Depois da segunda mensagem de erro, pedi ajuda prum velho careca e narigudo, tão enrrugado que parecia que ele tinha trocado a cara de lugar com o saco. Só que o filho da puta era meio surdo e eu tinha que gritar com ele. E o povaréu lá atrás gritava:

– Não fala a senha prá ninguém é perigoso.

– Perigoso é passar fome. E por que em vez de ficar aí gritando não veio aqui me ajudar, caralho?

No fim, o velho conseguiu digitar tudo. E ficou todo mundo ali esperando o resultado. E veio: Senha Bloqueada. Peguei a bengala do velho e comecei a bater naquela máquina estúpida, mas o povo me segurou. Fui embora trocentamente emputecida.

Aí eu tava sem grana, sem telefone, sem ver nada. Eu tenho certeza que Deus me fez viver só prá contar essa porra toda prá vocês.

– Ô mãe, que é que você tá fazendo aí com os meninos? Deixa eles irem jogar videogame, é aniversário do Jubinha.

– Eu não sou tua mãe, se fosse já tinha te dado uma coça por chamar meu neto com um apelido de viado desse. Eu vou dormir que eu ganho mais. E feliz ano novo prá quem merece.

 ***

(thanx Nédier)

Uma resposta para O Reveillon da Veranista Geriátrica

  1. Atena disse:

    Com licença para sair um pouco do meu modo habitual (também detesto estas risadas, mas…)

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Muito bom, parabéns aos dois!

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