Prá dia ruim, noite de passados – parte 2 de 8

Pegou um táxi até o escritório. Entrou e foi conversar com a estagiária. Contou o acontecido. Esta chamou o outro estagiário. Este chamou o terceiro estagiário, o do choque. E este soltou um gritinho. Não havendo mais como protelar, foi até a sala da amiga.

 

─ Lisa, escuta, eu fui lá na obra da dona Marísia e, tem umas coisas lá…

 

─ Desembucha.

 

─ Bom, na saída, eu não sei, sei lá, foi assim tão de repente, o telefone tocou, eu tinha que atender, era importante, era o Rodrigo da Carla do meu tio, eles vivem fazendo com a gente, tem que atender, então e…

 

─ Diz o nome do morto logo.

 

─ Não morreu ninguém.

 

─ Ainda, né?

 

─ Lisa! Deixa eu explicar antes…

 

─ Conte tudo em duas palavras ou menos. Agora. Anda, duma vez.

 

─ Bati o carro.

 

─ Puta que pariu. Bateu em quem?

 

─ Ninguém. Foi no muro. Nem amassou muito.

 

─ Deixa que eu decido se foi muito ou pouco. Vamos lá ver.

 

─ Não tem jeito.

 

─ Como não tem jeito?

 

─ É que a placa caiu e daí…

 

─ Cala a boca. Não diz mais nada. Nem quero saber. – Olhou a amiga duramente, ergueu os olhos, abriu a boca, apontou-lhe o dedo, bateu as palmas, pôs a mão na testa, olhou para baixo, voltou para sua mesa, sentou – Quando eu te ligar amanhã, você me leva o meu carro onde eu estiver em no máximo cinco minutos. Consertado. Consertado. Agora me deixa em paz.

 

Esperava uma explosão maior, muito maior. Aquela secura acabou ferindo-a fundo. Saiu correndo para chorar no banheiro, mas não deu tempo e abriu o berreiro antes. Logo vieram a lhe acudir e ninguém fez mais nada por quase todo o resto da tarde.

 

Por sorte, mais cedo, seu amiguinho ficou ainda mais recuperado ao ver tantos homens de branco e logo os dois estavam já falando de, bom, digamos, amenidades. Descobriu que dois deles iram numa boate essa noite e passaram seus telefones, ele de carona na lábia dela. Dito e feito, era fim da tarde quando recebeu a chamada confirmando a festa. Deu a notícia e correu para casa, adiantando o fim do expediente em mais de meia hora. O outro não tem um privilégio desses, embora tivesse ficado no serviço mesmo dispensado pela Bruxa da Casa de Vidro, como a chamavam.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: