A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 6 de 8

 

A história começa mais no menos na época do sumiço do Astronauta.

Astronauta era um moleque que andava com a gente. Era mais novo e uns duzentos e cinqüenta por cento idiota, mas por qualquer motivo gostávamos dele. Tinha este apelido por dois motivos, um porque era de fato avoado, alienado, tonto mesmo. Outro era seu nome: Benerson Astrogildo Ferreira da Silva. De Astrogildo para Astronauta é um pulo. Seu pai era um dos muitos chatos que nos mandava parar de correr na grama. Era um bêbado, descia o sarrafo a valer na esposa e nos filhos, mesmo no de colo, o que era muito sussurrado e pouco falado. A polícia o prendeu uma vez, por causa de uma briga com a mulher. Briga no caso quer dizer uma saraivada de porradas com a tampa da panela de pressão. O Astronauta não era assim tão novo, mas a mãe o levava e buscava da escola, que ficava perto da cancha de areia. Havia a suspeita de que ela fizesse isto para evitar que o pai o matasse atropelado ao chegar do serviço. Pode ser que fosse só fofoca, mas não considero impossível, não pelo que sabia acontecer. Houve uma semana em que o beberrão exagerou e bateu em todo mundo todo dia. Como se não bastasse, ainda colocou fogo no apartamento. Dois dias depois disto, fomos chamar o Astronauta para buscar umas frutas. Batemos na porta e perguntamos por ele à sua mãe. Esta nada disse, só balançou a cabeça e fechou a porta. Como ela não ia muito com a nossa cara, como quase todo o condomínio, deixamos para lá. Dias depois é que soubemos a verdade. Ele havia sumido, sem mais nem menos. Como o pai também andava sumido por aqueles dias, o comentário era óbvio. Dois dias depois o pé de cana apareceu, todo engessado e enfaixado. Mas o Astronauta, não. E todos pensaram que o pai havia matado o filho. Ninguém sabia ao certo a razão daquele ódio paterno, mas corria uma história fantástica. Dizia-se que aquela era a segunda mulher do cidadão, irmã da primeira, a qual morrera no parto do Astronauta. Mais ainda, ele seria na verdade filho de um outro sujeito, amante da mãe. Pode ser só maldade de gente da periferia, mas de fato o moleque não se parecia nem com a mãe e nem com o pai, ele era gordo até não poder mais e os dois eram magros como etiopianos. Nunca soube se isto era ou não verdade, mas se pode chover sapos, então pode ser que coisas ruins também aconteçam, por mais fantásticas que sejam. Nunca mais o Astronauta apareceu.

 

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