Prá dia ruim, noite de passados – parte 4 de 8

Depois de muitas batidinhas de pé, risinhos, e voltas em torno do comprimento do fio do aparelho, voltou à carga com sua hercúlea tarefa de se fazer mais atraente ainda.

 

Finalizada a missão, pôs-se a verificar com vagar o resultado. Ficou com a impressão de que não era o suficiente, que faltava algo, um toque qualquer de qualquer coisa que provocasse um tanto qualquer a mais de efeito. A amiga, porém, perguntava:

 

─ Meu Deus, vai se encontrar com o Príncipe da Dinamarca? Caralho, se você encontrar com o Brad Pitt, ele vai facinho pro terceiro casamento.

 

Dito isto, acabou se conformando que não daria mais tempo de recomeçar tudo. Despediu-se e saiu. Ao fechar da porta, a amiga saiu pisando duro em direção ao quarto, deixando o marido gélido de medo.

 

Pisou fundo rumo ao prédio do amiguinho, mas o tanque seco fez o motor engasgar e a obrigou a se desviar para um posto de gasolina. A frentista com cara de crente a olhou de soslaio e não lhe dirigiu uma palavra nos dois minutos que ficou em frente à bomba. Novamente Dancing Queen ecoou cidade afora, dificultando a tarefa de achar a nota certa na bolsa. Passou em frente ao edifício e voltou a pisar fundo. Chegando na tal boate, sacou suas últimas notas vivas para pagar o estacionamento, dali por diante só por conta do desconhecido limite do plástico.

 

Quarenta e tantos minutos de fila depois, entrou na boate e foi direto ao balcão pegar uma cerveja. O outro pegou algo destilado. Cochichavam sobre os homens disponíveis e mesmo sobre os em tese indisponíveis. Lugar diferente do habitual de ambos, menos glamouroso, menos descolado, mais sóbrio e sombrio, acharam vantagem o público ser um pouco mais velho.

 

─ Molecada dá um trabalho, né não? Perguntou ele.

 

Já fazia algum tempo que não freqüentava boates, só ia a bares nos últimos tempos, acompanhada de muitos amigos. Era um modo de se precaver, de se defender, de levar a sério o pai nosso quanto às tentações. Gostava muito, mas como sabia que não sabia se controlar, preferia evitar. Deu certo por muito tempo, mas naquela noite queria esquecer todo aquele dia maldito, toda aquela semana maldita, toda a vida maldita que o dia a dia impõe, no fundo era só outra criança, mas com conta a pagar, muitas contas. Na quinta cerveja, começou a ficar difícil se servir e decidiram dançar, permitindo que ele finalmente se jogasse. Um pouco mais comedida, enquanto dançava absorvia umas e outras aproximações, mais sutis que o de seu costume, mas algumas estranhamente interessantes. Quando percebeu, o outro já estava entretido com alguém. Olhou em volta e procurou pelos rapazes da manhã, mas não os via. Foi atrás de mais cerveja. Acabou se decidindo por algo mais forte, porque não tinha paciência para aquele trabalho todo.

 

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