A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 2 de 8

 

No tempo em que ainda não sabia da minha sorte em ser apenas pobre, naquele diabo daquela cidade fria e fodida de linda, pelo menos a mim assim parecia, embora não haja muita discussão quanto ao seu frio. Se é verdade que um homem é ligado à terra onde nasce, então posso entender porque a mulher tipicamente brasileira, ou estereotipicamente brasileira, pouco me atrai, embora atraia muito por ser mulher. Não creio nisto, penso que é só uma questão de estética. Aliás, não creio em quase nada do que leio, penso ou digo. E por que deveria? Se formos conversar só sobre o que levamos a sério, a noite fica muito curta para tanta bebida disponível.

Morava eu lá, este é o fato. Num pequeno conjunto habitacional – terrível expressão econômica a se colocar em uma história -, bem na periferia, separado do resto da cidade por alguns quilômetros de muito mato, verdadeira mata. Havia muitos amigos, ou em linguagem mais adulta, colegas e alguns amigos. Um amontoado de predinhos lazarentos de feios entremeados de belos espaços verdes, muitas árvores, pés de pêssego, pinheiros e nem lembro mais o que.

Fiquei ali coisa de cinco ou seis anos, dos quais só os últimos dois interessam por ora. Especialmente o último. Quando mudei de lá, já era outra pessoa, muito pior, muito menor, embora ainda não fosse o farrapo que sou agora e se é isso o que eu sou, coitados dos demais. Tinha ainda criatividade e ousadia. Tá certo que pouca gente nesse mundo algum dia conseguiu fazer algo proveitoso com isso, mas que eu tinha, lá isso eu tinha. Mas o mais marcante, penso, era a irreverência, que tão pouco me resta hoje, depois de tantas negociações e concessões.

Foram dias movimentados aqueles. Comecei a me interessar por política e filosofia ali, ainda que só para preencher o hiato entre uma bola e outra ou outra coisa qualquer. Recordo particularmente de duas coisas: uma mão vermelha nos muros e da janela que eu costumava pular para “fugir” de casa – na verdade um apartamento no térreo – para jogar bola ou qualquer outra coisa. Normalmente qualquer outra coisa.

 

Uma resposta para A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 2 de 8

  1. […] A Morte de Craig Wilson – capítulo 1 – parte 2 de 8 […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: